Propaganda Fantástica – Gênese Zero #59

Depois de refletirmos sobre a fragilidade da fé em Pouca Fé, onde crenças menores e deuses enfraquecidos ainda sustentavam comunidades inteiras, torna-se quase inevitável avançarmos para outro campo igualmente poderoso, embora mais sutil: a propaganda.

Se a fé convence pelo sentimento, a propaganda convence pela repetição, pela estética e pela narrativa cuidadosamente construída. Em mundos de fantasia, onde magia, arte e ilusão se misturam, a propaganda deixa de ser apenas discurso político e passa a ser uma verdadeira força modeladora da realidade social.

Em cenários fantásticos, opiniões não se moldam apenas por decretos ou batalhas. Elas nascem em canções populares, em peças teatrais encenadas nas praças, em histórias contadas para crianças e até em ilusões mágicas projetadas no céu. Assim, compreender a propaganda é compreender como heróis são criados, vilões são inventados e massas inteiras passam a acreditar em versões convenientes da verdade.

1. A Propaganda Como Extensão da Fé

Antes de qualquer coisa, vale compreender que propaganda e religião costumam avançar lado a lado. Assim, enquanto a fé concede sentido à existência, a propaganda passa a orientar esse sentido para objetivos bem definidos. Em muitos reinos, por exemplo, sacerdotes reformulam mitos antigos, ajustam símbolos e reinterpretam detalhes para sustentar ideologias do presente.

Dessa forma, a crença não é destruída, mas redirecionada, servindo a interesses políticos e sociais.

2. Canções Populares e a Memória Coletiva

A música atua como uma das ferramentas mais poderosas da propaganda. Dessa forma, baladas heroicas ecoam repetidamente nas tavernas e transformam feitos duvidosos em gestos glorificados. Com o passar do tempo, a narrativa cantada toma o lugar da realidade.

Assim, um mercenário brutal acaba lembrado como um salvador lendário simplesmente porque sua história ganhou um refrão fácil de decorar.

3. Teatro Como Arma Política

Peças teatrais, principalmente nos grandes centros urbanos, atuam como verdadeiros editoriais vivos. Assim, ao exagerar defeitos de adversários políticos ou ridicularizar povos estrangeiros, o teatro constrói preconceitos e alimenta medos coletivos.

Além disso, quando o Estado financia essas encenações, o público passa a enxergá-las como entretenimento inofensivo, embora, na prática, elas ensinem quem merece admiração e quem deve inspirar temor.

4. Histórias Infantis e Formação Ideológica

A propaganda mais duradoura começa cedo.

Contos infantis que retratam monstros específicos como vilões absolutos criam gerações inteiras incapazes de questionar essa visão.

Com o passar do tempo, essas histórias se tornam verdades culturais tão profundas que ninguém mais lembra quem as escreveu ou por quê.

5. Ilusões Mágicas e Realidade Fabricada

Em mundos onde magia visual existe, a propaganda ganha uma nova camada de poder.

Governos podem projetar vitórias inexistentes no céu ou criar imagens de inimigos cometendo atrocidades que nunca aconteceram.

Embora essas ilusões desapareçam, a emoção causada por elas permanece, influenciando decisões coletivas por anos.

6. A Criação Artificial de Heróis

Nem todo herói nasce de grandes feitos. Muitos são fabricados.

Bardos pagos, cronistas seletivos e magos da imagem trabalham juntos para construir figuras carismáticas que representam ideais convenientes.

Assim, a população passa a confiar mais no símbolo do que nas ações reais da pessoa por trás dele.

7. A Construção do Vilão Necessário

Da mesma forma, toda propaganda precisa de um inimigo claro.

Criaturas, raças ou nações inteiras podem ser reduzidas a estereótipos perigosos.

Essa simplificação permite justificar guerras, perseguições e leis extremas, sempre em nome da segurança coletiva.

8. Propaganda Como Forma de Controle Social

Quando repetida o suficiente, a propaganda deixa de ser percebida como tal.

Expressões populares, slogans mágicos e imagens recorrentes passam a moldar comportamentos automaticamente.

Nesse ponto, o controle não exige mais vigilância constante, pois a própria sociedade se regula com base nas ideias que absorveu.

9. Resistência Cultural e Contra-Propaganda

Nem toda propaganda é aceita sem questionamento.

Artistas independentes, bardos rebeldes e contadores de histórias marginalizados criam versões alternativas dos fatos.

Essas narrativas concorrentes raramente dominam o discurso, mas plantam dúvidas, o que muitas vezes basta para iniciar mudanças profundas.

10. Quando a Propaganda se Torna Realidade

Por fim, há momentos em que a propaganda molda tanto a percepção coletiva que passa a alterar o próprio mundo.

Se todos acreditam que um rei é escolhido pelos deuses, ele começa a agir como tal. Se uma cidade acredita ser invencível, seus habitantes lutam como se fossem.

Nesse estágio, a narrativa deixa de ser apenas discurso e se transforma em força concreta.

Conclusão

A propaganda em mundos fantásticos revela que o poder não se limita à magia ou às armas. Ele também habita histórias, músicas, imagens e símbolos.

Enquanto a fé sustenta comunidades, a propaganda direciona essas crenças, criando heróis convenientes e inimigos necessários.

Ao explorar esse tema, o worldbuilder adiciona camadas de realismo e crítica social ao cenário, mostrando que a verdadeira batalha muitas vezes acontece na mente coletiva.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quem controla o exército ou o trono, mas quem controla a narrativa. Porque, em qualquer mundo, real ou fantástico, quem conta a história decide quem vence.

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Começo no Caos – Aprendiz de Mestre

Depois de explorarmos os desafios e as oportunidades dos rumos não planejados, fica evidente que nem toda história precisa começar com calma, explicações longas ou apresentações detalhadas. Pelo contrário, muitas campanhas ganham força justamente quando o grupo é lançado diretamente em uma situação limite, onde decisões precisam ser tomadas antes mesmo que tudo esteja claro. Nesse sentido, começar uma campanha no meio do caos não é apenas uma escolha estilística, mas uma poderosa ferramenta narrativa para capturar atenção, gerar engajamento imediato e estabelecer o tom da história desde a primeira cena.

Entretanto, o começo no caos não significa confundir os jogadores ou sacrificar a coerência do mundo. Quando bem conduzido, esse tipo de começo cria curiosidade, tensão e uma sensação imediata de urgência, enquanto as informações necessárias vão sendo reveladas de forma orgânica ao longo do jogo.

Campanhas tradicionais costumam apresentar o mundo, os personagens e o conflito de forma gradual. Já o começo no caos inverte essa lógica. Os personagens acordam em perigo, estão no meio de um desastre ou são empurrados para uma crise sem aviso prévio. Assim, em vez de perguntar “quem somos?”, os jogadores passam a perguntar “como sobrevivemos a isso?”.

