Depois de explorarmos, em Etiqueta no seu Mundo, como gestos, postura e linguagem corporal revelam culturas inteiras sem a necessidade de longos discursos, avançaremos agora para outro detalhe aparentemente simples, mas extremamente poderoso no worldbuilding: os objetos do cotidiano.
Afinal, sociedades não vivem apenas de castelos, guerras ou grandes profecias. Elas também vivem de ferramentas, utensílios, roupas, móveis e pequenos itens usados diariamente.
Em muitos cenários de fantasia, magia costuma aparecer associada a artefatos lendários, espadas ancestrais ou grimórios proibidos. No entanto, quando a magia alcança os objetos comuns, o mundo ganha profundidade real. Talheres podem detectar veneno, portas podem reconhecer emoções e roupas podem reagir ao humor de quem as veste.
Assim, o fantástico deixa de existir apenas em momentos épicos e passa a habitar a rotina das pessoas.
Portanto, criar itens comuns com funções incomuns não apenas fortalece a imersão, mas também ajuda a mostrar como magia, tecnologia e cultura influenciam o cotidiano de forma prática e natural.
1. Talheres que Protegem Contra Venenos
Antes de tudo, comida representa um dos maiores riscos em sociedades marcadas por intrigas políticas.
Por isso, famílias nobres podem utilizar talheres encantados capazes de mudar de cor quando entram em contato com substâncias tóxicas.
Além disso, algumas culturas transformam esses utensílios em símbolos de status, já que apenas pessoas ricas conseguem pagar por esse tipo de proteção.
2. Portas que Sussurram Segredos
Em certas cidades antigas, portas acumulam fragmentos de memória ao longo dos anos.
Assim, quando alguém encosta o ouvido na madeira correta, consegue ouvir ecos de conversas passadas, promessas esquecidas ou traições abafadas pelo tempo.
Dessa forma, um simples corredor pode esconder informações valiosas.
3. Roupas que Reagem às Emoções
Em alguns reinos, tecidos encantados mudam de cor conforme o estado emocional do usuário.
Consequentemente, esconder sentimentos se torna extremamente difícil em ambientes formais.
Por outro lado, pessoas influentes podem contratar alfaiates arcanos especializados em bloquear essas reações, transformando o autocontrole em demonstração de poder.
4. Lanternas que Sentem Presenças
Nem toda iluminação serve apenas para afastar a escuridão.
Algumas lanternas mágicas aumentam ou diminuem de intensidade quando detectam criaturas sobrenaturais por perto.
Assim, viajantes experientes aprendem a observar a luz antes mesmo de olhar para a estrada.
5. Copos que Registram Conversas
Em sociedades marcadas por espionagem, tavernas podem usar copos encantados para armazenar fragmentos de diálogos importantes.
Depois, proprietários reproduzem essas conversas em salas privadas mediante pagamento.
Portanto, um simples objeto doméstico se transforma em ferramenta política e comercial.
6. Ferramentas que Aprendem Hábitos
Além disso, alguns itens desenvolvem padrões de comportamento conforme o uso contínuo.
Facas de cozinha podem “memorizar” os movimentos do dono, enquanto instrumentos musicais ajustam automaticamente a afinação ao estilo do músico.
Dessa maneira, objetos cotidianos criam vínculos quase afetivos com seus usuários.
7. Móveis com Funções Sociais
Em determinados lugares, móveis também participam da vida cultural.
Mesas podem alterar discretamente a altura dependendo da posição social dos convidados, enquanto cadeiras podem aquecer ou esfriar de acordo com o humor da conversa.
Assim, até ambientes domésticos ajudam a reforçar hierarquias e tensões sociais.
8. Objetos Religiosos do Cotidiano
Nem toda manifestação espiritual exige templos grandiosos.
Em algumas culturas, pequenos itens domésticos carregam bênçãos simples, como chaleiras que nunca deixam o chá esfriar ou velas que afastam pesadelos.
Dessa forma, a religião passa a integrar o cotidiano de maneira íntima e constante.
9. Itens que Criam Dependência
Com o passar do tempo, sociedades podem se tornar dependentes desses objetos encantados.
Pessoas acostumadas a relógios mágicos que organizam automaticamente horários ou roupas que regulam temperatura começam a perder habilidades básicas de adaptação.
Assim, o conforto mágico também pode gerar fragilidade cultural.
10. Objetos Comuns Como Memória Histórica
Por fim, itens cotidianos podem carregar marcas do passado.
Uma chaleira antiga pode pertencer à mesma família há séculos, enquanto uma fechadura pode ter sobrevivido à queda de três impérios.
Consequentemente, objetos aparentemente simples se tornam testemunhas silenciosas da história do mundo.
Conclusão
Itens comuns com funções incomuns enriquecem mundos de fantasia porque aproximam o extraordinário da vida cotidiana.
Enquanto grandes artefatos impressionam pela grandiosidade, pequenos objetos encantados tornam o cenário mais vivo, humano e memorável.
Ao trabalhar esses detalhes, o worldbuilder mostra como magia, cultura e tecnologia realmente afetam a sociedade. Um mundo deixa de parecer apenas um palco para aventuras e passa a funcionar como um lugar habitado por pessoas reais, com hábitos, necessidades e soluções próprias.
No fim, talvez a magia mais interessante não esteja escondida em relíquias lendárias, mas justamente naquilo que alguém segura todos os dias sem perceber o quanto aquele objeto revela sobre o mundo ao redor.
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Saudações Rpgistas e apreciadores do horror e do terror! Como vocês estão? Puxem uma cadeira, sirvam-se de um café forte (ou talvez algo com uma tonalidade verde fluorescente, se tiverem coragem) e vamos filosofar um pouco.
Como filósofo e profissional da área da saúde, a relação entre o corpo, a mente e o inevitável fim da vida é um tema que sempre me fascina. E quando misturamos isso com a minha veia irremediavelmente nerd, acabamos esbarrando em obras que desafiam a moralidade através do horror.
É por isso que, na nossa Quimera de Aventuras de hoje, decidi trazer um clássico absoluto do cinema gore e da ficção científica macabra: Re-Animator, a subversão sangrenta e genial de H.P. Lovecraft.
Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos
Quando nós, fãs do horror e ávidos jogadores de RPG, pensamos na obra de H.P. Lovecraft, a primeira imagem que nos assalta a mente é, quase invariavelmente, a do horror cósmico.
Pensamos no existencialismo niilista, no medo paralisante do incomensurável, em tentáculos ciclópicos e na nossa completa insignificância diante de deuses ancestrais adormecidos.
Porém, na minha leitura filosófica da bibliografia do autor, o conto Herbert West–Reanimator — e, de forma ainda mais brilhante, a adaptação cinematográfica de 1985 dirigida por Stuart Gordon — foge drasticamente dessa curva. A obra abandona o horror etéreo e psicológico para mergulhar de cabeça nas entranhas do splatterpunk e de um humor negro tão espesso quanto o sangue cenográfico espalhado pelo set.
Marco do Cinema
Como profissional da área da saúde e filósofo, eu costumo analisar o corpo humano como um repositório sagrado da nossa história e vivência; um todo integrado onde mente, emoção e matéria coexistem. Stuart Gordon, através do brilhante (e sociopata) Herbert West, subverte exatamente isso de forma grotesca.
A obra é um marco absoluto do cinema de horror da década de 80 porque, diferente da loucura passiva e introspectiva comum ao Mito de Cthulhu, Re-Animator é visceral, físico e tátil. O filme lida com a carne crua, com o suor da sala de cirurgia e, principalmente, com a total obliteração dos limites éticos.
Vejo no protagonista a personificação perfeita da hybris grega — a arrogância desmedida do homem que, embriagado pelo próprio intelecto, tenta usurpar o papel da natureza e derrotar a inevitabilidade da morte não por altruísmo, mas por puro narcisismo acadêmico.
Trazendo isso para as nossas mesas, é o mesmo dilema moral que enfrentamos em Vampiro: A Máscara ao analisar o horror do clã Tzimisce, que molda osso e carne como argila sob a justificativa de uma “evolução” corrompida, ou a arrogância fria dos Progenitores em Mago: A Ascensão.
Por trás de seus banhos de sangue prático maravilhosos e tripas animatrônicas, Re-Animator nos força a encarar o lado mais sombrio do dualismo cartesiano: se a ciência consegue religar a “máquina” orgânica através de um reagente verde fluorescente, mas falha miseravelmente em trazer de volta a razão, a empatia ou a “alma”, o que sobra?
O que retorna da morte é apenas a dor, o instinto primitivo e a fúria. E é aí que reside a genialidade do filme: ele nos prova que a arrogância científica humana, quando opera em um vácuo moral, consegue gerar abominações muito mais assustadoras do que qualquer entidade cósmica hibernando em R’lyeh.
Ficha Técnica
Título Original: Re-Animator
Título no Brasil: Re-Animator: A Hora dos Mortos Vivos
Gênero: Terror / Ficção Científica / Comédia Sombria
Sinopse
A trama acompanha Herbert West, um estudante de medicina brilhante, arrogante e socialmente inábil, que se transfere para a Universidade Miskatonic (um clássico cenário lovecraftiano). West desenvolveu um reagente químico verde luminescente capaz de reanimar tecidos mortos. Ele aluga um quarto na casa do colega Dan Cain e, aos poucos, o arrasta para sua espiral de experimentos antiéticos no porão.
O problema é que os mortos trazidos de volta à vida pelo reagente não retornam como eram; eles voltam em um estado de fúria primitiva, violenta e incontrolável. A situação sai completamente do controle quando o Dr. Carl Hill, um professor rival com suas próprias intenções sinistras, tenta roubar a invenção de West.
Opinião Pessoal e Crítica: A Ética, a Carne e o Vazio Existencial
Na minha análise, Re-Animator transpõe a mera barreira do gore festivo para se consolidar como um ensaio filosófico brutal sobre a hybris – a desmedida, o orgulho extremo que, na tragédia grega, inevitavelmente arrasta o mortal para a própria ruína.
