Sente o drama! Trazendo melodrama para sua mesa de RPG – Parte 1

Há RPGs que se dedicam ao roleplay desde seus fundamentos. O primeiro a fazer sucesso com esse foco foi Vampiro, a Máscara, e desde os anos 2000 proliferam RPGs narrativistas onde as próprias mecânicas provocam os jogadores a interpretas e decidir a trama da história, mais que resolver problemas postos pelo mestre (como, por exemplo, a prata da casa aqui do Movimento RPG, Verdades&Segredos).

Mas os combeiros, porradeiros, exploradores de masmorras e detetives do sobrenatural também gostam de um bom drama. Brigas, tensão, lágrimas. Dúvidas, conflito, amizade, rivalidade. Pode ser uma história de ação, de aventura ou de suspense – quando ela carrega nos tons emocionais, a gente às vezes a chama de melodramática.

É um apelido depreciativo, de vez em quando carinhoso, mas inexato: “melodrama” tem um significado específico, que abordaremos na próxima coluna. Hoje, vamos tratar de “melodrama” no sentido popular – histórias com emoções à flor da pele – e seu uso em mesas de RPG, mesmo quando não há mecânicas específicas para interpretação.

Para isso, vamos aproveitar o bonde da animação X-Men ’97, que terá uma segunda temporada em julho. X-Men ’97 saiu em 2024, e continua a história do desenho animado dos anos 90, investindo ainda mais nos conflitos pessoais, angústias íntimas e romances que marcaram a obra de Chris Claremont, roteirista dos quadrinhos dos mutantes entre 1975 e 1991.

Adolescentes dramáticos… DO ESPAÇO

Um pouco de história

Em 1963, Stan Lee e Jack Kirby apresentam pela primeira vez os X-Men, tentando repetir o modelo de família de heróis que consagrou o Quarteto Fantástico. Os quadrinhos da Marvel já se diferenciavam dos personagens da editora rival, a DC Comics. Enquanto a Distinta Concorrência tinha tradição com histórias de heroísmo clássico, representando indivíduos idealizados, com personalidades oriundas dos machões do pulp e de deuses da mitologia greco-romana, Stan Lee e seus coautores já escreviam de forma “novelesca”: seus personagens eram falhos, tinham problemas banais e vidas pessoais tumultuadas.

Hoje, fala-se que os X-Men sempre foram uma alegoria para minorias. Este elemento, no entanto, não era tão presente no início. Lee e Kirby tratavam de ficção científica, do medo da era nuclear, da eterna luta entre o bem e o mal – representada, de um lado, pelos X-Men, mártires da tolerância e da paz, e, de outro, pela Irmandade dos Mutantes Malignos (sim, era o nome deles), liderada por Magneto, que cria em sua própria superioridade e desejava a dominação mundial.

Em 1975, o novato Chris Claremont assume os roteiros dos X-Men. Formado em teatro e ciências sociais, Claremont definiu os X-Men conforme os conhecemos hoje. Foi ele, por exemplo, que tornou Wolverine um solitário trágico, que estabeleceu que Magneto é sobrevivente do Holocausto, e escancarou os temas políticos na saga mutante. A série animada de 1992, que apresentou os personagens ao grande público, é inteiramente influenciada pelo autor.

Caminhos do coração

Para quem é fã de quadrinhos, os X-Men não são sinônimo apenas de crítica social, mas também de muito drama, e Claremont, mais uma vez, é o responsável. Sob sua batuta, os X-Men formaram diversos de seus casais (e triângulos amorosos…) mais famosos – são amores instáveis, não correspondidos ou terminados em tragédia. Os heróis não só têm passados tristes, mas são obrigados a enfrentá-los (já falaremos mais disso), nem que seja como fonte de traumas e insegurança. Boas ações não ficam impunes: além de terem de lidar com o preconceito, é como se o poder de cada herói lhes causasse angústia contínua. Vampira não pode tocar os outros, Fera e Noturno são horrendos, e Ciclope, o líder certinho e reprimido, não consegue olhar ninguém nos olhos. Os X-Men de Claremont vivem brigando e fazendo as pazes, nem sempre a tempo de enfrentar os vilões.

Mas as revistas dos X-Men não viraram nem de longe um slice of life mutante. Nas histórias de Claremont, o grupo passou por sagas cósmicas (como a da Fênix), viagens no tempo (Dias de um futuro passado), invasões alienígenas (A Ninhada) e… acompanharam uma cantora de disco? O escopo de Claremont costuma ser o maior possível, ao mesmo tempo em que os personagens se apaixonam e as lágrimas rolam.

Como sofre esse menino!

Lá vem o drama…

Se você quer levar o melodrama para sua mesa, há muito a se aprender com os X-Men de Claremont e das animações. Como já falei, existem sistemas de RPG que integram a interpretação às mecânicas do jogo. No entanto, para eventos cataclísmicos, eucatastróficos e galácticos, guerras onde o pau come solto e a mãe não vê, investigações apavorantes e sistemas de RPG que privilegiam ação, também é possível fomentar o drama assumindo dinâmicas de mesa.

