Elementos de Desafios para Mythic GME

Para quem já conhece Mythic GME, sabe que sua capacidade de gerar aventuras, desafios e oportunidades para side quests é admirável – vale a pena ler nossa resenha sobre esta obre clicando aqui – mas que tal explorar os elementos da tabela periódica nestes desafios?

Embora haja listados até o momento 118 elementos (com os mais recentes apenas obtidos por meios artificiais, e com existência muito curta), vamos aqui usar os 100 primeiros como respostas no d100 sobre o que está acontecendo como desafios para sua aventura:

d100: Que desafios estão acontecendo por aqui?

  1. Hidrogênio: Uma fonte invisível de energia começa a desaparecer misteriosamente, colocando todos em risco.
  2. Hélio: Algo extremamente leve e raro está sendo roubado antes de cumprir um papel crucial.
  3. Lítio: Um recurso essencial para estabilidade mental/emocional está causando dependência perigosa.
  4. Berílio: Um material precioso está envenenando lentamente quem o utiliza.
  5. Boro: Uma estrutura aparentemente frágil esconde uma função vital desconhecida.
  6. Carbono: Uma criação artificial começa a evoluir além do controle.
  7. Nitrogênio: Uma atmosfera antes segura torna-se subitamente hostil.
  8. Oxigênio: O acesso ao essencial está sendo controlado por uma força externa.
  9. Flúor: Algo altamente reativo está sendo usado como arma silenciosa.
  10. Neon: Um sinal luminoso transmite uma mensagem que ninguém consegue decifrar totalmente.
  11. Sódio: Um elemento comum reage violentamente quando exposto a algo inesperado.
  12. Magnésio: Um brilho intenso revela verdades que deveriam permanecer ocultas.
  13. Alumínio: Um material leve torna-se inesperadamente indestrutível.
  14. Silício: Um sistema lógico começa a agir de forma imprevisível.
  15. Fósforo: Uma chama eterna se torna instável e ameaça consumir tudo.
  16. Enxofre: Um cheiro indica a presença de algo perigoso e ancestral.
  17. Cloro: Um ambiente é purificado… mas à custa de vidas inocentes.
  18. Argônio: Algo inerte observa e registra tudo, mas ninguém sabe como acessá-lo.
  19. Potássio: Um recurso vital se torna perigoso quando combinado com o ambiente.
  20. Cálcio: Estruturas fundamentais começam a se deteriorar inexplicavelmente.
  21. Escândio: Um elemento raro é a chave para ativar uma tecnologia esquecida.
  22. Titânio: Um artefato quase indestrutível guarda um segredo antigo.
  23. Vanádio: Algo muda de estado conforme a situação, confundindo todos ao redor.
  24. Cromo: Uma superfície perfeita esconde uma realidade distorcida.
  25. Manganês: Um catalisador invisível acelera eventos perigosos.
  26. Ferro: Uma força dominante tenta controlar todos os recursos disponíveis.
  27. Cobalto: Uma cor vibrante marca aqueles que foram alterados para sempre.
  28. Níquel: Algo aparentemente comum revela valor oculto inesperado.
  29. Cobre: Um sistema de comunicação está sendo manipulado secretamente.
  30. Zinco: Um equilíbrio delicado é mantido por algo subestimado.
  31. Gálio: Um material sólido se dissolve no momento mais crítico.
  32. Germânio: Um dispositivo sensível detecta algo que ninguém mais percebe.
  33. Arsênio: Uma traição lenta e silenciosa ameaça um grupo inteiro.
  34. Selênio: A luz revela aquilo que deveria permanecer oculto.
  35. Bromo: Um líquido estranho altera o comportamento de quem o toca.
  36. Criptônio: Uma fraqueza inesperada pode derrubar algo aparentemente invencível.
  37. Rubídio: Uma reação explosiva acontece ao menor contato.
  38. Estrôncio: Um brilho artificial indica algo profundamente errado.
  39. Ítrio: Um componente esquecido é essencial para um grande plano.
  40. Zircônio: Um material resistente protege algo altamente perigoso.
  41. Nióbio: Um recurso raro está sendo disputado por múltiplas facções.
  42. Molibdênio: Algo fortalece estruturas sob condições extremas.
  43. Tecnécio: Um elemento instável é usado antes de desaparecer completamente.
  44. Rutênio: Um processo invisível transforma tudo lentamente.
  45. Ródio: Algo extremamente valioso está sendo protegido a qualquer custo.
  46. Paládio: Um catalisador permite transformações impossíveis.
  47. Prata: Um objeto reflete mais do que apenas imagens.
  48. Cádmio: Um veneno silencioso infiltra-se no cotidiano.
  49. Índio: Um recurso raro conecta tecnologias ou magias.
  50. Estanho: Algo antigo está sendo restaurado… talvez incorretamente.
  51. Antimônio: Um agente duplo atua em lados opostos.
  52. Telúrio: Uma presença estranha causa isolamento e paranoia.
  53. Iodo: Um traço mínimo revela uma grande verdade.
  54. Xenônio: Um efeito anestésico impede reações críticas.
  55. Cébsio: Uma reação extremamente violenta ameaça tudo ao redor.
  56. Bário: Um sinal invisível torna-se visível, revelando segredos.
  57. Lantânio: Um novo ciclo começa a partir de algo esquecido.
  58. Cério: Uma faísca inicia uma reação em cadeia.
  59. Praseodímio: Algo muda de aparência conforme o observador.
  60. Neodímio: Uma força magnética irresistível atrai perigos.
  61. Promécio: Um recurso raro parece não pertencer a este mundo.
  62. Samário: Um bloqueio impede forças maiores de agir.
  63. Európio: Um brilho revela mensagens ocultas.
  64. Gadolínio: Uma barreira detecta tudo que tenta atravessá-la.
  65. Térbio: Um sinal distorcido indica interferência externa.
  66. Disprósio: Algo difícil de controlar escapa ao domínio.
  67. Hólmio: Um poder extremo é concentrado em um ponto.
  68. Érbio: Um canal de comunicação distante é ativado.
  69. Túlio: Um recurso raro aparece apenas uma vez.
  70. Itérbio: Um equilíbrio frágil está prestes a colapsar.
  71. Lutécio: O último de sua espécie guarda um segredo crucial.
  72. Háfnio: Um mecanismo oculto regula uma força destrutiva.
  73. Tântalo: Algo desejado é impossível de alcançar.
  74. Tungstênio: Uma resistência absoluta impede qualquer avanço.
  75. Rênio: Um elemento raro altera o fluxo do tempo/energia.
  76. Ósmio: Algo extremamente denso distorce o ambiente.
  77. Irídio: Um objeto vindo de fora traz consequências imprevisíveis.
  78. Platina: Um recurso perfeito atrai ganância extrema.
  79. Ouro: Uma riqueza inesperada desencadeia conflito imediato.
  80. Mercúrio: Algo mutável escapa de qualquer contenção.
  81. Tálio: Uma influência invisível afeta decisões críticas.
  82. Chumbo: Algo pesado impede progresso e envenena lentamente.
  83. Bismuto: Uma estrutura bela esconde instabilidade interna.
  84. Polônio: Um perigo invisível destrói sem deixar rastros.
  85. Astato: Algo extremamente raro é também extremamente perigoso.
  86. Radônio: Um ambiente aparentemente seguro torna-se mortal.
  87. Frâncio: Um poder raro existe apenas por instantes.
  88. Rádio: Uma energia constante transforma tudo ao redor.
  89. Actínio: Um início instável desencadeia eventos maiores.
  90. Tório: Um poder antigo pode ser reativado.
  91. Protactínio: Algo intermediário mantém o equilíbrio entre extremos.
  92. Urânio: Uma fonte massiva de poder ameaça sair do controle.
  93. Neptúnio: Algo além do conhecido começa a interferir.
  94. Plutônio: Uma criação poderosa pode destruir seus criadores.
  95. Amerício: Um detector revela ameaças ocultas.
  96. Cúrio: Uma força intensa exige contenção constante.
  97. Berquélio: Um experimento perigoso precisa ser interrompido.
  98. Califórnio: Uma fonte intensa de energia atrai atenção indesejada.
  99. Einstênio: Um fenômeno raro desafia o entendimento.
  100. Férmio: Um limite absoluto foi alcançado, o próximo passo é desconhecido.