Esse tipo de abertura prende a atenção imediatamente, desde que o mestre saiba dosar informação, ritmo e clareza. A seguir, vamos explorar como iniciar uma campanha dessa forma sem perder os jogadores no processo.

Comece com uma situação, não com uma explicação

Em um começo caótico, o foco deve estar no que está acontecendo agora. Explosões, perseguições, invasões ou julgamentos públicos colocam os personagens em ação imediata. As explicações ficam para depois. Se os personagens acordam em uma prisão durante um motim, o mais importante é escapar, não entender quem governa o reino.

A compreensão do contexto surge naturalmente conforme as consequências aparecem.

Dê objetivos claros mesmo em meio ao caos

Embora o cenário seja confuso, os objetivos imediatos precisam ser simples e compreensíveis. Fugir, proteger alguém, sobreviver à noite ou atravessar uma zona de perigo já são motivações suficientes. Quando os jogadores sabem o que precisam fazer agora, eles aceitam não saber tudo ainda.

O caos funciona melhor quando a ação tem direção.

Use o ambiente como guia narrativo

O cenário ajuda a contar a história sem longos discursos. Sirenes, prédios em chamas, pessoas correndo ou criaturas emergindo do chão comunicam muito mais do que uma explicação direta. Enquanto os jogadores interagem com o ambiente, eles aprendem sobre o mundo.

Assim, o cenário ensina enquanto pressiona.

Apresente fragmentos de informação, não o todo

Durante o caos, informações devem surgir em pedaços. Um guarda grita uma ordem, um NPC menciona um nome importante, um símbolo aparece repetidamente. Esses fragmentos despertam curiosidade e criam ganchos para sessões futuras.

O entendimento completo é construído aos poucos, sem quebrar o ritmo inicial.

Permita que os personagens se definam pela ação

Em vez de apostar em apresentações extensas, permita que os personagens se definam pelas próprias ações. Assim, observe quem presta socorro aos feridos, quem avança sem hesitar e quem tenta dialogar mesmo diante do risco. Essas atitudes, portanto, revelam muito mais sobre cada personagem do que qualquer passado explicado antes do início da sessão.

Dessa forma, o caos se transforma rapidamente em um reflexo direto da personalidade.

Use NPCs como pontos de referência temporários

Em meio à confusão, um NPC pode servir como âncora narrativa. Ele não precisa explicar tudo, apenas reagir de forma clara ao que está acontecendo. Um capitão desesperado, uma criança perdida ou um mercador ferido ajudam a humanizar o caos e dão direção emocional à cena.

Esses NPCs também podem reaparecer depois, reforçando a continuidade.

Controle o ritmo com cenas curtas e impactantes

Começos caóticos funcionam melhor com cenas rápidas, focadas e cheias de consequência. Pequenas decisões geram efeitos imediatos, mantendo os jogadores atentos. Longas descrições devem ser evitadas nesse momento inicial.

O ritmo intenso sustenta a tensão e impede dispersão.

Evite decisões irreversíveis logo de início

Embora o caos traga urgência, decisões que definem toda a campanha devem ser adiadas. No início, o foco está na sobrevivência e na adaptação. Escolhas mais profundas ganham peso quando os jogadores já entendem melhor o mundo e seus riscos.

Isso reduz frustração e aumenta envolvimento.

Conecte o caos a algo maior, mesmo que em segredo

Mesmo que os jogadores ainda não saibam, o caos inicial deve ter causa. Uma conspiração, uma guerra iminente ou um colapso político já está em movimento. Mais tarde, quando as peças se encaixarem, o início caótico fará sentido.

A sensação de planejamento retroativo fortalece a narrativa.

Recompense a curiosidade dos jogadores

Quando os jogadores fazem perguntas ou investigam detalhes em meio ao caos, essas atitudes devem ser valorizadas. Pequenas respostas, pistas ou vantagens reforçam a ideia de que prestar atenção importa, mesmo sob pressão.

Isso estimula engajamento desde a primeira sessão.

Conclusão

Começar uma campanha no meio do caos não é sobre confundir, mas sobre convidar. Convidar os jogadores a agir antes de entender tudo, a sentir antes de saber, a se envolver antes de planejar. Quando bem conduzido, esse tipo de início cria campanhas memoráveis, cheias de energia e significado desde o primeiro minuto.

No fim das contas, histórias raramente começam quando tudo está calmo. Elas começam quando algo dá errado. E, ao abraçar esse princípio, o mestre transforma o caos inicial no alicerce de uma narrativa viva, dinâmica e profundamente envolvente.

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Dragon Ball Super: Broly – Quimera de Aventuras

Lançado enquanto Akira Toriyama ainda estava entre nós. Dragon Ball Super: Broly pode ser considerado como um remake do filme Dragon Ball Z: Broly – O Lendário Super Sayajin.

Até porque a premissa é praticamente a mesma: um filho e pai sobreviventes do genocídio de Freeza. Então eles aparecem e se opõem aos Guerreiros Z, que precisam enfrentar Broly: um prodígio entre os Sayajin que acaba despertando seu poder total.

Sobre o Filme (Pode conter spoilers!)

Dragon Ball Super: Broly não tenta ser muito complexo, o filme dá a origem do antagonista até que rápido e não demora muito para levar para o ápice e foco do filme: as batalhas.

A batalha de Goku e Vegeta contra Broly toma boa parte do filme (que já é curto, com suas 01h40). E é o ápice mesmo, muito bem coreografada e dá para notar a diferença entre os guerreiros Z e o Broly ficando mais fina a cada trocação de murro.

Não tem muito a falar sobre o filme. É um filme direto, que sabe para o que foi feito e executa muito bem, assista para ter um bom tempo vendo o que Dragon Ball tem de melhor; cenas de batalha.

Cenários e Sistemas

Uma mesa inspirada no filme também pode ser tão simples e direta quanto o filme. Existe uma ameaça ou promessa de ameaça que os personagens precisam enfrentar.

Sistemas que podem abraçar isso são sistemas de Super-Heróis, baseados em animes ou Alta Fantasia. Boa parte dos baseados em d20 (Pathfinder, D&D, T20, etc…), Feitiços & Maldições, 3DeT Victory, Anime 5e e Masks, Mutantes & Malfeitores, etc…

Não precisa ser, necessariamente, o próprio Broly, mas uma ameaça que durante o combate fica mais forte já seria interessante, crie um personagem próprio ou faça inspirado no próprio, faça uma ficha desafiadora e divirta-se!


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Texto: Gustavo “AutoPeel” Estrela.
Revisão: Raquel Naiane.