Como jogador e filósofo, quando olho para a figura pálida e obstinada de Herbert West, eu não vejo apenas um clichê do “cientista louco”. Eu enxergo o eco sombrio de um existencialismo distorcido e de um niilismo científico aterrador. West não quer curar doenças, aliviar o sofrimento humano ou elevar a nossa espécie; ele quer derrotar a Morte pura e simplesmente para provar que o seu intelecto é ontologicamente superior a ela.
Ele quer usurpar o trono do Criador, não pela benevolência prometeica de trazer o fogo aos homens, mas pelo fetiche absoluto do controle.
Isso me remete profundamente à dualidade moral que encontramos na construção de antagonistas na cultura pop que tanto consumo. Se pegarmos o Senhor Frio (Mr. Freeze) no universo do Batman, vemos um homem cuja ciência rompe barreiras naturais, mas que é inteiramente motivada pela tragédia e pelo afeto (a obsessão desesperada em salvar sua amada Nora).
West, por outro lado, não tem uma Nora. A amoralidade dele o aproxima muito mais de figuras como o Professor Hojo, de Final Fantasy VII. Assim como Hojo manipula as células de Jenova e destrói vidas em nome da pura curiosidade empírica, a motivação de West é o triunfo mecanicista sobre o existencial e o fisiológico.
No RPG
Trazendo essa reflexão para as nossas mesas de RPG, West é a personificação do pesadelo tecnocrático em Mago: A Ascensão. Ele atua como um membro da convenção dos Progenitores que, cego pelo próprio Paradigma, entrou em Queda e se tornou um Nefando confinado em um porão sujo, corrompendo a vida em vez de cultivá-la.
É uma audácia tão profana que ofenderia até mesmo a frieza dos necromantes Hecata ou as bizarrices dos modeladores de carne Tzimisce em Vampiro: A Máscara, pois a abominação de West carece de qualquer misticismo; é a carne reduzida a mero hardware defeituoso.
Enquanto terapeuta, eu trabalho diariamente com a concepção, muito alinhada ao monismo de Spinoza e à fenomenologia de Merleau-Ponty, de que o corpo não é apenas um “veículo”, mas sim algo que guarda a nossa história, nossos traumas e a nossa essência. Nós somos o nosso corpo. O verdadeiro horror de Re-Animator reside justamente na profanação absoluta dessa essência.
O reagente verde-fluorescente de West conserta a “máquina” e a força a funcionar, rompendo com o clássico dualismo cartesiano. Ele traz o corpo biológico de volta, mas a “alma” — ou a razão, o afeto, a senciência empática — se perdeu no abismo. O que retorna ao mundo dos vivos é apenas a fúria irracional, o instinto primitivo e a dor crua.
Flerte com a bioética
Confira mais no Podcast Fábrica de Horrores
É um flerte maravilhoso, sádico e grotesco com os limites da bioética. No fim das contas, enquanto rolam os créditos e limpamos o sangue da tela, o filme nos confronta com uma das perguntas mais assustadoras que a ficção científica pode nos fazer: até que ponto a mera continuidade da vida biológica tem algum valor, se for completamente esvaziada de sua humanidade?
Recentemente estive no Podcast Fábrica de Horrores, onde junto com o Davi Cardoso analisamos e debatemos muitos pontos sobre essa obra! Que tal passar por lá e acompanhar essa conversa? Confira mais AQUI.
Quimera de Aventuras
Nesta sessão a obra entra na Quimera e colocamos algumas ideias de uso para aventuras de RPG. Entretanto fique ciente que para isto, teremos que dar alguns spoilers da obra. Leia por sua conta e risco.
Agora, vamos ao que interessa aos nossos dados e fichas! Como transformar o reagente verde e a arrogância de Herbert West em combustível para as nossas mesas de RPG? Eis a minha visão de como aplicar essa obra em diferentes temáticas:
1. Mundo das Trevas (Horror Pessoal)
Esse é, indiscutivelmente, o território natural do filme. Como jogador e filósofo, sempre defendo que no Mundo das Trevas o horror nunca é apenas um banho de sangue; ele é profundamente existencial e ontológico.
Mago: A Ascensão
Se você narra Mago: A Ascensão, Herbert West não é um mero vilão da semana. Ele é o arquétipo perfeito de um Tecnocrata da convenção dos Progenitores que foi consumido pela própria hybris. Imagine um cientista que, embriagado pela arrogância do seu Paradigma, entrou em Queda e se tornou um Nefando distorcido, ou um Desperto completamente insano operando à margem do Consenso em um laboratório clandestino e fétido.
Já em Vampiro: A Máscara, as implicações narrativas de Re-Animator são de gelar o sangue de qualquer imortal. Pense na genialidade macabra de um Antigo do clã Tzimisce, que através da Disciplina de Vicissitude encara a carne e o osso não como limites sagrados, mas como argila profana a ser moldada em busca de uma “evolução” alienígena. Ou ainda, aplique a obsessão metodológica dos Hecata (ou dos eruditos Capadócios) em dissecar o exato limiar que separa o suspiro da morte do rigor mortis.
Para estruturar a sua crônica, a premissa é ouro puro: os jogadores da sua coterie são incumbidos pelo Príncipe de investigar uma série de desaparecimentos incômodos em hospitais universitários locais. O que eles descobrem no porão da faculdade de medicina é muito pior do que uma simples quebra das Tradições arquitetada por um bando Sabbat descuidado.
Eles encontram um mortal comum — ou quem sabe um carniçal obcecado que perdeu o vínculo com seu domitor — brincando de Deus. O verdadeiro terror para um Cainita nessa trama é o espelho distorcido que West representa: a criatura que ele faz levantar da mesa de cirurgia não é um zumbi clássico amarrado pelos ritos da Necromancia, nem um infeliz que recebeu o Abraço. É uma abominação que zomba do próprio conceito de não-vida. É a prova aterradora de que a humanidade, em seu desespero e genialidade doentia, é capaz de conjurar monstros que fazem até mesmo o predador alfa da noite recuar nas sombras.
2. Fantasia Medieval
Vamos despir Herbert West de seu jaleco branco manchado da Universidade de Miskatonic e vesti-lo com as túnicas encardidas de uma Academia Arcana, ou talvez com o avental de couro de um boticário clandestino.
Quando transportamos a premissa de Re-Animator para a fantasia medieval clássica, esbarramos em um debate metafísico fascinante que, como filósofo, eu adoro explorar em mesa: a diferença abismal entre o milagre e a anomalia.
Dungeons & Dragons
Em cenários de Alta Fantasia, como Dungeons & Dragons, a ressurreição é um fato conhecido. Clérigos canalizam a vontade divina para trazer uma alma de volta ao seu receptáculo de carne. Mas o que acontece quando a ciência arcana tenta “hackear” esse monopólio dos deuses? O nosso West medieval não é um necromante tradicional – aqueles vilões de capa preta que conjuram esqueletos descerebrados a serviço de um mestre.
Ele é um Artífice ou um Mago Transmutador genial, um iluminista distorcido que enxerga o corpo biológico como uma engrenagem que pode ser religada à força, sem pedir permissão a Kelemvor ou à Rainha dos Corvos. Ele ignora o consentimento da alma. O resultado é o equivalente medieval do Poço de Lázaro, do universo do Batman: a carne retorna, mas a mente volta fraturada, consumida por uma fúria instintiva e bestial, lembrando muito o trágico retorno de Jason Todd, porém desprovido de qualquer resquício de humanidade.
Tormenta20
Se formos para a fantasia nacional de Tormenta20, podemos situar esse horror em Valkaria. West seria um Alquimista devoto (ou um herege excomungado) de Wynna ou Tenebra, que sintetizou uma poção alquímica necrótica de coloração verde-musgo. A aventura pode começar com o grupo investigando algo trivial, como profanadores de túmulos no cemitério local, apenas para descobrir o laboratório desse acadêmico arrogante. Na cabeça dele, ele não está cometendo um crime profano; ele acredita piamente estar liderando “a revolução médica do século”, democratizando a vitória sobre a morte para aqueles que não têm o favor (ou o ouro) dos sumo-sacerdotes.
OSR
Contudo, se a sua mesa pende para o OSR, jogando sistemas mais letais, sujos e low fantasy como Old Dragon ou explorando os rincões obscuros do Ducado Veroda, o horror ganha contornos muito mais viscerais. Nesses cenários, a magia é escassa, perigosa e cobra um preço terrível.
O reanimador não está em uma torre de marfim, mas no porão lamacento de um vilarejo assolado por uma praga, misturando fluidos espinhais e ervas apodrecidas à luz de velas parcas. A criatura que ele desperta na mesa de cirurgia não é apenas um “monstro para dar XP”, mas um pesadelo tátil de carne retalhada que urra em agonia existencial.
E aqui entra a verdadeira quimera filosófica para os jogadores: o dilema moral. O grupo derrota o acadêmico louco, mas a poção verde brilha intacta no frasco. E se essa alquimia herege for a única chance fisiológica de curar ou trazer de volta um NPC vital para a campanha, ou até mesmo um Patrono amado pelos personagens?
A moralidade dos heróis é posta à prova: até que ponto eles estão dispostos a arriscar a ordem natural das coisas, sabendo que podem estar condenando a essência daquele que amam a uma prisão de instinto e dor apenas para não terem que lidar com o luto? É quando a fantasia deixa de ser apenas rolar dados e matar orcs, e passa a exigir que olhemos para o abismo da nossa própria hybris.
3. Sci-Fi / Cyberpunk
Quando mudamos a lente para a ficção científica e o cyberpunk, o horror de Re-Animator ganha contornos de transumanismo, biopolítica e de um debate existencial profundo. O reagente verde luminescente deixa de ser uma alquimia bizarra e se torna nanotecnologia de ponta militarizada.