Uma dinâmica de mesa não é como uma mecânica, que, escrita no livro base ou acordada como regra caseira, está valendo sempre que é engatilhada (por exemplo: em Tormenta20, testes sempre são feitos com um dado de vinte lados). Uma dinâmica pode ser um hábito que a mesa adquiriu, mas é melhor que também seja um acordo. Não precisa, necessariamente, sempre ser cumprida – é mais uma forte sugestão. Sobretudo, é algo que os jogadores praticam ativamente, por vontade própria, sem efeitos “em jogo”, ao contrário de uma mecânica, que sempre vale, às vezes passivamente, às vezes arbitrada pelo mestre.

Você e seu grupo podem começar a praticar dinâmicas de várias formas. Podem combinar primeiro quais estão valendo, e até mesmo provocar uns aos outros para que as apliquem. Podem todos pensar a respeito, conversar um pouco, reler este artigo e deixar a coisa fluir. Você pode até mesmo digerir esta leitura e aplicar da maneira que quiser, sem combinar com mais ninguém. Mas atenção: perceba se os outros também estão se divertindo com seu melodrama.

Nesta sequência, o conflito interno de Ciclope é subtexto do diálogo, mas o narrador o comunica abertamente

Alguns princípios

Antes de entrar nas dinâmicas em si, existem alguns princípios sobre os quais vale a pena refletir quando estamos saindo do óbvio na interpretação de personagens.

Clareza

Melodramas florescem na relação (e conflito!) entre personagens. Mas, num RPG, eles só são possíveis se os jogadores se comunicam entre si, enquanto jogadores, justamente para que os enganos, as segundas intenções e os sentimentos confusos façam estrago entre os protagonistas sem que os intérpretes deixem de se divertir. Muita gente joga como se interpretação fosse apenas uma relação personagem-personagem. Mas é impossível desenvolver um melodrama sem relações jogador-jogador.

Se meu personagem está tentando prejudicar o personagem de meu amigo, eu aviso meu amigo. Pode ser verbalmente, em alto e em bom som, embora grupos mais próximos às vezes se entendam pelo olhar ou tom de voz. A mensagem, no fundo, sempre é esta: “estou querendo causar uma situação interessante em cena; quer seguir com ela?”.

Abertura

Drama quer dizer “ação” – no caso, estamos falando de “ação emocional”. Numa trama redondinha, uma ação leva à outra, e um bom autor melodramático cria um enredo de emoções consecutivas. Mas uma mesa de RPG não tem roteirista. Cada um conhece seu personagem melhor do que ninguém. A sequência de ações-emoções só vai ocorrer se você permitir que o outro jogador pegue as ideias que você põe em jogo e as transforme. Como num esporte, a bola está em campo, e passa por jogadores diferentes; o objetivo não é ser “fominha”, mas contribuir para uma jogada bonita.

Trágico.

Luz, câmera, sentimentos…

Dinâmicas podem ser propostas como brincadeiras que o grupo brinca em paralelo às regras e à narrativa do jogo. É bom lembrar de boas referências de dramalhão heroico – além dos X-Men, também temos Buffy, Cavaleiros do Zodíaco, Justiça Jovem e Naruto.

Passados passageiros

A origem de um personagem é uma boa fonte de traumas, sofrimentos, ambições e esperanças desmedidas. Porém, não é necessário criar um longo background, apenas elementos que possam ser ativamente usados em jogo. Compartilhe o seu BG com o resto do grupo, para que entendam seu personagem e saibam como criar a partir dele.

Mas lembre-se que drama é ação, não arqueologia. Deixe o passado de seu personagem ser aprofundado, ou até modificado, enquanto você joga. Quando você usa o passado do seu personagem, não deve ser para ensimesmá-lo em pensamentos, mas para atirá-lo em direção aos outros.

Carlos amava Dora, que amava Lia, que amava

Uma quadrilha de relações forma uma teia de emoções orgânica, desde que mude de vez em quando. O paladino é colega de copo do clérigo, que ama a guerreira, que desconfia que sua irmã perdida seja a maga, que acredita que o paladino matou seu pai… Uma quadrilha é divertida de se pensar em grupo, mas é melhor inventá-la à medida em que os jogadores entendem a dinâmica entre os personagens.

Quadrilhas também lidam com desencontros e sentimentos (bons ou maus) não correspondidos.

A linha tênue

Sentimentos podem mudar. Um personagem que ama outro pode passar a odiá-lo. Dois amigos podem passar a desconfiar um do outro. Sentimentos que saltam entre extremos são melodramáticos. Mas não tenham vergonha de voltar ao que era antes com pouquíssimos motivos. O importante é jogar emoções em cena e ver o que elas fazem. Não é preciso reinventar os personagens.

 “Você fica bravo de graça!?”

Como Graham Walsmey sugere no clássico Play Unsafe: “tente usar uma emoção em relação a outro personagem – raiva, medo – e acredite que você vai conseguir justificar depois”. Uma emoção sem explicação traz suspense – é como um mistério que ainda será revelado. Quem sabe seja o outro jogador que achará uma explicação!

Começo, meio e fim

Uma situação intensa entre dois personagens – como uma briga ou um mal-entendido – precisa ter hora para acabar. Ela precisa ser deixada de lado, mesmo que ainda tivesse potencial, para que outros conflitos venham em seu lugar. Melodramas são movimentados!