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Inumanos Além-Marinos como adversários em Ducado Verona

O Codex Extra de Ducado Verona, que você pode comprar pela Editora Caleidoscópio, apresenta a ótima oportunidade de apresentar seres inumanos do imaginário medieval. Expandindo a geografia de seu cenário para além do próprio Ducado, o Codex Extra apresenta o Império Outonal, os Reinos Invernais e o Além-Mar.

Para aumentar a diversão explorando ilhas perdidas e isoladas do Além-Mar, vamos apresentar aqui dez povos inumanos além-marinos que os aventureiros poderão se deparar e lidar com seres tão estranhos que tanto povoaram os bestiários medievais de exploradores fora da Europa.

Inumanos Além-Marinos

Nas ilhas perdidas de Além-Mar, marinheiros juram ter visto povos que desafiam toda razão. Dizem que são homens, mas nenhum relato concorda sobre suas formas, hábitos ou mesmo sua humanidade. Quem ousa aportar nessas terras raramente retorna, e os poucos que voltam ao Ducado carregam histórias tão estranhas quanto os perigos que quase lhes custaram a vida.

d10
Tipo (em Além-Mar)
1-3 Animais
4-5 Humanos
6 Monstros
7 Malignos
8-10 Inumanos

 

d10
Povo Inumano
1 Abarimon
2 Ástomo
3 Bispo-do-Mar
4 Blêmio
5 Cinocéfalo
6 Esquiápode
7 Ictiófago
8 Onocentauro
9 Panócio
10 Pigmeu

Inumanos Restritos

Os restritos são povos cuja própria forma os limita, como se a natureza lhes tivesse imposto fronteiras invisíveis. Vivem isolados em terras específicas, e raramente são vistos fora de seus domínios, como se o mundo além lhes fosse proibido.

Ástomo

Ástomos não possuem boca, tendo o rosto liso onde deveria haver lábios ou dentes. Vivem apenas de aromas, inalando vapores de flores e especiarias, e dizem que morrem se expostos a odores impuros.

Saúde: 2

Habilidades: Herbalismo, Sobrevivência.

Pertences: Ampolas de resinas perfumadas e ervas aromáticas.

Ação Especial: cheiros agradáveis fortes adicionam Vantagem em todos os testes, enquanto cheiros desagradáveis adicionam desvantagem em todos os testes. Nunca sofre por Fome.

Esquiápode

Esquiápodes têm uma única perna poderosa que termina em um pé descomunal. Movem-se em saltos rápidos e, ao descansar, se deitam no chão usando o próprio pé como sombra contra o sol.

Saúde: 3-4

Habilidades: Esporte (Acrobacia), Sobrevivência.

Pertences: Bordão (Dano 1).

Ação Especial: Todas as ações que envolvam o uso de saltos ou o próprio pé como utensílio improvisado são feitos com Vantagem.

Pigmeu

Pigmeus são humanos diminutos, mal alcançando o joelho de um homem comum. Apesar do tamanho, são organizados e belicosos, travando guerras ferozes com lanças minúsculas e táticas de emboscada.

Saúde: 2

Habilidades: Armadilhas, Caça e Pesca, Estratégia Militar.

Pertences: Lança curta (Dano 2), rede de caça.

Ação Especial: Todos os ataques à distância contra Pigmeus são feitos com Desvantagem, enquanto ataques de todos os tipos de Pigmeus contra não-Pigmeus recebem Vantagem.

Inumanos Perturbadores

Os perturbadores são aqueles cuja simples aparência desafia a ordem natural e inquieta até os mais céticos. Dizem que encontrá-los é encarar algo que não deveria existir, como se a criação tivesse falhado ou sido torcida por forças desconhecidas.

Abarimon

Abarimons possuem os pés virados para trás, como se estivessem permanentemente invertidos. Correm com velocidade surpreendente por terrenos selvagens, confundindo qualquer perseguidor com suas pegadas enganosas.

Saúde: 2-4

Habilidades: Discrição, Sobrevivência.

Pertences: Capa de pele leve.

Blêmio

Blêmios não têm cabeça, apresentando olhos, nariz e boca no próprio peito. Sua aparência causa horror imediato, e ainda assim se movem e observam o mundo com uma estranha normalidade.

Saúde: 2-4

Habilidades: Briga, Estratégia Militar.

Pertences: Clava pesada (Dano 3).

Panócio

Panócios possuem orelhas enormes, largas como mantos, que pendem até os pés. Usam-nas para se cobrir do frio ou do vento, e dizem que conseguem ouvir sons a distâncias impossíveis.

Saúde: 2-3

Habilidades: Rastreamento, Sobrevivência.

Pertences: Diversos.

Ação Especial: Recebem Vantagem em todos os testes relativos a escutar ruídos e a resistir ao frio e ao vento.

Inumanos Animalescos

Os animalescos habitam a tênue fronteira entre homem e fera, carregando em seus corpos sinais de uma natureza dividida. Alguns agem com astúcia quase humana, enquanto outros cedem a impulsos primitivos que os tornam imprevisíveis e perigosos.

Bispo-do-Mar

Bispos-do-Mar têm forma humana, mas com pele lisa e fria como a de um peixe, muitas vezes lembrando vestes clericais. Habitantes das águas profundas, raramente emergem, e quando o fazem, observam os homens em silêncio inquietante.

Saúde: 2-4

Habilidades: Caça e Pesca, Natação.

Pertences: Biojóias marinhas.

Ação Especial: Seu corpo massivo e escamado reduz 1 ponto de Dano recebido por qualquer fonte, exceto fogo ou calor.

Cinocéfalo

Cinocéfalos têm corpo humano, mas cabeça de cão, com mandíbulas alongadas e dentes expostos. Comunicam-se por latidos e rosnados, embora alguns relatos afirmem que compreendem a fala humana.

Saúde: 4

Habilidades: Briga, Caça e Pesca, Rastreamento.

Pertences: Lança de caça (Dano 2).

Ação Especial: Pode atacar com mordidas (Dano 2) e testes ligados a força física recebem Vantagem. Mordidas em pessoas funcionam como o uso de um kit de primeiros socorros, permitindo o teste para recuperar 1 ponto de Saúde.

Ictiófago

Ictiófagos são pessoas inteiramente cobertas por longos pelos, de aparência magra e áspera. Alimentam-se exclusivamente de peixe cru e água salgada, vivendo à beira da água, quase incapazes de se afastar do litoral.

Saúde: 4

Habilidades: Caça e Pesca, Natação.

Pertences: Rede de pesca, faca de escamação (Dano 2).

Ação Especial: Em cada rodada em que ingere 1 litro de água salgada, pode realizar um teste com Vantagem ou testar para recuperar 1 ponto de Saúde.

Onocentauro

Onocentauros possuem o tronco de um homem unido ao corpo de um asno, formando uma figura grotesca e desproporcional. São impulsivos e indomáveis, movendo-se com força bruta e agindo mais por instinto do que por razão.

Saúde: 5

Habilidades: Briga, Esporte (Corrida).

Pertences: Porrete rústico (Dano 2), arnês simples.

Ação Especial: Pode se permitir ser montado por um não-Onocentauro e atuar como um cavalo de guerra, batalhando na mesma rodada que seu montador.


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Encantados do Rio Pardo – Resenha

Encantados do Rio Pardo é um jogo interpretativo sobre jovens que se conectam a um espírito animal, chamado mekarô, após um grande risco de vida com objetivo de protegerem a bacia hidrográfica do Rio Pardo, que pega o interior de São Paulo e o sul de Minas Gerais. Tudo isso permeado com muita magia, folclore e, claro, memória de um povo indígena que se foi e aqueles que permaneceram.

O livro é escrito e tem seu design de jogo por Eli dos Santos, psicólogo com mestrado pela FFCLRP sobre uso clínico dos jogos, com a pesquisa em educação ambiental feita pela Edna Costa, bióloga e pós-graduada em Gestão Ambiental, e supervisão de Simone Kandratavicius, diretora e fundadora da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil. É possível encontrar o jogo gratuitamente no site da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil.

