A Bruma Assassina (The Fog) – Quimera de Aventuras

Saudações Rpgistas e fãs do terror clássico dos anos 80! “O medo do desconhecido é a emoção mais antiga e mais forte da humanidade“. Quando John Carpenter lançou A Bruma Assassina (The Fog) em 1980, ele não apenas corroborou essa máxima de H.P. Lovecraft, mas deu a ela uma densidade visual assustadora. Diferente do horror slasher cru que o próprio diretor havia popularizado anos antes em Halloween, Carpenter aqui aposta na atmosfera, no rastejar lento da angústia e na inevitabilidade do destino.

A obra é um conto de fogueira transformado em filme, uma narrativa sobre como o tempo não apaga os crimes da humanidade; ele apenas os oculta sob o verniz da civilização. Na Quimera dessa semana, vamos mergulhar nesta espessa névoa cinematográfica e descobrir como extrair seus horrores lovecraftianos e suas vinganças ancestrais para as nossas mesas de RPG.

A Bruma Assassina

Sinopse

A pacata e costeira cidade de Antonio Bay, na Califórnia, prepara-se para celebrar seu centenário. No entanto, o clima festivo é subitamente interrompido por uma série de eventos bizarros e pela chegada de uma névoa densa e antinatural que rola do mar em direção à terra. À medida que o fenômeno engolfa a cidade, segredos sombrios emergem: Antonio Bay não foi fundada sobre ideais de prosperidade, mas sobre a traição, o saque e o assassinato a sangue frio de marinheiros leprosos. Agora, exatos cem anos depois, os espíritos vingativos desses homens retornam envoltos na bruma, exigindo as vidas dos descendentes daqueles que os traíram.

Opinião Pessoal e Crítica

Se analisarmos A Bruma Assassina sob uma lente filosófica e sociológica, o filme se revela como uma poderosa alegoria sobre a formação das sociedades. Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau teorizaram sobre o Contrato Social — o acordo onde indivíduos cedem liberdades em troca de ordem e segurança. Porém, Carpenter nos lança uma pergunta incômoda: e quando esse contrato, a própria base da civilização, é firmado com tinta de sangue?

A fundação de Antonio Bay é o arquétipo do pecado original moderno. O filme dialoga diretamente com o conceito freudiano do “retorno do recalcado“: aquilo que é reprimido, escondido e ignorado (os leprosos assassinados) não desaparece. Fica latente no abismo do inconsciente coletivo até encontrar uma brecha para retornar de forma avassaladora e destrutiva. A bruma, portanto, não é apenas um fenômeno meteorológico; ela é o peso materializado da culpa histórica. Ela cega, desorienta e isola, exatamente como a negação da própria história costuma fazer com as sociedades.

No universo pop e geek, esse sincretismo narrativo é formidável. É impossível não traçar um paralelo imediato com a franquia de jogos Silent Hill, onde a névoa atua simultaneamente como barreira física e projeção psicológica dos pecados e traumas de seus habitantes. Da mesma forma, o horror punitivo que vem das águas ecoa fortemente a Vila dos Pescadores (Fishing Hamlet) da DLC de Bloodborne (The Old Hunters), onde os segredos profanos dos fundadores (os Byrgenwerth) amaldiçoaram gerações inteiras sob o peso do cosmos. Até mesmo a literatura lovecraftiana, como A Sombra de Innsmouth, respira nessa mesma atmosfera de cidades litorâneas apodrecidas por seus próprios segredos.

Carpenter nos entrega um terror inexorável, onde a catarse não vem pela derrota do mal, mas pela aceitação dolorosa de que há dívidas cármicas e históricas que, uma vez cobradas, precisam ser pagas.

A Quimera de Aventuras

A genialidade de A Bruma Assassina para o RPG reside em seu antagonista invisível e onipresente: a própria névoa. Ela isola o grupo, muda a geografia do local e oculta ameaças, gerando tensão constante. Abaixo, dividimos como você pode aplicar essa estrutura em diferentes temáticas nas suas sessões.

Fantasia Medieval (Ex: D&D 5e, Tormenta20, Pathfinder)

  • O Enredo: O grupo de aventureiros chega a uma cidade próspera às vésperas de um grande festival que celebra o fim de uma antiga guerra. Contudo, quando o sino do templo bate à meia-noite, uma neblina mágica e fria começa a descer das montanhas ou subir do lago.
  • O Twist: Os mortos-vivos (como Revenants ou Banshees) trazidos pela névoa não atacam qualquer um. Eles ignoram os viajantes e caçam especificamente os nobres da cidade.

  • A Abordagem: A força bruta aqui tem um limite. O grupo pode lutar contra as hordas por algum tempo, mas a bruma é infinita. Para vencer, precisarão invadir a cripta da cidade, descobrir o verdadeiro acordo sujo que fundou o local (um pacto demoníaco ou uma chacina de inocentes) e encontrar uma relíquia específica para ser devolvida ou destruída, apaziguando a fúria ancestral.

Investigação e Horror Pessoal (Ex: Call of Cthulhu, Ordem Paranormal)

  • O Enredo: Os investigadores são chamados para entender fenômenos climáticos bizarros ou apagões inexplicáveis em uma cidade costeira isolada. O cenário ideal começa focado em NPCs enlouquecendo, objetos eletrônicos falhando (como a rádio local do filme) e registros históricos sumindo da biblioteca municipal.

  • A Ameaça: A bruma é radioativa, mágica ou puramente paranormal. Entrar nela exige testes de Sanidade (ou Vigor) a cada turno. Figuras sombrias de marinheiros ou cultistas ancestrais desferem golpes letais antes de sumirem na neblina novamente.

  • A Abordagem: O combate direto é quase suicídio. A aventura vira um tenso jogo de gato e rato. Os jogadores devem correr entre refúgios (uma igreja, um farol, uma delegacia), gerenciando recursos parcos, enquanto montam o quebra-cabeça de um diário antigo para entender o que a entidade no centro da névoa realmente quer que lhe seja devolvido.


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Texto e capa: Eduardo Filhote.
Revisão: Raquel Naiane.

Amor no seu Mundo – Gênese Zero #68

Depois de explorarmos, em Itens Comuns e Mágicos, como pequenos objetos do cotidiano podem revelar muito sobre a cultura, os costumes e a tecnologia de um cenário, vale a pena direcionar nosso olhar para algo ainda mais presente na experiência humana: o amor. Afinal, por mais diferentes que sejam os mundos fantásticos, seus habitantes continuam criando vínculos, formando famílias, construindo comunidades e buscando conexões emocionais.

Muitos worldbuilders dedicam grande atenção a guerras, governos, religiões e sistemas mágicos. No entanto, frequentemente deixam de lado uma força que influencia todos esses elementos: os relacionamentos. O amor pode determinar alianças entre reinos, inspirar revoluções, alimentar rivalidades ancestrais ou transformar completamente a estrutura de uma sociedade.

Além disso, cada cultura desenvolve suas próprias formas de compreender afeto, compromisso, amizade, casamento e família. Portanto, pensar sobre o amor no seu mundo não significa apenas criar romances interessantes. Significa entender como as pessoas constroem laços e como esses laços influenciam a vida coletiva.

1. O Amor Como Valor Cultural

Antes de tudo, cada sociedade define o amor de maneira diferente.

Alguns povos valorizam a paixão intensa e espontânea. Outros consideram o amor uma escolha construída ao longo do tempo. Em determinadas culturas, o compromisso possui mais importância do que os sentimentos momentâneos.

Assim, compreender o que uma sociedade considera amor ajuda a definir costumes, expectativas e relações sociais.

2. Casamentos Como Alianças Sociais

Em muitos cenários, o casamento vai além do relacionamento entre duas pessoas.

Além disso, famílias, guildas, clãs e até nações podem utilizar uniões como ferramentas de cooperação. Um casamento pode encerrar uma guerra, consolidar uma rota comercial ou fortalecer uma linhagem mágica.

Consequentemente, o amor passa a dividir espaço com interesses políticos e econômicos.

3. Relacionamentos Influenciados pela Magia

Quando magia existe, ela inevitavelmente afeta a forma como as pessoas se relacionam.

Por exemplo, certos povos podem utilizar feitiços para compartilhar emoções, reviver memórias em conjunto ou fortalecer laços afetivos. Em contrapartida, algumas culturas podem proibir esse tipo de prática por considerá-la uma invasão da intimidade.

Dessa forma, a magia transforma não apenas batalhas, mas também a vida emocional.

4. Símbolos de Afeto Exclusivos

Cada cultura cria maneiras próprias de demonstrar carinho.

Enquanto alguns povos trocam flores, outros podem compartilhar sonhos, trocar fragmentos de memória ou oferecer pequenos objetos encantados. Em certas regiões, um simples gesto pode carregar mais significado do que longas declarações.

Assim, símbolos afetivos ajudam a diferenciar culturas e enriquecem o cenário.

5. O Amor e a Estrutura Familiar

Nem todas as sociedades organizam famílias da mesma maneira.

Algumas valorizam grandes núcleos familiares. Outras priorizam comunidades coletivas onde várias pessoas dividem responsabilidades. Existem ainda povos que consideram amizades profundas tão importantes quanto laços sanguíneos.

Portanto, ao desenvolver famílias, o worldbuilder também desenvolve a identidade social do mundo.

6. Relacionamentos Entre Espécies Diferentes

Em mundos habitados por diversas espécies inteligentes, o amor pode atravessar barreiras culturais e biológicas.

Um relacionamento entre um humano e uma criatura longeva, por exemplo, traz desafios únicos relacionados ao tempo de vida. Da mesma forma, diferenças culturais podem gerar conflitos, aprendizados e mudanças sociais.

Consequentemente, esses relacionamentos se tornam excelentes ferramentas narrativas.