É comum em séries de TV que um conflito emocional acabe perto do fim do episódio, antes do clímax da história, mas é mais típico de quadrinhos que ele comece em uma história e termine em outra. Os jogadores não precisam combinar o fim; é até melhor aproveitar o drama a cada minuto, sabendo que pode ser o último… mas, quando um jogador dá o sinal, o outro precisa acatar. O mesmo vale para turbulências emocionais íntimas – saiba a hora de tirar seu personagem da fossa. Outros dramas lhe esperam!

Mundo, mundo, vasto mundo

Melodramas, incluindo o dos X-Men, costumam falar de injustiças. Em novelas, a “mocinha” é injustiçada, mas, no caso de um RPG, é melhor que o injustiçado seja o grupo. Será que ele é incompreendido por ser diferente? Será que tem um inimigo poderoso que o prejudica impunemente? Será que algo que os personagens têm algo em comum foi destruído? Parece algo a ser inventado pelo mestre – mas é o grupo que precisa, primeiro, dar dicas sobre qual é sua identidade coletiva, para que o mestre lance injustiças que machucam o grupo como um todo.

Tudo está bem quando acaba bem

A jornada do herói é uma teoria de escrita (e de psicoterapia) muito popular. Ela defende que heróis amadurecem e se transformam ao superar desafios. Mas isso não é melodrama!

Não tá fácil pra ninguém

Heróis melodramáticos podem mudar, até amadurecer, mas não se autorrealizam nem alcançam a plenitude emocional. Se alcançassem, ficariam chatos. Permita que os novos acontecimentos continuem afetando seu personagem. Ele tem que chegar interessante ao 20º nível!

Se há uma harmonia que raramente deve ser rompida num melodrama, é a familiar. Um grupo de personagens, uma vez que forma relações, deve sempre manter a lealdade e retornar à paz. Apesar de turbulências passageiras, o grupo deve ser um lugar feliz. Melodrama também é sobre acreditar no bem e no mal: que o mal assola, que o mal pode ser vencido, e que o bem é o lar para onde todos se dirigem.

Família em primeiro lugar

E você, como usaria essas dicas? Esperaria começar uma campanha nova, ou já traria elementos dela à sua campanha atual?

Na próxima coluna, falaremos do melodrama teatral brasileiro e de seus tipos cênicos! Senta que lá vem história…

 


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Texto: Vinícius Staub.

A Evolução dos RPGs Narrativistas – Aprendiz de Mestre

Durante décadas, o RPG de mesa foi associado, principalmente, à simulação. Sistemas complexos, tabelas extensas, atributos minuciosos e regras voltadas para reproduzir combate, exploração e gerenciamento de recursos dominaram boa parte da indústria desde o surgimento de Dungeons & Dragons nos anos 1970.

A proposta inicial surgiu como uma variação dos Wargames, e por conta disso, se manteve com fundações rígidas e objetivas.

Da simulação à Narrativa – O Amadurecimento de Ambas as Partes

Conforme o hobby amadureceu, muitos designers começaram a perceber que jogadores não buscavam apenas vencer combates ou acumular equipamentos.

O verdadeiro envolvimento vinha das histórias criadas na mesa, dos conflitos emocionais, dos dilemas morais e das relações entre personagens. Essa mudança gradual ajudou a transformar profundamente o design dos RPGs modernos.

Foi justamente dessa transformação que nasceram os chamados RPGs narrativistas: sistemas que priorizam construção dramática, interpretação e desenvolvimento coletivo da narrativa acima da simulação detalhada de regras.

Em vez de perguntar “o personagem consegue acertar o golpe?”, esses jogos frequentemente perguntam “o que essa escolha significa para a história?”.

Uma Semente de Ideia

Essa mudança não aconteceu de forma repentina. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, comunidades independentes de design — especialmente ligadas ao fórum The Forge — começaram a discutir novas filosofias para jogos de interpretação.

Surgiram, então, debates sobre gamismo, simulação e narrativismo, conceitos que influenciaram diretamente uma geração inteira de autores independentes.

Embora muitas dessas teorias sejam discutidas até hoje, elas ajudaram a consolidar a ideia de que o RPG poderia ser uma ferramenta narrativa tão poderosa quanto literatura clássica, cinema ou séries televisivas.

Os Filhos de Uma Era

O impacto dessa filosofia pode ser visto em sistemas modernos extremamente influentes, como Apocalypse World, lançado em 2010, que originou o movimento “Powered by the Apocalypse” (PbtA).

Diferente dos RPGs tradicionais focados em estatísticas complexas e resolução tática, os jogos PbtA utilizam mecânicas simples voltadas para consequência narrativa e colaboração entre jogadores e mestre. Mesmo falhas fazem a história avançar.

O sucesso dessa abordagem influenciou dezenas de RPGs contemporâneos. Hoje, sistemas como Blades in the Dark, Monsterhearts e Fate Core System colocam emoções, relações e consequências dramáticas no centro da experiência. Em muitos casos, o combate sequer é o elemento principal da campanha.

Os RPGs Indies e Suas Tendências

O crescimento dos RPGs independentes nos últimos anos revela uma mudança importante no perfil do público e também na forma como os jogos de mesa são produzidos.