Através dos Percursos Temporais – Quimera de Aventuras

E aí pessoal, tranquilos? Estamos quase finalizando as Quimera de Aventuras baseadas nas expansões de Hearthstone (jogo de cartas da Blizzard no universo de Warcraft). Portanto, esta será o ultimo quimera de modo contínuo sobre Hearthstone.

Esta expansão traz a temática de viagem no tempo e suas possíveis ramificações (multiverso). Há muito dragões, especialmente os da revoada de bronze e suas hipotéticas contrapartes malignas e muitos heróis de Warcraft aparecem reimaginados e acompanhados de armas, artefatos ou companheiros.

Quimera de Aventuras

Morto-vivos vivos

Uma magia de teleporte dá errado e acaba mexendo com o tempo. Desta forma, poderosos magos e clérigos do passado ressurgem e, mesmo os que eram bondosos em vida, precisam ser detidos pela confusão causada por seu repentino aparecimento pós morte.

Aqui é interessante colocar um antigo mentor ou um ascendente dos personagens. Entretanto, o último desafio é um lich que ressuscita toda vez que for vencido. Porém, a cada vez ele fica um pouco mais fraco (seja com 10% menos vida, habilidades ou até nível de desafio, tudo dependendo do sistema usado).

Ao finalmente vencê-lo, não haverá grandes recompensas, apenas mortos-vivos deixaram de destruição e vidas ceifadas.

A Fruta Infinita

Sempre houve uma lenda sobre a existência de uma fruta (geralmente uma banana) que se refazia toda vez que era completamente comida. A fruta estaria em posso de um grande gorila senciente no coração de densas florestas tropicais.

Agora, porém, a fome se abateu sobre os principais reinos humanos e seus aliados e um grupo de caçadores e aventureiros experientes é contratado para localizarem a mítica banana. 

A morte do príncipe

O herdeiro élfico foi morto pelo rei anão após uma situação trágica. Os anões e os aliados humanos afirmam que o príncipe élfico havia enlouquecido ou se corrompido e havia matado muitas pessoas em seu caminho. Entretanto, os elfos parecem não se importarem com essa versão dos fatos e desejam vingança contra os anões e todos que estiverem em seu caminho.

As linhas convergem

Um grande vilão torceu e corrompeu a trama mágica que permeia o universo e criou desdobramentos exóticos e perigosos num mundo já em cacos.

Por conta disso, os acontecimentos levam os heróis a lidarem com diversas versões suas e de conhecidos, findando numa batalha épica digna de Crise de Infinitas Terras onde apenas uma única versão de cada um poderá existir…


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Pouca Fé – Gênese Zero #58

Depois de explorarmos, em Guildas e Facções Além do Óbvio, como organizações improváveis moldam a política, a economia e o cotidiano dos mundos de fantasia, é natural avançarmos para uma força ainda mais silenciosa e persistente: a pouca fé.

Se grandes religiões constroem impérios e justificam guerras, são as crenças discretas, domésticas e esquecidas que sustentam a vida comum. Elas não dominam reinos, mas mantêm vilas de pé. Não exigem templos grandiosos, porém resistem ao tempo com teimosia quase divina com sua “pouca fé”.

Em cenários de fantasia, deuses fracos, cultos locais e religiões menores costumam ser tratados como pano de fundo. No entanto, quando observados com atenção, revelam um potencial narrativo poderoso. Afinal, nem toda divindade deseja adoração em massa. Algumas apenas querem ser lembradas.

1. Deuses Fracos Não São Deuses Inúteis

Um erro comum no worldbuilding é associar poder divino apenas à escala. Entretanto, deuses fracos não deixam de ser relevantes.

Muitas vezes, essas entidades atuam de forma íntima, protegendo lares, colheitas ou laços familiares. Um deus do último suspiro, por exemplo, pode não impedir a morte, mas garante que ninguém morra sozinho.

Assim, sua força não nasce da quantidade de fiéis, mas da profundidade do vínculo.

2. Cultos Domésticos e a Fé do Cotidiano

Em muitas culturas, a fé não se manifesta em templos, mas dentro de casa.

Altares improvisados, orações sussurradas e pequenos rituais antes das refeições criam cultos domésticos passados de geração em geração.

Essas práticas moldam valores, comportamentos e decisões, mesmo quando os próprios fiéis não se consideram religiosos.

3. Divindades Regionais e Identidade Cultural

Alguns deuses existem apenas em regiões específicas.

Uma vila pode cultuar o espírito do rio local, enquanto outra reverencia a montanha que a protege dos ventos.

Com o tempo, essas crenças se tornam identidade cultural. Questionar o deus local passa a ser visto como um ataque à própria comunidade.

4. O Esquecimento como Forma de Morte Divina

Em mundos onde deuses dependem da fé, o esquecimento se torna fatal.

Quando uma divindade perde seguidores, ela enfraquece, fragmenta-se ou enlouquece. Algumas acabam reduzidas a sussurros, sonhos ou fenômenos estranhos.

Ainda assim, mesmo quase apagadas, essas entidades continuam influenciando o mundo de formas sutis e perigosas.

5. Cultos Marginais e a Fé Proibida

Nem toda crença é aceita.

Cultos esquecidos costumam ser vistos como heresia, superstição ou ameaça à ordem religiosa dominante.

No entanto, essas crenças proibidas frequentemente sobrevivem nas margens da sociedade, oferecendo conforto a quem foi abandonado pelos grandes deuses.

6. Milagres Pequenos e Impactos Enormes

Deuses fracos raramente realizam milagres grandiosos.

Ainda assim, pequenos milagres repetidos mudam destinos. Uma colheita que sempre resiste à seca. Uma criança que sempre volta para casa. Uma estrada onde viajantes raramente morrem.

Esses detalhes criam confiança e fidelidade duradouras.

7. Religiões Menores em Conflito com Grandes Igrejas

Quando uma religião cresce, ela tende a absorver ou eliminar crenças menores.

Isso gera conflitos silenciosos, onde missionários tentam converter vilas inteiras enquanto sacerdotes locais resistem com rituais antigos.

Esse embate raramente é violento, mas sempre é cultural, emocional e profundamente humano.

8. Sacerdotes Sem Poder, Mas Com Autoridade

Nem todo líder religioso lança milagres.

Alguns sacerdotes de cultos menores atuam como conselheiros, parteiros, juízes informais ou guardiões da memória coletiva.

Sua autoridade não vem da magia, mas da confiança. Em muitos casos, isso os torna mais influentes do que clérigos poderosos.

9. Sincretismo e Deuses Adaptáveis

Para sobreviver, muitos deuses fracos se adaptam.

Eles aceitam novos nomes, incorporam símbolos de outras religiões e mudam seus rituais.

Assim, uma antiga deusa da lua pode se tornar uma santa menor em um panteão maior, mantendo sua essência viva sob outra forma.

