Descobrindo a Cidade # 2 – City of Mist

Falaremos desta vez sobre a Cidade e os conceitos de galera. Todo os grandes cenários de RPG apresentam uma profundidade em ambientação, afinal é necessário sentir-se pertencente ao jogo, é preciso saber sobre os becos e o que eles escondem e também sobre as áreas seguras da cidade. Isso não é diferente em City of Mist, onde também temos uma cidade bem definida e daremos um nome personalizado a nossa galera.

Portanto, ficamos nesse texto com a discussão: seu grupo será experiente ou novatos colocados em situações-problema? Quem sabe são os novos Deuses modernos que dominam a Cidade e buscarão seu controle por meio da captura dos Mythos? Seja lá o que sua galera for, City of Mist apresentará também o seu despertar, provocando o grupo para a solução de dilemas que podem ser contemporâneos ou milenares. Pronto pra jornada?

Tipo de galera

A Galera

Um jogo sempre vai permitir que você apresente os personagens do grupo paulatinamente ou que os junte desde o começo do jogo. Pois bem, há combinações interessantes que o livro de regras propõe para você, quais sejam; a galera será um bando de detetives amadores, teóricos da conspiração, aventureiros das Brumas, sobreviventes de um evento, justiceiros mascarados, deuses modernos, profissionais ou alguma coisa diferente disso?

Definir como será a galera antes de montar, de fato, o jogo, é um ponto necessário para saber qual vai ser o teor da sua campanha. Caso sejam detetives amadores certamente eles estarão em situações do cotidiano quando seu despertar começar a acontecer. Já se forem executivos, estarão ligados a uma empresa e seus interesses. Os justiceiros mascarados estão interessados em resolução de crimes enquanto Deuses modernos se preocupam com sua divindade e seus domínios. Mais para frente, em outros textos, posso explanar sobre tipos de campanhas para cada temática.

A Cidade das Brumas

Um elemento extremamente importante e – repito – grandioso, é quando um cenário de RPG aprofunda e cria sua própria cultura. Chamamos nosso ambiente de Cidade das Brumas, e é claro, ele pode ser uma cidade

Cidade das Brumas

fantasiosa e totalmente única (com o próprio nome do jogo, inclusive), e ela pode ocorrer em tempos modernos ou até mesmo ser uma fantasia Noir, no século passado ou retrasado. No entanto, você também pode ambientar sua Cidade em São Paulo, New York, Tokyo ou até mesmo em Gotham City.

Sua perspectiva pode ser relacionada a um pequeno crime em New York, e podemos abordar uma cidade Noir ou até mesmo Neon Noir. Quem sabe seu interesse seja por uma Londres do século XV, ou abordar alguma cidade afetada pela Segunda Guerra Mundial. Tudo vai depender, além de seu controle, do nível de crime que você quer que seus jogadores abordem, não se esqueça que é um jogo investigativo com tons cinematográficos. Quem sabe seu interesse possa ser na cidade de São Paulo embarcando nas Diretas Já ou na época revoltante ditadura?

Tipo de Galera

Meus amigos, começamos juntos mais uma história, gostaria de contar com presença nos próximos textos onde abordarei profundamente conceitos do jogo, falarei de sistemas e darei ideias de campanhas para sua galera. Você me conhece, sou Kastas, do Contos da Tríade e se quiser conhecer meus outros textos dos outros sistemas, por favor, clique no link e para conhecer mais do meu trabalho, nos siga no instagram! Agora, se seu interesse é pela continuidade da série City of Mist, visite o link do texto anterior, clicando aqui!

REINO DOS MORTOS [1]

Kvarn era o encorpado do grupo. Peitoral e ombros largos, braços grossos e peludos. Os cabelos tinham cor de ferrugem, e a barba delineava seu rosto sem bigode.

– A cidade parece vazia pra mim – ele disse, diante da muralha de trinta metros de altura.

– Elas sempre parecem – Toiva respondeu, empunhando uma espada em cada mão. Apesar de ter crescido como bárbara, ela servira ao exército do rei, onde se tornou uma exímia espadachim.

– Mas nós temos que entrar de qualquer jeito – Clay disse, dando um passo à frente. Ele se virou para o velho barbudo mais atrás. – Galdor, o que sabe desse lugar?

– Como pode ver – o velho apontou para o mar à sua esquerda. – Negressus é uma cidade portuária. A praga veio pelos navios mercantis, quando tudo começou. Há uma chance de haver mortos por aqui, mas a maioria certamente já seguiu rumo ao oeste.

Clay assentiu, satisfeito. Ele se virou para um jovem de cabelos negros e sem barba alguma. Ele estava atrás do grupo, com um arco pendurado nas costas.

– Jim, fique de olho – Clay apontou para os próprios olhos e depois girou o dedo ao redor.