Durante muito tempo, grandes editoras dominaram o mercado com sistemas extensos, cenários grandiosos e regras voltadas, principalmente, para exploração, combate e progressão mecânica.

Entretanto, a popularização do financiamento coletivo permitiu que pequenos estúdios e autores independentes encontrassem espaço para experimentar propostas mais autorais, intimistas e emocionalmente focadas.

Ideias que saíram do Papel

Plataformas como Kickstarter e Catarse se tornaram fundamentais nesse processo.

Segundo dados do próprio Kickstarter, apenas em 2023 a categoria “Tabletop Games” ultrapassou US$ 220 milhões arrecadados globalmente, mantendo os RPGs entre os segmentos mais fortes da plataforma. Boa parte desse crescimento vem, justamente, de projetos independentes com propostas narrativas diferenciadas, estética marcante e foco em experiências emocionais específicas (kickstarter.com).

Esse movimento também alterou a forma como os sistemas são concebidos. Muitos RPGs indies abandonam a ideia tradicional de “simular mundos” para priorizar temas dramáticos e experiências sensoriais.

Em vez de criar regras para cada detalhe do combate, esses jogos frequentemente desenvolvem mecânicas que reforçam sentimentos, relações interpessoais e consequências narrativas.

Vileborn e Outros Irmãos

É justamente nesse contexto que sistemas como Vileborn RPG ganham destaque. O jogo utiliza elementos clássicos da dark fantasy — monstros, decadência social e horror sobrenatural — mas direciona sua narrativa para conflitos internos e amadurecimento emocional.

Seus protagonistas não são apenas aventureiros enfrentando criaturas sombrias; são jovens tentando entender quem são em um mundo que os considera  aberrações.

Essa abordagem dialoga diretamente com tendências modernas do RPG narrativista. Conceitos como coming of age (histórias de amadurecimento), horror emocional e construção coletiva passaram a ocupar espaço central em muitos sistemas contemporâneos.

O foco deixa de ser apenas “o que os personagens conseguem fazer” e passa a explorar “quem esses personagens estão se tornando ao longo da campanha”.

Além disso, muitos RPGs indies modernos demonstram forte influência de outras mídias narrativas, como séries de televisão, videogames e romances contemporâneos.

Jogos como Monsterhearts utilizam metáforas sobrenaturais para discutir adolescência, desejo e exclusão social. Já Blades in the Dark transforma criminalidade e sobrevivência urbana em narrativas cinematográficas sobre trauma, ambição e decadência moral.

A Sociedade Cada vez mais Isolada, Busca Conexões

Outro fator importante é a busca por experiências mais colaborativas. Diferente de modelos tradicionais onde o mestre concentra grande parte da narrativa, muitos RPGs narrativistas distribuem poder criativo entre todos os participantes.

Jogadores ajudam a definir relações, facções, memórias e até detalhes do cenário, tornando cada campanha única e pessoal.

Essa tendência também acompanha mudanças culturais mais amplas. O público moderno frequentemente procura histórias que abordem identidade, vulnerabilidade emocional, pertencimento e conflitos sociais.

Consequentemente, os RPGs independentes passaram a explorar temas antes pouco comuns no hobby, incluindo saúde mental, trauma, exclusão, amadurecimento e relações interpessoais complexas.

Um Prato Cheio para Todos os Gostos

Hoje, o RPG narrativista não substitui os sistemas tradicionais — ele coexistе com eles. Enquanto alguns jogadores ainda preferem campanhas altamente táticas e simulacionistas, outros buscam experiências mais emocionais, rápidas e colaborativas.

Essa diversidade talvez represente a maior evolução do RPG moderno: a compreensão de que não existe apenas uma forma correta de contar histórias em uma mesa de jogo.


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Texto: Leon Santos.
Revisão: 
Raquel Naiane.

Tartarugas Mutantes Ninja: A Vingança do Destruidor – Dentro da Arca

Teenage Mutant Ninja Turtles – Shredder’s Revenge ou As Tartarugas Mutantes Ninja – A Vingança do Destruidor é um jogo de beat em up, baseado na série de TV de 1987 e nos jogos anteriores das tartarugas.

Lançado inicialmente para Nintendo Switch, Playstation 4, Xbox One e PC, depois foi lançado para Playstation 5, iOS e Android.

História

Enquanto estão assistindo TV, Leonardo, Michelangelo, Raphael, Donatello, April O’Neil e Mestre Splinter veem que as notícias são interrompidas:

O inimigo Bebop anuncia o retorno do Clã do Pé, e informa que está tomando a Estátua da Liberdade!

O grupo decide ir até o prédio do Canal 6 e lá começam uma perseguição atrás do Clã do Pé e das partes do androide Krang.

 

Cowabunga! também é comum em 3DeT Victory

No Dentro da Arca de hoje, para você que quer bater em capangas ninjas malvados, vamos adaptar cada uma das Tartarugas e os demais personagens jogáveis para 3DeT Victory! Cowabunga!

Os irmãos são bem diferentes, mas se complementam na luta contra o Clã do Pé!