10. Quando um Deus Fraco se Torna Essencial

Por fim, algumas narrativas mostram que, em momentos de crise, são os deuses menores que permanecem.

Quando grandes divindades abandonam o mundo, entidades esquecidas assumem papéis inesperados.

Nesses cenários, a fé simples se revela mais resistente do que qualquer dogma grandioso.

Conclusão

Religiões menores, cultos esquecidos e deuses fracos enriquecem mundos de fantasia porque refletem algo profundamente humano: a necessidade de significado próximo, acessível e pessoal.

Enquanto grandes religiões explicam o universo, essas crenças explicam a vida cotidiana. Elas falam do medo da noite, da esperança na colheita e do consolo diante da perda.

No fim, talvez o poder de um deus não esteja no número de templos erguidos em seu nome, mas na quantidade de vidas que ele ajuda a atravessar o dia seguinte.


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Assassin’s Creed – Quimera de Aventuras

Se você me acompanha pela PSN, sabe que a franquia Assassin’s Creed é uma das minhas “caçadas” favoritas. Mas para além da platina e dos saltos de fé, o que sempre me fascinou na saga da Ubisoft foi o choque entre a ordem absoluta e a liberdade caótica. Desde 2007, fomos apresentados a uma guerra milenar entre Templários e Assassinos que atravessa a história da humanidade, desde a Renascença de Ezio Auditore até o Valhalla nórdico, sempre vigiados pela sombra tecnológica da Abstergo e dos ancestrais Isu.

A franquia Assassin’s Creed sempre foi, para mim, uma espécie de “RPG de mesa automatizado”. Se pararmos para analisar friamente, o conceito do Animus — a máquina que permite acessar memórias genéticas — é a metalinguagem perfeita para o nosso hobby. No RPG, sentamos à mesa para interpretar um personagem em um cenário distante; no game, Desmond Miles deita-se em uma maca para “interpretar” seus ancestrais. É uma camada de narrativa sobre narrativa que toca em temas caros à filosofia, como o determinismo e a memória.

A ligação com o RPG tornou-se explícita nos títulos mais recentes (Origins, Odyssey, Valhalla), com sistemas de níveis e escolhas de diálogo, mas o DNA de “Roleplay” (interpretação de papel) sempre esteve lá, mesmo quando éramos apenas uma lâmina oculta na multidão.

Contudo, para esta Quimera, eu quero voltar às origens. Quero falar de 1191, da Terceira Cruzada e de um homem chamado Altaïr Ibn-La’Ahad. Vamos deixar de lado os mapas imensos dos RPGs de ação modernos da série e focar na pureza do primeiro jogo: o isolamento de Masyaf, o peso da falha e a busca pela redenção através da investigação.

Assassin’s Creed – O Game

O primeiro jogo nos apresentou a Altaïr Ibn-La’Ahad em 1191, durante a Terceira Cruzada. Diferente dos protagonistas posteriores, Altaïr começa o jogo no auge de sua arrogância, falhando em uma missão vital e sendo rebaixado ao nível de aprendiz. A jornada de Altaïr é de redenção e, acima de tudo, de questionamento filosófico sobre o seu mestre, Al Mualim.

Lançado com enorme expectativa, o primeiro Assassin’s Creed foi um fenômeno. Vendeu mais de 8 milhões de cópias em pouco tempo, estabelecendo um novo padrão para jogos de mundo aberto e movimentação (parkour). Embora hoje alguns o achem repetitivo, seu impacto foi sísmico: ele provou que o público queria narrativas históricas sérias, densas e com um toque de ficção científica teórica.

O Credo dos Assassinos: A Filosofia da Liberdade

O “Credo” não é apenas um conjunto de regras de assassinato; é uma provocação ética. Ele se baseia em três dogmas fundamentais que podem ser usados como bússola moral em qualquer mesa de RPG:

  1. Afastar a lâmina do inocente: A ética do guerreiro. Se matamos sem propósito ou matamos inocentes, nos tornamos o que combatemos.
  2. Esconder-se à plena vista: A camuflagem social. Não é sobre ser invisível, é sobre ser “comum”. No RPG, isso incentiva o uso de disfarces e atuação em vez de apenas testes de furtividade.
  3. Nunca comprometer a Irmandade: O coletivo acima do indivíduo.

A máxima “Nada é verdadeiro, tudo é permitido” é o ponto onde eu, como filósofo, mais me demoro. Ela não diz que você pode fazer qualquer coisa, mas que as bases da nossa realidade (leis, religiões, verdades) são construções sociais. Se nada é “verdade absoluta”, então você é o único responsável pelas consequências do que permite a si mesmo fazer. É o existencialismo puro aplicado à lâmina.

A Jornada de Altaïr: A Queda, o Purgatório e a Ascensão

Para entendermos por que Altaïr é o pilar de toda a franquia, precisamos olhar para a sua transformação. No RPG, adoramos personagens que começam “nível 1”, mas Altaïr é um caso raro onde o personagem começa no “nível 20” e é forçado a voltar ao início. Como filósofo, vejo isso como um exercício de Kenosis — o esvaziamento de si mesmo para se tornar algo novo.

O Pecado da Arrogância (O Início)

Em 1191, Altaïr Ibn-La’Ahad era o prodígio da Ordem. Ele era rápido, letal e, acima de tudo, arrogante. No incidente no Templo de Salomão, ele quebra os três dogmas do Credo em uma única tarde: mata um inocente, compromete a Irmandade com sua imprudência e falha em manter a discrição. Ele acreditava que ser um Mestre Assassino o colocava acima das leis.

Na minha análise, esse é o erro clássico do “Jogador Combeiro” que esquece a interpretação: ele foca no poder e esquece o propósito. A punição de Al Mualim — uma adaga no ventre e o rebaixamento ao status de novato — não foi apenas punitiva, foi pedagógica.

O Purgatório das Nove Vítimas (A Queda)

Despojado de suas armas e de sua dignidade, Altaïr é enviado para caçar nove alvos. Esta fase é o que chamo de “O Purgatório de Altaïr”. Cada assassinato não era apenas uma eliminação física, mas um diálogo existencial.

Através das conversas no “Espaço Branco”, Altaïr começa a perceber que seus alvos, por mais cruéis que fossem, tinham uma lógica. Ele deixa de ser um executor cego para se tornar um investigador da alma humana. Ele começa a entender que a linha entre “Ordem” e “Caos” é tênue. Para o RPG, essa é a fase de evolução de personagem mais rica: quando o herói começa a questionar a própria moralidade do “Mestre de Jogo” (neste caso, Al Mualim).

A Verdade e a Ascensão (O Mestre dos Mestres)

O clímax da jornada de Altaïr ocorre quando ele descobre que seu mentor, Al Mualim, usava a Maçã do Éden para escravizar mentes em nome da “paz”. Ao confrontar e derrotar seu próprio “pai” espiritual, Altaïr atinge a iluminação. Ele compreende que o Credo não é uma permissão para matar, mas uma responsabilidade terrível de proteger a liberdade.