Kuro
Em sistemas como Kuro, onde o peso inexorável do horror japonês colide com o avanço tecnológico opressor, ou nos becos de neon sujo de Cyberpunk RED, eu gosto de imaginar o nosso “Reanimador” como um ex-pesquisador corporativo de alto escalão — alguém nos moldes do que vemos na literatura de Neuromancer, de William Gibson, que sacrificou qualquer resquício de bússola moral no altar do progresso corporativo.
Nesse cenário mecanicista, o reagente é um fluido sintético de neuromodulação agressiva. Ele força a reativação das sinapses mortas e do hardware cibernético acoplado ao corpo, mas ao custo irreparável de fritar o córtex pré-frontal (justamente a área do nosso cérebro que regula os freios morais, o controle de impulsos e a nossa sociabilidade).
O resultado? Uma carne mecânica operante, mas desprovida do que poderíamos chamar de “Fantasma” ou “Alma”. Os jogadores entram como mercenários descartáveis, contratados por uma Megacorporação (como a Arasaka) para recuperar a propriedade intelectual roubada. Contudo, ao invadirem o laboratório clandestino nas entranhas fétidas de Neo-Tokyo ou Night City, o que seria uma missão de extração corporativa vira survival horror puro contra cobaias humanas ciberneticamente mutiladas e presas em um frenesi primitivo.
Shadowrun
Mas a reflexão filosófica fica ainda mais densa, sombria e fascinante se transportarmos esse laboratório para o Sexto Mundo de Shadowrun.
Eu acho a premissa de Shadowrun brilhante porque ela obriga a magia a coexistir com o cromo, e o conceito de “Essência” (a medida literal da integridade da alma humana frente às suas modificações mecânicas) é o pilar dessa realidade. Em Shadowrun, o nosso Herbert West poderia ser um Mago Hermético insano, financiado por recursos obscuros da Renraku ou da Aztechnology, trabalhando na intersecção letal entre nanotecnologia experimental e necromancia corporativa.
O horror metafísico atinge seu ápice aqui: ele não está apenas reanimando matéria inerte. Ele está forçando um espírito fraturado a habitar um corpo cuja Essência já despencou a zero.
Ele está criando, nos esgotos de Seattle, uma versão profana, barata e incontrolável dos temidos Cyber-Zumbis. Quando a equipe de runners invade o complexo, eles não enfrentam apenas uma falha genética ou um drogado em cyberpsicose. Eles encaram uma abominação existencial: um amálgama grotesco de magia corrompida, carne putrefata e aço, berrando em agonia porque o seu espírito foi arrancado à força do plano astral e acorrentado a um cadáver. É a arrogância humana e corporativa profanando não apenas o corpo físico, mas a própria metafísica do universo.
4. Super-Heróis
Seja em um cenário sombrio e opressivo focado na DC ou Marvel, ou nas cores vibrantes de um mundo com estética de anime, a premissa de Re-Animator é o laboratório perfeito para testar não apenas a força, mas a ética dos personagens.
Mutantes & Malfeitores
Em Mutantes & Malfeitores, essa narrativa serve como uma luva para um arco focado no nível “heróis de rua”, resgatando aquela atmosfera pesada e niilista que amamos nas HQs clássicas do Demolidor de Frank Miller ou do Batman. O que mais me atrai nessa abordagem é o dilema moral iminente: a maioria dos vigilantes urbanos possui um código estrito contra tirar vidas. Mas como o imperativo categórico kantiano de um herói se sustenta quando o oponente já está clinicamente morto?
O vilão aqui não tem superpoderes inerentes, raios cósmicos ou armaduras bilionárias; sua arma é o intelecto genial desprovido de qualquer amarra empática — pense em uma mistura do Professor Hugo Strange com a obsessão genética do Chacal (aquele que infernizou o Homem-Aranha na Saga do Clone).
Os heróis começam a enfrentar capangas do submundo que simplesmente não caem. Eles têm os ossos estilhaçados, ignoram a dor e, mesmo mutilados, continuam atacando com uma força animalesca aterradora. O clímax exige uma invasão claustrofóbica a um necrotério da cidade — talvez nas entranhas de uma instituição análoga ao Asilo Arkham —, onde os heróis precisam impedir o cientista de injetar o reagente em si mesmo ou, para o horror completo, nos heróis caídos e cidadãos inocentes da enfermaria.
3DeT Victory
Por outro lado, se a sua mesa roda o 3DeT Victory, abraçando a ação frenética e os tropos clássicos dos mangás e animes, o nosso Herbert West ganha a aura daqueles cientistas sociopatas maravilhosamente detestáveis. Ele assume o papel de um arquiteto do caos biológico, lembrando muito as atrocidades do Professor Hojo em Final Fantasy VII ou a genialidade doentia do Doutor Garaki de Boku no Hero Academia. Em termos de regras e mecânicas, o reagente verde se torna um buff assustador: capangas genéricos (“bucha de canhão”) recebem repentinamente vantagens como Imortal ou Morto-Vivo.
Eles passam a ignorar dano e testes de morte convencionais, forçando os heróis a pensarem estrategicamente. Não basta usar aquele super golpe especial que destrói quarteirões; é preciso incapacitar, desmembrar ou criar uma cura para neutralizar a toxina. O conflito obriga o grupo a repensar a própria violência.
Como um esquadrão de heróis coloridos lida com uma horda de carne ensandecida que não sente medo, não recua perante o poder da amizade e desafia as leis fundamentais da vida? É a ciência sádica testando o limite do heroísmo.
Caso compre nas lojas de algum de nossos parceiros aproveite nossos códigos promocionais:
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O romanceA Flecha de Fogo, de Leonel Caldela, foi uma publicação marcante para Tormenta: o catatau de 700 páginas, lançado em 2018, resolveu o destino de um dos maiores vilões do cenário – Thwor Ironsfist. Ele era o líder da Aliança Negra dos goblinóides – e modificou a formação do Panteão, um dos núcleos da identidade do cenário.
Thwor Ironsfist
Thwor fora criado por JM Trevisan 20 anos antes, numa matéria para a Dragão Brasil. O autor o estabelecia como uma espécie de Genghis Khan fantástico, que une as raças goblinóides sob o mesmo estandarte e destrói a civilização élfica.
Primeira aparição de Thwor Ironfist, na Dragão Brasil. Arte de André Valle
Pouco depois, em 1999, Tormenta teria sua estreia como encarte da revista. Thwor e sua Aliança Negra já constavam entre os maiores antagonistas do cenário. Ele era inteligente, brutal e carismático, o avanço do general e suas hostes monstruosas prometia o fim cataclísmico do Reinado.
Tendo a seu favor a arrogância e lentidão de resposta da civilização humana, Thwor era como um inimigo invencível, exceto por um misterioso calcanhar de Aquiles anunciado numa antiga profecia:
Quando a sombra passar pelo globo de luz
Trazendo a vida que trará a morte
Terá surgido o emissário da dor
O arauto da destruição
Seu nome será cantado por uns
E amaldiçoado por outros
O sangue tingirá os campos de vermelho
Um rei partirá sua coroa em duas
E a guerra tomará a tudo e a todos
Até que a sombra da morte complete seu ciclo
E a flecha de fogo seja disparada
Rompendo o coração das trevas
A Grande Ficha Caiu
Para quem já leu o Livro Básico de Tormenta 20, da Jambô Editora, lançado em 2019, o mistério de 20 anos da profecia já foi desvendado.
Thwor “rompe o coração das trevas” matando seu padroeiro, o deus da morte Ragnar, e ocupando seu lugar no Panteão. A Flecha de Fogo era um meteoro que seria usado por Ragnar para causar um genocídio entre os goblinóides que o adoravam.
Thwor, no entanto, consegue manipular o destino para que a Flecha de Fogo cause sua ascensão e o fim de Ragnar.
Nem só de conhecer “lore” vive a fantasia, e o romance ainda merece ser lido pelos fãs de Tormenta.
Corben
Acompanha a saga de Corben, um cidadão do Reinado e frade de Thyatis (deus da ressurreição e da profecia). Que entre grandes calamidades acaba tendo um papel central na história de Thwor e da Aliança Negra.
O livro se aprofunda na cultura goblinóide – ou duyshidakk – e na cosmologia original proposta por Thwor. O Akzath, onde o tempo e a causalidade não são lineares, e é possível compreender e afetar o mundo através de uma roda de conceitos que rege o universo.
O Akzath é um mapa sem norte para o Mundo Como Deve Ser
Além de permitir conhecer a fundo as adições à construção de mundo que tornaram Tormenta ainda mais único, o romance entra no diálogo sobre um assunto filosófico muito atual: o decolonialismo. Caldela traz as questões decoloniais pra dentro da história, para então, talvez, aplicá-las a si mesmas.
Esta resenha vai refletir sobre o diálogo de Caldela com o tema. O restante do texto possui spoilers de A Flecha de Fogo; quase tudo, porém, já está descrito no Livro Básico e no Guia de NPCs de Tormenta 20.
Buchas de Canhão
Os goblinóides nos RPGs são extensões dos orcs de Tolkien, acrescidos de temas caros a Gary Gygax (co-criador de D&D), derivados da literatura pulp e de seu estudo falho de História. Representam a barbárie como conceito, e também trazem traços da representação preconceituosa de povos não ocidentais (mesmo que a intenção não fosse essa).
Claro, monstros humanoides também significam a possibilidade de combates mortíferos sem ares de assassinato, seja no RPG ou em outras mídias.
Já o Reinado de Tormenta é representado como o Ocidente, de certa forma: é a ordem e o progresso. Hoje em dia, inclusive, representa o multiculturalismo, a igualdade perante a lei e a liberdade individual. O Reinado espelha os valores da democracia liberal de nosso mundo.