7. O Amor Como Forma de Resistência

Além disso, o amor pode desafiar sistemas opressores.

Quando governos, religiões ou tradições tentam controlar relacionamentos, o simples ato de amar alguém pode se transformar em resistência. Em muitos cenários, histórias de amor servem como símbolos de liberdade e mudança.

Assim, vínculos afetivos frequentemente se tornam motores de transformação social.

8. Rituais de União e Compromisso

Cada cultura cria seus próprios rituais para celebrar relacionamentos.

Alguns casais podem trocar juramentos diante de divindades. Outros podem plantar árvores, compartilhar sangue mágico ou realizar jornadas simbólicas juntos.

Esses rituais não apenas fortalecem a imersão, mas também revelam valores culturais importantes.

9. O Amor na Arte e na Tradição

Canções, poemas, peças teatrais e histórias costumam refletir a forma como uma sociedade enxerga o amor.

Enquanto algumas culturas celebram romances épicos, outras valorizam histórias de companheirismo, lealdade ou sacrifício. Dessa maneira, a arte se torna um espelho dos ideais afetivos de cada povo.

Além disso, essas narrativas influenciam as expectativas das gerações futuras.

10. Quando o Amor Molda a História

Por fim, relacionamentos podem alterar o destino de civilizações inteiras.

Uma união improvável pode evitar uma guerra. Uma separação pode desencadear conflitos. Um amor proibido pode inspirar movimentos políticos ou religiosos.

Assim, aquilo que começa como uma escolha pessoal pode produzir consequências históricas profundas.

Conclusão

O amor representa uma das forças mais universais e transformadoras que existem. Por isso, ele merece atenção especial no worldbuilding.

Ao desenvolver formas de afeto, compromisso e relacionamento, o criador adiciona profundidade emocional ao cenário e torna suas culturas mais humanas, mesmo quando elas pertencem a espécies, mundos ou realidades completamente diferentes.

Além disso, relacionamentos ajudam a conectar grandes eventos a experiências pessoais. Guerras, revoluções, impérios e sistemas mágicos ganham significado quando afetam pessoas que amam, sofrem, sonham e criam vínculos.

No fim, talvez a melhor maneira de compreender uma civilização não seja observar seus exércitos, seus governantes ou suas riquezas, mas entender como seus habitantes escolhem amar. Afinal, os laços que unem indivíduos frequentemente revelam mais sobre uma sociedade do que qualquer tratado político ou registro histórico.

PARA MAIS CONTEUDO DO MESTRE BROTHER BLUE


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Microdecisões – Aprendiz de Mestre

Depois de explorarmos como Quando o Silêncio é Melhor, fica ainda mais fácil perceber que grandes campanhas não nascem apenas de eventos épicos, reviravoltas gigantescas ou cenas cinematográficas. Na verdade, muitas vezes, a diferença entre uma sessão comum e uma sessão memorável aparece em detalhes quase invisíveis. Pequenas pausas, mudanças sutis de tom, escolhas simples sobre quem fala primeiro ou até alguns segundos de demora antes de responder podem alterar completamente a energia da mesa.

Além disso, mestres experientes raramente controlam uma sessão apenas com grandes decisões narrativas. Eles moldam a experiência através de microdecisões constantes, quase intuitivas, que afetam ritmo, tensão, envolvimento e até o conforto emocional dos jogadores. E justamente por serem pequenas, essas escolhas costumam passar despercebidas, embora seu impacto seja enorme quando somadas.

Muita gente acredita que mestrar depende apenas de criatividade, improviso ou domínio das regras. Entretanto, conforme a experiência aumenta, fica claro que a condução emocional da mesa importa tanto quanto a história em si. A maneira como o mestre distribui atenção, responde a ideias ou administra o tempo entre cenas influencia diretamente o engajamento dos jogadores.

Nesse sentido, microdecisões funcionam como pequenas engrenagens invisíveis. Individualmente, elas parecem simples. Porém, juntas, constroem o ritmo da campanha, definem o clima emocional e ajudam a transformar sessões comuns em experiências marcantes.

Escolher quem fala primeiro muda o peso da cena

A ordem de fala altera completamente a percepção emocional de um momento. Quando o mestre escolhe começar por um jogador mais impulsivo durante uma discussão tensa, a cena tende a ganhar energia rapidamente. Por outro lado, iniciar por alguém mais reflexivo pode desacelerar o ritmo e aumentar a tensão silenciosa.

Além disso, variar conscientemente essa ordem impede que apenas os jogadores mais extrovertidos dominem a narrativa. Assim, todos passam a sentir que possuem espaço real dentro da mesa.

O tempo da resposta cria tensão ou conforto

A rapidez com que o mestre responde também comunica intenção. Uma resposta imediata transmite segurança e continuidade, enquanto alguns segundos de silêncio antes da reação podem gerar ansiedade e expectativa.

Por exemplo, quando um jogador pergunta se reconhece um símbolo estranho e o mestre demora propositalmente antes de responder “sim”, toda a mesa imediatamente entende que aquela informação possui importância.

Pequenos focos narrativos mudam o protagonismo

O simples ato de descrever mais detalhes sobre um personagem já altera a percepção do grupo sobre sua importância. Quando o mestre destaca a expressão cansada de um clérigo após uma batalha ou descreve o nervosismo de um ladrão durante uma conversa, ele direciona atenção emocional para aquela figura.

Dessa maneira, pequenas escolhas narrativas ajudam a equilibrar protagonismo sem precisar interromper o fluxo da sessão.

Interromper menos fortalece a criatividade

Muitos mestres corrigem ou respondem rápido demais. No entanto, permitir que os jogadores terminem raciocínios, conversem entre si ou desenvolvam ideias absurdas frequentemente gera momentos muito mais interessantes.

Além disso, quando a mesa percebe que possui espaço para experimentar, a criatividade cresce naturalmente. O grupo deixa de buscar “a resposta certa” e começa a criar soluções próprias.

A intensidade da voz altera o clima instantaneamente

Falar mais baixo durante cenas importantes costuma prender mais atenção do que aumentar o volume. Quando o mestre reduz a velocidade da fala ou diminui o tom de voz durante uma revelação, os jogadores automaticamente se aproximam emocionalmente da cena.

Esse tipo de microdecisão cria intimidade e tensão sem precisar de grandes descrições.

Mudar o foco rapidamente mantém o ritmo vivo

Sessões longas podem perder energia quando o mestre permanece tempo demais em uma única situação. Por isso, alternar pequenas cenas entre personagens ajuda a manter todos atentos.

Enquanto um guerreiro interroga um prisioneiro, por exemplo, o mestre pode cortar rapidamente para o mago analisando um artefato estranho. Esse movimento cria dinamismo e evita sensação de espera.

Validar ideias pequenas incentiva participação

Nem toda contribuição dos jogadores precisa mudar a campanha inteira para ter valor. Quando o mestre reage positivamente a detalhes simples, como um costume inventado por um personagem ou uma pequena descrição improvisada, ele incentiva participação criativa constante.

Com o tempo, a mesa inteira passa a colaborar mais naturalmente com a construção do mundo.

O momento de encerrar uma cena importa muito

Algumas cenas perdem força porque continuam além do necessário. Saber encerrar no momento certo mantém impacto emocional e evita desgaste. Depois de uma despedida marcante entre personagens, por exemplo, prolongar diálogos pode diminuir o peso da emoção.

Por outro lado, um corte bem feito deixa a cena ecoando na cabeça dos jogadores.

A distribuição de atenção define o engajamento

Mesmo sem perceber, muitos mestres oferecem mais atenção para determinados jogadores. Entretanto, pequenas decisões conscientes podem equilibrar isso. Fazer perguntas diretas para jogadores mais quietos ou criar oportunidades específicas para determinados personagens aumenta inclusão e participação.

Assim, a mesa inteira se sente parte ativa da narrativa.

Reagir às emoções dos jogadores transforma a sessão

Microdecisões emocionais talvez sejam as mais importantes. Quando o mestre percebe empolgação, medo ou tristeza genuína nos jogadores e ajusta o ritmo para explorar aquilo, a sessão ganha força imediata.

Se uma revelação provoca silêncio verdadeiro na mesa, por exemplo, acelerar para a próxima cena pode desperdiçar impacto. Nesse caso, deixar o momento respirar cria uma experiência muito mais memorável.

Conclusão

Mestrar bem não significa apenas controlar grandes histórias. Na prática, os melhores mestres moldam a experiência através de pequenas escolhas constantes, quase invisíveis. Cada pausa, mudança de tom, corte de cena ou distribuição de atenção influencia diretamente a forma como os jogadores vivem a campanha.

Além disso, microdecisões acumulam impacto ao longo do tempo. Um único detalhe pode parecer pequeno, mas dezenas deles transformam completamente o clima da mesa. E justamente por isso, aprender a perceber esses movimentos sutis faz tanta diferença na evolução de qualquer mestre.

No fim das contas, campanhas memoráveis raramente dependem apenas de dragões gigantes, guerras épicas ou plot twists absurdos. Muitas vezes, elas nascem de um silêncio bem colocado, de uma pausa no momento certo ou de uma simples escolha sobre quem fala primeiro.

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Trinkets: Darkest Dungeon adaptado para Oblívio RPG

Os Badulaques, ou em inglês “Trinkets”, são uma recompensa comum do jogo Darkest Dungeon, e hoje vamos trazer alguns deles adaptados para Oblívio RPG, da New Order Editora.

“Badulaques e bijuterias, pagos com sangue!”

~ Narradador do Darkest Dungeon

No começo do ano tivemos uma série de Artigos adaptando Darkest Dungeon para a sua mesa de Oblívio RPG, começamos com uma resenha do sistema, em seguida trouxemos fichas prontas de um grupo de heróis. E por fim, uma aventura adaptando a Enseada, onde os seus jogadores enfrentam a temida Sereia. Mas hoje vamos falar de recompensas para as Personas dos seus jogadores.