AS TARTARUGAS

Leonardo 25N

Arquétipo: Sauroide.
Kit: Ninja (Mestre ninja, Ninpo de combate, Ougi [Ataque Especial].
P3, H2, R3; PA 3, PM 10, PV 15
Perícias: Esporte, Luta, Manha.
Vantagens: Aceleração, Ágil, Arena (Esgotos), Ataque Especial II (Múltiplo, Potente I), Defesa Especial I (Blindada), Cascudo (Resoluto e Vigoroso), Camuflagem, Grimório III, Imune II (Anfíbio, Resiliente), Mentor (Mestre Splinter), Maestria (Manha).
Desvantagens: Código dos Heróis, Diferente, Fraqueza (Frio), Protegidos (Seus irmãos).
Técnicas: Golpes (Finta, Rápido), Combo, Ninjutsu.

Raphael 25N

Arquétipo: Sauroide.
Kit: Ninja (Mestre ninja, Ninpo de combate, Ougi [Ataque Especial]).
P3, H2, R3; PA 3, PM 10, PV 15
Perícias: Esporte, Luta, Manha.
Vantagens: Aceleração, Forte, Arena (Esgotos), Ataque Especial II (Múltiplo, Poderoso),
Defesa Especial (Blindada), Cascudo (Resoluto e Vigoroso), Camuflagem, Grimório III, Imune II (Anfíbio, Resiliente), Mentor (Mestre Splinter), Maestria (Manha).
Desvantagens: Código dos Heróis, Diferente, Fraqueza (Frio), Fúria.
Técnicas: Golpes (Derrubar, Forte), Combo, Ninjutsu.

Michelangelo 25N

Arquétipo: Sauroide.
Kit: Ninja (Mestre ninja, Ninpo de combate, Ougi [Ataque Especial]).
P2, H3, R3; PA 2, PM 15, PV 15
Perícias: Esporte, Luta, Manha.
Vantagens: Aceleração, Arena (Esgotos), Ataque Especial II (Preciso, Múltiplo), Carismático, Cascudo (Resoluto e Vigoroso), Camuflagem, Defesa Especial (Blindada), Grimório III, Imune II (Anfíbio, Resiliente), Mentor (Mestre Splinter), Maestria (Manha).
Desvantagens: Diferente, Fraqueza (Frio), Tapado.
Técnicas: Golpes (Atordoante, Rápido), Combo, Ninjutsu.

Donatello 25N

Arquétipo: Sauroide.
Kit: Ninja (Mestre ninja, Ninpo de combate, Ougi [Ataque Especial]).
P2, H2, R3; PA 2, PM 10, PV 15
Perícias: Saber, Luta, Manha.
Vantagens: Alcance I, Arena (Esgotos), Ataque Especial II (Múltiplo, Choque),
Defesa Especial II (Blindada, Reflexão), Cascudo (Resoluto e Vigoroso), Camuflagem, Gênio, Grimório III, Imune II (Anfíbio, Resiliente), Mentor (Mestre Splinter), Maestria (Saber).
Desvantagens: Código dos Heróis, Diferente, Fraqueza (Frio).
Técnicas: Golpes (Derrubar, Debilitante), Gambiarra, Ninjutsu.

AMIGA

April O’ Neil 23N

Arquétipo: Humana.
Kit: Repórter Extremo (Faro para notícia, Fontes confiáveis, Furo de reportagem).
P2, H3, R2; PA 2, PM 15, PV 10
Perícias: Esporte, Influência, Luta, Percepção, Saber.
Vantagens: Aceleração, Arena (Cidades), Ataque Especial II (Múltiplo, Preciso), Carismático, Defesa Especial (Esquiva), Famosa, Grimório I, Maestria (Influência), Mais Além, Patrono (Canal 6), Resoluta, Sentido (Intuição).
Desvantagens: Código dos Heróis.
Técnica: Encantar.

MENTOR

Mestre Splinter 27N

Arquétipo: Kemono.
Kit: Ninja (Mestre ninja, Ninpo de Combate, Ougi [Rajada de Golpes]).
P3, H2, R2; PA 3, PM 10, PV 10
Perícias: Esporte, Luta, Manha.
Vantagens: Aceleração, Arena (Esgotos), Defesa Especial (Reflexão), Grimório VI, Forte, Imune II (Doenças, Resiliente), Instrutor, Maestria (Luta), Mentor (Hamato Yoshi), Percepção Apurada, Resoluto, Talento (Ágil), Sentido (Faro Aguçado).
Desvantagens: Assombrado I, Cacoete (Frágil), Código dos Heróis.
Técnicas: Golpes (Finta, Debilitante, Forte, Rápido), Combo, Monasticismo Marcial, Ninjutsu, Rajada de Golpes.

INIMIGO QUE VIROU AMIGO

Casey Jones 24N

Arquétipo: Humano.
Kit: Guerreiro (Lutar É Tudo!, Manobra Especial, Sem parar).
P3, H1, R3; PA 3, PM 15, PV 15
Perícias: Esporte, Luta, Sobrevivência.
Vantagens: Alcance I, Arena (Cidade), Artefato Arma I (Taco de Hóquei – Encantado 10 XP P+1), Ataque Especial III (Múltiplo, Potente II), Forte, Grimório III, Inventário II, Maestria (Esporte), +Mana, Vigoroso.
Desvantagens: Indeciso, Infame.

