Daggerheart

Daggerheart – Guia de Criação de Personagem – Parte 1

Leitores do Movimento, bom dia, boa tarde e boa noite. Saindo diretamente da Megaliga Tokyo Defender, eu sou Wellington Botelho. E hoje eu quero falar de uma sensação bem específica que eu tive quando abri o Daggerheart, da Jambô Editora, pela primeira vez.

Criar um personagem aqui é estranho. Não no sentido ruim. Mas é diferente.

O sistema, que vem da Darrington Press, que está ligada ao Critical Role, tem uma proposta bem clara. Colocar a narrativa no centro da experiência.

Só que isso tem um efeito colateral imediato. Quando você começa a ler a criação de personagem, bate uma sensação meio incômoda: “Tá faltando alguma coisa.”

E eu tive exatamente essa impressão. Mas, conforme você vai entendendo melhor, percebe que não está faltando. Na verdade, foi deixado de fora de propósito.

O jogo não quer te dar todas as respostas. Ele quer que você participe da construção delas. Aqui, você não monta um personagem fechado. Você entra com uma ideia e descobre o resto jogando.

E isso muda completamente a forma de pensar a ficha. Então, antes de sair preenchendo tudo, vale dar um passo atrás, porque esse guia é justamente para isso: te ajudar a transformar essa liberdade em direção.

High Fantasy + Foco Narrativo = Heróis Incríveis e Dramáticos 

O Daggerheart trabalha com Alta Fantasia e isso não é novidade. Mas o jeito que ele faz isso é. Aqui, não é só sobre o mundo, nem sobre o desafio. É sobre o que acontece com os personagens dentro da história.

E para entender isso melhor, vamos direto no exemplo mais clássico possível: O Senhor dos Anéis.

Quando o Aragorn aparece, ele não é rei, não é herói lendário, não é nada disso.

Ele é só um Ranger. Um homem meio misterioso, que claramente sabe mais do que mostra. E pronto.

No começo, ele era apenas o PASSOLARGO (Strider no original)

Só que, conforme a história anda, aquilo começa a se revelar. Não porque alguém disse numa ficha, mas porque a narrativa foi mostrando. De repente, aquele Ranger é o herdeiro de um reino. Carrega um legado. Tem um papel numa guerra que vai decidir o destino do mundo.

Isso é progressão narrativa.

Agora compara com um sistema mais estruturado, tipo Dungeons & Dragons.

Ali, você já sabe desde o começo: sua classe, sua função, o que você vai ganhar conforme sobe de nível.

O personagem cresce, mas dentro de um caminho bem definido.

No Daggerheart, não. Aqui, o personagem não vem pronto.

Ele vai aparecendo, e isso depende muito mais do que acontece na mesa do que de escolhas travadas lá no início.

Como eu faço o meu herói lendário?

O Daggerheart é totalmente voltado para personalização. Ele não te prende em modelos rígidos de personagem, pelo contrário, ele abre espaço para você criar algo único. Então, antes de qualquer escolha mecânica, vem a parte mais importante: ter uma imagem mental do que você quer.

Para exemplificar, eu vou criar um personagem chamado ULTO.

PASSO 1: Escolha a sua classe

A primeira coisa é escolher um arquétipo. O livro traz 9 classes, cada uma com 2 subclasses, dando no total, 18 caminhos possíveis.

Como eu gosto de personagens de combate direto, aquele estilo espadachim que resolve tudo na linha de frente, fui direto na classe Guardião, com a subclasse Baluarte.

Depois disso, vem a herança. São 18 opções na tabela de ancestralidade. E aqui eu fui a uma referência clássica: o Frog de Chrono Trigger.

Frog, o primeiro espadachim de cabelo verde

PASSO 2: Escolha a sua herança

Então o ULTO vai ser um QUACHO, basicamente, um anfíbio humanóide.

Sim. Um sapo espadachim.

O próximo passo é escolher o grupo social. Entre as 9 opções disponíveis, a que mais combina com esse conceito é a Silvestre, que traz a habilidade “Pés Leves”.

Isso já começa a dar identidade para o personagem.

PASSO 3: Escolha os seus atributos

Agora vem a parte dos atributos.  Você tem os bônus: +2, +1, +1, 0, 0, -1, para distribuir entre:

Agilidade: Correr, Equilibrar-se, Saltar.

Força: Agarrar, Levantar, Quebrar.

Acuidade: Esconder-se, Manipular, Manobrar.

Instinto: Perceber, Pressentir, Orientar.

Presença: Comover, Convencer, Enganar.

Conhecimento: Analisar, Aprender, Lembrar.

Como o ULTO é um combatente físico, eu pensei no jeito que ele luta de modo rápido, ágil, mais técnico do que bruto. Então, ficou assim:

+ 2 em Agilidade
+ 1 em Força
+ 1 em Instinto
0 em Presença
0 em Conhecimento
– 1 em Acuidade

Até aqui, a gente montou a base do personagem.

PASSO 4: Escolha mais detalhes

Agora começa uma parte importante, transformar esses números em narrativa. Além das escolhas iniciais, o sistema pede que você tome algumas decisões que ajudam a dar vida ao personagem em jogo.

E aqui entram coisas como evasão, pontos de vida (PV), fadiga (PF) e a dinâmica de Esperança e Medo.

Começando pela evasão. Mais do que um número, ela representa como o personagem evita ser atingido.

No caso do ULTO, como ele é um guardião com uma pegada mais ágil, faz sentido descrever isso com movimento de saltos, esquivas rápidas, acrobacias.

Se fosse um mago, poderia ser diferente, talvez escudos arcanos, barreiras mágicas, ou seja, a mecânica é a mesma, mas a forma como ela aparece na narrativa muda completamente.

A saúde também segue essa lógica. Os Pontos de Vida (PV) são uma abstração, não é só “tomar dano”, mas o desgaste do personagem durante a cena. Já os Pontos de Fadiga (PF), que começam em 6, representam o quanto ele está se esforçando além do limite. É o jogador que vai descrever o cansaço, o esforço e o impacto da batalha no personagem.

Passo 4.1: Escolha “Hope or Fear”

Agora, a mecânica mais importante do sistema: Esperança e Medo. Todos os personagens começam com 2 pontos de Esperança.

Quando um teste é feito, você rola 2d12:

  • um dado representa a Esperança.
  • o outro representa o Medo.

Se a Esperança vence, você ganha um ponto que pode usar a seu favor, ajudando a conduzir a narrativa. Mas se o Medo vence, a coisa muda.

O narrador ganha um ponto de Medo, e alguma complicação entra em cena.

Aqui está a grande diferença do sistema, onde suas ações não estão só mostrando acertos ou erros. Cada uma delas influencia diretamente o rumo da história.

Este texto ficou grande e não abordamos nem metade do que temos no livro de regras. Portanto, vou separá-lo talvez em mais dois ou três artigos.

Para ler a segunda parte do texto, clique aqui!

Nos vemos na próxima coluna!


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Publicado por

Wellington Botelho

Wellington Botelho é editor e gestor criativo da Tokyo Defender. Atua na organização editorial, curadoria de conteúdo e desenvolvimento de processos, mantendo a publicação ativa e consistente ao longo dos últimos anos.

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