Os Badulaques

Eles são uma recompensa comum do jogo, possuindo diversos tipos diferentes de raridades e efeitos.

Você pode encontrá-los ao derrotar inimigos, completando missões e explorando masmorras.

E quanto maior seu grau de raridade, mais difícil é de encontrá-los, algumas, entretanto, são únicas dentro do jogo, podendo ser adquiridas somente ao derrotar um inimigo específico.

Para usá-las em Oblívio primeiro temos que entender um pouco mais sobre o funcionamento das regras de equipamentos do jogo.

Categorias

Todo tipo de equipamento é classificado em uma de duas categorias distintas:

  • Consumíveis: possui um número limitado de usos, como bombas e alimentos, e que só podem ser usados algumas vezes.
  • Duráveis: podem ser usados inúmeras vezes sem limitação, como armas e proteções, mas que podem acumular Estresse.

O Inventário

Representa o máximo de itens que cada Persona pode carregar, ou seja, cada item ocupa uma determinada quantidade de espaços no inventário, que varia de cada caso. O limite desses Espaços de Inventário de cada Persona é determinado pelo seguinte calculo: 5 + a sua Carne ou Força (à sua escolha).

Entretanto, um detalhe, existe uma divisão na forma como o inventário de cada Persona é ocupado que influencia diretamente em quanto de espaço é ocupado. Essa organização divide seus itens em:

  • Equipamentos Guardados: ficam dentro de suas bolsas/mochilas e ocupam Espaço de Inventário.
  • Equipamentos Carregados: são vestidos/empunhados nas Regiões do Corpo da persona, e portanto não ocupam Espaço de Inventário. Mas é importante lembrar que cada Persona pode Carregar somente um equipamento em cada uma das suas regiões de corpo, mediante Coesão Narrativa.

Estresse em itens

Pela regra geral, todo Equipamento Durável possui um valor de estresse, e sempre que você sofrer dano em uma parte de seu corpo, você pode optar por distribuir aquele estresse entre a parte do corpo arriscada e o equipamento carregado nela, o que pode fazer com que o equipamento eventualmente seja destruído.

Regras dos Badulaques

Apesar de serem um novo tipo de equipamento, todos os Badulaques são Equipamentos Duráveis, portanto, sujeitos a todas as regras dessa categoria de itens, além disso, todo badulaque fornece um ou mais efeitos passivos.

Tais efeitos somente funcionam enquanto a Persona estiver usando o badulaque como um Equipamento Carregado, e ela vai receber, obrigatoriamente todos os efeitos do item durante todo o tempo em que o estiver vestindo/empunhando, sejam eles benéficos ou não.

Badulaques são itens forjados com conhecimentos proibidos ou que se perderam através das eras, portanto, são itens que as Personas dos seus jogadores não conseguem fabricar. A única forma de obter um Badulaque é se aventurando.

Recompensando seus jogadores com Badulaques

Os badulaques existem em diversas raridades, algumas delas com mecânicas específicas para serem obtidas, mas neste artigo abordarei apenas as raridades mais simples: Genérico, Comum, Incomum, Raro, Muito Raro. E adaptei 6 Badulaques de cada uma delas para o sistema de Oblívio RPG.

Sempre que for recompensar seus jogadores com um Badulaque, role um dado na tabela a seguir para determinar se eles encontram um ou não, e qual foi a sua raridade. E, em seguida, role na tabela daquela raridade para ver qual foi o item encontrado.

Caso esteja recompensando a vitória contra um chefão, recomendo que role uma vez na tabela Sorteio de Raridade, e em adição, role uma vez na tabela de Badulaques Muito Raros, garantindo assim que o grupo receba, pelo menos, uma recompensa por ter sobrevivido ao enfrentar uma criatura tão poderosa.

Sorteio de Raridade

1d20

Resultado

1-5

Nenhum Badulaque encontrado

6-10

Badulaque Genérico

11-14

Badulaque Comum

15-17

Badulaque Incomum

18-19

Badulaque Raro

20

Badulaque Muito raro

Badulaques Genéricos

1d6

Badulaque Encontrado

1

Amuleto da Praga

2

Amuleto Sangrento

3

Amuleto do Movimento

4

Pedra da Saúde

5

Pedra Protetora

6

Pedra da Precisão
Amuleto da Praga

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você ganha +4 em todos os testes para evitar ou se recuperar da Mazela Náusea e -1 de Proteção.

Amuleto Sangrento

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você ganha +4 em todos os testes para evitar ou se recuperar da Mazela Ferida e -2 de Velocidade.

Amuleto do Movimento

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você ganha +4 em todos os testes para evitar ser movido de sua casa contra sua vontade e -2 de Velocidade.

Pedra da Saúde

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você soma o seu nível no seu Limite de Estresse e recebe -1 de Prontidão.

Pedra Protetora

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2 / Bônus de Proteção: +1.

Você recebe -1 de Velocidade.

Pedra da Precisão

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você recebe +2 em todos os testes da ação “Atacar”, e -1 de Prontidão.

Badulaques Comuns

1d6

Badulaque Encontrado

1

Anel do Arqueiro

2

Pedra do Dano

3

Braçadeira do Guerreiro

4

Guia de Sobrevivência

5

Amuleto Imprudente

6

Manto Cauteloso
Anel do Arqueiro

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você recebe +3 em todos os testes da ação “Atacar” que realizar com armas “Arremessável” e com armas “de projétil” e -1 de Velocidade.

Pedra do Dano

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você soma o seu nível no dano causado pela sua arma e recebe -2 de Proteção.

Braçadeira do Guerreiro

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 4.

Você recebe +2 em todos os testes da ação “Atacar” que realizar com armas de Alcance 2 ou menos.

Guia de Sobrevivência

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 3.

Você recebe +2 em testes de Mundo e Engenhosidade e -1 de Prontidão.

Amuleto Imprudente

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você recebe +5 em todos os testes da ação “Atacar” mas recebe -2 no seu Limite de Estresse.

Manto Cauteloso

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 3.

Você soma seu nível nos seus testes de Mundo e Rastro, mas recebe -5 de Velocidade na primeira Rodada do combate.

Badulaques Incomuns

1d6

Badulaque Encontrado

1

Amuleto do Cirurgião

2

Botas Pesadas

3

Livro da Fúria

4

Anel da Sede de Sangue

5

Cristal Calmante

6

Pedra do Vidente
Amuleto do Cirurgião

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Quando usar uma habilidade de cura, cada alvo recupera uma quantidade de PE adicional, igual à metade do seu atributo Mente ou Determinação à sua escolha.

Botas Pesadas

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 4 / Bônus de Proteção: +4.

Você ganha +4 em todos os testes para evitar ser movido de sua casa contra sua vontade, -2 de Velocidade e -1 em prontidão.

Livro da Fúria

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 1.

Você recebe -1 em testes para resistir e para se livrar das mazelas Ferida e Náusea. Se seu Estresse estiver acima da metade do seu Limite de Estresse você ganha um bônus nos seus testes da ação “Atacar” e nas rolagens de dano igual seu valor de Fôlego.

Anel da Sede de Sangue

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Ao invés do normal você soma tanto seu valor de Carne quanto de Determinação ao seu Limite de Estresse, mas esta com a mazela Fome.

Cristal Calmante

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Você recebe -1 de Prontidão. Quando um inimigo lhe causar Estresse com a ação “Atacar” ou com uma habilidade, reduza o valor total do estresse em 3 antes de distribuí-lo.

Pedra do Vidente

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 3.

Você recebe +3 nos seus testes e Mundo e Rastro, e -1 em Velocidade.

 

Badulaques Raros

1d6

Badulaque Encontrado

1

Manto Lunar

2

Coroa Solar

3

Anel do Atirador

4

Luvas do Brigão

5

Selo do Jejum

6

Amuleto da Recuperação
Manto Lunar

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Enquanto a Luz estiver com duração de 3 turnos restantes ou menor você recebe +3 de Proteção e +1 em todos os testes para resistir as habilidades de inimigos. Sempre que sofrer Estresse você sofre +1 ponto.

Coroa Solar

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Enquanto a duração da Luz for de 4 turnos ou mais você sofre -2 pontos de Estresse.

Anel do Atirador

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 2.

Você recebe -2 de Velocidade. Enquanto estiver na última casa você recebe +3 em testes da ação atacar e sua arma causa +1 dado de dano.

Luvas do Brigão

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 4 / Bônus de Proteção: +1.

Sua arma causa +1 dado de dano enquanto você estiver na primeira casa. Você tem -1 de Velocidade.

Selo do Jejum

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Você não precisa consumir alimentos, mas não causa dano. Você recebe +5 de Proteção.

Amuleto da Recuperação

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Sempre que você recuperar Pontos de Estresse você recupera +8 PE adicionais.

Badulaques Muito Raros

1d6

Badulaque Encontrado

1

Anel de Foco

2

Alho Fortificante

3

Selo do Martir

4

Anel da Robustez

5

Livro da Sanidade

6

Bracelete Lendário
Anel de Foco

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Você recebe -1 em Prontidão e -1 em Proteção, a sua primeira ação “Atacar” contra cada inimigo custa -1 PA, e sempre que atacar um inimigo pela primeira vez você pode fazer a ação “Analisar” de graça como parte do ataque.

Alho Fortificante

Espaços de Inventário: 2 / Limite de Estresse: 1.

Você ganha um bônus de +3 em testes para resistir ou se livrar de Mazelas.