O arqueiro piscou pra ele. Apesar de jovem, Jim não fazia o tipo tagarela. Ele quase nunca falava. O seu negócio mesmo era puxar a corda e matar quem fosse preciso.

Os cinco viajantes decidiram adentrar os portões de Negressus, sem ter visão alguma do que tinha lá dentro. Esse tipo de situação não era rara. Frequentemente o grupo era contratado para adentrar as cidades tomadas pela praga dos mortos. Não havia ninguém mais capaz. Seus contratantes sempre pediam por coisas que foram deixadas para trás. Muitas vezes tinham que resgatar mapas, diários de bordos, baús e chaves.

Dessa vez, o objetivo do grupo era um quadro. Um rico lorde de Deloran procurou a Clay, dizendo ter ouvido falar dos serviços de seu grupo. Eles combinaram uma quantia a ser paga, e ele descreveu onde resgatar a pintura em questão.

Alguns dias depois, ali estavam eles, nas Terras Mortas, atravessando os portões de Negressus. Se tivessem sorte, iriam até o local indicado, pegariam o quadro, voltariam para Deloran e receberiam o pagamento. E se não tivessem sorte, bem, eles seriam cercados e devorados por um exército de mortos.

A praça logo depois dos portões fora tomada pela vegetação selvagem, recheada de capim, flores e cogumelos. Em contraste, o chão estava coberto de cadáveres decrépitos. Todos vestiam armaduras e espadas enferrujadas. Centenas de corvos perambulavam entre eles, grasnando e se alimentando daquele cemitério improvisado.

– Eles foram mortos com golpes nas cabeças – Galdor observou, apontando para os cadáveres. – Eles são zumbis mortos.

– Então não irão se levantar novamente – Kvarn disse, tentando encontrar alguma espada em boa condição entre os mortos. – Uma pena.

– Isso não é motivo pra ficar tão confiante – Toiva o alertou, olhando ao redor do pátio.

Ele era cercado por um quadrado de muralhas internas, separando-os da cidade por mais um portão. Ali era uma espécie de alfândega com postos de guardas.

– Houve uma grande batalha nesta cidade – Clay percebeu, vendo cadáveres pendurados até nas ameias da muralha interior.

– Você queria o quê? – Kvarn perguntou, esmagando uma barata. – Estamos nas Terras Mortas, onde o céu é azul e o chão é feito de ossos.

Jim trazia seu arco e flecha nas mãos, pronto para qualquer insurgência inesperada. Clay tomou a frente novamente e os liderou pelo próximo portão. Do outro lado, eles viram as ruas abandonadas e devastadas de Negressus. A cidade fora tomada pelos corvos.

– A torre – Jim avisou, apontando para o outro lado da cidade.

Uma torre quebrada se erguia dezenas de metros acima do chão. O ponto mais alto de Negressus. Era ali que estaria o quadro, segundo o contratante.

– Como era o nome… ? – Kvarn perguntou girando o dedo na direção da torre.

– Torre Sombria – Galdor respondeu, encarando a construção de pedra.

– Ela está do outro lado da cidade – Toiva disse, preocupada. – Devemos voltar e tentar entrar pelo acesso sul.

– O portão está fechado, vocês ouviram o contratante – Clay respondeu.

– Galdor, você não teria alguma magia pra abrir portões? – Kvarn perguntou ao velho.

– Eu perdi meus grimórios em Deloran, naquela caverna em que você causou o desmoronamento – Galdor respondeu, acusador. – Tudo o que me restou foi isso – ele puxou uma folha de papiro da sua bolsa. – Magia de vento.

– Quer dizer que tudo o que o nosso mago pode fazer no momento é assoprar na cara dos inimigos? – Kvarn perguntou com desdém.

Galdor deu um passo para trás e fez um movimento giratório com a mão. No mesmo instante, as folhas do chão começaram a rodopiar, e as roupas dos viajantes a balançar forte. Kvarn foi arremessado por uma quadra de distância, caindo no chão de pedras.

– Eu usei apenas um terço desse poder – Galdor avisou, se aproximando do companheiro. – Tente não ficar entre o meu vento e os meus inimigos.

Kavarn se levantou, atordoado.

– E você não fique perto da minha espada – ele cambaleava, tentando encontrar alguns palavrões decentes.

Clay balançou a cabeça, preocupado. Eles ainda não sabiam se o perímetro estava limpo.

– Deve haver outro portão mais próximo da torre – Toiva voltou a dizer.

– Não há – Clay puxou um mapa de couro e o estendeu no chão. Ficou de cócoras e começou a apontar para o desenho. – Negressus está selada. – O portão norte é o único acesso que temos.

– O jeito é atravessarmos a cidade inteira – Jim falou, concordando com a cabeça. – Se é o único jeito, então vamos logo.

Toiva olhou para o jovem, sabendo que ele estava certo. Resignada, ela girou os punhos das espadas e assentiu.

 

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