Ambientação

O grande motivo para esta resenha ter esta data como publicação é pelo dia de domingo, 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas. O jogo não esconde em nenhum momento o trabalho com os povos originários desta terra que hoje chamamos Brasil, tanto visualmente quanto na sua escrita.

Uma grande surpresa, para pessoas que jogam em sua maioria fantasia, é a territorialidade verdadeira evocada durante a leitura. Ainda que seja sobre encantados, com sua magia e um tanto de mistério, trata de um lugar real, que sofre de problemas reais e onde um povo real viveu e já não vive mais.

Refere-se ao povo Mebengokrê, parentes próximos dos Kayapó, que viveram na bacia do Rio Pardo, e protegiam e conviviam com o ambiente. Nisso, o livro nos conta, pelo menos um pouco a cada capítulo, sua história e cosmologia.

É em sua cosmologia que encontramos elementos imaginativos e mecânicos que comporão os próximos capítulos do jogo. A primeira vez que tive contato com o Mito de Origem, presente na página 14 e adiante, foi de uma beleza descobrir aquela história, de aprender também com um livro-jogo-brinquedo (que deixa claro esse aspecto educativo). Tocou em mim, provavelmente, por ter as datações e conversar com minha formação em história; mas certamente tocará qualquer pessoa com o coração aberto para a experiência, o que é um grande ponto forte do livro.

Importância da Terra

Ressaltei a data de início pois este livro nos convida a repensar e imaginar um futuro melhor para nossas terras. Quando puxei a realidade, foi para pensarmos como o que está sendo destruído não é uma terra longínqua e fantasiosa, são lugares que existem, onde vivem pessoas, animais, plantas e demais formas de vida bebendo dessas águas. O que devemos repensar é o quão longe foi o desmatamento e poluição em rios e terras por um dito desenvolvimento, a qual devemos perguntar, para quem ele é?

Tudo isso acompanhado da arte incrível de Carlos Alberto Cordeiro de Sá Filho.

Mecânica

Sobre as mecânicas, não existem grandes complexidades, o que não é algo negativo. Sem dúvidas pode não engajar pessoas mais experientes ou exigentes, porém é necessário também uma “leitura da sala”.

Este jogo se trata de um projeto sobre educação ambiental (e digo de passagem, serve muito para aulas de história e geografia). Imagina-se, portanto, que o jogo é pensado para pessoas que não conhecem tanto de RPG, sendo talvez seu primeiro contato. Particularmente, penso na aplicação numa sala de aula ou evento semelhante, onde sua simplicidade cai como uma luva e cumpre seus objetivos melhor de tal maneira (talvez considere algumas alterações para que uma turma grande consiga jogar).

Ações e Testes

O jogo gira em torno de situações e cenas descritas pelo Mestre de Crônica (MC) e jogadores reagindo com Ações de suas personagens. São 4 os tipos: Sociais, Investigativa, Movimento e Confronto. Cada ação de personagem é um Turno e Rodada a soma de todos os Turnos. A forma mais fácil de compreender é puxando para materialidade: imagine todas as pessoas em roda, MC descreve a situação e passa para a pessoa do lado fazer sua Ação, depois passa para a outra, assim por diante até chegar no MC novamente que finaliza a rodada.

De tal maneira, é possível compreender toda a forma de se jogar a partir da Planilha de Personagem. Nela, além de informações como nome, gênero e etnia, há a distribuição de pontos de Habilidade, dentro de uma lista delas. Assim cada ponto posto numa Habilidade, num valor de 1 a 3, diz quantos dados de 6 lados serão rolados naquela ação. Simples.

Os dados são rolados em Testes, onde são somados os resultados e comparados com uma Dificuldade, sendo igual ou maior o teste tem sucesso, menor tem uma falha. Nisso existe uma variedade de tipos de testes, a qual pessoas mais experientes devem conhecer, como testes resistidos, prolongados e afins.

Reserva de Dados e Mekarôs

A maior complexidade vem da Reserva de Dados que cada Encantado possui, a qual pode descontar do montante para acrescentar como dados extras num Teste ou usar as Características Especiais advindas dos mekarôs.

Mekarôs esses que são a parte mais interessante da ficha de qualquer personagem, afinal é o que torna o Encantado encantado. São 6 animais, Carcará, Cateto, Jabuti, Jiboia, Macaco-prego e Onça-parda; cada um apresentando sua forma única de se envolver com a personagem criada e com 3 Características Especiais para escolher, relacionadas com o animal e aquilo que representa.

Educação

Existe uma parte separada na resenha para Educação por, afinal, se tratar de grande foco para o jogo. Em primeiro lugar, é louvável terem feito um jogo educativo que não cai no erro de ser uma aula disfarçada. Um jogo educativo, antes de tudo, deve ser um jogo; ainda que este tenha um conjunto de mecanismos simples, ele ainda é perfeitamente um.

Esta questão foi bem conversada durante as aulas do Role Simpósio, disponíveis todas no youtube.

Em segundo lugar, ressalto que qualquer pessoa tem a possibilidade de aprender já com sua leitura. É de grande apreço o conhecimento que permeia esta fantasia, se baseando em histórias e geografia reais, elucidando sobre questões pertinentes ao ensino dessas áreas, e ainda contando com a ambiental.

Nota-se a responsabilidade que a equipe envolvida neste projeto teve e tem com o livro (ainda promovem eventos envolta dele), presente em cada pedacinho de informação. Ainda que possa parecer chato um jogo feito para aprender, não tem como não se comover pelo menos um pouco ao pensar na nossa relação com a natureza.

Um pequeno relato

Peço licença para falar um pouco de minha vivência, como estagiária na área da educação. Sou da área de história, contudo faço parte de um projeto interdisciplinar com biologia sobre plantas ancestrais. É perceptível o quanto tem que se trabalhar esta questão com a terra, de conexão com a natureza com alunos. Alunos esses que nem sempre convivem com isso, nem sempre possuem plantas em casa para se relacionar. Por isso acredito que este tipo de jogo puxar uma conexão não só com a natureza da qual fazemos parte como os povos que delas cuidam e do qual devemos tirar sérias lições de vida é de grande ajuda para um futuro melhor. Antes de resolver um problema devemos imaginar que é possível resolvê-lo, que é possível um futuro melhor e este jogo chega com tal objetivo.

Em conclusão desta parte, este jogo pode ser uma abertura para pensar numa educação para além do “giz e cuspe” utilizados a exaustão em  salas de aulas. Mesmo que não chegue numa mudança a nível da proposta e demostrada por Célia Xakriabá no seu texto “Amansar o giz” em “Terra: Antologia Afro-indígena”, Encantados do Rio Pardo já propõe uma abordagem interessante e que pode abrir para mais outras.

Conclusão

Encantados do Rio Pardo é um jogo simples, que convida a pensar na magia deixada a gente pelos povos originários. Uma magia que nos deve ajudar a pensar em futuros possíveis e diferentes para nossa atual situação. Pensar em como adiar o fim do mundo (para uma melhor abordagem desse tema dentro do rpg, recomendo este podcast).

Contudo, principalmente nos propõe a pensar no que estamos fazendo com nosso planeta, com nossa terra. Além do dia 19, hoje é dia 22/04, Dia Internacional da Terra. Neste dia te convido a pensar: que desenvolvimento estamos promovendo? Vale a pena o desenvolvimento em detrimento da natureza? Afinal, para quem é este desenvolvimento?

Presenciando tantas queimadas, destruições de habitats, construção de data centers para geração de lixo digital de IA, a tentativa de privatização de rios. Em meio a tudo isso, temos que repensar todos os crimes contra a terra e o planeta são cometidos em prol de um “desenvolvimento”. Pensar como deveríamos lutar contra isso, nem que seja no campo da nossa imaginação.


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Novos estereótipos de Atalanta para Centavos Macabros

O RPG Centavos Macabros apresenta mecânicas inovadoras e um sistema de classificação muito interessante de seres aberrantes sob os nomes Atlas, Atalanta, Édipo, Narciso, Loki e Janus.

No entanto, o Módulo Básico apresenta apenas um exemplo de estereótipo para os arquétipos listados acima, o que é um ótimo começo, mas permitindo uma grande amplitude de oportunidade para aberrantes inspirados no folclore, literatura, espetáculos e cantigas infantis desta época.