Selo do Mártir

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Você aumenta o seu Limite de Estresse em +10. Enquanto faltar 10 PE ou menos para que você alcançar o valor máximo do seu Limite de Estresse você ganha um bônus de +5 em todos os testes e suas armas causam +2 dados de dano adicionais.

Anel da Robustez

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 3.

Você recebe +5 de proteção e aumenta em +10 o seu Limite de Estresse, mas causa apenas a metade do dano e sempre que ganhar Estresse ganha +2 pontos adicionais.

Livro da Sanidade

Espaços de Inventário: 3 / Limite de Estresse: 1

Você sofre -4 pontos de Estresse.

Bracelete Lendário

Espaços de Inventário: 1 / Limite de Estresse: 1.

Quando seu estresse atingir um valor igual maior que a metade do seu Limite de estresse, e toda vez que você receber estresse e estiver com um valor maior do que a metade do seu Limite de Estresse jogue 1d4. Quando você tirar um resultado 4 pela primeira vez, até o fim da cena você recebe um bônus de +2 em todos os testes, toda suas ações custam -1 PA, e suas armas causam +1 dado de dano.

Novas Habilidades Gerais

Com tantos itens novos, pode ser que os jogadores fiquem com a dúvida cruel de quais deles usar em suas Personas. Para tornar isso mais interessante, vamos adicionar a seguir algumas novas opções que expandem a lista de Habilidades Gerais e que interagem com os Badulaques.

Inventário organizado

Você soma metade do seu valor de Mente no seu espaço de inventário. Além disso, você pode escolher até duas partes do seu corpo para poderem comportar um Equipamento Carregado adicional, mantendo a Coerência Narrativa (não dá para calçar dois pares de botas ao mesmo tempo por exemplo).

Cargueiro

Você soma metade do seu valor de Força ou Carne, à sua escolha, no seu espaço de inventário. Além disso, você pode usar até 3 Equipamentos Carregados no seu Torso, mantendo a Coerência Narrativa.

Ferramenta Certa

Cada um dos seus braços podem ter +1 Equipamento Carregado adicional, mantendo a Coerência Narrativa. Além disso, sempre que seu grupo inicia uma cena de Combate, se vocês não foram pegos de surpresa, você pode trocar qualquer quantidade de Equipamentos Carregados que estejam no seu braço por outro na sua mochila, que também possa ser colocado no seu Braço.

Por hoje é só pessoal

Mais uma vez meus agradecimentos ao pessoa da Wiki do Darkest dungeon cujas informações me ajudaram bastante na produção do artigo.

Espero que vocês se divirtam, e aproveitem essas novas recompensas, que os jogadores se divirtam enfeitando suas Personas com novos e poderosos itens, e que os Narradores possam por ameaças mais pesadas nas mesas.

Nos vemos no próximo Buraco, sejam a Luz que afasta a Escuridão.


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Oblívio RPG + Darkest Dugeon: Trinkets

Texto e Capa: Maykon Martins.
Revisão: Raquel Naiane.

EPIC: A Saga da Sabedoria – Quimera de Aventuras

Neste Quimera de Aventuras, vamos falar de EPIC: The Musical – A Saga da Sabedoria. EPIC é um álbum conceitual baseado na historia da Odisseia de Homero. Mas hoje vamos falar do sétimo álbum desse musical conceitual e o segundo do segundo ato. Onde conhecemos Telêmaco, filho de Odisseu e suas dificuldades em Ítaca lidando com os pretendentes de sua mãe, além de termos mais informações do que aconteceu com Odisseu após o fim da Saga do Trovão.

Se você quiser ver as demais sagas que tem no Quimera de Aventuras, esse é o segundo álbum do Ato 2, que começa com a Saga do Trovão.

Sobre o Musical

Já falamos anteriormente que os criadores dividiram EPIC: The Musical em Atos e Sagas. Hoje, vamos falar sobre o álbum A Saga da Sabedoria. Esse álbum se destaca como um dos mais diferentes de EPIC, pois não acompanha Odisseu (que aparece em apenas uma música), mas sim seu filho Telêmaco e a deusa Atena.

Nossa Visão sobre o Musical (pode conter spoilers!)

EPIC é um musical muito gostoso de ouvir, tanto pela qualidade das músicas quanto pela qualidade da comunidade.

Quimera de Aventuras

Nessa seção, vamos dar ideias para mesas usando o musical como referência!

Cenários e Sistemas

Mas quero trazer luz a um sistema voltado para mitologia Grega, AGON da Editora Vanishting Point. Ele é pensado para simular histórias épicas da mitologia.

Especificamente para a Saga da Sabedoria. Você pode seguir com as recomendações da  Saga do Trovão, Saga do Submundo ou Saga do Oceano.

Partes das Aventuras baseadas nas músicas

O Arco do Telemaco (Legendary, Litte Wolf e We’ll be Fine)

As três primeiras músicas do álbum podem ser encaixados em uma pequena sessão ou conjunto de duas ou três sessões; Uma “side-quest” com o príncipe de Ítaca, Telêmaco, lidando com suas inseguranças e com os pretendentes de sua mãe.

Os personagens poderiam controlar outros personagens com alguma ligação com os protagonistas que estão na ilha que saíram. E tentam lidar com os problemas que foram causados com a demora do retorno dos protagonistas.

Love in Paradise

A música “Love in Paradise” serve tanto como introdução para a próxima música como uma atualização do que está acontecendo após os acontecimentos da Saga do Trovão. Os personagens ficam presos em uma ilha que tem como única moradora Calipso, uma deusa menor que, por sua vontade, prende os personagens em sua ilha “Paraíso”.

God Games

A maior música do álbum (e se eu não me engano, do álbum), God Games é uma série de embates de argumentos entre Atena e os deuses, tentando tirar Odisseu da ilha da Calipso.

Em sua mesa, você pode trocar o protagonismo de Atena pelos jogadores, como se ela conseguisse fazer os personagens lutarem por sua liberdade cumprindo tarefas dos deuses.


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Texto: Gustavo “AutoPeel” Estrela.
Revisão: Raquel Naiane.

Itens Comuns e Mágicos – Gênese Zero #67

Depois de explorarmos, em Etiqueta no seu Mundo, como gestos, postura e linguagem corporal revelam culturas inteiras sem a necessidade de longos discursos, avançaremos agora para outro detalhe aparentemente simples, mas extremamente poderoso no worldbuilding: os objetos do cotidiano.

Afinal, sociedades não vivem apenas de castelos, guerras ou grandes profecias. Elas também vivem de ferramentas, utensílios, roupas, móveis e pequenos itens usados diariamente.

Em muitos cenários de fantasia, magia costuma aparecer associada a artefatos lendários, espadas ancestrais ou grimórios proibidos. No entanto, quando a magia alcança os objetos comuns, o mundo ganha profundidade real. Talheres podem detectar veneno, portas podem reconhecer emoções e roupas podem reagir ao humor de quem as veste.

Assim, o fantástico deixa de existir apenas em momentos épicos e passa a habitar a rotina das pessoas.

Portanto, criar itens comuns com funções incomuns não apenas fortalece a imersão, mas também ajuda a mostrar como magia, tecnologia e cultura influenciam o cotidiano de forma prática e natural.

1. Talheres que Protegem Contra Venenos

Antes de tudo, comida representa um dos maiores riscos em sociedades marcadas por intrigas políticas.

Por isso, famílias nobres podem utilizar talheres encantados capazes de mudar de cor quando entram em contato com substâncias tóxicas.

Além disso, algumas culturas transformam esses utensílios em símbolos de status, já que apenas pessoas ricas conseguem pagar por esse tipo de proteção.

2. Portas que Sussurram Segredos

Em certas cidades antigas, portas acumulam fragmentos de memória ao longo dos anos.

Assim, quando alguém encosta o ouvido na madeira correta, consegue ouvir ecos de conversas passadas, promessas esquecidas ou traições abafadas pelo tempo.

Dessa forma, um simples corredor pode esconder informações valiosas.

3. Roupas que Reagem às Emoções

Em alguns reinos, tecidos encantados mudam de cor conforme o estado emocional do usuário.

Consequentemente, esconder sentimentos se torna extremamente difícil em ambientes formais.

Por outro lado, pessoas influentes podem contratar alfaiates arcanos especializados em bloquear essas reações, transformando o autocontrole em demonstração de poder.

4. Lanternas que Sentem Presenças

Nem toda iluminação serve apenas para afastar a escuridão.

Algumas lanternas mágicas aumentam ou diminuem de intensidade quando detectam criaturas sobrenaturais por perto.

Assim, viajantes experientes aprendem a observar a luz antes mesmo de olhar para a estrada.

5. Copos que Registram Conversas

Em sociedades marcadas por espionagem, tavernas podem usar copos encantados para armazenar fragmentos de diálogos importantes.

Depois, proprietários reproduzem essas conversas em salas privadas mediante pagamento.

Portanto, um simples objeto doméstico se transforma em ferramenta política e comercial.

6. Ferramentas que Aprendem Hábitos

Além disso, alguns itens desenvolvem padrões de comportamento conforme o uso contínuo.

Facas de cozinha podem “memorizar” os movimentos do dono, enquanto instrumentos musicais ajustam automaticamente a afinação ao estilo do músico.

Dessa maneira, objetos cotidianos criam vínculos quase afetivos com seus usuários.

7. Móveis com Funções Sociais

Em determinados lugares, móveis também participam da vida cultural.

Mesas podem alterar discretamente a altura dependendo da posição social dos convidados, enquanto cadeiras podem aquecer ou esfriar de acordo com o humor da conversa.

Assim, até ambientes domésticos ajudam a reforçar hierarquias e tensões sociais.

8. Objetos Religiosos do Cotidiano

Nem toda manifestação espiritual exige templos grandiosos.

Em algumas culturas, pequenos itens domésticos carregam bênçãos simples, como chaleiras que nunca deixam o chá esfriar ou velas que afastam pesadelos.