INIMIGA

Karai 24N

Arquétipo: Humana.
Kit: Ninja (Mestre ninja, Ninpo de Combate, Ougi [Ataque Especial]).
P2, H3, R3; PA 2, PM 15, PV 15
Perícias: Esporte, Luta, Manha.
Vantagens: Aceleração, Ágil, Ataque Especial III (Múltiplo, Potente I, Preciso), Clone, Defesa Especial (Defesa), Grimório V, Mentor (Shredder), Resoluto.
Desvantagens: Inculto, Infame.
Técnicas: Golpes (Finta, Rápido), Combo, Ninjutsu, Rajada de Golpes, Super-Movimento.

IRMÃOS RÉPTEIS

Mona Lisa 25N

Arquétipo: Sauroide.
Kit: Cientista (Eureka!, Método Cientifico, Pesquisa).
P3, H3, R2; PA 3, PM 35, PV 10
Perícias: Luta, Saber.
Vantagens: Acumulador, Ataque Especial IV (Área, Distante, Preciso, Investida), Cascudo (Resoluto e Vigoroso), Camuflagem, Gênio, Grimório III, Inventário II, +Mana II, Punição (Lento).
Desvantagens: Transtorno (Distração), Diferente, Fraqueza (Frio).
Técnicas: Super-Movimento, Rajada de Golpes, Pisão do Titã.

Mondo Gecko 25N

Arquétipo: Sauroide.
Kit: Superatleta (Aquecimento, Espírito Olímpico, Medalha de Ouro).
P3, H2, R3; PA 5, PM 10, PV 15
Perícias: Esportes, Skate (Especialização), Luta.
Vantagens: Aceleração, +Ação II, Ágil, Ajudante (Montaria – Skate), Ataque Especial VI (Investida, Múltiplo, Perigoso, Potente III), Cascudo (Resoluto e Vigoroso), Camuflagem, Defesa Especial I (Blindada), Grimório I
Desvantagens: Infame, Tapado, Fraqueza (Frio).
Técnica: Super-Movimento.

 

O que ele tá fazendo no jogo? Eu não sei…

Miyamoto Usagi 26N

Arquétipo: Kemono.
Kit: Samurai (Guerreiro Poeta, Artefato ancestral, Guerreiro honrado).
P2, H3, R2; PA 5, PM 15, PV 10
Perícias: Esporte, Influência, Luta, Saber, Percepção.
Vantagens: Aceleração, Ágil, Ataque Especial II (Preciso, Perigoso) Defesa Especial II (Esquiva, Reflexão), Grimório V, Maestria (Luta), Resoluto, Sentido (Faro Aguçado).
Desvantagens: Código do Combate, Código da Derrota, Código dos Heróis.
Técnicas: Golpes (Finta, Debilitante, Forte, Rápido), Combo, Super-Movimento, Golpe Púrpura.

 

Conclusão

Teenage Mutant Ninja Turtles é um jogo que joguei pouco, mas que adoro o desenho e os personagens.

Ver tantos personagens diferentes e jogar com o meu amigo Robert me motivaram a fazer essa matéria simples e direta, adaptando os personagens para o sistema chuta baldes (e bunda de ninja).

Tenham um ótimo dia!


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Acompanhe também os Santos Escritos onde falamos de A Lenda de Ghanor RPG!

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Texto e Arte da Capa:
 Gustavo “AutoPeel” Estrela.
RevisãoRaquel Naiane.

A Morte Não Dá Segundas Chances

Me chamo Sephy Megalos e tinha 23 anos quando morri. E vim para dizer que a Morte não dá segundas chances

Meu nome me descreve bem, quero dizer, me descrevia: uma grande assassina que destrói. Pelo menos, foi assim que fui criada sendo primogênita do líder de uma família de mafiosos. 

Minha morte foi incrivelmente interessante: 

Eu saí de casa aos 17 anos e continuava meu trabalho como assassina, ganhando meu dinheiro e conhecendo pessoas importantes: gangues, grupos de milícia, mafiosos e outros clientes esquisitos que querem manter segredos por baixo de panos quase transparentes. 

Então um dia, fui sequestrada pela Morte e colocada numa ilha mortífera, da qual sobrevivi, voltando com a promessa de que morreria dali uma semana. Desse modo, fiz o que qualquer um faria em meu lugar: espalhei segredos, tratei de negócios, divulguei esconderijos e listas de pessoas para assassinar.

Depois? Fiquei fugindo e me escondendo, até que no dia prescrito pela morte eu voltei à casa de meu pai. O motivo? Queria saber quem me mataria: aqueles que já estavam caçando minha cabeça – seguindo as pistas que deixei intencionalmente – ou meu velho que não estava com saudades. Me questionei se no processo conseguiria levar ele comigo…

E caso esteja se perguntando, consegui o que queria. E garanto a você que foi uma das coisas mais lindas que já vi: o caos de balas e plumas de almofadas engomadas voando, sangue espalhado pelo tapete chique da sala, e o brilho de seus olhos sumindo antes dos meus se fecharem ao som de uma boa sinfonia de Beethoven – que ele amava.

Como eu disse… uma morte interessante.

Infelizmente não foi isso que aconteceu.