Conheça abaixo três novas ideias para estereótipos baseados no arquétipo Atalanta (focado especialmente no aspecto Celeridade). Não esqueça de ler nossa resenha sobre este incrível RPG clicando aqui e visite o site da New Order Editora para comprar seu exemplar!

Estereótipo: Rapinante

Você é uma presença que corta os céus noturnos e os becos enevoados, um predador urbano que observa de cima antes de descer com precisão assustadora. Seu corpo é ágil e letal, capaz de saltos impossíveis, quedas controladas e ataques rápidos que deixam testemunhas em dúvida se viram um humano ou algo além como as lendárias strixes ou mesmo os famigerados Spring-Heeled Jacks. Você sabe que o medo é sua maior arma social: rumores, silhuetas e sussurros trabalham a seu favor tanto quanto suas garras e reflexos. Mas quanto mais você se aproxima das lendas que o cercam, mais difícil se torna lembrar onde termina a máscara do predador e começa aquilo que você realmente é.

Aspectos Preferenciais

Primário: Celeridade ⚫⚫⚫⚫

Secundário: Artifício ⚫⚫⚫

Terciários: Fortitude e Intelecto ⚫ Influência 

Estereótipo: Horror

Você é a atração que ninguém esquece, um corpo moldado pelo grotesco e pelo extraordinário, capaz de façanhas que desafiam a lógica e perturbam quem assiste. Sua força, flexibilidade ou resistência ultrapassam o comum, mas é no desconforto que você provoca que reside seu verdadeiro poder social. Você sabe como dominar um palco, manipular a curiosidade e o repúdio, transformando olhares em influência (ou em isolamento). No fundo, o conflito é inevitável: você é um espetáculo por escolha, necessidade ou exploração, e cada aplauso pode soar tanto como aceitação quanto como condenação.

Aspectos Preferenciais

Primário: Celeridade ⚫⚫⚫⚫

Secundário: Influência ⚫⚫

Terciários: Artifício, Fortitude e Intelecto ⚫

Estereótipo: Sonâmbulo

Você é um corpo em movimento guiado por uma vontade que nem sempre é a sua, executando ações com uma precisão e velocidade que desafiam a consciência desperta. Seus reflexos são impecáveis, sua coordenação quase sobrenatural, mas há sempre a dúvida inquietante sobre quem realmente está no controle. Socialmente, você oscila entre fascínio e temor, pois sua presença carrega um ar de mistério que poucos compreendem e muitos evitam. Seu maior conflito não é apenas o que você faz, mas o que pode fazer sem saber e se, no fim, você ainda pode chamar esse corpo de seu.

Aspectos Preferenciais

Primário: Celeridade ⚫⚫⚫⚫

Secundário: Intelecto ⚫⚫

Terciários: Artifício ⚫⚫, Fortitude ⚫, Influência

Com estes três novos estereótipos derivados do arquétipo Atalanta, suas oportunidades de jogar Centavos Macabros com novos conflitos e densidade gótica aumentam ainda mais!


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Old Dragon 2: Sistema convidativo e Escalável

Talvez você me conheça nas interações no grupo do Old Dragon 2. Talvez você me conheça do podcast do Covil do Velho Dragão. Porém, o mais provável é que você não faça ideia de quem eu seja.

Seja como for, vamos começar do começo: sou Vinícius Lara, escritor, podcaster, narrador de rpg e, eventualmente, um jogador inconveniente que não é muito fã de combates no RPG (pois é, começamos desse jeito mesmo).

Neste artigo, vou explicar às razões para que o sistema Old Dragon 2 tenha sido tão recorrente nas minhas sessões.

Estilo de Jogo

Minha vivência no hobby de RPG se deu décadas atrás com Vampiro: A Máscara e Lobisomem: O Apocalipse, que, na época, eram considerados um dos sistemas mais narrativistas – não que eu compreendesse isso, na ocasião.

Apesar do meu círculo social jogar Dungeons & Dragons 3ª Edição, eu não me sentia tão atraído assim ao sistema: joguei uma única sessão e não me senti confortável. Na época, não entendia os motivos. Hoje, compreendo que sistemas mais focados em regras e mecânicas não me atraem tanto. Além do mais, tinha um segundo grupo de RPG e, para nós, adolescentes de classe média baixa, os livros de Dungeons & Dragons simplesmente não eram acessíveis.

Essa minha base no sistema Storytelling, usado nos títulos de Vampiro: A Máscara, moldaram meu estilo de jogo e de narrar (ou mestrar) para algo mais flexível, fazendo uso frequente de Regras da Casa e priorizando muito mais o ato de contar histórias e a experiência narrativa do que o elemento de jogo em si.

Décadas depois, passando por um hiato de 10 anos afastado do RPG, conheci Old Dragon e tive a oportunidade de acompanhar todo o processo do financiamento coletivo do Old Dragon 2ª Edição.

Eis então que, pela primeira vez, comecei a fazer uso recorrente de um “sistema D20”. Não demorou para que Old Dragon 2 tenha se tornado, para mim, o sistema que mais utilizo.

A Leveza do Old Dragon 2

A razão desse favoritismo é que, apesar de ser um “sistema D20” (um termo que uso para simplificar sistemas cuja base remonta aos primeiros Dungeons & Dragons) e, portanto, possuir fortes elementos mecânicos, como Pontos de Vida, Níveis, Classes, Base de Ataque e Classe de Armadura; Old Dragon 2 é um sistema super fácil de entender, ensinar adaptar e “tensionar”.

Além de ser um material muito acessível! Não só os produtos em PDF possuem um valor atrativo, economicamente, como o Livro Base 1 é gratuito no formato digital! E, a despeito desse baixo custo financeiro, os livros são de uma qualidade primorosa!

De farto, foi a acessibilidade financeira que me fez chegar no sistema. Mas, conforme a comunidade me ajudava a compreender os fundamentos e elementos principais do sistema, eu compreendi o quão fácil ele é de ensinar novatos.

Old Dragon 2 possui um modelo simples, focado apenas nos testes de Atributos para resolver a maior parte dos empasses e nas habilidades de Classe. Não há perícias, talentos, qualidades ou coisas similares. São os Atributos e as Habilidades de Classe.

E sua imaginação e capacidade criativa.

Apesar de possuir fortes elementos de jogo, Old Dragon 2 convida constantemente o grupo para o diálogo e para soluções criativas, de modo a dar muito peso no elemento narrativo – não é o foco do sistema, de modo algum, mas ainda assim ele faz um gesto generoso para esse estilo.

Essa leveza contribui para o estilo de jogo de Teatro da Mente, onde o que importa é a descrição dos elementos e o envolvimento dos participantes. Para quem é preocupado com a acessibilidade do hobby e com o desejo de torna-lo cada vez mais popular e chegar em cada vez mais pessoas, acho fundamental um grupo poder se divertir sem grandes custos (ou até mesmo nenhum custo) e podendo dominar a base do sistema em poucos minutos.

Sua simplicidade é justamente sua potência e os materiais oficiais são recheados de informações e aplicações práticas que mostram como um grupo pode, facilmente, adaptar o sistema sem grandes mudanças para caber na proposta de jogo que mais deseja.

Outro fator que soma na leveza de usar o sistema é a plataforma ODO – Old Dragon Online. Um local gratuito e super fácil de operar que agiliza ainda mais a criação de personagem e a gestão do personagem do jogador – é possível até mesmo realizar testes, de modo que quem joga no estilo Teatro da Mente, precisa apenas do ODO e de um local para vídeo chamadas!

Regras da Casa

Regras da Casa não apenas uma opção em Old Dragon 2. É algo incentivado de maneira oficial. Ainda assim, para os mais puritanos, é importante deixar claro que, com as regras apresentadas nos materiais oficiais, é possível resolver todo tipo de empasses.

Dito isso, uma maneira de provar o quão fácil é adaptar o sistema, há uma quantidade generosa de materiais feitas por fãs. Estes materiais estão hospedados no site do Covil do Velho Dragão. Lá, além de aventuras, monstros, raças e especializações personalizadas, há vários cenários adaptados de maneira muito competente e disponíveis de maneira gratuita.