Dessa forma, a religião passa a integrar o cotidiano de maneira íntima e constante.

9. Itens que Criam Dependência

Com o passar do tempo, sociedades podem se tornar dependentes desses objetos encantados.

Pessoas acostumadas a relógios mágicos que organizam automaticamente horários ou roupas que regulam temperatura começam a perder habilidades básicas de adaptação.

Assim, o conforto mágico também pode gerar fragilidade cultural.

10. Objetos Comuns Como Memória Histórica

Por fim, itens cotidianos podem carregar marcas do passado.

Uma chaleira antiga pode pertencer à mesma família há séculos, enquanto uma fechadura pode ter sobrevivido à queda de três impérios.

Consequentemente, objetos aparentemente simples se tornam testemunhas silenciosas da história do mundo.

Conclusão

Itens comuns com funções incomuns enriquecem mundos de fantasia porque aproximam o extraordinário da vida cotidiana.

Enquanto grandes artefatos impressionam pela grandiosidade, pequenos objetos encantados tornam o cenário mais vivo, humano e memorável.

Ao trabalhar esses detalhes, o worldbuilder mostra como magia, cultura e tecnologia realmente afetam a sociedade. Um mundo deixa de parecer apenas um palco para aventuras e passa a funcionar como um lugar habitado por pessoas reais, com hábitos, necessidades e soluções próprias.

No fim, talvez a magia mais interessante não esteja escondida em relíquias lendárias, mas justamente naquilo que alguém segura todos os dias sem perceber o quanto aquele objeto revela sobre o mundo ao redor.

PARA MAIS CONTEUDO DO MESTRE BROTHER BLUE


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Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos – Quimera de Aventuras

Saudações Rpgistas e apreciadores do horror e do terror! Como vocês estão? Puxem uma cadeira, sirvam-se de um café forte (ou talvez algo com uma tonalidade verde fluorescente, se tiverem coragem) e vamos filosofar um pouco.

Como filósofo e profissional da área da saúde, a relação entre o corpo, a mente e o inevitável fim da vida é um tema que sempre me fascina. E quando misturamos isso com a minha veia irremediavelmente nerd, acabamos esbarrando em obras que desafiam a moralidade através do horror.

É por isso que, na nossa Quimera de Aventuras de hoje, decidi trazer um clássico absoluto do cinema gore e da ficção científica macabra: Re-Animator, a subversão sangrenta e genial de H.P. Lovecraft.

Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos

Quando nós, fãs do horror e ávidos jogadores de RPG, pensamos na obra de H.P. Lovecraft, a primeira imagem que nos assalta a mente é, quase invariavelmente, a do horror cósmico.

Pensamos no existencialismo niilista, no medo paralisante do incomensurável, em tentáculos ciclópicos e na nossa completa insignificância diante de deuses ancestrais adormecidos.

Porém, na minha leitura filosófica da bibliografia do autor, o conto Herbert West–Reanimator — e, de forma ainda mais brilhante, a adaptação cinematográfica de 1985 dirigida por Stuart Gordon — foge drasticamente dessa curva. A obra abandona o horror etéreo e psicológico para mergulhar de cabeça nas entranhas do splatterpunk e de um humor negro tão espesso quanto o sangue cenográfico espalhado pelo set.

Marco do Cinema

Como profissional da área da saúde e filósofo, eu costumo analisar o corpo humano como um repositório sagrado da nossa história e vivência; um todo integrado onde mente, emoção e matéria coexistem. Stuart Gordon, através do brilhante (e sociopata) Herbert West, subverte exatamente isso de forma grotesca.

A obra é um marco absoluto do cinema de horror da década de 80 porque, diferente da loucura passiva e introspectiva comum ao Mito de Cthulhu, Re-Animator é visceral, físico e tátil. O filme lida com a carne crua, com o suor da sala de cirurgia e, principalmente, com a total obliteração dos limites éticos.

Vejo no protagonista a personificação perfeita da hybris grega — a arrogância desmedida do homem que, embriagado pelo próprio intelecto, tenta usurpar o papel da natureza e derrotar a inevitabilidade da morte não por altruísmo, mas por puro narcisismo acadêmico.

Trazendo isso para as nossas mesas, é o mesmo dilema moral que enfrentamos em Vampiro: A Máscara ao analisar o horror do clã Tzimisce, que molda osso e carne como argila sob a justificativa de uma “evolução” corrompida, ou a arrogância fria dos Progenitores em Mago: A Ascensão.

Por trás de seus banhos de sangue prático maravilhosos e tripas animatrônicas, Re-Animator nos força a encarar o lado mais sombrio do dualismo cartesiano: se a ciência consegue religar a “máquina” orgânica através de um reagente verde fluorescente, mas falha miseravelmente em trazer de volta a razão, a empatia ou a “alma”, o que sobra?

O que retorna da morte é apenas a dor, o instinto primitivo e a fúria. E é aí que reside a genialidade do filme: ele nos prova que a arrogância científica humana, quando opera em um vácuo moral, consegue gerar abominações muito mais assustadoras do que qualquer entidade cósmica hibernando em R’lyeh.

Ficha Técnica

Sinopse

A trama acompanha Herbert West, um estudante de medicina brilhante, arrogante e socialmente inábil, que se transfere para a Universidade Miskatonic (um clássico cenário lovecraftiano). West desenvolveu um reagente químico verde luminescente capaz de reanimar tecidos mortos. Ele aluga um quarto na casa do colega Dan Cain e, aos poucos, o arrasta para sua espiral de experimentos antiéticos no porão.

O problema é que os mortos trazidos de volta à vida pelo reagente não retornam como eram; eles voltam em um estado de fúria primitiva, violenta e incontrolável. A situação sai completamente do controle quando o Dr. Carl Hill, um professor rival com suas próprias intenções sinistras, tenta roubar a invenção de West.

Opinião Pessoal e Crítica: A Ética, a Carne e o Vazio Existencial

Na minha análise, Re-Animator transpõe a mera barreira do gore festivo para se consolidar como um ensaio filosófico brutal sobre a hybris – a desmedida, o orgulho extremo que, na tragédia grega, inevitavelmente arrasta o mortal para a própria ruína.

Como jogador e filósofo, quando olho para a figura pálida e obstinada de Herbert West, eu não vejo apenas um clichê do “cientista louco”. Eu enxergo o eco sombrio de um existencialismo distorcido e de um niilismo científico aterrador. West não quer curar doenças, aliviar o sofrimento humano ou elevar a nossa espécie; ele quer derrotar a Morte pura e simplesmente para provar que o seu intelecto é ontologicamente superior a ela.

Ele quer usurpar o trono do Criador, não pela benevolência prometeica de trazer o fogo aos homens, mas pelo fetiche absoluto do controle.

Isso me remete profundamente à dualidade moral que encontramos na construção de antagonistas na cultura pop que tanto consumo. Se pegarmos o Senhor Frio (Mr. Freeze) no universo do Batman, vemos um homem cuja ciência rompe barreiras naturais, mas que é inteiramente motivada pela tragédia e pelo afeto (a obsessão desesperada em salvar sua amada Nora).

West, por outro lado, não tem uma Nora. A amoralidade dele o aproxima muito mais de figuras como o Professor Hojo, de Final Fantasy VII. Assim como Hojo manipula as células de Jenova e destrói vidas em nome da pura curiosidade empírica, a motivação de West é o triunfo mecanicista sobre o existencial e o fisiológico.

No RPG

Trazendo essa reflexão para as nossas mesas de RPG, West é a personificação do pesadelo tecnocrático em Mago: A Ascensão. Ele atua como um membro da convenção dos Progenitores que, cego pelo próprio Paradigma, entrou em Queda e se tornou um Nefando confinado em um porão sujo, corrompendo a vida em vez de cultivá-la.

É uma audácia tão profana que ofenderia até mesmo a frieza dos necromantes Hecata ou as bizarrices dos modeladores de carne Tzimisce em Vampiro: A Máscara, pois a abominação de West carece de qualquer misticismo; é a carne reduzida a mero hardware defeituoso.

Enquanto terapeuta, eu trabalho diariamente com a concepção, muito alinhada ao monismo de Spinoza e à fenomenologia de Merleau-Ponty, de que o corpo não é apenas um “veículo”, mas sim algo que guarda a nossa história, nossos traumas e a nossa essência. Nós somos o nosso corpo. O verdadeiro horror de Re-Animator reside justamente na profanação absoluta dessa essência.

O reagente verde-fluorescente de West conserta a “máquina” e a força a funcionar, rompendo com o clássico dualismo cartesiano. Ele traz o corpo biológico de volta, mas a “alma” — ou a razão, o afeto, a senciência empática — se perdeu no abismo. O que retorna ao mundo dos vivos é apenas a fúria irracional, o instinto primitivo e a dor crua.

Flerte com a bioética

Confira mais no Podcast Fábrica de Horrores

É um flerte maravilhoso, sádico e grotesco com os limites da bioética. No fim das contas, enquanto rolam os créditos e limpamos o sangue da tela, o filme nos confronta com uma das perguntas mais assustadoras que a ficção científica pode nos fazer: até que ponto a mera continuidade da vida biológica tem algum valor, se for completamente esvaziada de sua humanidade?

Recentemente estive no Podcast Fábrica de Horrores, onde junto com o Davi Cardoso analisamos e debatemos muitos pontos sobre essa obra! Que tal passar por lá e acompanhar essa conversa? Confira mais AQUI.

Quimera de Aventuras

Nesta sessão a obra entra na Quimera e colocamos algumas ideias de uso para aventuras de RPG. Entretanto fique ciente que para isto, teremos que dar alguns spoilers da obra. Leia por sua conta e risco.