Os goblinóides já representaram a barbárie em Tormenta. Arte de André Vazzios
Como começa o romance
Na atualidade, começa com o tema do trauma: o protagonista, Corben, é várias vezes submetido a processos de abuso, cura e lavagem cerebral. Primeiro por sua família biológica, de doentes mentais abusivos; depois, tem a oportunidade de cura e segurança como parte do baixo clero.
Mas sua cidade é massacrada, e ele é cooptado por uma estranha seita que diz defender a civilização. Eles cuidam dele, e permitem a cura, para em seguida iniciar tentativas de controle e lavagem cerebral.
Finalmente, vira escravo da Aliança Negra, onde desenvolve uma complexa síndrome de Estocolmo, e se integra tão completamente a seus captores que se torna um de seus líderes espirituais. A cooptação através do escravismo, vale dizer, se parece muito com a que já foi praticada por alguns povos ameríndios, como os iroqueses.
Corben e os Goblinóides
Se Corben passa por esses ciclos de violência, cura e ressignificação (por vezes fanática) como indivíduo, os goblinóides o sofrem historicamente. Nos diálogos entre Corben e Thwor, em que o general inicia o protagonista no Akzath, enquanto Corben tenta justificar a Aliança Negra, Thwor deixa claro que ele e sua Aliança são literalmente “assassinos de crianças”.
O livro chega a ser metalinguístico: num momento em que o leitor está pronto para assumir os goblinoides da Aliança Negra como os novos heróis de Arton, Thwor, tirano filósofo, corrige o ímpeto. A justificação da brutalidade é preocupação do Reinado (do “Ocidente”), não dos goblinoides.
Além disso, a luta de Thwor não é por justiça para seu povo, mas uma cruzada cosmológica onde tudo – seu povo, seu deus e ele mesmo – são instrumentos.
Dançando com os lobos
(ou: tornando-se um bom selvagem)
Então, a saga de Corben poderia ser dividida assim: primeiro, entendemos seu ponto de vista “ocidental” (do Reinado) e seu medo e desprezo pelo Outro (os violentos e selvagens goblinóides). Mas a própria seita pró civilização demonstra a corrupção e loucura dos civilizados.
Em seguida, começa o exercício decolonial: os “outros” derivados do racismo são mostrados como uma civilização válida por seus próprios valores, cheia de força, vitalidade e beleza.
Assim, os goblinóides passam de “garotos propaganda” do colonialismo para “garotos propaganda” do decolonialismo. Sua representação fascinante não surge do vácuo, mas de uma crítica pungente às tradições da literatura fantástica e suas relações com o poder. Os goblinóides veem-se como oprimidos e sobreviventes (assim como os trabalhadores e minorias do Ocidente).
Importante notar
A desconstrução na fantasia já tem bastante tempo. Há 20 anos, World of Warcraft se tornou o jogo mais rentável do mundo apresentando orcs heroicos. Há quase 30, Kiril Yeskoc virava Tolkienn do avesso em O Último Anel. Essa tendência, no entanto, focou na inclusão de elementos realistas e numa simples negação do maniqueísmo.
A Flecha de Fogo, porém, é decolonial porque reivindica que o “outro” seja centro, a partir do ponto de vista daquele que, ao mesmo tempo, estranha e se identifica com esse outro.
O decolonialismo, afinal, é pensado por e para cidadãos do Ocidente (mesmo que de países periféricos) que o renegam e se identificam simbolicamente com “outros” não ocidentais.
Jantando os missionários
(ou: bom selvagem já morreu, quem manda na minha cosmologia sou eu)
Porém, a terceira parte da saga de Corben aplica a crítica decolonial ao próprio decolonialismo. Orientado por Thwor, Corben vai além da exaltação ingênua dos goblinóides. Nada mais ocidental que procurar mocinhos e bandidos na História. Só então o mergulho de Corben na visão de mundo goblinóide é completo.
Ele não é mais um “ocidental” do Reinado; nem mais um forasteiro deslumbrado; nem mais um goblinóide que se vê como vítima, ou seja, definido pela opressão humana/élfica/ocidental.
Ele adota a visão brutalmente livre e original da nação goblinóide: não há bem ou mal, há movimentos entre as forças conflitantes do destino. Corben só pode se tornar o segundo teólogo do Akzath, o pensamento goblinóide totalmente livre de amarras dos opressores, porque desiste até mesmo da noção de justiça histórica.
No Final
Como um bom épico, A Flecha de Fogo parte do histórico para chegar ao cosmológico. No fim, a guerra, as atrocidades e opressões entre humanos e goblinóides eram apenas uma escada para compreender um jogo universal que está além até mesmo dos deuses.
A própria cosmologia artoniana é renovada: a ascensão de Thwor, na medida em que o Akzath for verdadeiro, pode implicar que há uma cosmologia alternativa e simultânea por trás dos acontecimentos mundanos.
O Akzath é ao mesmo tempo uma novidade (pois decodificado por Thwor ao longo de sua vida) e uma destilação da milenar filosofia popular dos goblinóides, expressa por seu modo de vida e mesmo superstições.
Assim, a visão dos colonizados não é apenas resgatada a partir de sua elevação a sujeitos do universalismo ocidental, mas torna-se um centro possível da epistemologia fantástica de Arton.
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E aí pessoal, tranquilos? Em mais uma Quimera de Aventuras baseada nas expansões de Hearthstone abordaremos, desta vez, a expansão Cataclismo e a vinda destruidora do Asa da Morte de uma outra linha temporal (é, mais uma mídia com multiverso).
Na expansão temos a volta de Colossais, representando, principalmente, os generais e subalternos do Asa da Morte. Também há a mecânica de proclamar que dá mais poderes à carta do Asa da Morte e é parecido com outras mecânicas anteriores que davam poderes ou tornavam mais fortes Cthun (Cthulhu) e Galakrond.
Quimera de Aventuras
O Mal Supremo
Já começaremos com o próprio enredo da expansão. Aqui os aventureiros de nível muito elevado ou épico precisam destruir os generais do Asa da Morte e o próprio dragão negro e evitar que eles consumam e destruam todo o mundo conhecido.
Ragnaros, o Lorde das Chamas e o Grande Fogo que consome tudo com seus elementais de fogo que explodem quando morrem.
Chogall, o ogro bicéfalo que consome aliados para ficar mais forte.
Al’Akir, o Senhor das Tempestades e seus múltiplos ataques.
Sinestra, uma dragonesa corrompida.
Azshara, Senhora do Oceano que inunda costas e destroem embarcações com seus multiplos ataques vindos de seus tentáculos.
Onyxia Revivida, uma rainha dragonesa ressurgida como uma morta-viva que fica mais forte conforme usa seu próprio sangue para evocar lacaios.
Ultraxion, um dragão servo fiel do Asa da Morte.
Asa da Morte, o Quebra Mundo, é um dragão mais forte e mais poderoso que qualquer dragão ancião que possa existir.
Conseguindo aliados
Para impedir Asa da Morte, os herois deverão buscar ajuda dos druidas, entes e outras criaturas da floresta para lutar contra mortos-vivos e cultistas. Nessa empreitada haverá caçadores, rangers e similares que estarão acompanhados de dragões bondosos e de elementais não corrompidos na luta contra o Grande Mal.
Para isso, os aventureiros terão que salvar as florestas e as feras para que consigam a ajuda dos grandes reis animais. Bem como precisarão auxiliar os povos civilizados a conseguir artefatos arcanos e sagrados para facilitar na luta contra os asseclas malignos.
Cada grupo que luta contra o Asa da Morte pode necessitar de ajudas específicas para impedir que os generais do Quebramundo destruam as vidas dessa realidade.
O importante aqui é que cada missão será épica e destinada a salvar uma parte do mundo. A qual culminará com o grande embate para eliminar o invasor Asa da Morte.
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Depois de explorarmos, em Rotinas do Mundo, como horários, ciclos e hábitos moldam o cotidiano das sociedades, torna-se natural avançarmos para uma camada ainda mais sutil, porém igualmente reveladora: os gestos.
Se as rotinas mostram quando e como as pessoas vivem, a etiqueta e a linguagem corporal revelam como elas se relacionam entre si.
Em mundos de fantasia, pequenos movimentos carregam significados profundos. Um olhar direto pode representar respeito em uma cultura e desafio mortal em outra. Um simples gesto com as mãos pode indicar confiança, ameaça ou até intenção mágica.
Assim, ao trabalhar etiqueta e linguagem corporal, o worldbuilder adiciona uma dimensão invisível que enriquece cada interação.
Portanto, entender esses códigos não apenas torna o mundo mais vivo, mas também cria oportunidades narrativas intensas, onde um gesto errado pode desencadear conflitos inesperados.
1. O Olhar Como Confronto ou Respeito
Antes de tudo, o contato visual pode assumir significados completamente diferentes.
Em algumas culturas, olhar nos olhos demonstra sinceridade e coragem. No entanto, em outras, esse mesmo gesto representa desafio direto, quase um convite ao combate.
Assim, personagens precisam aprender rapidamente onde estão para evitar conflitos desnecessários.
2. Mãos Visíveis e Confiança
Além disso, mostrar as mãos pode carregar um peso simbólico importante.
Em sociedades onde magia pode ser conjurada com gestos, manter as mãos visíveis transmite segurança e ausência de ameaça.
Por outro lado, esconder as mãos pode levantar suspeitas imediatas.
3. Distância Corporal e Hierarquia
A proximidade física também comunica poder.
Certas culturas valorizam distância como sinal de respeito, enquanto outras interpretam proximidade como demonstração de confiança.
Dessa forma, invadir ou evitar espaço pessoal pode alterar completamente uma interação social.
4. Postura e Posição do Corpo
A forma como alguém se posiciona revela intenções e status.
Uma postura ereta pode indicar autoridade, enquanto inclinar-se levemente pode representar submissão ou respeito.
Assim, personagens comunicam muito antes mesmo de falar.
5. Gestos Codificados e Comunicação Secreta
Algumas sociedades desenvolvem gestos específicos que funcionam como linguagem paralela.