Ele não apenas recupera seu posto, mas o transcende. Como Grão-Mestre, Altaïr escreveu o Códice — um documento que revolucionou a Ordem. Ele permitiu que os assassinos tivessem famílias, estudassem ciência e medicina (um toque de PICS e massoterapia aqui!), e mudassem a tática de castelos isolados para a infiltração nas cidades.

O Legado Filosófico

Altaïr passou o resto de sua vida (que durou mais de 90 anos) estudando a Maçã. Ele não buscou o poder do artefato, mas o conhecimento. Ele transformou uma seita de fanáticos em uma irmandade de intelectuais e protetores. Quando olhamos para Altaïr em Assassin’s Creed: Revelations, vemos um homem que se tornou a própria personificação da Sabedoria.

Para a sua mesa de RPG, a jornada de Altaïr é o exemplo perfeito de como transformar um personagem unidimensional e “poderoso” em uma lenda complexa e sábia. Ele nos ensina que o verdadeiro “Salto de Fé” não é pular de uma torre, mas ter a coragem de questionar tudo o que nos foi ensinado como verdade.

Quimera de Aventuras

Nesta sessão a obra entra na Quimera e colocamos algumas ideias de uso para aventuras de RPG. Entretanto fique ciente que para isto, teremos que dar alguns spoilers da obra. Leia por sua conta e risco.

Para esta Quimera, pensei em duas linhas diferentes: uma abordando os aspectos Narrativos para a mesa, e outra focada nos aspectos Mecânicos que podem ser introduzidos.

Mecânicas de Altaïr para o seu RPG

Para esta Quimera, selecionei três mecânicas fundamentais do primeiro jogo que podem ser adaptadas para qualquer sistema:

1. O Ritual da Investigação (O “Legwork”)

No primeiro AC, Altaïr não podia simplesmente invadir um palácio. Ele precisava de informações. No RPG, muitas vezes falhamos ao tornar a investigação algo passivo (apenas um teste de ‘Sentir Motivação’ ou ‘Investigar’).

  • Na Mesa: Divida o objetivo principal em “Informações Essenciais”. Os jogadores precisam realizar micro-missões: roubar o mapa das patrulhas, interrogar um informante ou escutar uma conversa em um banco de praça.
  • Bonificação: Para cada informação obtida, conceda um bônus numérico na cena final ou permita que os jogadores “editem” a cena (ex: “Como eu roubei a chave ontem, a porta lateral está aberta agora”).

2. Stealth Social: A Camuflagem da Identidade

Muitos sistemas focam em “Furtividade” como ficar invisível nas sombras. Altaïr ensinou que a melhor sombra é a multidão.

  • Na Mesa: Crie regras para “Esconder-se à Plena Vista”. Isso envolve testes de Enganação ou Atuação combinados com o ambiente. Estar entre monges, mercadores ou mendigos exige comportamentos específicos. Se um jogador de Vampiro tenta manter a Máscara em um clube lotado, ele não está se escondendo fisicamente, mas socialmente. A falha não é ser “visto”, mas ser “notado” como algo fora do padrão.

3. O Confessionário Branco: O Pós-Combate Dialético

Após o golpe fatal em um alvo principal, o jogo entra em um espaço metafísico onde o vilão explica seus motivos.

  • Na Mesa: Use esse recurso para dar profundidade aos antagonistas. Não deixe o “vilão da semana” morrer sem antes questionar os heróis. Use o background de filósofo aqui: o Templário pode argumentar que o “caos” que os heróis defendem trará fome e guerra, enquanto sua “ordem” traria comida para todos. Deixe os jogadores com o gosto metálico da dúvida na boca.
 Transmutando Altaïr para o RPG

Não precisamos de regras complexas de parkour, mas de estrutura narrativa. Aqui estão os três pilares que você pode usar para dar um ar de Assassin’s Creed para sua mesa:

1. A Investigação como Ritual (Mecânica e Narrativa)

No RPG, muitas vezes o mestre diz: “Você encontrou o alvo, role iniciativa”. No primeiro AC, o foco era o preparo.

  • Dica de Mesa: Crie uma fase de “Coleta de Informações” onde os jogadores precisam realizar pequenas missões (roubo de documentos, escuta, interrogatório) para ganhar bônus reais no combate final. Se eles souberem que o alvo tem uma fraqueza no ombro esquerdo ou que ele sempre fica sozinho às 15h, a cena da morte se torna uma recompensa intelectual, não apenas um teste de dados.

2. O Stealth Social (O Esconderijo na Multidão)

Esqueça o “ficar invisível”. A grande lição de Altaïr é se misturar.

  • Aplicação: Em sistemas como Vampiro: A Máscara ou Tormenta20, incentive o uso de disfarces e comportamento social. Use a multidão como um terreno. Em vez de testes de Destreza, use Carisma ou Enganação para “sumir à plena vista”. Como filósofo, vejo isso como a “camuflagem da identidade” – quem você finge ser para realizar o que precisa?

3. O Confessionário de Branco (O Dilema Ético)

Esta é a minha parte favorita. Após cada assassinato, Altaïr tem um diálogo metafísico com sua vítima em um espaço branco e vazio. Ali, o vilão justifica seus atos. O Templário não era “mau” por ser mau; ele acreditava que a ordem absoluta salvaria o mundo.

  • Ponto Filosófico na Mesa: Não deixe seus vilões morrerem em silêncio. Dê a eles o direito de uma última fala que faça os jogadores questionarem: “Será que eu fiz a coisa certa?”. Use o existencialismo: se “nada é verdadeiro e tudo é permitido”, a responsabilidade de matar cai inteiramente sobre os ombros do personagem.

Considerações Finais

O primeiro Assassin’s Creed é sobre a queda e a ascensão de um homem que aprendeu que dogmas são perigosos, mesmo os da própria irmandade. O Jogo nos ensina que somos a soma de nossas memórias e as escolhas que fazemos com elas. Ao narrar uma aventura inspirada em Altaïr, você não está apenas narrando um jogo de “matar alvos”, mas uma jornada sobre humildade, investigação e o peso da liberdade. Você está convidando seus jogadores para uma dança entre a precisão técnica e a crise de consciência.

E lembre-se: quando a lâmina sai da bainha, a história já foi escrita. O RPG é o que fazemos no intervalo entre o planejamento e o golpe final. No final da sessão, pergunte aos seus jogadores se a paz que eles trouxeram com o sangue valeu o preço da vida tirada.


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Texto e capa: Eduardo Filhote.

Passei de Ano

Com uma premissa que lembra o lendário “Código Secreto” com foco em educação, Passei de Ano da editora Educa Meeple, convida dois times a se ajudarem a passar pelas séries sem reprovarem no meio do caminho.