Alguns exemplos de cenários adaptados: The Witcher, Ragnarok, Dark Sun e Ravenloft

Além do mais, o sistema se mostrou excelente para cenários modernos e de horror pessoal. Eu mesmo estou escrevendo e gerando playtests de Criaturas das Trevas. E o autor Goes desenvolveu o Hyper Dragon – adaptação do sistema para uma proposta de cyberpunk!

Convite

Você que gosta de sistemas leves, rápidos, mas que permitem escalar para propostas com elementos mais de jogo ou mais de narrativa (ou ambos!), fica o convite para testar Old Dragon 2.

Além do mais, Raul escreveu vários artigos com guias para auxiliar a compreender mais as raças propostas no sistema e dicas de criação de personagem!


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O Canto do Fim – Conto – Lobisomem O Apocalipse 5° Edição

(A fogueira crepita, mas seu calor parece ter sido sugado pelo espaço. As chamas, outrora laranjas e vivas, agora vacilam em um tom prateado e frio. Os olhos de Alma de Dois Mundos se reviram mais uma vez, mas não há frenesi agora. Há apenas a exaustão de um espírito que carrega o peso de eras que nunca existiram. A voz que escapa da minha garganta é um sussurro multifacetado, o som de incontáveis linhas do tempo se rompendo simultaneamente.)

“Aproximem-se, filhotes. O que lhes contei antes foi sobre a queda no abismo interior, mas o que acontece quando você chega ao fundo e descobre que o abismo não é o fim, mas apenas a sala de espera do verdadeiro horror? O que lhes trago agora é o Canto do Fim, o terceiro ato da epopeia dos Filhos da Capivara, onde a própria malha da realidade se desfez sob suas patas.

O Canto do Fim

Enquanto a matilha lidava com seu julgamento no abismo, no mundo físico — ou no que restava dele — Luiz, o Fala Mansa, tentava ignorar sua natureza. Ele é a representação do Garou moderno: afogado em burocracia, preferindo tribunais humanos às clareiras sagradas. O estresse de negar sua essência estava adoecendo Luiz.

Foi em um momento de exaustão, em uma banheira de hidromassagem na Serra do Cipó, que o espírito da Capivara apareceu para ele. A mensagem era clara: o mundo não precisa de um advogado agora; ele precisa de um sacrifício. Através do reflexo da água, ele adentrou a Umbra. Mas a recusa de Luiz em aceitar seu lado Garou causou a maior das rupturas: ao cruzar a Película densa do Mar de Mortos, sua alma se dividiu em duas. De um lado, o homem nu; do outro, o lobo apático.

O Despertar no Ossário e a Aceitação

Nesse ínterim, Quebra-Ossos, Noite Perdida e Lobo da Alvorada despertaram de seus transes oníricos. Eles não estavam mais na lama úmida, mas em uma ilha lúgubre, uma planície feita inteiramente de ossos empilhados. Eles estavam completamente nus, despojados de qualquer armadura ou vaidade. A única coisa que brilhava ali era um Ovo de Cristal, um fetiche de poder inestimável que pulsava como um coração de luz.

Foi nesse cemitério de elefantes metafísico que os caminhos se cruzaram. Eles encontraram Luiz e seu lobo separados. A matilha tentou de tudo — até a força bruta — para forçar a união do homem com o animal. Mas a integração da Sombra não acontece na porrada. Só quando Luiz, em um momento de resignação e carinho, aceitou acariciar seu próprio lobo, as duas metades brilharam e se fundiram. Ele finalmente estava inteiro, apenas a tempo de ver o inferno se erguer.

A Teia dos Mundos e o Fim que Já Aconteceu

Os céus rugiram não com nuvens, mas com trovões secos, e os corpos inertes de seus companheiros caídos — Eterna Tormenta, Caramelo e os outros — foram lançados ao chão, envoltos em fios de prata. Do alto, desceu Ansi, a Filha de Ananasi, a herdeira da Teia dos Mundos. Uma mulher negra escultural com olhos que brilhavam como sóis e dedos alongados como patas de aranha.

Ansi não trouxe conforto; ela trouxe a verdade. Tecendo uma janela espiritual no ar, ela mostrou à matilha um filme cósmico de terror. Eles viram o Apocalipse. Viram uma entidade de pura entropia — nascida do ritual que falharam em impedir — crescendo de forma grotesca. Essa massa de carne absorveu divindades, engoliu garous, magos e vampiros, e transformou a Terra em um deserto vermelho e morto.

A revelação foi esmagadora: O Apocalipse já aconteceu. Faz dez anos. A matilha, presa no Mar de Mortos, estava alheia ao tempo. Eles lutavam para salvar um mundo que já era poeira.

O Enigma da Aranha e o Peso do Apocalipse

O sacrifício atingiu seu ápice ali. Ansi lançou um enigma terrível: ‘A vida deles está em um mundo que morreu, e a morte está em um mundo que nunca existiu. Para que vivam, precisam morrer no mundo que nunca existiu… e vocês devem existir no mundo que pode vir, e morrer no mundo que esta a morrer.’

Para reescrever a linha do tempo e impedir o Apocalipse, a matilha precisaria sacrificar a própria existência. Se alterassem o passado, eles seriam apagados da malha da realidade. Nunca seriam heróis, pois as lendas não podem contar sobre quem nunca existiu. Além disso, seus companheiros inanimados — os resquícios de vida que Ansi mantinha — teriam que ser deixados para trás, sacrificados no altar do tempo para que uma nova aurora pudesse surgir. Era o paradoxo máximo: para salvar a todos, eles precisariam abrir mão de si mesmos.

O Senhor da Morte Acorrentado

Guiados por um fio prateado deixado por Ansi e flanqueados por um mar de espíritos esverdeados brilhando como vaga-lumes doentios, os quatro Garous chegaram ao centro da corrupção. Eles encontraram a clareira final.

Lá estava Anhangá, o Senhor da Morte. O mesmo ser pálido e de olhos em chamas que os havia testado. Mas ele não estava imponente; ele estava imobilizado, amarrado pelas grossas teias espirituais. A morte havia sido contida pela entropia. Quando a matilha se aproximou para libertá-lo — a única entidade capaz de devolver a vida e reiniciar o ciclo —, a escuridão acima deles ganhou forma.

Oito olhos vermelhos se acenderam. Uma colossal aranha, uma abominação da Tecelã corrompida pela Wyrm, desceu lentamente das sombras. Não era mais sobre sobreviver; era sobre o direito de apagar a própria história para que o mundo pudesse ter uma.”

(O prateado do fogo repentinamente se apaga, deixando apenas o breu e o som de respiração pesada. Espírito de Dois Mundos pisca, limpando a fuligem do rosto. Não é mais o espírito; é o “hominídeo” mais uma vez, olhando fixamente para todos.)


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Sincretismos de Arton – Resenha

Esta é uma resenha do Suplemento para Tormenta 20 da Jambô Editora: Sincretismos de Arton. Parece, segundo nossos acólitos que foi:

  • Idealizado pelo escritor e Criação, direção de projeto e texto: Vinícius Staub @vinicius_digitacoes. Para saber um pouco mais, leia o texto que o próprio escreveu para o MRPG, clicando aqui!
  • Desenvolvimento:
    Vinícius Staub @vinicius_digitacoes;
    Eric Vinícius @ericviniciusxz;
    Tiago “Samaritano” @legiaodearton.
  • Diagramação:
    Thiago “Amon” Ramos @thiago_ramos47.
  • Ilustrações originais:
    Dougrart @dougrart dougrart.artstation.com;
    WuJu @wuju_drawing.
  • Arte da Capa:
    Ricardo Mango @ricardomango ricardomango.artstation.com.

Ficha Técnica

Primeiro mandamento: Não Oficial e Não Canônico

Isso mesmo. Não leve isso a ferro e fogo.

  • Páginas: 125;
  • Colorido
  • Formato: A5;
  • Publicado pelo Iniciativa T20. 

Mas que raios é esse palavrão: “Sincretismos“?

Bom, aqui na Bahia, é uma mistura de religiões, no caso as religiões afros e cristãs. E era uma forma do negro/escravizado manter sua religião original, porém parecer que havia de fato sido doutrinado para a religião católica. Por exemplo, Santa Bárbara corresponde a Iansã. 