Movimentos sutis de dedos, inclinação de cabeça ou batidas rítmicas podem transmitir mensagens ocultas.
Portanto, esses códigos permitem comunicação silenciosa em ambientes hostis.
6. Etiqueta Religiosa e Gestos Sagrados
Em contextos religiosos, gestos assumem significado ainda mais profundo.
Tocar o chão, levantar as mãos ou inclinar a cabeça pode representar devoção, arrependimento ou conexão espiritual.
Assim, desrespeitar esses rituais pode gerar conflitos graves.
7. Expressões Faciais e Controle Emocional
Nem toda cultura valoriza a expressão emocional aberta.
Em alguns povos, demonstrar sentimentos publicamente indica fraqueza. Em outros, esconder emoções pode ser visto como desonestidade.
Dessa maneira, controlar ou expressar emoções se torna parte da etiqueta.
8. Gestos Ofensivos e Tabus Invisíveis
Cada sociedade possui gestos considerados ofensivos.
Um sinal comum em uma região pode ser profundamente insultante em outra.
Assim, personagens estrangeiros frequentemente cometem erros que revelam tensões culturais.
9. Linguagem Corporal em Combate
Mesmo em situações de conflito, gestos continuam relevantes.
A forma de empunhar uma arma, a posição dos pés ou a inclinação do corpo pode indicar estilo de luta, intenção ou estratégia.
Portanto, a linguagem corporal também funciona como leitura tática.
10. Mudanças ao Longo do Tempo
Por fim, gestos não permanecem estáticos.
Com o passar das gerações, significados mudam, tradições se adaptam e novos códigos surgem.
Assim, a etiqueta reflete a história viva de uma sociedade.
Conclusão
Gestos, etiqueta e linguagem corporal representam uma das formas mais ricas de aprofundar um mundo de fantasia.
Eles mostram que cultura não vive apenas em leis ou tradições formais, mas também nos pequenos movimentos do dia a dia.
Ao incorporar esses elementos, o worldbuilder transforma interações simples em momentos carregados de significado. Um olhar, um gesto ou uma postura podem dizer mais do que longos discursos.
No fim, talvez o detalhe mais poderoso de um mundo não esteja nas grandes batalhas ou eventos épicos, mas naquilo que acontece em silêncio, quando ninguém está falando, mas todos estão se comunicando.
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Depois de entendermos como Transformar Falhas em momentos significativos, damos mais um passo importante na evolução como mestre. Afinal, não basta saber narrar bem o que acontece; também é essencial saber quando não narrar. Em muitos casos, o impacto de uma cena não vem das palavras ditas, mas justamente do que é deixado em silêncio. Além disso, pausas, olhares e descrições mínimas podem carregar uma força emocional que longos discursos nunca alcançam.
Por outro lado, existe um momento em que o silêncio ganha um peso ainda maior: quando uma campanha precisa terminar antes do planejado. Seja por falta de tempo, mudanças na vida dos jogadores ou desgaste natural da mesa, encerrar uma história de forma abrupta pode gerar sensação de abandono. Portanto, saber usar o silêncio tanto dentro da narrativa quanto no fechamento dela se torna uma habilidade poderosa.
Muitos mestres acreditam que precisam preencher todos os espaços com descrição, diálogo e explicação. No entanto, o silêncio também comunica. Quando bem utilizado, ele cria tensão, provoca curiosidade e amplia o envolvimento emocional dos jogadores. Da mesma forma, ao encerrar uma campanha inesperadamente, o silêncio pode ser usado para dar dignidade à história, evitando explicações apressadas e finais artificiais.
Assim, dominar o silêncio significa dominar o ritmo, a emoção e o encerramento da narrativa.
Use pausas para criar expectativa
Durante uma cena importante, parar por alguns segundos antes de revelar o resultado pode aumentar a tensão de forma imediata e muito eficaz. Quando um jogador realiza uma ação decisiva, como um ataque final ou uma tentativa arriscada de negociação, uma pausa breve, acompanhada de um olhar atento, faz com que todos na mesa se inclinem para frente, esperando o desfecho.
Além disso, essa pequena interrupção quebra o ritmo automático da conversa e transforma um simples anúncio de resultado em um momento carregado de expectativa. Com o tempo, os jogadores passam a reconhecer esse padrão e associam suas pausas a momentos importantes, o que fortalece ainda mais o impacto emocional da cena.
Deixe que os jogadores preencham o vazio
Nem tudo precisa ser explicado com riqueza de detalhes. Quando você descreve apenas o essencial, os jogadores naturalmente completam o restante com a própria imaginação, e isso gera um envolvimento muito mais profundo. Ao dizer que uma porta antiga se abre lentamente e que um cheiro estranho escapa de dentro, você não precisa mostrar o que há além, a mente dos jogadores já começa a trabalhar.
Além disso, quando cada jogador imagina a cena de forma ligeiramente diferente, o medo, o mistério ou a curiosidade se tornam mais pessoais. Esse tipo de construção compartilhada cria uma experiência muito mais rica do que uma descrição totalmente fechada.
Use o olhar e a linguagem corporal
Mesmo sem dizer nada, você comunica muita coisa durante a sessão. Um olhar mais fixo, uma mudança sutil na expressão facial ou até um silêncio repentino após uma ação dos jogadores podem sugerir que algo importante aconteceu ou está prestes a acontecer. Esse tipo de comunicação não verbal adiciona uma camada extra de tensão.
Por exemplo, quando um jogador toma uma decisão aparentemente simples e você apenas mantém o olhar por alguns segundos antes de responder, a mesa inteira começa a questionar o peso daquela escolha. Assim, você cria expectativa sem precisar aumentar a complexidade da narrativa.
Corte descrições no momento certo
Saber quando parar de descrever é tão importante quanto saber descrever. Em vez de detalhar todos os elementos de uma cena, escolha apenas alguns pontos fortes e deixe o restante implícito. Um corredor escuro, um som distante e uma sombra que se move rapidamente já criam uma atmosfera suficiente.
Além disso, descrições longas podem diminuir o ritmo e diluir a tensão. Quando você corta no momento certo, a imaginação dos jogadores entra em ação e amplia o impacto da cena. Isso torna a experiência mais dinâmica e evita sobrecarga de informação.
Permita que o silêncio carregue emoção
Após uma cena intensa, é comum sentir vontade de continuar narrando ou de explicar as consequências imediatamente. No entanto, dar espaço para o silêncio pode ser muito mais poderoso. Depois de uma derrota marcante ou de uma revelação importante, alguns segundos sem fala permitem que os jogadores processem o que aconteceu.
Esse momento cria uma pausa emocional que reforça o peso da cena. Além disso, ele demonstra respeito pelo envolvimento dos jogadores, permitindo que cada um reaja à sua maneira antes que a narrativa avance.
Use o silêncio como ferramenta de mistério
O mistério cresce quando você não entrega todas as respostas. Um NPC que interrompe uma frase no meio, um som que aparece e desaparece sem explicação ou uma figura vista apenas de relance criam dúvidas que permanecem na mente dos jogadores.
Esses elementos, quando usados com intenção, fazem com que o grupo comece a investigar por conta própria. Assim, o silêncio não representa ausência de conteúdo, mas sim um espaço ativo onde a curiosidade se desenvolve.
Evite preencher tudo com respostas
Responder todas as perguntas imediatamente pode parecer eficiente, mas reduz o envolvimento dos jogadores. Quando você permite que algumas dúvidas permaneçam, o grupo passa a discutir, levantar hipóteses e explorar mais o cenário.
Além disso, esse espaço para incerteza mantém o interesse vivo entre sessões. Os jogadores continuam pensando na campanha mesmo fora da mesa, o que fortalece o vínculo com a história.
Ao encerrar cedo, escolha um foco emocional
Quando a campanha precisa terminar antes do planejado, tentar resolver todas as tramas costuma gerar um final apressado e superficial. Em vez disso, escolha um elemento central, como uma relação importante ou um conflito principal, e dê atenção especial a ele.
Por exemplo, um último encontro entre personagens que compartilharam uma jornada pode ser muito mais marcante do que tentar explicar todos os acontecimentos pendentes. Assim, você garante um fechamento emocional consistente.
Use elipses narrativas com intenção
Nem tudo precisa ser mostrado até o último detalhe. Ao sugerir o que acontece depois, você permite que os jogadores imaginem o futuro dos personagens. Um salto no tempo, uma carta final ou uma cena breve indicando o destino de cada um já criam um senso de continuidade.
Essa técnica evita finais abruptos e, ao mesmo tempo, mantém a narrativa aberta o suficiente para que ela continue existindo na imaginação do grupo.
Transforme o encerramento em um momento coletivo
Encerrar uma campanha não precisa ser uma decisão unilateral. Ao convidar os jogadores a descreverem o destino de seus personagens, você transforma o final em uma construção compartilhada. Cada jogador pode mostrar onde seu personagem chegou e o que mudou ao longo da jornada.
Além disso, esse momento fortalece o vínculo entre os participantes e cria uma sensação de encerramento mais completa e satisfatória.
Deixe um eco, não um ponto final
Um bom final não precisa responder tudo. Na verdade, deixar um pequeno mistério ou uma possibilidade em aberto pode tornar a história ainda mais memorável. Um símbolo reaparecendo, uma promessa não cumprida ou uma última cena sugestiva criam um eco que permanece.
Dessa forma, a campanha não termina de forma rígida, mas continua viva na memória dos jogadores, reforçando o impacto emocional da experiência.
Conclusão
Saber usar o silêncio é uma das habilidades mais sofisticadas de um mestre. Enquanto palavras constroem o mundo, pausas e ausências dão profundidade a ele. Além disso, ao lidar com o encerramento inesperado de uma campanha, o silêncio se torna aliado na construção de finais dignos, sensíveis e memoráveis.