Agora que tenho sua atenção e antes de contar como realmente morri, irei explicar como chegamos ao fim, mesmo ele sendo tedioso. Então, já esteja ciente que a minha morte real não foi tão espetacular quanto gostaria que fosse:

Meu pai não queria filhos. Imaginem só? Crianças catarrentas que poderiam colocar todo o império – que ele herdou de seu pai – a perder, que iriam ser descuidados, deixariam pistas para trás ou revelariam segredos, e ainda iriam brigar pela herança quando ele estivesse morto… 

Em sua cabeça isso sempre pareceu o pior cenário, então quando minha mãe lhe disse que estava grávida, ele a espancou na esperança de que perdesse a criança. Já dá para imaginar que não funcionou. 

Minha mãe era boa e gentil, é quase impossível acreditar no quanto ela amava meu pai. E milagrosamente, ela convenceu meu pai a ter a criança, porém ele disse que a criaria a seu modo. Minha mãe então, fez um acordo: até os 05 anos cuidaria de mim, e depois, ela não interferiria. Ele brigou, aparentemente era tempo suficiente para ela me estragar, mas acho que ele amava ou sentia algo por ela, pois foi convencido.

Ao nascer, meu pai me nomeou. Eu seria seu soldado assassino perfeito, e ele fez questão de me ensinar para não ter dúvidas das minhas habilidades e eu iria trabalhar para ele como se fosse um de seus capangas. 

No dia que completei 05 anos, ele me tirou de minha mãe. Lembro-me de a ver chorando, ainda muito pequena para entender o que estava por vir. Depois disso nos vimos poucas vezes e ela sempre lacrimejava. 

Meu pai me levou até uma sala de treinamento e me deu um tapa no rosto na frente de seus homens. Eu chorei. Até que ele me mandou calar a boca, dizendo que se eu continuasse a chorar, ele iria me bater de novo. Antes que eu pudesse entender sua frase, ele me estapeou. Foi assim, durante dias, até que aprendi. Parei de chorar, não caía mais no chão e apenas o encarava. Sentia meu rosto quente e via o olhar de pena de alguns homens, que eram logo advertidos: vocês não devem ter dó dela. Ela é apenas uma arma!

Com o tempo, fui me acostumando com os tapas, e passei a revidar. Na primeira vez que fiz isso, ele me olhou com ódio e eu tremi de medo. Quis correr, mas seria pior, e após alguns instantes segurando seu olhar, ele sorriu. O treinamento ficou cada vez mais intenso. 

Os anos foram passando e comecei a acompanhar meu pai em seu “trabalho”, que sempre consistia em cobrar dinheiro ou serviço de alguém; a venda de algo ilícito; conversar com seus contatos; e algumas coisinhas a mais, como tortura e morte. Aprendi a manter minha expressão serena e meu corpo calmo e quieto. 

Quando tinha uns 12 anos, minha mãe engravidou de novo. Dessa vez meu pai não despejou sua ira sobre ela, já que eu estava ali para sofrer dores sem emitir ruído. E minha mãe, tentando fazer diferente do que da primeira vez, deixou ele mais criativo e irado em nossos encontros. 

Quando a criança nasceu, descobri que era um menino e jurei odiá-lo com todas as minhas forças, mas assim que o vi minha promessa se quebrou e eu sabia que iria protegê-lo independente do que acontecesse. Por isso, entrei na frente do meu pai e fui contra suas ordens quando ele queria fazer o mesmo que fez comigo ao meu irmão. Foi naquele dia que ganhei minha cicatriz – meu pai não gostava de ser contrariado. 

Pouco tempo depois entendi que a morte é algo normal e natural, que sempre chega – de uma maneira ou de outra. Ela está sempre à espreita e apenas lhe estende a mão quando chega a hora, independente do modo que aconteça. 

Foi isso que senti quando matei pela primeira vez.

Eu queria passar mais tempo com meu irmão, mas meu pai sempre me impedia, até que um dos funcionários de meu pai começou a me ajudar, me tirando dessa bagunça e me dando um pouco de humanidade, permitindo breves momentos com meu pequeno. Meu pai descobriu um tempo depois, e para me ensinar uma lição, me fez cortar a garganta do homem gentil.

No início eu estava com medo, e olhar em seus olhos, me desencorajava. Mas lembrei de meu irmão. Se eu não fizesse isso, meu pai poderia descontar nele e eu ficaria sozinha de novo. 

Isso não iria acontecer.

Não hesitei.

Não parei.

Não tremi.

Não fechei os olhos quando o sangue começou a descer pelo seu pescoço e sujou a ponta da lâmina de um vermelho rubro. Tinha que ser feito. E eu fiz.

Depois disso, passei a me encontrar mais com meu irmão passando abertamente por cima das ordens de meu pai, que apenas via como uma rebeldia engraçada e patética, que causaria mal apenas a mim. Via minha mãe com mais frequência por causa desses encontros, mas ela fazia questão de sair do aposento assim que eu chegava, então nunca tentei me reaproximar.

O treinamento continuou, outras mortes aconteceram, por outras mãos e pelas minhas. De maneira rápida, furtiva e incisiva. Não havia divertimento, não havia remorso ou culpa. Apenas aceitei o meu destino – que obviamente já estava traçado – e segui meu roteiro ajudando a velha Morte a ter suas almas no momento apropriado. 