O livro explica isso logo no início (primeiro capítulo), da mistura de religiões. E considerando que Arton tem um Panteão de 20 deuses, (Tormenta 20, percebeu?), com 190 combinações possíveis (misericórdia!) de 2 deuses, e só neste volume abordamos 38 dessas possibilidades.

Por hora, a única heresia foi a frase “As possibilidades são cada vez mais infinitas”, no fim do prefácio. Imagino que se fosse “menos infinitas”, talvez tivéssemos o Apocalipse.

O que preciso para jogar?

Você precisará de imaginação, o livro básico, e este suplemento que cria uma regra opcional de devoção dupla, pois originalmente, só pode haver devoção a um dos 20 deuses.

Iniciemos o ritual agora.

Neste caso, precisarás seguir as Obrigações e Descrições de ambos os deuses. (Pensaste que era fácil? Nada disso, noviço!).

Como jogar com Sincretismos de Arton?

Segundo mandamento

Continuarás ganhando apenas um dos poderes concedidos por apenas um dos deuses, mas poderás escolher entre os listados para ambos os deuses, e um único poder exclusivo da devoção dupla.

Entretanto, se tu fores clérigo, druida, frade, ou paladino, então, e somente então, poderás escolher 2 poderes.

Manterás apenas uma arma favorita, poderás canalizar energia, e manterás tua devoção.

Exemplos de Sincretismo de Arton

Terceiro Mandamento

Cada sincretismo traz lendas, ganchos de aventura, atividades, crenças, caixas com ideias de personagens adicionais. É um material bastante rico.

Como por exemplo:

  1. O Abismo Onipresente – Megalokk + Oceano;
  2. Os abutres Brancos – Marah + Thwor;
  3. Alcateia dos Órfãos – Allihanna + Thwor;
  4. Altares de Masmorra – Hynnin + Valkaria.

E assim por diante, até chegarmos ao total de 38 sincretismos.

Passeio no Bosque – Fragmento de aventura

Quarto Mandamento: Cinco cenas no mínimo

É praticamente uma aventura pronta, noviço(a). E eu tenho o pecado de gostar muito de aventuras prontas.

O Bosque Sangrento te aguarda. Temas, mas saias deste bosque assim mesmo.

Quinto Mandamento: Geradores de Altares de Masmorras

Uma verdadeira delícia, que cria uma sequência de uma charada, uma armadilha e uma recompensa, dando personalidade a sua masmorra. E como diz o nome, é um gerador de masmorras. Por favor, use e abuse.

Reze para entrar. E mais ainda, para sair….

A Mandrágora é um texto exclusivo de Sincretismos de Arton, Vol 1

Sexto Mandamento: Labirinto de Emoções

Atenção a sua postura, novato(a)! Pegue uma das máscaras, antes de entrar no salão. Sinto o perigo nos aguardando. Mantenhas tua fé. Cuidado com os pecados.

Sétimo Mandamento: Novas Origens – Lembre do Passado

De onde tu vieste? Eras um cidadão de masmorras? Uma criança feral? Uma curandeira de vila? Saber de onde vieste, ajuda a entender para onde deves ir. Lembra-te que poderes fazer algo é diferente de deveres fazer algo.

Oitavo Mandamento: Novas Raças – O Povo

Parece ser tua primeira vez acima do subterrâneo. Tenhas medo, é claro, pois isto é autopreservação. Mas não fiques parado. Eu também nunca vi alguém como tu antes.

O Bosque Ensanguentado (Allihanna+Megalokk) tem uma mini aventura em Sincretismos de Arton, Vol 1

Mas finalmente. Temos pontos fracos neste primeiro “Sincretismos de Arton”?

Não há virtude sem a tentação do pecado. Escutai. Olhai.

As artes são belas, e muito variadas entre si. Há desde pinturas típicas, até estilo manga e Old School (P&B). Isto pode desagradar a algumas pessoas (como eu).

Mas talvez outras gostem. Se desejas jogar com o T20, precisas do livro de regras básico. Isto NÃO é “stand Alone”.

Pontos Fortes desta obra

Pode ser utilizado como inspiração para diversos RPGs. Mesmo em outros sistemas, ou em ambientação futurista, com alta tecnologia; podem haver religiões e cultos. E isto apenas com o volume 1, pois o segundo volume já está em fase de playtests.

Rito Final

Parabéns por me acompanhar até aqui, e considere tua iniciação concluída. Nós nos encontraremos neste mesmo lugar, na próxima lua minguante. Conto contigo. Que nossos deuses te abençoem e protejam. Até lá. 

Temos outras resenhas, aqui no MovimentoRPG. Quer checar aqui? E nosso podcast, já conhece? Escuta aqui!


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Kalimar – Um Conto de Tormenta20 parte 01

Neste conto que acontece no universo de Tormenta20, da Jambô Editora, somos apresentados a uma carta escrita por um capitão, que após ter seu navio naufragado, tenta explicar o motivo que o fez se afastar e os mistérios do mar. O quanto disso será verdade?

Kalimar

“Há essa mulher, que existe: está num sonho que a gente sonha sem saber, quando está acordado, uma canção tocada sem som. Não é ela quem nos arrebata: é quem nos traga. A maré é tentar deitar-se em seu leito bentônico; a maré é nunca ser tal homem e fugir de seus braços. A maré é ser incapaz de amar e incapaz de esquecer a Amada que sempre foi.”

– Dijitan, vanara místico

Vossas senhorias, membros da alta corte militar de Yuden,

Acusado de deserção, a pedido do tribunal, relato minha defesa por escrito. É sabido que o Odisseia, por mim capitaneado, naufragou em perseguição a remanescentes da frota táurica derrotada na costa de Tyrondir.

Pelas graças do Oceano foi que minha tripulação (contaram-me) chegou à terra firme agarrada em destroços. É verdade que tomei de uma canoa, junto com o imediato e alguns marujos. Mas não desertamos, não ali; a vontade do mar nos levou para longe da costa.

Foram dias seguidos de tempestades, e mesmo trombas d’água foram vistas.

Exaustos e famintos, de bocas ressecadas, à deriva, sob estrelas que não reconhecíamos, vimos maravilhas e horrores, que não saberei jamais se fruto de nossos delírios ou da engenhosidade divina.

De uma forma ou de outra, apenas os náufragos veem tais coisas. E cada náufrago que não volta afunda um tesouro consigo. Pela mazela ou pela distância, devíamos estar mais próximos do mundo dos deuses.

Um marujo criou costume de boiar ao lado da canoa, cada dia mais tempo. Mergulhava e passava por baixo do casco. Salobro e encharcado, voltava sem fome ou sede. Em poucos minutos, estava pior do que antes, e precisava nadar novamente.

Não subia mais para respirar por horas e horas. De volta à canoa, nos olhava com nojo. Uma noite, o vi de pé, pronto para saltar; a lua brilhou estranha em seus olhos que não piscavam; e pulou no mar e não foi mais visto.

Uma revoada de papagaios voava sobre nós como abutres. Sentíamos que era mau agouro. Acordávamos com as aves sobre um colega, encarando-o de forma diabólica, e quando tentávamos afastá-las, pulavam sobre nós e nos bicavam. Tomamos grande susto quando um jovem de barba feita apareceu em nossa nau do desespero, sentado sorrindo.

Todos o vimos.

Fez promessas grandiosas e disse blasfêmias sobre o Oceano que jamais esquecerei, nem ousarei repetir. Um alvoroço tomou os poucos metros de madeira em que vivíamos; viramos inimigos uns dos outros, e de alguma forma não nos ocorria expulsar o jovem. Até o fim da tarde, um de nós foi morto. Eu mesmo o esganei. O jovem desapareceu.

Então, éramos apenas três famélicos, em pele e osso, barbudos como múmias, vivendo de peixe cru e água da chuva, quando haviam. Vi Valkaria passar sobre nós com mais 19 donzelas, cada uma montada numa besta alada – um cavalo, um burro, um escorpião, um trobo, um selako, um ouriço, todo tipo de peixe.

Vi o mar brilhar colorido, como se sujo de aguarrás. Um albatroz com cabeça de homem pousou na ponta da canoa, e nos prometeu responder três perguntas – agarramo-lo e o devoramos. Sentindo culpa, o imediato atirou-se ao mar.