Que Jogo é Esse?

Passei de Ano é um jogo para 2 a 8 jogadores, que jogam em conjunto em dois times, a fim de ultrapassar os anos escolares e se formarem no ensino fundamental.

Ficha Técnica

Esse jogo é composto por 57 cartas, sendo 56 divididas em 7 matérias: 8 de Artes, 8 de Ciências, 8 de Educação Física, 8 de Geografia, 8 de História, 8 de Matemática e 8 de Português. A última carta é a “Zona de Reprovação” que os jogadores querem evitar.

Básico das Regras

As cartas são divididas em 7 montes, cada um com uma matéria diferente, e a carta de “Zona de Reprovação”. Os jogadores se dividem em duas equipes: uma “Equipe Professor” que passará as dicas; e uma “Equipe Aluno” que tentará identificar as palavras.

Os professores definem dicas que darão aos alunos, e estes tentam acertar a palavra, podendo conversar entre si para chutar.

Quando acertarem todas as palavras do ano, todos gritam “PASSEI DE ANO!” e avançam para o próximo ano. Em caso de erro ou dica proibida, a carta é colocada sobre a Zona de Reprovação. E com a soma de 5 cartas, todos perdem o jogo.

Se conseguirem acertar palavras de todas as séries não acumulando 5 ou mais cartas na zona de reprovação, todos vencem juntos e se formam.

Como Funciona na Prática

O Grupo Professor vai dar várias dicas para o Grupo Aluno tentar adivinhar no decorrer do jogo.

Dizer uma palavra da carta, usar derivados ou usar rimas causam erro automático, por isso deve-se prestar atenção às dicas dadas.

A reprovação só acontece quando os dois grupos decidem que a palavra não será mais acertada, mas pode-se dar inúmeras dicas.

As palavras vão aumentando o grau de dificuldade e complexidade conforme vão se avançando nas séries, o que pode gerar dúvidas na própria equipe professor sobre as dicas a serem dadas.

Outra coisa que vai ajudar nas dicas é que, em algumas cartas, determinadas palavras estão grifadas. Essas palavras podem ser ditas e usadas como parte das dicas pois, acredita-se, tornar a palavra mais fácil de ser descoberta.

Quem Vai Curtir

Aos fãs de “Código Secreto”, esse jogo seria uma versão cooperativa muito possível e plausível. Visto que, se utiliza da mecânica de dicas sobre palavras, e a divisão de grupos em que, um sabe as palavras, e outro tenta adivinha-las.

Esse jogo também terá bons adeptos nas escolas. Isso porque ele incentiva o conhecimento de palavras novas, além de uma mecânica vinda em um outro manual para transformar esse jogo em algo que possa ser usado em sala de aula.

Análise Final

Passei de Ano tem aquela pegada de jogo divertido com modo educativo pois todos se ajudam e aprendem juntos.

A mecânica de duas equipes sendo, uma que tem que dar as dicas, e outra que precisa adivinhar as palavras, torna divertido para todos os jogadores. Quase um Imagem e Ação com Código Secreto, pois as equipes jogam para acertar palavras com base em dicas e pontuar com isso.

O jogo também ajuda aqueles em séries iniciais pelo conhecimento das palavras novas e também os professores por ter uma forma de aplicar as regras do jogo em sala de aula.

Ele é muito bom para vários públicos, gêneros de jogadores e idades, e como tem uso escolar, também é válido para escolas que usam métodos de ensino alternativo como músicas e jogos.

E caso você precise de um vídeo para entender melhor, no Instagram da Educa Meeple você pode conferir o vídeo, é só clicar aqui!


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Autor: Cléber Santos.
Revisão: 
Raquel Naiane.

Guildas e Facções Além do Óbvio – Gênese Zero #57

Depois de refletirmos, em Leis e Punições em Mundos de Fantasia, sobre como sociedades mágicas tentam impor ordem ao caos por meio de códigos, tribunais e punições, torna-se natural avançar para outro elemento essencial da vida coletiva: as organizações.

Se as leis definem limites, são as guildas e facções que movimentam o mundo dentro desses limites, explorando brechas, criando tradições e, muitas vezes, subvertendo a própria ordem estabelecida.

Em cenários de fantasia, no entanto, é comum que essas organizações se resumam a arquétipos já conhecidos, como guildas de ladrões, ordens de guerreiros ou círculos de magos. Embora funcionais, essas estruturas acabam previsíveis. Ao expandirmos esse conceito, abrimos espaço para narrativas mais ricas, conflitos inesperados e mundos que parecem realmente vivos.

Criar guildas e facções além do óbvio significa pensar em necessidades culturais, profissões esquecidas, saberes marginalizados e poderes sutis, que raramente empunham espadas, mas moldam impérios inteiros.

1. A Função Social Antes da Função Bélica

Antes de tudo, vale lembrar que nem toda organização nasce para lutar. Muitas surgem para resolver problemas cotidianos.

Assim, uma guilda pode existir para organizar rotas comerciais, preservar conhecimentos antigos ou regular práticas perigosas.

Quando o worldbuilder começa pela função social, a facção se torna mais crível e integrada ao mundo, deixando de ser apenas um obstáculo ou fornecedor de missões.

2. A Guilda de Cartógrafos de Sonhos

Imagine uma guilda dedicada a mapear sonhos. Seus membros entram em estados de transe e registram paisagens oníricas, símbolos recorrentes e territórios do inconsciente coletivo.

Além disso, esses mapas são usados para prever crises sociais, invasões extraplanares ou o surgimento de entidades antigas.

Embora não empunhem armas, esses cartógrafos controlam informações valiosas, capazes de mudar o destino de cidades inteiras.

3. Historiadores que Apagam o Passado

Nem toda facção preserva o conhecimento. Algumas existem justamente para apagá-lo.

Uma ordem de historiadores secretos pode reescrever crônicas, destruir registros e alterar monumentos para manter narrativas convenientes ao poder vigente.

Com isso, a história oficial se torna uma construção política, enquanto a verdade sobrevive apenas em fragmentos proibidos.

4. O Sindicato dos Cozinheiros Arcanos

Em certos reinos, cozinhar é um ato mágico. Um sindicato de cozinheiros arcanos controla receitas feitas com ingredientes exóticos, como carne de criaturas planares ou ervas colhidas em eclipses.

Esses pratos podem curar doenças, provocar visões ou fortalecer laços emocionais.

Assim, banquetes deixam de ser eventos sociais comuns e se transformam em rituais capazes de selar alianças ou iniciar guerras silenciosas.

5. Facções que Regulam o Invisível

Algumas organizações lidam com o que quase ninguém vê.