Agora, vamos ao que interessa aos nossos dados e fichas! Como transformar o reagente verde e a arrogância de Herbert West em combustível para as nossas mesas de RPG? Eis a minha visão de como aplicar essa obra em diferentes temáticas:

1. Mundo das Trevas (Horror Pessoal)

Esse é, indiscutivelmente, o território natural do filme. Como jogador e filósofo, sempre defendo que no Mundo das Trevas o horror nunca é apenas um banho de sangue; ele é profundamente existencial e ontológico.

Mago: A Ascensão

Se você narra Mago: A Ascensão, Herbert West não é um mero vilão da semana. Ele é o arquétipo perfeito de um Tecnocrata da convenção dos Progenitores que foi consumido pela própria hybris. Imagine um cientista que, embriagado pela arrogância do seu Paradigma, entrou em Queda e se tornou um Nefando distorcido, ou um Desperto completamente insano operando à margem do Consenso em um laboratório clandestino e fétido.

Para esse Mago, o corpo humano é apenas uma equação orgânica imperfeita, e a morte, um “bug” no sistema biológico que precisa ser extirpado. É a biopolítica levada ao extremo do horror: a vida reduzida a um mero mecanismo. O que ele cria com seu reagente se assemelha aos Heartless que enfrentamos incansavelmente na franquia Kingdom Hearts — cascas corrompidas e desprovidas de qualquer centelha de “coração” ou alma humana —, mas recriados de forma crua, dissecados sob a luz fria e fluorescente de um necrotério. Uma biologia movida puramente pela entropia e pelo instinto destrutivo.

Vampiro: A Máscara

Já em Vampiro: A Máscara, as implicações narrativas de Re-Animator são de gelar o sangue de qualquer imortal. Pense na genialidade macabra de um Antigo do clã Tzimisce, que através da Disciplina de Vicissitude encara a carne e o osso não como limites sagrados, mas como argila profana a ser moldada em busca de uma “evolução” alienígena. Ou ainda, aplique a obsessão metodológica dos Hecata (ou dos eruditos Capadócios) em dissecar o exato limiar que separa o suspiro da morte do rigor mortis.

Para estruturar a sua crônica, a premissa é ouro puro: os jogadores da sua coterie são incumbidos pelo Príncipe de investigar uma série de desaparecimentos incômodos em hospitais universitários locais. O que eles descobrem no porão da faculdade de medicina é muito pior do que uma simples quebra das Tradições arquitetada por um bando Sabbat descuidado.

Eles encontram um mortal comum — ou quem sabe um carniçal obcecado que perdeu o vínculo com seu domitor — brincando de Deus. O verdadeiro terror para um Cainita nessa trama é o espelho distorcido que West representa: a criatura que ele faz levantar da mesa de cirurgia não é um zumbi clássico amarrado pelos ritos da Necromancia, nem um infeliz que recebeu o Abraço. É uma abominação que zomba do próprio conceito de não-vida. É a prova aterradora de que a humanidade, em seu desespero e genialidade doentia, é capaz de conjurar monstros que fazem até mesmo o predador alfa da noite recuar nas sombras.

2. Fantasia Medieval

Vamos despir Herbert West de seu jaleco branco manchado da Universidade de Miskatonic e vesti-lo com as túnicas encardidas de uma Academia Arcana, ou talvez com o avental de couro de um boticário clandestino.

Quando transportamos a premissa de Re-Animator para a fantasia medieval clássica, esbarramos em um debate metafísico fascinante que, como filósofo, eu adoro explorar em mesa: a diferença abismal entre o milagre e a anomalia.

Dungeons & Dragons

Em cenários de Alta Fantasia, como Dungeons & Dragons, a ressurreição é um fato conhecido. Clérigos canalizam a vontade divina para trazer uma alma de volta ao seu receptáculo de carne. Mas o que acontece quando a ciência arcana tenta “hackear” esse monopólio dos deuses? O nosso West medieval não é um necromante tradicional – aqueles vilões de capa preta que conjuram esqueletos descerebrados a serviço de um mestre.

Ele é um Artífice ou um Mago Transmutador genial, um iluminista distorcido que enxerga o corpo biológico como uma engrenagem que pode ser religada à força, sem pedir permissão a Kelemvor ou à Rainha dos Corvos. Ele ignora o consentimento da alma. O resultado é o equivalente medieval do Poço de Lázaro, do universo do Batman: a carne retorna, mas a mente volta fraturada, consumida por uma fúria instintiva e bestial, lembrando muito o trágico retorno de Jason Todd, porém desprovido de qualquer resquício de humanidade.

Tormenta20

Se formos para a fantasia nacional de Tormenta20, podemos situar esse horror em Valkaria. West seria um Alquimista devoto (ou um herege excomungado) de Wynna ou Tenebra, que sintetizou uma poção alquímica necrótica de coloração verde-musgo. A aventura pode começar com o grupo investigando algo trivial, como profanadores de túmulos no cemitério local, apenas para descobrir o laboratório desse acadêmico arrogante. Na cabeça dele, ele não está cometendo um crime profano; ele acredita piamente estar liderando “a revolução médica do século”, democratizando a vitória sobre a morte para aqueles que não têm o favor (ou o ouro) dos sumo-sacerdotes.

OSR

Contudo, se a sua mesa pende para o OSR, jogando sistemas mais letais, sujos e low fantasy como Old Dragon ou explorando os rincões obscuros do Ducado Veroda, o horror ganha contornos muito mais viscerais. Nesses cenários, a magia é escassa, perigosa e cobra um preço terrível.

O reanimador não está em uma torre de marfim, mas no porão lamacento de um vilarejo assolado por uma praga, misturando fluidos espinhais e ervas apodrecidas à luz de velas parcas. A criatura que ele desperta na mesa de cirurgia não é apenas um “monstro para dar XP”, mas um pesadelo tátil de carne retalhada que urra em agonia existencial.

E aqui entra a verdadeira quimera filosófica para os jogadores: o dilema moral. O grupo derrota o acadêmico louco, mas a poção verde brilha intacta no frasco. E se essa alquimia herege for a única chance fisiológica de curar ou trazer de volta um NPC vital para a campanha, ou até mesmo um Patrono amado pelos personagens?

A moralidade dos heróis é posta à prova: até que ponto eles estão dispostos a arriscar a ordem natural das coisas, sabendo que podem estar condenando a essência daquele que amam a uma prisão de instinto e dor apenas para não terem que lidar com o luto? É quando a fantasia deixa de ser apenas rolar dados e matar orcs, e passa a exigir que olhemos para o abismo da nossa própria hybris.

3. Sci-Fi / Cyberpunk

Quando mudamos a lente para a ficção científica e o cyberpunk, o horror de Re-Animator ganha contornos de transumanismo, biopolítica e de um debate existencial profundo. O reagente verde luminescente deixa de ser uma alquimia bizarra e se torna nanotecnologia de ponta militarizada.

Kuro

Em sistemas como Kuro, onde o peso inexorável do horror japonês colide com o avanço tecnológico opressor, ou nos becos de neon sujo de Cyberpunk RED, eu gosto de imaginar o nosso “Reanimador” como um ex-pesquisador corporativo de alto escalão — alguém nos moldes do que vemos na literatura de Neuromancer, de William Gibson, que sacrificou qualquer resquício de bússola moral no altar do progresso corporativo.

Nesse cenário mecanicista, o reagente é um fluido sintético de neuromodulação agressiva. Ele força a reativação das sinapses mortas e do hardware cibernético acoplado ao corpo, mas ao custo irreparável de fritar o córtex pré-frontal (justamente a área do nosso cérebro que regula os freios morais, o controle de impulsos e a nossa sociabilidade).

O resultado? Uma carne mecânica operante, mas desprovida do que poderíamos chamar de “Fantasma” ou “Alma”. Os jogadores entram como mercenários descartáveis, contratados por uma Megacorporação (como a Arasaka) para recuperar a propriedade intelectual roubada. Contudo, ao invadirem o laboratório clandestino nas entranhas fétidas de Neo-Tokyo ou Night City, o que seria uma missão de extração corporativa vira survival horror puro contra cobaias humanas ciberneticamente mutiladas e presas em um frenesi primitivo.

Shadowrun

Mas a reflexão filosófica fica ainda mais densa, sombria e fascinante se transportarmos esse laboratório para o Sexto Mundo de Shadowrun.

Eu acho a premissa de Shadowrun brilhante porque ela obriga a magia a coexistir com o cromo, e o conceito de “Essência” (a medida literal da integridade da alma humana frente às suas modificações mecânicas) é o pilar dessa realidade. Em Shadowrun, o nosso Herbert West poderia ser um Mago Hermético insano, financiado por recursos obscuros da Renraku ou da Aztechnology, trabalhando na intersecção letal entre nanotecnologia experimental e necromancia corporativa.

O horror metafísico atinge seu ápice aqui: ele não está apenas reanimando matéria inerte. Ele está forçando um espírito fraturado a habitar um corpo cuja Essência já despencou a zero.

Ele está criando, nos esgotos de Seattle, uma versão profana, barata e incontrolável dos temidos Cyber-Zumbis. Quando a equipe de runners invade o complexo, eles não enfrentam apenas uma falha genética ou um drogado em cyberpsicose. Eles encaram uma abominação existencial: um amálgama grotesco de magia corrompida, carne putrefata e aço, berrando em agonia porque o seu espírito foi arrancado à força do plano astral e acorrentado a um cadáver. É a arrogância humana e corporativa profanando não apenas o corpo físico, mas a própria metafísica do universo.

4. Super-Heróis

Seja em um cenário sombrio e opressivo focado na DC ou Marvel, ou nas cores vibrantes de um mundo com estética de anime, a premissa de Re-Animator é o laboratório perfeito para testar não apenas a força, mas a ética dos personagens.