Então, o pior aconteceu…

Quando meu pequeno fez 05 anos, ele foi sequestrado e estava sendo usado de suborno por uma gangue inimiga. Eles queriam algo do meu pai. Dinheiro, mercadorias, nomes… não me recordo ao certo. Mas é claro que ele não atendeu ao pedido. Era apenas uma ameaça. Eram apenas uns inimigos. Era apenas seu filho mais novo. Conseguiria fazer outro, se quisesse.  

Eu tentei argumentar, brigar, discutir, e ainda cheguei a cortar seu ombro em um golpe que foi falho graças ao seu guarda pessoal e as minhas emoções fora da caixinha que atrapalharam, mas ele ignorou. 

Eu tentei encontrar meu irmão, mas foi em vão. Uma semana depois, os sequestradores não acharam ruim enviar sua cabeça dentro de uma caixa com meu nome. 

Senti ódio de meu pai.

Mais uma vez seu reinado era mais importante. Mais uma vez um inocente pagou por isso. 

Minha mãe não aguentou o peso da culpa e se matou. Logo em seguida eu fugi. Tinha 17 anos. 

Demorei para voltar ao serviço. Pensava no meu irmão, mas ele não estava aqui para me julgar, então depois de uns meses, eu voltei ao trabalho e falhei. Foi nesse dia que entendi que a Morte já está prevista para todos e não há como escapar dela… 

A Morte não dá segundas chances.

Tinha recebido a missão de matar uma jovem, filha de um ricaço. Havia estudado sua semana e sabia que ela gostava de ir a um parque. Assim, peguei um apartamento abandonado próximo, preparei minha sniper e aguardei. Mas era diferente. Eu a havia visto e ela tinha um pequeno irmão. Aquilo mexeu comigo. Mesmo assim, tentei ir até o final. Porém, quando a vi brincando com ele, eu não tive coragem de puxar o gatilho.

Ia devolver a metade da grana que já estava comigo. Não estava pronta para voltar. Mas decidi observar ela no decorrer do dia. Depois de se divertir com seu irmão, ela o deixou em casa e foi ao cinema. Assim que estava perto, um assaltante em fuga atirou em sua direção ao se assustar com o guarda costas, que conseguiu revidar e matar ele, mas ela havia sido atingida. Foi levada ao hospital, e horas depois, faltando uns minutos para meia-noite, ela morreu.

Se minha amiga Morte não brinca em serviço, por que eu deveria?

Depois disso, não neguei mais nenhum serviço e parei de temer. Segui fazendo aquilo que havia sido criada para fazer, fugindo e me escondendo. Nunca tive medo de morrer. Se eu matava, por que não ser acompanhada pela adrenalina de uma quase morte? Era como o doce cheiro de nicotina dos cigarros que eu fumava, e impregnaram nos meus cabelos. 

Em uma das missões conheci um homem. Eu estava fugindo e fui atingida, entrando no primeiro apartamento que vi para despistar meus perseguidores. Ele estava em pé numa sala chique, segurando um balde de pipoca. Apontei a arma para ele, que me olhava assustado. Mas mesmo assim, ele me ajudou depois de ver meu ferimento. Disse que era enfermeiro, que manteria segredo e que acreditava em “segundas chances”. Eu ri. 

A morte não dá segundas chances.

Acabei por visitá-lo algumas vezes, pedindo ajuda médica, ou quando me sentia sozinha, ficávamos conversando, ou apenas o observava ao longe em sua vida pacata. Ele acabou ganhando importância para mim, mesmo sem saber. E ao fim, acho que nunca soube. 

Como eu sei disso?

No começo dessa história eu não menti. 

Não totalmente…

A Morte me sequestrou e levou-me para uma ilha, junto a outros três homens. Um deles era meu amigo enfermeiro. Ela nos fez uma proposta: iríamos morrer em uma semana, e ela estava nos dando uma chance. Caso sobrevivêssemos nessa ilha por esse período, poderíamos voltar à nossa vida com mais alguns anos pela frente.

Se eu estivesse sozinha, eu me entregaria a ela. Afinal, ela é nosso destino. Mas o fato da única pessoa que ainda me importava estar ali… não iria deixá-lo morrer sem lutar. Ele merecia entrar dentro de sua própria filosofia e ter uma segunda chance. 

Não adiantou. Após muito conflito e segredos ocultos de pessoas desconhecidas, deixei-o morrer. Já estávamos mortos antes de tudo, lutando por uma vida que não existia, apenas para satisfazer aos caprichos da Morte.

Mas se você quer saber como morri de fato, não foi interessante: não vi o reinado do meu pai ruir e nem seus olhos fecharem, na verdade, eu fui descuidada. Acho que no fim eu já estava cansada e não percebi. Estava caçando uma pessoa, e ironicamente, essa pessoa também estava me caçando, como um jogo silencioso na qual ganha quem é mais esperto, e pro meu azar ou sorte – interprete como quiser – ele estava alguns passos na minha frente. 

Isso não é de todo ruim, sabe? No fim das contas, eu me encontrei com meu irmão no “pós-morte”. Muito mais do que eu merecia.


A Morte Não Dá Segundas Chances

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Autora: Raquel Naiane
Revisão: Isabel Comarella
Montagem da Capa: Douglas Quadros

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