Uma guilda de mediadores espirituais, por exemplo, negocia acordos entre vivos e mortos, evitando que assombrações se tornem epidemias sobrenaturais.

Essas facções operam nos bastidores, mas mantêm o equilíbrio entre planos, exercendo um poder discreto e indispensável.

6. Corporações de Mensageiros Não Convencionais

Em mundos onde a comunicação é vital, mensageiros se tornam peças estratégicas.

Uma facção pode usar animais alterados, sombras vivas ou até sonhos compartilhados para transmitir mensagens.

Por isso, atacar um mensageiro não é apenas um crime, mas um ato político grave, capaz de desestabilizar reinos inteiros.

7. Guildas que Controlam Recursos Raros

Nem todo poder vem da magia direta. Algumas facções dominam recursos essenciais.

Uma guilda que controla minas de cristal de mana, por exemplo, decide quem pode lançar grandes feitiços e quem fica limitado a truques menores.

Dessa forma, o controle econômico se transforma em controle mágico, criando conflitos que vão muito além do campo de batalha.

8. Ordens Filosóficas e Escolas de Pensamento

Nem todas as facções precisam de sedes físicas. Algumas existem como correntes filosóficas organizadas.

Essas ordens espalham ideias sobre destino, livre-arbítrio ou a natureza da alma, influenciando reis, juízes e líderes religiosos.

Embora raramente ajam de forma direta, suas ideias moldam decisões que afetam milhões.

9. Facções Criminosas que Não se Veem como Vilãs

Nem toda organização ilegal se vê como criminosa.

Uma guilda que rouba artefatos perigosos pode acreditar que está protegendo o mundo de si mesmo.

Esse tipo de facção cria conflitos morais interessantes, pois desafia a noção simples de bem e mal e força os personagens a escolher lados incômodos.

10. Quando as Guildas se Tornam Estados

Por fim, algumas organizações crescem tanto que passam a substituir governos.

Guildas que controlam comércio, informação ou magia acabam criando suas próprias leis, tribunais e exércitos.

Nesse ponto, a linha entre facção e nação desaparece, abrindo espaço para disputas épicas e mudanças profundas no cenário.

Conclusão

Guildas e facções além do óbvio enriquecem mundos de fantasia porque refletem a complexidade da vida real. Elas mostram que poder não nasce apenas da força, mas também do conhecimento, da cultura, da memória e da necessidade cotidiana.

Ao criar organizações com propósitos inesperados, o worldbuilder transforma o cenário em algo dinâmico, onde cada grupo tem impacto real na sociedade.

No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja quem empunha a espada, mas quem controla o mapa, a história, a comida e as ideias. É nesses espaços aparentemente secundários que nascem as narrativas mais memoráveis.

PARA MAIS CONTEUDO DO MESTRE BROTHER BLUE


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Finalizando Campanhas – Aprendiz de Mestre

Tranquilos Aprendizes de Mestre? Aproveitando que hoje é o último texto do Aprendiz de Mestre desse ano (e meu por algum tempo), falarmos sobre o encerramento de campanhas. Não, não é sobre quando vocês param de jogar por não conseguirem mais fecharem seus horários ou coisa pior (sei de algumas histórias tenebrosas…). Esse texto é para aquele pequeno grupo de pessoas que conseguem jogar algumas ou dezenas de sessões e encerrar uma história.

Trarei ideias e sugestões para três abordagens: a ideal, a desesperada última sessão e uma (quase) inovação de se jogar em temporadas.

A campanha ideal

Idealmente as campanhas durariam quanto deviam durar e se encerrariam quando a história que o mestre pensou para a mesma acabasse. Entretanto sabemos que isso é uma exceção em meio a tantas campanhas iniciadas (e outras nem isso).

Porém, grupos de amigos ou de pessoas dedicadas (aqui tenho que agradecer alguns dos meus jogadores que jogam comigo online a mais de 8 anos – a maioria menos – e se mantiveram firmes e presentes em minhas mesas, mesmo quando eu tive que interromper campanhas por meses por vários motivos) conseguem se manter jogando uma vez a cada semana ou quinzena. Assim, em algum momento a campanha se encerrará, geralmente entre 1 a 3 anos de duração.

Uma alternativa é fazer campanhas mais curtas, mas sabemos que a grande maioria gosta de campanhas épicas ou, ao menos, com tempo suficiente para o bom desenvolvimento dos personagens. 

De qualquer modo, numa campanha ideal a história se encerrará por si só e o mestre pouco precisará fazer para encerrá-la. Geralmente o vilão final será enfrentado e o objetivo da campanha se concretizará.

Já tive campanhas assim, ambas em tormenta. Iniciamos no nível 1 e continuamos o jogo até o nível 25 (mas houve salto de 6 níveis na campanha) e na outra encerramos no nível 16 em Moreania. As campanhas foram se desenrolando, descobrindo mais vilões ou, então, o paradeiro de algum item poderoso.

Os objetivos foram alterando a dinâmica e importância dos personagens e as missões a serem cumpridas. O grupo não desejava encerrar a campanha logo na primeira missão. Queriam tanto continuar e expandir a história como ficarem mais poderosos e ultrapassarem os limites dos combos.

Uma última sessão

Muitas vezes o grupo percebe que não conseguirá atingir todos os objetivos da campanha. Ou esta se estendeu por mais tempo que o desejado pelos participantes. Também há a possibilidade de que algum participante terá que deixar de jogar (ou de mestrar) e antes que a campanha fique em aberto o melhor é separar algumas sessões para finalizar a campanha de uma forma digna.

Para isso é bom haver uma conversa com todos participantes e um empo de preparação. Além de que todos terão que “encurtar missões e interesses” para se chegar a um consenso e poder finalizar a campanha nas sessões finais.

Se isso não ocorrer é quase certo que haverá uma sensação de que a campanha foi decepada. Como se fosse um filme sem final. Desta forma eu sugiro que duas sessões sejam suficientes para o grupo encerrar o que estiver fazendo e lidar com o desfecho da campanha.

Temporadas

Esta é minha forma preferida atual de conduzir campanhas. Inspiradas em jogos transmitidos por Twich e YouTube, inclusive as do Movimento (que retornarão neste vindouro ano), eu encerro a campanha quando é atingida uma missão ou marco da história. Ao contrário de antigamente que eu continua mestrando e mestrando até quando dava.

Assim, quando encerra uma temporada eu tenho um tempo de descanso e de preparo. Seja para uma campanha diferente, seja para a próxima temporada da próxima campanha. Duas campanhas que realizei em meu cenário (Elfrin), nas quais eu utilizava a mesma aventura, eu continuei a história após o desfecho com o vilão final (spoilers: ninguém o venceu).