Mutantes & Malfeitores

Em Mutantes & Malfeitores, essa narrativa serve como uma luva para um arco focado no nível “heróis de rua”, resgatando aquela atmosfera pesada e niilista que amamos nas HQs clássicas do Demolidor de Frank Miller ou do Batman. O que mais me atrai nessa abordagem é o dilema moral iminente: a maioria dos vigilantes urbanos possui um código estrito contra tirar vidas. Mas como o imperativo categórico kantiano de um herói se sustenta quando o oponente já está clinicamente morto?

O vilão aqui não tem superpoderes inerentes, raios cósmicos ou armaduras bilionárias; sua arma é o intelecto genial desprovido de qualquer amarra empática — pense em uma mistura do Professor Hugo Strange com a obsessão genética do Chacal (aquele que infernizou o Homem-Aranha na Saga do Clone).

Os heróis começam a enfrentar capangas do submundo que simplesmente não caem. Eles têm os ossos estilhaçados, ignoram a dor e, mesmo mutilados, continuam atacando com uma força animalesca aterradora. O clímax exige uma invasão claustrofóbica a um necrotério da cidade — talvez nas entranhas de uma instituição análoga ao Asilo Arkham —, onde os heróis precisam impedir o cientista de injetar o reagente em si mesmo ou, para o horror completo, nos heróis caídos e cidadãos inocentes da enfermaria.

3DeT Victory

Por outro lado, se a sua mesa roda o 3DeT Victory, abraçando a ação frenética e os tropos clássicos dos mangás e animes, o nosso Herbert West ganha a aura daqueles cientistas sociopatas maravilhosamente detestáveis. Ele assume o papel de um arquiteto do caos biológico, lembrando muito as atrocidades do Professor Hojo em Final Fantasy VII ou a genialidade doentia do Doutor Garaki de Boku no Hero Academia. Em termos de regras e mecânicas, o reagente verde se torna um buff assustador: capangas genéricos (“bucha de canhão”) recebem repentinamente vantagens como Imortal ou Morto-Vivo.

Eles passam a ignorar dano e testes de morte convencionais, forçando os heróis a pensarem estrategicamente. Não basta usar aquele super golpe especial que destrói quarteirões; é preciso incapacitar, desmembrar ou criar uma cura para neutralizar a toxina. O conflito obriga o grupo a repensar a própria violência.

Como um esquadrão de heróis coloridos lida com uma horda de carne ensandecida que não sente medo, não recua perante o poder da amizade e desafia as leis fundamentais da vida? É a ciência sádica testando o limite do heroísmo.


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Texto e capa: Eduardo Filhote.
Revisão: Raquel Naiane.

A Flecha de Fogo – Resenha

O romance A Flecha de Fogo, de Leonel Caldela, foi uma publicação marcante para Tormenta: o catatau de 700 páginas, lançado em 2018, resolveu o destino de um dos maiores vilões do cenário – Thwor Ironsfist. Ele era o líder da Aliança Negra dos goblinóides – e modificou a formação do Panteão, um dos núcleos da identidade do cenário.

Thwor Ironsfist

Thwor fora criado por JM Trevisan 20 anos antes, numa matéria para a Dragão Brasil. O autor o estabelecia como uma espécie de Genghis Khan fantástico, que une as raças goblinóides sob o mesmo estandarte e destrói a civilização élfica.

Primeira aparição de Thwor Ironfist, na Dragão Brasil. Arte de André Valle

Pouco depois, em 1999, Tormenta teria sua estreia como encarte da revista. Thwor e sua Aliança Negra já constavam entre os maiores antagonistas do cenário. Ele era inteligente, brutal e carismático, o avanço do general e suas hostes monstruosas prometia o fim cataclísmico do Reinado.

Tendo a seu favor a arrogância e lentidão de resposta da civilização humana, Thwor era como um inimigo invencível, exceto por um misterioso calcanhar de Aquiles anunciado numa antiga profecia:

Quando a sombra passar pelo globo de luz

Trazendo a vida que trará a morte

Terá surgido o emissário da dor

O arauto da destruição

 

Seu nome será cantado por uns

E amaldiçoado por outros

O sangue tingirá os campos de vermelho

Um rei partirá sua coroa em duas

 

E a guerra tomará a tudo e a todos

Até que a sombra da morte complete seu ciclo

E a flecha de fogo seja disparada

Rompendo o coração das trevas

A Grande Ficha Caiu

Para quem já leu o Livro Básico de Tormenta 20, da Jambô Editora, lançado em 2019, o mistério de 20 anos da profecia já foi desvendado.

Thwor “rompe o coração das trevas” matando seu padroeiro, o deus da morte Ragnar, e ocupando seu lugar no Panteão. A Flecha de Fogo era um meteoro que seria usado por Ragnar para causar um genocídio entre os goblinóides que o adoravam.

Thwor, no entanto, consegue manipular o destino para que a Flecha de Fogo cause sua ascensão e o fim de Ragnar.

Nem só de conhecer “lore” vive a fantasia, e o romance ainda merece ser lido pelos fãs de Tormenta.

Corben

Acompanha a saga de Corben, um cidadão do Reinado e frade de Thyatis (deus da ressurreição e da profecia).  Que entre grandes calamidades acaba tendo um papel central na história de Thwor e da Aliança Negra.

O livro se aprofunda na cultura goblinóide – ou duyshidakk – e na cosmologia original proposta por Thwor. O Akzath, onde o tempo e a causalidade não são lineares, e é possível compreender e afetar o mundo através de uma roda de conceitos que rege o universo.

O Akzath é um mapa sem norte para o Mundo Como Deve Ser

Além de permitir conhecer a fundo as adições à construção de mundo que tornaram Tormenta ainda mais único, o romance entra no diálogo sobre um assunto filosófico muito atual: o decolonialismo. Caldela traz as questões decoloniais pra dentro da história, para então, talvez, aplicá-las a si mesmas.

Esta resenha vai refletir sobre o diálogo de Caldela com o tema. O restante do texto possui spoilers de A Flecha de Fogo; quase tudo, porém, já está descrito no Livro Básico e no Guia de NPCs de Tormenta 20.

Buchas de Canhão

Os goblinóides nos RPGs são extensões dos orcs de Tolkien, acrescidos de temas caros a Gary Gygax (co-criador de D&D), derivados da literatura pulp e de seu estudo falho de História. Representam a barbárie como conceito, e também trazem traços da representação preconceituosa de povos não ocidentais (mesmo que a intenção não fosse essa).

Claro, monstros humanoides também significam a possibilidade de combates mortíferos sem ares de assassinato, seja no RPG ou em outras mídias.

Já o Reinado de Tormenta é representado como o Ocidente, de certa forma: é a ordem e o progresso. Hoje em dia, inclusive, representa o multiculturalismo, a igualdade perante a  lei e a liberdade individual. O Reinado espelha os valores da democracia liberal de nosso mundo.

Os goblinóides já representaram a barbárie em Tormenta. Arte de André Vazzios

Como começa o romance

Na atualidade, começa com o tema do trauma: o protagonista, Corben, é várias vezes submetido a processos de abuso, cura e lavagem cerebral. Primeiro por sua família biológica, de doentes mentais abusivos; depois, tem a oportunidade de cura e segurança como parte do baixo clero.

Mas sua cidade é massacrada, e ele é cooptado por uma estranha seita que diz defender a civilização. Eles cuidam dele, e permitem a cura, para em seguida iniciar tentativas de controle e lavagem cerebral.

Finalmente, vira escravo da Aliança Negra, onde desenvolve uma complexa síndrome de Estocolmo, e se integra tão completamente a seus captores que se torna um de seus líderes espirituais. A cooptação através do escravismo, vale dizer, se parece muito com a que já foi praticada por alguns povos ameríndios, como os iroqueses.

Corben e os Goblinóides

Se Corben passa por esses ciclos de violência, cura e ressignificação (por vezes fanática) como indivíduo, os goblinóides o sofrem historicamente. Nos diálogos entre Corben e Thwor, em que o general inicia o protagonista no Akzath, enquanto Corben tenta justificar a Aliança Negra, Thwor deixa claro que ele e sua Aliança são literalmente “assassinos de crianças”.

O livro chega a ser metalinguístico: num momento em que o leitor está pronto para assumir os goblinoides da Aliança Negra como os novos heróis de Arton, Thwor, tirano filósofo, corrige o ímpeto. A justificação da brutalidade é preocupação do Reinado (do “Ocidente”), não dos goblinoides.

Além disso, a luta de Thwor não é por justiça para seu povo, mas uma cruzada cosmológica onde tudo – seu povo, seu deus e ele mesmo – são instrumentos.

Dançando com os lobos
(ou: tornando-se um bom selvagem)

Então, a saga de Corben poderia ser dividida assim: primeiro, entendemos seu ponto de vista “ocidental” (do Reinado) e seu medo e desprezo pelo Outro (os violentos e selvagens goblinóides). Mas a própria seita pró civilização demonstra a corrupção e loucura dos civilizados.

Em seguida, começa o exercício decolonial: os “outros” derivados do racismo são mostrados como uma civilização válida por seus próprios valores, cheia de força, vitalidade e beleza.

Assim, os goblinóides passam de “garotos propaganda” do colonialismo para “garotos propaganda” do decolonialismo. Sua representação fascinante não surge do vácuo, mas de uma crítica pungente às tradições da literatura fantástica e suas relações com o poder. Os goblinóides veem-se como oprimidos e sobreviventes (assim como os trabalhadores e minorias do Ocidente).

Importante notar

A desconstrução na fantasia já tem bastante tempo. Há 20 anos, World of Warcraft se tornou o jogo mais rentável do mundo apresentando orcs heroicos. Há quase 30, Kiril Yeskoc virava Tolkienn do avesso em O Último Anel. Essa tendência, no entanto, focou na inclusão de elementos realistas e numa simples negação do maniqueísmo.