No fim das contas, nem tudo precisa ser dito para ser sentido. E, quando o mestre entende isso, cada pausa, cada olhar e cada palavra não dita passam a carregar um peso narrativo imenso. Assim, a mesa deixa de depender apenas daquilo que é falado e passa a viver também daquilo que é percebido.
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Saudações, rpgistas! Como filósofo e um nerd crônico que já consumiu incontáveis madrugadas rolando paradas de dados e dissecando o fino tecido ético que separa os heróis de seus algozes, eu consolidei uma tese muito clara ao longo dos anos.
A de que os monstros mais assustadores que enfrentamos nas mesas (e na vida) raramente ostentam presas sujas de sangue, garras de metamorfos ou invocam horrores cósmicos com tentáculos. Não. Na grande maioria das vezes, a verdadeira Besta veste sapatênis, levanta a mão com cinismo nas reuniões de condomínio e mora, de forma assustadoramente pacata, no apartamento ao lado.
Hoje, na “Quimera de Aventuras” convido vocês a um exercício de metafísica e terror urbano. Vamos dissecar Os Outros — indiscutivelmente uma das obras mais viscerais, claustrofóbicas e brilhantes da teledramaturgia nacional recente.
O cenário funciona como o laboratório perfeito para observarmos o colapso do contrato social em tempo real e, claro, extrairmos o sumo do terror psicológico para as nossas sessões de RPG.
Portanto, puxem uma cadeira, sirvam-se daquele café amargo (ou de algo mais forte para testar a Sanidade), deixem as fichas a postos e vamos entender por que o verdadeiro inferno nunca precisou de fogo e enxofre para queimar.
A trama nos convida a explorar as entranhas do Barra Diamond, um imponente condomínio de classe média e média-alta na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Pensem neste local como a clássica “zona segura” de uma campanha de horror ou sobrevivência — um microcosmo murado, repleto de guaritas, aplicativos de mensagens e câmeras, projetado para ser um oásis de tranquilidade burguesa intocável pela violência do mundo exterior.
Contudo, a ilusão do contrato social desmorona a partir de um gatilho perigosamente banal: uma briga visceral na quadra de esportes entre dois adolescentes, Marcinho e Rogério. O que, em qualquer sociedade funcional, não passaria de uma advertência no livro de ocorrências da portaria, aqui se torna o estopim de um barril de pólvora existencial.
As famílias dos garotos — de um lado, a superprotetora Cibele e seu marido anestesiado Amâncio; do outro, o impulsivo Wando e a oprimida Mila — abandonam o verniz da civilidade e mergulham numa espiral de retaliações desproporcionais, transformando a convivência em uma guerra civil declarada.
Tudo para preparar terreno…
É exatamente neste terreno de rancor, paranoia e vaidade ferida que emerge o grande catalisador da trama: Sérgio. Habitante do mesmo condomínio e ex-policial expulso da corporação, Sérgio veste com maestria o arquétipo daquele NPC ardiloso e manipulador (um verdadeiro vilão Caótico e Mau camuflado nos trajes da rotina).
Em vez de tentar apaziguar os ânimos, ele percebe a falência moral à sua volta e enxerga nela uma oportunidade de poder e lucro. Sérgio se infiltra nas rachaduras éticas de seus vizinhos, insuflando o medo e oferecendo soluções milicianas “práticas” para pessoas que, cegas pelo ódio, já cruzaram a linha do não-retorno.
Sem entregar os abismos para os quais a narrativa nos arrasta, a premissa de Os Outros brilha justamente pela sua escalada. Não acompanhamos o embate maniqueísta entre heróis e vilões clássicos, mas sim o trágico espetáculo de pessoas comuns, amedrontadas e orgulhosas, marchando voluntariamente rumo à barbárie enquanto tentam desesperadamente provar para os vizinhos que são os “cidadãos de bem” da história.
Opinião Pessoal
Na minha leitura filosófica — e confesso, como espectador que achou essa série absolutamente excepcional —, Os Outros transcende o mero drama; é um ensaio brutal, claustrofóbico e cirúrgico sobre a fragilidade humana.
O roteirista-chefe, Lucas Paraizo, manipula arquétipos e conceitos densos de filosofia política e do existencialismo europeu com a mesma naturalidade assustadora com que Neil Gaiman tece os domínios dos Perpétuos em Sandman.
Como filósofo e um fã confesso do existencialismo, para mim, a obra é um grito sartriano ensurdecedor. É impossível não ser tragado pela essência da peça teatral Huis Clos (Entre Quatro Paredes) de Jean-Paul Sartre.
Por conta disso…
O opulento condomínio carioca funciona metodologicamente como uma versão mastodôntica da câmara hermética e opressiva idealizada pelo filósofo francês. No além-túmulo de Sartre, a revelação genial é que a verdadeira e infinita tortura não eram demônios empunhando tridentes ou lagoas de fogo, mas sim o olhar incessante, devorador e perenemente julgador do outro.
No Barra Diamond, os infinitos muros de concreto, as guaritas e o monstruoso sistema com centenas de câmeras criam um ambiente de hipervigilância social onde a privacidade é apenas uma ilusão de ótica comercializada. É a encarnação perfeita e dolorosa da paranoia moderna definida pela frase “L’enfer, c’est les autres” (O inferno são os outros).
O terror mais abissal não é a violência física em si, mas a nossa incapacidade crônica de introspecção, que nos leva a projetar cruelmente nossas próprias falências éticas e fracassos conjugais na reputação do vizinho de corredor.
Ademais, a série é a perfeita e trágica ilustração do empirismo político de Thomas Hobbes delineado em O Leviatã. A micro-sociedade do condomínio fechado apresenta-se como uma tentativa ambiciosa de instituir um Leviatã local e higienizado — firmado por atas de convivência e pela frágil autoridade da síndica.
Contudo, quando esse verniz civilizatório fissura a partir do conflito infantil na quadra, as famílias são devolvidas impiedosamente ao mais cruel estado de natureza. Regressamos num piscar de olhos à bellum omnium contra omnes (a guerra de todos contra todos).
Sem o Estado regulador mediando o atrito, Wando tenta estabelecer sua hegemonia primata baseada unicamente na força física e intimidação, enquanto Cibele persegue a falsa ilusão de segurança e o empoderamento falacioso empunhando armamento letal (o seu mini-Leviatã de bolso).
Quimera de Aventuras
Nesta sessão a obra entra na Quimera e colocamos algumas ideias de uso para aventuras de RPG. Entretanto fique ciente que para isto, teremos que dar alguns spoilers da obra. Leia por sua conta e risco.
Como Narrador e Filósofo, preciso fazer um adendo crucial antes de entrarmos nas adaptações: a nossa missão na mesa de RPG não é prender os jogadores num trilho e forçá-los a reencenar a série cena por cena. Isso tira a agência e mata a diversão. O que nós queremos aqui é roubar o motor narrativo e a estrutura psicológica da obra.
A receita base é: pegue uma “zona segura”, insira um conflito inicial banal que fira o orgulho das partes, retire a eficácia da autoridade mediadora e deixe que o ego transforme tudo numa espiral de barbárie, enquanto um oportunista (o NPC antagonista) manipula as peças para lucrar com o caos.
Veja como transpor esse colapso moral para as mecânicas e a lore dos nossos sistemas favoritos:
Fantasia Medieval (D&D, Old Dragon, T20)
O Cenário: Uma guilda reclusa, o castelo fortificado de uma ordem de paladinos, ou uma cidadela élfica isolada. O “condomínio” é a Safe Zone, o local onde os aventureiros deveriam descansar, e não lutar.
O Conflito: Substitua a briga na quadra por um duelo de treinamento não sancionado entre dois escudeiros (ou aprendizes de magia). O atrito leva os líderes de facções — outrora nobres e honrados — a uma intriga política. O orgulho fala mais alto que a honra, descambando rapidamente para assassinatos velados e sabotagem mágica.
A Ameaça: Sérgio é o Capitão da Guarda corrupto ou o conselheiro real. Ele usa a rixa dos nobres para extorquir ouro e consolidar uma milícia fiel apenas a ele dentro dos muros.
O Foco Mecânico: A verdadeira masmorra não é subterrânea; é a rede de salões sociais. Desafie os alinhamentos dos jogadores (especialmente os Leais e Bons). A tensão deve focar menos em rolagem de Dano e mais em testes de Intuição (Insight), Enganação e Persuasão. O horror medieval aqui é perceber que a poção de cura do clérigo vizinho pode, na verdade, estar envenenada.
Horror Moderno (Chamado de Cthulhu, Ordem Paranormal)
O Cenário: Uma base de pesquisa isolada ou o próprio condomínio moderno, sitiado por uma tempestade anômala que impede a comunicação com o exterior.
O Conflito: A paranoia humana é o prato principal, servindo de miasma para o oculto. O atrito e a retaliação entre as famílias não apenas assustam, mas afinam o Véu da realidade. O ódio atua como um ímã.
A Ameaça: Sérgio não quer apenas dinheiro; ele é o líder de um culto incipiente (ou está sendo sussurrado por algo). O terror psicológico e a extorsão gerada pelos vizinhos são, inconscientemente, os rituais de sacrifício necessários para invocar uma Entidade Exterior.
O Foco Mecânico: Use e abuse das rolagens de Sanidade. Mas aqui está o pulo do gato: os jogadores não perdem Sanidade por verem um monstro com tentáculos, mas sim ao descobrirem os atos hediondos, cruéis e sádicos que pessoas “normais” e pais de família são capazes de cometer a portas fechadas. O maior horror é descobrir que o monstro lá fora foi convidado pelos podres lá de dentro.
Mundo das Trevas (Vampiro, Mago, Lobisomem)
Este é o habitat natural da obra! O existencialismo e a hipocrisia política já estão no DNA do sistema.
O Cenário: O Elysium de um Domínio restrito (talvez de uma Camarilla decadente), onde os Anciões e Ancillae fingem uma urbanidade impecável em seus ternos de grife.