Numa delas os jogadores permaneceram todos, porém a maioria preferiu trocar de personagens ou os aposentaram ao longo da nova temporada. E a outra mesa foi juntada com outra visto a saída dos jogadores. Nesta, houve a continuidade de apenas um personagem e a total mudança do local da trama. Assim, ela poderia ser considerada uma série derivada e não uma nova temporada.

Porém, tal abordagem me permitiu mais liberdade em traçar novos inimigos, problemas e lugares pelos quais os personagens das duas mesas passariam. E isso permitindo que os jogadores mantivessem um senso de continuísmo e pertencimento. Já que alguns elencavam os acontecimentos recentes com situações ocorridas nos primeiros níveis da campanha.

Outro ponto a favor é o fato das histórias ficarem mais simples e coesas. Evitando tautologias e e prolongamentos desnecessários da campanha.

A primeira campanha que utilizei este método foi a única de Mutantes e Malfeitores que narrei até hoje. A história era muito inspirada na forma narrativa da animação Liga da Justiça Jovem. Ou seja, haveria mortos e um mundo um pouco mais realista e duro. Porém sem a densidade e violência de outras obras como The Boys ou Invencível.

Na primeira temporada os personagens tinham que descobrir quem era o vilão coordenando vários ataques pelo mundo. Entretanto, além de falharem nisso acabaram se aliando ao próprio vilão (sem saber e por decorrência de uma boa imagem de NPC como isca). Já na segunda temporada o grupo precisou lidar com as catastróficas consequências de suas escolhas e atos e ajudar o vilão, o qual se tornou o chefe deles a liderarem uma missão planetária contra uma ameaça cósmica, mas longe da terra.

Pois bem, desta maneira encerro minha participação nesta primeira temporada nesta coluna do Aprendiz de Mestre. Um abraço a todos e bom 2026.


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A Cidade Perdida de Un’Goro – Quimera de Aventuras

E aí pessoal, tranquilos? Estamos quase finalizando as Quimera de Aventuras baseadas nas expansões de Hearthstone (jogo de cartas da Blizzard no universo de Warcraft). Desta vez falaremos sobre a expansão de A Cidade Perdida de Un Goro; a segunda expansão deste ano e que trouxe de volta as missões para o jogo.

Missões são feitiços que se pode jogar no início da partida e são inspiradas em aventuras e campanhas de RPG (bem ao estilo do Warcraft 3 e WOW). Onde se deve fazer certas coisas, como jogar um certo tipo de carta algumas vezes, para se obter uma recompensa, como se fosse um loot.

Embora haja muitas cartas interessantes, buscarei focar nas missões do jogo e criar ideias de aventuras com elas. Inclusive as misturando, se necessário.

Quimera de Aventuras

O Terror Morto-vivo

Numa exploração pelas florestas distantes do continente atrás de um artefato, o grupo se depara com uma grande clareira. Neste vazio, onde as plantas não florescem, há várias ossadas de muitos animais, principalmente grandes dinossauros. Uma energia lúgubre permeia o local com uma névoa que resiste ao sol inclemente.

Antes que o grupo reaja ou mesmo saia da clareira, a névoa dança pelos ossos, reanimando-os. Agora cabe ao grupo enfrentar ou fugir de dezenas de dinossauros e outros animais mortos-vivos. Porém, ao contrário de mortos-vivos normais, que perdem intelecto, estes mantém suas capacidades mentais de quando eram vivos (o que seria muito perigoso se houver um dragão morto em meio a tantos ossos).

Os ossos e restos das criaturas que forem vencidas continuam alimentando o surgimento de outras criaturas, mesmo que distantes da clareira. A luta parece não ter fim e talvez não se resolva somente com combate, visto que em algum momento os recursos dos personagens acabarão.

A caverna colmeia

Esta ideia é mais para ser usada como um encontro aleatório quando o grupo falhar em se localizar por áreas ermas e selvagens.

Um caminho mal escolhido leva o grupo a uma caverna cheia de passagens, tuneis e câmaras. Após adentrarem algumas dezenas de metros eles poderão ver diversos ovos gosmentos. Antes que possam sair (o interessante seria exigir um teste de furtividade) insetos adultos saem de tuneis ainda não explorados e começam a atacar o grupo.

Individualmente os insetos são fracos. Porém eles são muitos, talvez havendo centenas deles naquele local…

Ondas de Sobrevivência

O grupo consegue descobrir a entrada de uma ruína antiga. Entretanto, depois de passarem pelas armadilhas eles observam que o local é habitado por muitas criaturas peixes humanoides. Inicialmente elas atacam em 4 ou 5 indivíduos, mas a cada rodada mais e mais inimigos chegam e logo a caverna parece transbordar de inimigos.

O grupo terá que sobreviver 10 rodadas para que as criaturas fujam com medo do poder dos aventureiros. Explorando as ruínas, o grupo poderá descobrir uma porta arcana misteriosa. Com escritos antigos e quase alienígenas não há meios de entender o que está escrito a não ser tentando apertar seus símbolos e verificar a sequência correta para abrir a porta e descobrir seus tesouros (quando o símbolo correto é apertado, ele muda de cor).

Porém, a cada falha algum efeito mágico adverso ocorre. Começando com feitiços simples que causam pouco dano (comece em 1d4 e escalone até 1d12) até feitiços que teleportam os aventureiros ou os matam imediatamente.

A Floresta Furtiva e o Vulcão Elemental

Atrás de um item lendário ou da flor do vulcão, a qual sobrevive a condições extremas de calor e pode ser usada para poções de cura de doenças raras, o grupo se embrenha na Floresta Furtiva onde inimigos aparecem no meio de moitas e os atacam sempre que estiverem despreparados. Embora as criaturas pareçam se teleportar, excelentes rastreadores conseguirão seguir seus rastros até uma entrada lateral do vulcão.

Lá, além das criaturas furtivas e do calor extremo. O grupo terá que passar desapercebido por dezenas de dinossauros de fogo adormecidos entre as câmaras e túneis. Assim, qualquer combate contra os “ninjas da floresta” ou os pequenos elementais de fogo residentes no vulcão, fará com que as grandes feras despertem.

Ao encontrarem o item lendário, ou as flores do vulcão ou qualquer outra coisa que você queira por como objetivo dessa missão, o grupo se deparará com um triceratops dracônico de fogo imenso. Além de vencê-lo no combate, terão que fugir das criaturas que não tiverem enfrentado anteriormente.

A Grande Montanha Viva

Na busca por partes de um felino das trevas para que um mago efetue uma magia poderosa, o grupo sobre por uma imensa montanha. Porém, quando chegam no topo, a montanha começa a se mexer e o grupo percebe estar em cima de um saurópode de centenas de metros (ou até mais de um quilometro de comprimento). 

Agora o grupo terá que descobrir um jeito de descer do gigantesco saurópode. Por isso é interessante que o grupo não tenha acesso a voo de qualquer tipo.


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