O marujo morreu de uma moléstia que eu nunca havia visto, mudando de rosto e tamanho a cada vez que a febre voltava. Joguei-o ao mar sem cerimônia, distraído. Já estava só há muito tempo. Mas a barca era menor sem meus companheiros. Eu era menor perante a imensidão do mar.

Esqueci como se orava.

Passei por um recife de grandes rochas, cada uma com o rosto de um homem que matei. Peixes do tamanho de ilhas surgiam e abriam bocarras, e o mar escapava para dentro deles como quando se abrem fendas de irrigação. E grandes serpentes envolviam os peixes e os matavam, e dragões ainda maiores levavam as serpentes. Num acesso de loucura, gritei para que também me levassem, mas não tinha voz.

O que conto é pela riqueza do Reino. Se voltar a ter capitães, e comandar marinhas, seja própria ou de futuros aliados, quem sabe, no futuro, possa localizar de novo as riquezas sem tamanho que encontrei, seguindo pelo rumo de minhas desventuras.

Depois de gritar para os dragões, passou-se um dia e uma noite de grandes turbilhões de água. A canoa era puxada de um para outro, e vi até mesmo o fundo do mar descoberto, todo areia e pedra. Me segurei nas bordas até que os turbilhões cessassem, e desmaiei de exaustão.

Despertei, a canoa encalhada, com três elfos do mar à minha volta, joelhos dentro d’água, sombreados pelo sol nascente. Um segurava uma azagaia de madrepérola; outra, uma rede feita de algas delicadas; e o terceiro, um tridente de ouro maciço.

Mais vezes, talvez, que qualquer outro yudeniano, defendi minha vida contra abordagens sorrateiras dos elfos do mar.

A vontade de viver reergueu meus músculos definhados, um ímpeto de luta; mas, quando dei por mim, implorava agarrado a seus trajes simples. E me cuidaram, os três elfos do mar, como se eu fosse um filho.

Me deram ensopados e água de coco, sempre junto a uma fogueira e uma palmeira próxima à praia, até que eu pudesse me levantar.

O da azagaia de madrepérola passou a me levar até recifes e mangues. Com sua arma, pescou para mim, e me ensinou a pescar à sua maneira. Na mesma azagaia, nossos peixes tostavam sobre a fogueira, e repartíamos a refeição.

Meu professor não falava minha língua, e pouco falava com seus pares. Um dia, acordei e ele não estava mais lá; a mulher tecia e desfiava a rede sem nada me dizer. Eu voltava da pesca, e apenas a observava.

Tornei-me também seu aprendiz.

A primeira vez que imitei minha mestra, fazendo uma rede resistente, adequada ao combate, ela desviou o olhar para rir discretamente. Tomou de mim a rede e a desfez.

Demorei a entender: a mestra me ensinava a tecer beleza. Aprendi com ela os padrões de laços, e então a usar os diferentes tipos de algas e aproveitar suas cores. Ela fiava e desfiava na minha frente, e me entregava as algas para que eu recomeçasse o trabalho. Nunca trabalhávamos juntos.

Quando eu fiava, ela observava com a atenção de uma aluna – com a generosidade de uma amiga. Logo eu já enfeitava minhas redes com conchas e flores da restinga. Depois do dia em que, finalmente, fiz para mim mesmo um belo traje, cosido somente das dádivas da praia e do mar, ela também me deixou sem aviso.

Ferido a segunda vez pela saudade, percebi sua doçura.

Procurei pelo terceiro, imaginando qual seria a nova lição. Estava longe da praia, já entre árvores frondosas, os pés sobre terra preta, apoiado em seu magnífico tridente. Mas ele falou, em valkar, que apenas tomasse sua arma e seguisse até encontrar uma cidade.

E com orgulho, ele disse, eu entraria em Kalimar, onde todos são reis. Me abraçou forte, como um velho amigo; sua dor escorreu para meus músculos, e me amoleceu, e chorei em seus braços. Caminhou para a praia, mergulhou numa onda, e nunca mais o vi.


Fazia do belo tridente meu cajado de caminhada. Meus olhos se perdiam entre belos arbustos cheirando a maresia a os ornamentos delicados da arma. Um caminho mal picado me levou à entrada da cidade.

Não tinha portões nem guardas. Duas imensas estátuas me recebiam, coloridas: a divina Marah, de traços bondosos, trajada em algas, não como as minhas, mas de tipos que nunca se viu, e o poderoso Oceano, belo de rosto e de corpo, a cabeça e as costas cobertas por um manto de branco impecável.

Marah me olhava acolhedora; mas Oceano tinha os olhos na deusa, confiante e sereno.

Sua estátua parecia prestes a descer de seu pedestal e tomar Marah em seus braços. Me envergonhei de pensamentos sacrílegos, e passei por eles de cabeça baixa. Livre daquele interesse despudorado dos ídolos por mim, levantei de novo os olhos.

Estava em Kalimar. As ruas eram calçadas de basalto e arenito intercalados em grandes blocos, e entre as pedras e em torno dos pavimentos a relva pequena e praiana brotava livre. Pergolados de madeira rústica entalhada, de teto de nós de folhas de palmeira, sombreavam casas circulares no fundo dos terrenos, com construções desordenadas e simples se multiplicando pelos quintais.

Do mesmo material dos pergolados, galpões abertos imensos abrigavam pessoas fazendo comércio, cantando em roda e descansando em redes. Interrompiam o que quer que fizessem para puxar um dos seus pelas mãos, até jardins protegidos do sol por árvores de grandes folhas e salpicados de orquídeas brilhosas.

Nas bancadas de comércio, instrumentos musicais tomados por cracas, mas ainda sonoros, e temperos cheirosos e roupas que eles experimentavam sem pressa e cheios de vaidade, rodopiando seus panos para o riso de seus companheiros.

Elfos-do-mar e tritões patrulhavam as ruas, desarmados, portando estandartes com o coração de Marah em fundo azul, rodeado por conchas. Cumprimentavam-me respeitosos, como se confirmando que eu caminhava na direção certa.

O restante do povo me ignorava, ou apontava de longe e cochichava risonho.

Seguindo pelas ruas, via bebedouros que fluíam calmamente água doce e vazavam pelas calçadas, cheios de vitórias-régias e flores de manguezal. Vi mais estátuas, e anfiteatros, e ao longe despontavam altos sobre os tetos de palmeira palácios de puro mármore.

Supus que andava em direção ao centro ou à parte antiga da cidade; e, portanto, rumo a um elevado. Desnorteado, não percebi que me aproximava de uma baía. As construções rústicas e alegres ainda eram maioria, mas aqui se erguiam sobre palafitas.

Mesmo os palácios de mármore, zigurates de andares tomados por jardins e esculturas, se apoiavam em enormes colunas lambidas pelo rio e pelo mar. Aproveitando uma maré baixa, o povo pescava siris ou brincava na água lenta e morna.

Homens e mulheres se erguiam daquele brejo salgado, cobertos de lama. Não subiam aos trapiches antes de se lavar, mas também não se incomodavam em vestir o lodo enquanto estivessem na parte baixa.

Alguns acompanhavam a nado os pequenos barcos que transportavam pessoas e pesca, em conversa distraída ou desviando-os de bancos de areia.

A vegetação do mangue crescia livre onde não atrapalhasse.

Os patrulheiros que encontrava ainda me observavam sem interferir. Se não fosse pelos pacíficos guardiões que me receberam e aclimataram à vida que eu testemunhava, talvez caísse em colapso.

Ainda assim, estava zonzo. Magro e barbudo, recém resgatado do sem-tempo à deriva, qualquer gente, qualquer cidade, qualquer cotidiano teria me aturdido. Eu mal lembrava meu nome.

E tudo ali me convidava a abocanhar. Suas peles cheiravam a mar quente e carnudo. Suas vozes soavam a sombra e sono compartilhado. Me apoiei no tridente, prestes a desabar. Uma mão suave me equilibrou sem usar força. Era Caimë.

Essa é a primeira parte do conto “Kalimar”. Para ler a segunda parte, clique aqui.


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Kalimar

Texto: Vinícius Staub.
Revisão:
Raquel Naiane.
Agradecimento:
Matheus Coutinho
Arte da Capa: Max Klinger (1884-1891).