A Flecha de Fogo, porém, é decolonial porque reivindica que o “outro” seja centro, a partir do ponto de vista daquele que, ao mesmo tempo, estranha e se identifica com esse outro.

O decolonialismo, afinal, é pensado por e para cidadãos do Ocidente (mesmo que de países periféricos) que o renegam e se identificam simbolicamente com “outros” não ocidentais.

Jantando os missionários
(ou: bom selvagem já morreu, quem manda na minha cosmologia sou eu)

Porém, a terceira parte da saga de Corben aplica a crítica decolonial ao próprio decolonialismo. Orientado por Thwor, Corben vai além da exaltação ingênua dos goblinóides. Nada mais ocidental que procurar mocinhos e bandidos na História. Só então o mergulho de Corben na visão de mundo goblinóide é completo.

Ele não é mais um “ocidental” do Reinado; nem mais um forasteiro deslumbrado; nem mais um goblinóide que se vê como vítima, ou seja, definido pela opressão humana/élfica/ocidental.

Ele adota a visão brutalmente livre e original da nação goblinóide: não há bem ou mal, há movimentos entre as forças conflitantes do destino. Corben só pode se tornar o segundo teólogo do Akzath, o pensamento goblinóide totalmente livre de amarras dos opressores, porque desiste até mesmo da noção de justiça histórica.

No Final

Como um bom épico, A Flecha de Fogo parte do histórico para chegar ao cosmológico. No fim, a guerra, as atrocidades e opressões entre humanos e goblinóides eram apenas uma escada para compreender um jogo universal que está além até mesmo dos deuses.

A própria cosmologia artoniana é renovada: a ascensão de Thwor, na medida em que o Akzath for verdadeiro, pode implicar que há uma cosmologia alternativa e simultânea por trás dos acontecimentos mundanos.

O Akzath é ao mesmo tempo uma novidade (pois decodificado por Thwor ao longo de sua vida) e uma destilação da milenar filosofia popular dos goblinóides, expressa por seu modo de vida e mesmo superstições.

Assim, a visão dos colonizados não é apenas resgatada a partir de sua elevação a sujeitos do universalismo ocidental, mas torna-se um centro possível da epistemologia fantástica de Arton.


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Texto: Vinícius Staub.
Revisão: Raquel Naiane.

Cataclismo – Quimera de Aventuras

E aí pessoal, tranquilos? Em mais uma Quimera de Aventuras baseada nas expansões de Hearthstone abordaremos, desta vez, a expansão Cataclismo e a vinda destruidora do Asa da Morte de uma outra linha temporal (é, mais uma mídia com multiverso).

Na expansão temos a volta de Colossais, representando, principalmente, os generais e subalternos do Asa da Morte. Também há a mecânica de proclamar que dá mais poderes à carta do Asa da Morte e é parecido com outras mecânicas anteriores que davam poderes ou tornavam mais fortes Cthun (Cthulhu) e Galakrond.

Quimera de Aventuras

O Mal Supremo

Já começaremos com o próprio enredo da expansão. Aqui os aventureiros de nível muito elevado ou épico precisam destruir os generais do Asa da Morte e o próprio dragão negro e evitar que eles consumam e destruam todo o mundo conhecido.

  • Ragnaros, o Lorde das Chamas e o Grande Fogo que consome tudo com seus elementais de fogo que explodem quando morrem.
  • Chogall, o ogro bicéfalo que consome aliados para ficar mais forte.
  • Al’Akir, o Senhor das Tempestades e seus múltiplos ataques.
  • Sinestra, uma dragonesa corrompida.
  • Azshara, Senhora do Oceano que inunda costas e destroem embarcações com seus multiplos ataques vindos de seus tentáculos.
  • Onyxia Revivida, uma rainha dragonesa ressurgida como uma morta-viva que fica mais forte conforme usa seu próprio sangue para evocar lacaios.

  • Ultraxion, um dragão servo fiel do Asa da Morte.
  • Asa da Morte, o Quebra Mundo, é um dragão mais forte e mais poderoso que qualquer dragão ancião que possa existir.

Conseguindo aliados

Para impedir Asa da Morte, os herois deverão buscar ajuda dos druidas, entes e outras criaturas da floresta para lutar contra mortos-vivos e cultistas. Nessa empreitada haverá caçadores, rangers e similares que estarão acompanhados de dragões bondosos e de elementais não corrompidos na luta contra o Grande Mal.

Para isso, os aventureiros terão que salvar as florestas e as feras para que consigam a ajuda dos grandes reis animais. Bem como precisarão auxiliar os povos civilizados a conseguir artefatos arcanos e sagrados para facilitar na luta contra os asseclas malignos.

Cada grupo que luta contra o Asa da Morte pode necessitar de ajudas específicas para impedir que os generais do Quebramundo destruam as vidas dessa realidade.

O importante aqui é que cada missão será épica e destinada a salvar uma parte do mundo. A qual culminará com o grande embate para eliminar o invasor Asa da Morte.


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Etiqueta no seu Mundo – Gênese Zero #66

Depois de explorarmos, em Rotinas do Mundo, como horários, ciclos e hábitos moldam o cotidiano das sociedades, torna-se natural avançarmos para uma camada ainda mais sutil, porém igualmente reveladora: os gestos.

Se as rotinas mostram quando e como as pessoas vivem, a etiqueta e a linguagem corporal revelam como elas se relacionam entre si.

Em mundos de fantasia, pequenos movimentos carregam significados profundos. Um olhar direto pode representar respeito em uma cultura e desafio mortal em outra. Um simples gesto com as mãos pode indicar confiança, ameaça ou até intenção mágica.

Assim, ao trabalhar etiqueta e linguagem corporal, o worldbuilder adiciona uma dimensão invisível que enriquece cada interação.

Portanto, entender esses códigos não apenas torna o mundo mais vivo, mas também cria oportunidades narrativas intensas, onde um gesto errado pode desencadear conflitos inesperados.

1. O Olhar Como Confronto ou Respeito

Antes de tudo, o contato visual pode assumir significados completamente diferentes.

Em algumas culturas, olhar nos olhos demonstra sinceridade e coragem. No entanto, em outras, esse mesmo gesto representa desafio direto, quase um convite ao combate.

Assim, personagens precisam aprender rapidamente onde estão para evitar conflitos desnecessários.

2. Mãos Visíveis e Confiança

Além disso, mostrar as mãos pode carregar um peso simbólico importante.

Em sociedades onde magia pode ser conjurada com gestos, manter as mãos visíveis transmite segurança e ausência de ameaça.

Por outro lado, esconder as mãos pode levantar suspeitas imediatas.

3. Distância Corporal e Hierarquia

A proximidade física também comunica poder.

Certas culturas valorizam distância como sinal de respeito, enquanto outras interpretam proximidade como demonstração de confiança.

Dessa forma, invadir ou evitar espaço pessoal pode alterar completamente uma interação social.

4. Postura e Posição do Corpo

A forma como alguém se posiciona revela intenções e status.

Uma postura ereta pode indicar autoridade, enquanto inclinar-se levemente pode representar submissão ou respeito.

Assim, personagens comunicam muito antes mesmo de falar.

5. Gestos Codificados e Comunicação Secreta

Algumas sociedades desenvolvem gestos específicos que funcionam como linguagem paralela.

Movimentos sutis de dedos, inclinação de cabeça ou batidas rítmicas podem transmitir mensagens ocultas.

Portanto, esses códigos permitem comunicação silenciosa em ambientes hostis.

6. Etiqueta Religiosa e Gestos Sagrados

Em contextos religiosos, gestos assumem significado ainda mais profundo.

Tocar o chão, levantar as mãos ou inclinar a cabeça pode representar devoção, arrependimento ou conexão espiritual.

Assim, desrespeitar esses rituais pode gerar conflitos graves.

7. Expressões Faciais e Controle Emocional

Nem toda cultura valoriza a expressão emocional aberta.

Em alguns povos, demonstrar sentimentos publicamente indica fraqueza. Em outros, esconder emoções pode ser visto como desonestidade.

Dessa maneira, controlar ou expressar emoções se torna parte da etiqueta.

8. Gestos Ofensivos e Tabus Invisíveis

Cada sociedade possui gestos considerados ofensivos.

Um sinal comum em uma região pode ser profundamente insultante em outra.

Assim, personagens estrangeiros frequentemente cometem erros que revelam tensões culturais.

9. Linguagem Corporal em Combate

Mesmo em situações de conflito, gestos continuam relevantes.

A forma de empunhar uma arma, a posição dos pés ou a inclinação do corpo pode indicar estilo de luta, intenção ou estratégia.

Portanto, a linguagem corporal também funciona como leitura tática.

10. Mudanças ao Longo do Tempo

Por fim, gestos não permanecem estáticos.

Com o passar das gerações, significados mudam, tradições se adaptam e novos códigos surgem.

Assim, a etiqueta reflete a história viva de uma sociedade.

Conclusão

Gestos, etiqueta e linguagem corporal representam uma das formas mais ricas de aprofundar um mundo de fantasia.

Eles mostram que cultura não vive apenas em leis ou tradições formais, mas também nos pequenos movimentos do dia a dia.

Ao incorporar esses elementos, o worldbuilder transforma interações simples em momentos carregados de significado. Um olhar, um gesto ou uma postura podem dizer mais do que longos discursos.

No fim, talvez o detalhe mais poderoso de um mundo não esteja nas grandes batalhas ou eventos épicos, mas naquilo que acontece em silêncio, quando ninguém está falando, mas todos estão se comunicando.

PARA MAIS CONTEUDO DO MESTRE BROTHER BLUE


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