O Conflito: Dois Neófitos disputam um território de caça insignificante. Seus Senhores (Primogênitos orgulhosos) recusam a mediação ineficaz do Príncipe. O que era uma briga de novatos vira uma guerra fria de atrito: propriedades são queimadas, contas bancárias são congeladas e Ghouls (os lacaios oprimidos) são mortos como aviso.
A Ameaça: Um Nosferatu ardiloso ou um Brujah/Caitiff anarquista observa tudo das sombras. Ele chantageia os anciões com vídeos de seus atos quebrando a Máscara ou as Tradições, usando o caos para dar um golpe de estado na corte.
O Foco Mecânico: Testes de Humanidade constantes. Até que ponto um vampiro vai para não perder a pose perante seus pares? Cada retaliação mesquinha é um passo mais perto da Besta.
Mundo Heróico (Mutantes e Malfeitores, 3DeT Victory)
O Cenário: Uma comunidade fechada ou base estelar exclusiva para heróis aposentados/ativos e suas famílias. Pense numa Guerra Civil (Marvel) ou Injustice (DC), mas em escala de vizinhança.
O Conflito: Os filhos adolescentes (ou sidekicks) usam seus poderes de forma irresponsável durante uma discussão, causando ferimentos graves. Os pais — heróis de ideologias opostas, como um Superman certinho contra um Batman impiedoso — entram em conflito. A briga vaza para a mídia, envolvendo processos judiciais e destruição de reputações.
A Ameaça: Nosso antagonista (o “Sérgio”) é um vigilante linha-dura, um anti-herói desonrado que aproveita o racha moral para eliminar metodicamente os heróis que ele considera “fracos”, instaurando uma ditadura fascista sob o pretexto de “trazer ordem” à base.
O Foco Mecânico: Explore as Complicações e os laços dos personagens. O desafio não é vencer o vilão com um soco atômico, mas lidar com o dano colateral de usar superforça em um ambiente doméstico. O foco é a moralidade: quem vigia os vigilantes quando eles perdem a cabeça no grupo do condomínio?
O Sistema Perfeito: Verdades e Segredos
Para viver o drama de Os Outros de verdade, vamos deixar os dados tradicionais e os Pontos de Vida um pouquinho de lado. O nosso jogo vai usar um baralho comum! Em “Verdades e Segredos”, o que importa é a história. Os grandes “segredos” dos personagens são a gasolina que faz a narrativa andar.
Aqui, ninguém perde vida com espada ou tiro. A nossa “vida” é a reputação e a paz de espírito. Você ataca os outros soltando um podre no grupo do WhatsApp, até que a pessoa não aguente mais a vergonha. No jogo, fofocas e brigas causam “Condições” (como deixar o personagem Odiado ou Estressado) que diminuem as cartas que você tem na mão. O “cancelamento” virtual e moral é a grande arma desse nosso cenário.
O Elenco do Caos: Ideias de Personagens
Aqui vão algumas ideias de fichas para vocês se inspirarem, baseadas nos personagens da série. Vejam como é simples:
Cibele (A Mãe Superprotetora / Rainha de Espadas)
A Verdade (Máscara): “Eu sou uma mãe amorosa e faço qualquer sacrifício do mundo para garantir a segurança e o bem-estar do meu filho amado.”
O Segredo (O lado sombrio): “Eu estou disposta a pagar subornos, me aliar a criminosos e destruir a vida de qualquer vizinho que ameaçar minha família.”
Trunfos (Ativos): Arma ilegal escondida (Paus 2), Rede de vizinhas fofoqueiras (Copas 1).
Wando (O Marido Agressivo / Rei de Paus)
A Verdade (Máscara): “Sou o homem da casa, trabalhador, e ensino meu filho a ser forte e respeitado por todos.”
O Segredo (O lado sombrio): “Sou um cara muito inseguro e desconto minhas frustrações sendo violento com a minha esposa em segredo.”
A Verdade (Máscara): “Sou apenas um ex-policial preocupado em manter nosso condomínio seguro e em paz.”
O Segredo (O lado sombrio): “Eu crio e incentivo as brigas entre os vizinhos para poder ganhar dinheiro e poder em cima do medo deles.”
Trunfos (Ativos): Arsenal de Armas (Paus 3), Documentos para Chantagem (Espadas 2).
Esconderijo: A garagem escura e isolada do prédio.
Considerações Finais
Para que a mesa tenha aquele clima tenso de “o inferno são os outros” (como diria o grande filósofo Sartre), o Narrador precisa fazer o “condomínio” parecer vivo e sufocante.
Uma dica de ouro é desenhar um “Relógio de Tensão” no papel (um círculo dividido em fatias). Chame-o de “O Fim da Boa Vizinhança”. Cada vez que um jogador tomar uma atitude muito agressiva ou soltar uma fofoca cruel, pinte um pedacinho desse relógio. Quando ele completar, o caos toma conta! A polícia pode bater na porta, um personagem pode ser expulso do prédio, e a civilidade acaba de vez.
Um Abraço de Cuidado (A Sessão Zero): Rpgistas, essa adaptação lida com temas muito profundos e difíceis, como violência doméstica e abuso psicológico. Por favor, nunca pulem a Sessão Zero e usem sempre ferramentas de segurança (como o Cartão X) na mesa. O RPG é um lugar maravilhoso de diversão e, às vezes, ajuda a colocar sentimentos para fora de forma saudável, mas jamais deve fazer alguém se sentir mal ou reviver traumas do mundo real. Vamos sempre cuidar uns dos outros durante o jogo, combinado?
Pensem com carinho antes de jogar a próxima carta. Às vezes, o nosso maior segredo já foi gravado pelas câmeras do elevador.
Rolem osmdados (ou puxem as cartas) com sabedoria,
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Se liga na Liga das Trevas o espaço especial dedicado apenas ao Mundo das Trevas e o que remete a ele! E acompanhe também as outras sessões, por favor!
Depois de explorarmos, em Cheiros do Mundo, como aromas invisíveis constroem identidade, memória e percepção nos cenários de fantasia, torna-se natural avançarmos para outra camada igualmente essencial, embora muitas vezes ignorada: o ritmo da vida.
Se o cheiro revela a atmosfera de um lugar, a rotina revela como esse lugar realmente funciona.
Afinal, todo mundo vive dentro de rotinas. No entanto, em mundos fantásticos, esses ciclos raramente seguem padrões simples. Múltiplos sóis, luas imprevisíveis, fenômenos mágicos ou criaturas perigosas podem redefinir completamente o que significa “dia” e “noite”.
Assim, horários, hábitos e rotinas deixam de ser apenas organização prática e passam a refletir cultura, sobrevivência e adaptação.
Portanto, ao construir um cenário, pensar no ritmo de vida não apenas enriquece o mundo, mas também transforma a forma como personagens interagem com ele.
1. Quando o Dia Não Começa ao Amanhecer
Antes de tudo, nem toda sociedade inicia suas atividades com o nascer do sol.
Em regiões onde criaturas solares representam ameaça, comunidades inteiras evitam a luz do dia e vivem durante a noite.
Assim, mercados, encontros sociais e até celebrações acontecem sob a escuridão.
2. Múltiplos Sóis e Ritmos Irregulares
Em mundos com mais de um sol, o conceito de “dia” pode se fragmentar.
Algumas regiões enfrentam períodos de luz contínua, enquanto outras vivem ciclos sobrepostos de claridade e sombra.
Dessa forma, rotinas se tornam flexíveis e adaptáveis, com intervalos de descanso distribuídos ao longo do tempo.
3. Luas que Determinam Comportamentos
Além disso, luas podem influenciar diretamente o cotidiano.
Certas sociedades organizam atividades com base em fases lunares, especialmente quando magia ou criaturas reagem a esses ciclos.
Assim, decisões importantes podem depender não do relógio, mas do céu.
4. Trabalho Adaptado ao Perigo
Em muitos cenários, o horário de trabalho não depende apenas da necessidade econômica, mas também da segurança.
Campos podem ser cultivados em horários específicos para evitar predadores, enquanto viagens só acontecem em janelas seguras.
Portanto, o ritmo de produção reflete o equilíbrio entre necessidade e sobrevivência.
5. Lazer em Tempos Incomuns
Se o trabalho muda, o lazer também se transforma.
Festivais podem ocorrer durante eclipses, tempestades mágicas ou momentos raros de estabilidade ambiental.
Assim, o entretenimento se torna um evento precioso, ligado a condições específicas do mundo.
6. Relações Afetivas e Descompasso de Rotina
Rotinas diferentes impactam diretamente relações pessoais.
Pessoas que vivem em ciclos distintos podem ter dificuldade para se encontrar, conversar ou construir vínculos.
Dessa forma, o tempo se torna um fator emocional, não apenas logístico.
7. Crianças e Aprendizado em Ciclos Alternativos
Educação também se adapta ao ritmo do mundo.
Em sociedades com horários irregulares, o aprendizado ocorre em blocos flexíveis, muitas vezes guiados por eventos naturais ou mágicos.
Assim, o conceito de “hora de estudar” pode variar drasticamente.
8. O Corpo Adaptado ao Ambiente
Com o passar do tempo, habitantes de um mundo ajustam seus próprios corpos às rotinas locais.
Povos noturnos desenvolvem visão aguçada na escuridão, enquanto habitantes de regiões instáveis aprendem a dormir em intervalos curtos.
Portanto, o ritmo de vida molda não apenas hábitos, mas também biologia.
9. Medição do Tempo e Cultura
Nem todas as sociedades utilizam relógios convencionais.
Algumas medem o tempo por batimentos mágicos, ciclos de criaturas ou mudanças ambientais.
Assim, o próprio conceito de pontualidade pode variar de cultura para cultura.
10. Quando o Ritmo se Quebra
Por fim, qualquer alteração nos ciclos pode causar caos.
Um eclipse permanente, a morte de uma lua ou o surgimento de um novo sol podem desestabilizar completamente a sociedade.