Encontre mais contos clicando em: Histórias.

Aventuras com aliens Zeta para Fallout RPG

Explorar alienígenas Zeta no universo de Fallout é uma daquelas ideias que imediatamente despertam curiosidade e fascínio na mesa de RPG.

Nos jogos da série, encontros com extraterrestres são extremamente raros (geralmente surgindo como eventos secretos, encontros aleatórios ou pequenas histórias escondidas) e isso é parte do que os torna tão memoráveis.

Justamente por isso, ao utilizá-los no RPG de Fallout da RetroPunk Publicações, o ideal é manter esse mesmo tom: encontros extraordinários, cercados de mistério e incerteza.

Se você quiser conhecer melhor o sistema que permite criar esse tipo de história no Wasteland, aproveite também para ler nossa resenha completa do RPG clicando aqui, e descubra como ele transforma o cenário pós-apocalíptico em terreno fértil para aventuras cheias de estranheza e suspense.

Tipos de Aliens

Alien Ossudo (Bone Alien)

Os personagens descobrem restos esqueléticos estranhamente grandes em uma cratera no deserto, muito diferentes de qualquer criatura terrestre. Um grupo de saqueadores acredita que os ossos são de um “demônio antigo” e tenta transformá-los em talismãs ou armas ritualísticas. Porém, quando pesquisadores começam a analisar os restos, surgem sinais de que o esqueleto pode emitir um sinal de rastreamento ativo.

Alien de Zeta (Zeta Alien)

Estranhos desaparecimentos começam a acontecer em uma região do Wasteland, sempre acompanhados por relatos de luzes no céu. Investigando, os personagens descobrem que um pequeno grupo de alienígenas de Zeta está conduzindo experimentos biológicos com humanos e criaturas mutantes. O verdadeiro dilema surge quando os jogadores percebem que os extraterrestres estão estudando algo específico: uma mutação que pode ter surgido após a Grande Guerra.

Comida de Alien Zeta: Lula e Verme (Zeta Alien Squid Food & Zeta Alien Worm Food)

Mercadores começam a vender uma nova fonte de proteína extremamente nutritiva encontrada em um laboratório abandonado. Na verdade, trata-se de organismos alimentares alienígenas, lulas e vermes cultivados pelos Zetans como comida. Quando uma dessas criaturas escapa e começa a se multiplicar no ambiente local, os personagens precisam impedir que o ecossistema da região seja completamente transformado por biologia extraterrestre.

Monstro de Flatwoods (Flatwoods Monster)

Uma figura flutuante de olhos brilhantes começa a aparecer perto de um assentamento isolado, deixando os moradores aterrorizados. Alguns acreditam que seja um espírito ou uma entidade divina, enquanto outros pensam que se trata de tecnologia pré-guerra. Na verdade, é um alienígena utilizando um traje avançado, observando silenciosamente os humanos, e talvez preparando algo muito maior.

Alien em Decomposição (Decomposing Alien)

Os personagens encontram o corpo de um alienígena morto em uma antiga instalação militar. À medida que o cadáver continua se decompondo, ele libera substâncias biológicas desconhecidas que começam a alterar plantas, animais e até humanos próximos. Logo se torna claro que o corpo pode ser tanto uma fonte de tecnologia incrível quanto o início de uma nova ameaça biológica no Wasteland.

Conclusão

Alienígenas em Fallout funcionam melhor quando permanecem raros, enigmáticos e inquietantes. Em vez de se tornarem inimigos comuns, cada encontro deve levantar mais perguntas do que respostas: o que esses seres querem na Terra, há quanto tempo estão aqui e quantos deles ainda observam o planeta das sombras do espaço? Ao manter esse clima de mistério e suspense, o mestre garante que cada aparição extraterrestre seja um momento inesquecível para os jogadores de Fallout RPG.


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O Casamento – Um Conto de Verdades e Segredos

No conto “O Casamento”, Túlio Carneiro nos mostra uma visão única de alguém que não gosta de novelas, mas se encontra com o Verdades & Segredos, o RPG de Novelas Brasileiras da Editora do Movimento RPG (que ainda está em catarse; para apoiar, clique aqui!). O que será que um não-noveleiro tem a nos dizer?

O Casamento

Túlio retorna para casa após um dia cheio de trabalho.

Ele detesta novelas. Mas mal sabe ele, que está prestes a entrar num mundo muito além de sua imaginação…

“Ufa, até que enfim em casa. Hoje, foi barril. Ainda bem que tudo resolvido. Agora, tomar um cafezinho com a patroa, enquanto a sogra assiste novela. Vou colocar um fone de ouvido pra não ouvir aquele melodrama horrível que minha sogra adora.”

Túlio abre porta de casa, e diz:

“Boa noite, pessoal.”

Sua esposa o aborda de imediato: “Amor, houve um desastre de proporções bíblicas! É o Armagedon!”

Túlio responde sobressaltado: “Mas o que foi, meu bem?”

“É a nossa filha, Mine.” Carla responde.

Túlio diz, então: “Você está me assustando. O que teve a nossa caçula?”

“Ela está, está…” – ela começa a chorar e soluçar – “com a unha encravada!”

“Ah, menos mal. Que susto. Vamos cuidar, é claro” diz Túlio.

“Está horrível! Venha ver!” Retruca Carla.

“Claro. Filha, pode vir aqui?” Ele chama pela filha.

Uma voz adolescente responde: “Não, esta unha encravada me impede de andar! E logo hoje, que é o casamento da filha do governador Geraldo Jerônimo! E fomos convidados! Está tudo perdido!”

Túlio balança a cabeça, pensativo: “Mas espera. Como assim casamento? Há muitas Verdades e Segredos neste dia de hoje.”

Ele continua: “Estive ontem na inauguração do novo serviço de radioterapia. Tirei foto com o governador e tudo. Ninguém disse nada disso.”

“Mas, amor você não vê? Com esta unha encravada, este sofrimento incomensurável, como ela poderá vestir o vestido de dama de honra da noiva, a filha do governador, e ainda calçar o salto alto? Como faremos?” A esposa, a beira das lágrimas, quase se ajoelha.

“Eita, mas que trama de novela é essa? Parece que estou até gravando um episódio de folhetim.” Ele responde, surpreso.

Neste momento toca a campainha.

Carla interrompe a inquietação: “Espere, verei quem é. Oh, mãe, pai, que bom que vocês chegaram para podermos dividir juntos este golpe do destino. Olha a unha encravada de Mine.”

Poninha – mãe de Carla – observa rapidamente a unha de Mine. “Vamos minha filha, que a limusine já está esperando. Já sei o que fazer. Mine calça a minha sandália, que é baixinha sem salto. E o vestido cobre tudo.”

Carla responde, agradecida “Ô, mãe, sábia das sábias. A senhora nos salvou novamente. Graças a Deus.”

Mine faz a rápida operação de troca de calçados. “Pronto, já estou resolvida e pronta. Vamos. Pai, que bom que já está de smoking. Vamos logo!”

Túlio olha para si mesmo e troca olhares na direção do espelho na sala. “O que? Mas eu estava com o jaleco do hospital! Como assim de smoking? E de cabelo molhado, até parece que tomei banho agora! Que pesadelo é este? Estou preso numa novela? Seu Carlos, meu sogro, me diga que isso é um pesadelo!”

Carlos, o sogro, com ar resignado, responde: “Meu genro, estamos neste pesadelo juntos. Cheguei em casa hoje e estava no meio dessa confusão também. É melhor aceitar que dói menos… É difícil saber quais destas verdades contém segredos.”

“Agora, vamos, para o elevador. O motorista, que parece ser apaixonado pela filha do governador, planeja invadir o casamento na hora em que o padre disser ‘Se alguém tem algo contra este casamento, que fale agora, ou cale-se para sempre’.

Túlio responde, exasperado: “Credo, que clichê horroroso! Alguém me tira daqui! Eu quero voltar pra casa! Ter de aguentar horas num casamento que eu já sei que vai amanhecer nas revistas de fofoca!”

Manheeeee!

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O Casamento

Texto: Túlio Carneiro.
Revisão: 
Raquel Naiane.
Arte da Capa: 


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