Nesse contexto, adaptar-se rapidamente se torna essencial para a sobrevivência coletiva.
Conclusão
As rotinas do mundo definem muito mais do que horários. Elas revelam como uma sociedade se adapta ao ambiente, lida com perigos e constrói relações.
Enquanto grandes eventos moldam a história, são os pequenos ciclos diários que sustentam a vida.
Para o worldbuilder, pensar no ritmo de vida significa dar profundidade ao cenário. Personagens deixam de existir em um espaço genérico e passam a viver em um mundo que respira, muda e exige adaptação constante.
No fim, talvez o detalhe mais importante não seja o que acontece em um mundo, mas quando e como as pessoas escolhem viver dentro dele.
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Somos todos gladiadores na nossa luta diária. Talvez desde que nascemos, pois todos querem ouvir o choro após o nascimento. Se a criança não chora, tem algo errado. Na maioria das vezes, muito errado.
Mas chame seu grupo, pegue seu gládio (espada típica destes combates, daí o nome gladiadores), escudo, e armadura. Você está escutando isso? O clamor da plateia? Estão nos aguardando. Venha comigo.
Aviso: este tema pode conter gatilhos. Considero que se você está lendo isso, você é um gladiador da vida urbana e/ou suburbana, como eu. Espero que possamos quebrar nossos grilhões. Acredite que você pode virar o jogo, transforme falhas em acertos.
Gladiadores e RPG
Mas quem eram os gladiadores? Em sua maioria escravizados, mas também prisioneiros de guerra, nobres que caíram em desgraça/dívidas, ou pessoas pobres, que tentavam escapar da miséria. Ainda hoje, RPGs abordam este assunto? Certamente.
E há registro de gladiadores femininos? Ou gladiadoras? Sim! Pelos registros históricos, até o ano de 1200, eram permitidas lutas femininas, embora fossem muito mais raras que as masculinas, e claro, não contra homens, como algumas partidas de tênis deste século.
Gladiadores e a cultura pop
Aelius Maximus, o Gladiador
Ah, correto. Tudo a ver.
Filmes: Spartacus, Gladiador, Gladiador 2.
Videogames: The gladiator — Road of the sword (arcade), Shadow of Rome (PS2, stealth), Age of gladiators II, Gladiator manager (pra celular, tenho, e muito bom).
Livros: Guia Gladiadores, A Era dos Gladiadores, Gladiador, Filho de Spartacus e assim por diante.
Gladiadores dos Dias Atuais
Agora, vou cutucar a onça com vara curta…
Eu, já de longa data, associo esportes competitivos de luta, com lutas de gladiadores. Vamos pensar um pouco. Revisemos nossa estratégia, se pretendemos sair vivos desta arena…
Luta de boxe: grandes boxeadores morreram por apresentar micro hemorragias cranianas, pelos golpes na cabeça. Com AVC, doença de Parkinson, e outras doenças neurodegenerativas.
Futebol Americano: embora indústria de milhões, há documentários sobre os traumas em alta velocidade, com alterações também levando a degeneração precoce do sistema nervoso central.
Lutas de MMA: Apesar de eu ter visto até uma action figure do Anderson Silva, e ter me sentido orgulhoso, é fácil ver atletas que interrompem cedo a carreira por traumas físicos.
Hum, os nossos rivais estão vindo. Parece que somos a “zebra” nas apostas da arena de hoje.
Vocês observam uma aposta curiosa, numa mesa. Dois comerciantes estão se desafiando numa disputa entre seus guarda-costas, no anfiteatro da cidade. Vocês vão apostar num dos times, ou talvez se tornarem uma terceira opção, apostando em si mesmos?
Os heróis foram sedados, e acordam numa praça, acorrentados, onde estão sendo leiloados como gladiadores. Lutadores de aluguel?
Os aventureiros são abordados por um comerciante numa estrada, que pergunta se poderiam ajudar como guarda-costas de seus animais exóticos de lutas de exibição? Leões, rinocerontes, elefantes, e alguns lobos. Animais treinados para combate, parecem bem tratados e alimentados. Mas como estes animais prisioneiros se sentem?
Um par de pilotos de bigas está preocupado com a segurança de seus cavalos de corrida, ele teme que alguém possa envenena-los. Ele contrata os heróis por uma noite de vigilância. Os animais acordam bem, a patrulha noturna é sem incidentes. Mas os próprios contratantes acordam com uma terrível diarreia, e estão incapazes de participar da competição de hoje. Será que um ou 2 heróis poderiam substituí-los na grande corrida de hoje?
Tipos de Gladiadores
Olá, Superinteressante & Wikipedia:
Trácios: eram os únicos a lutar com a sica, uma espada curva.
Secutor: treinado para encarar o retiarius (um “tanque de guerra” bem protegido). Tinha um grande escudo retangular e capacete mais liso (para não prender na rede do retiarius) e com pequenos buracos, para evitar as pontas do tridente.
Dimachaeri: há poucos registros sobre este tipo de gladiador – os historiadores não sabem ao certo nem quem ele enfrentava nas arenas. Mas, pelo fato de usar só duas espadas, devia ser bem treinado.
Retiarius: era o tipo mais ágil e veloz, mas também o mais indefeso, pois tinha pouca proteção – nem sequer usava capacete. Encarava gladiadores “pesados”, como o secutor, usando só uma rede e um tridente.
E ainda tem mais Gladiadores
Murmillo
MURMILLO: Tinha o apelido de “homem-peixe” por usar um capacete com o desenho de um peixe na lateral. As armas e proteções eram similares às do secutor, podendo variar o escudo. As lutas entre trácios, murmillos e retiarius eram consideradas os verdadeiros clássicos das arenas.
HOPLOMACHUS: Homenageava os guerreiros das falanges gregas, por isso portava uma lança, que podia ser usada junto com uma adaga ou com uma espada. Tinha boas proteções para o corpo, como o secutor, mas precisava se virar apenas com um pequeno escudo circular.
ANDABATI: A cavalo, os andabatis se enfrentavam com um capacete com o visor tampado. É isso mesmo, um combate às cegas, sem escudo e portando apenas uma espada!
EQUITES: Gladiadores montados bem mais sérios que os andabati, combatiam entre si com uma lança e um escudo circular médio. Em alguns duelos, trocavam a lança por uma espada. Os equites podiam lutar em pares ou grupos.
GLADIADORAS: Pode acreditar, no Império Romano rolava também combates entre mulheres. Mas eram bem raras.
Haviam juízes, a coisa não era tão vale tudo, como o cinema nos faz acreditar.
Não escolhemos onde e quando nascemos, nem de quem somos filhos. Uma vez que estamos nesta vida, até a morte, só nos resta lutar com as armas que conseguirmos, por quanto tempo aguentarmos, até nosso último suspiro.
Veja, lá vem nossos rivais. Segure seu gládio com firmeza.
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A Conspiração Condor é um thriller político dirigido por André Sturm (Sonhos Trópicas, Bodas de Papel) e tem como parte do elenco a atriz Mel Lisboa e o ator Dan Stulbach.
Muitas vezes, as pessoas acabam em histórias que jamais imaginariam que iriam se envolver.
Sobre o Filme
A Conspiração Condor gira entorno de Silvana e do jornalista argentino Juan, que acabam dentro de uma investigação sobre as mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, em 1976. Revelando uma rede de interesses ocultos e pressões políticas. No caminho, aproximam-se de Carlos Lacerda e descobrem detalhes sobre a frustrada tentativa de articulação da Frente Ampla, movimento que buscava unir lideranças contra o regime militar.
Nossa Visão sobre o Filme (pode conter spoiler!)
Conspiração Condor vem na leva dos últimos filmes brasileiros que retratam o período da ditadura militar no Brasil. É impossível falar do filme e não lembrar dos últimos, já clássicos brasileiros, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Assim como os anteriores, A Conspiração Condor pinta um quadro mais claro de como a ditadura afetou o jornalismo, com censores retirando tudo que entrava para o jornal e pressionando os profissionais para se limitarem ao que era fútil.
Silvana pode ter sido qualquer jornalista sem nome de sua época, preso em uma trama que não compreende muito bem.
Silvana nunca existiu, mas a história retratada poderia muito bem ter sido algo real, que pode ter acontecido com qualquer jornalista mais indignado e engajado da época do filme. Durante todo ele, a tensão fica no pescoço, já que Silvana se vê cercada de tramas muito mais profundas do que espera e todas as portas se fecham para ela.
A Conspiração Condor é um filme extremamente necessário para os dias de hoje, em que cada vez mais que os tentáculos escuros do fascismo tentam, mais uma vez, agarrar nossas vidas, nos lembrarmos do que ele é capaz e do que ele deseja para nós: O Silêncio.
Quimera de Aventuras
Nessa seção, vamos dar ideias para mesas usando o filme como referência!
Cenários e Sistemas
A Conspiração Condor é um thriller político que bebe muito da fonte dos filmes noir americanos. Falar sobre ele sem citar RPGs como Delta Green, Rastros de Cthulhu e Chamado de Cthulhu é loucura. Mas talvez o “horror inominável” seja menos os monstros lovecraftianos e mais os tentáculos da Ditadura Militar, onde os personagens estão inseridos.
Juscelino Kubitschek (Pedro Bial) e João Goulart
Outros RPGs de investigação ou revolução podem estar nesse meio, Urbana Bellica talvez seja o mais claro sobre. É possível jogar com os personagens enfrentando a ditadura que os quer calar, no meio do seu ápice. Enquanto tentam convencer um político cansado a voltar a luta.
Ordem Paranormal também pode ser um bom jogo para se adaptar uma aventura desse tipo. Seja usando as regras de Sobrevivendo ao Horror para que os jogadores sejam jornalistas tentando desvendar a conspiração da ditadura (com um toquezinho de paranormal) ou algo mais profundo nas entranhas dos paranormal com as regras normais.
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