Transmutação em Dupla parte 02 – Escamas de Bronze #01

Na série “Escamas de Bronze“, iremos acompanhar Aust Bronzescale em inúmeras aventuras e situações cotidianas. Desde a sua infância dourada e destemida, passando pelos seus anos como aprendiz dos Mantos Vermelhos (que o transformaram em um rapaz ansioso e inseguro). E, talvez, quem sabe acompanharemos alguns relances sobre a participação dele na guerra vindoura e como isso modificou a sua relação com a própria magia.

Em “Transmutação em Dupla“, veremos como ele participa de uma aula de transmutação tentando não ceder à pressão que seu sobrenome (e sua linhagem) carrega.

Essa é a segunda parte do conto “Transmutação em Dupla”. Para ler a primeira parte, clique aqui.

Transmutação em Dupla

Aust encarou Dren. O toque não solicitado. O tom de voz suave, que de suave não tinha nada. A insinuação de que ele ganharia o título de robe por política, não por merecimento. Sua expressão passou de confusa para indignada quando entendeu o que o meio-orc queria dizer e logo sentiu o sangue ferver. 

Uma pequena faísca elétrica surgiu no seu corpo, refletindo suas emoções, enquanto ele afastava a mão de Dren com um gesto brusco. O contato entre eles provocou um estalo elétrico, pequeno, mas presente. 

Era um sinal claro e sutil da magia de Aust começando a agir por conta própria. Dren riu, um som baixo, contido, incrédulo, como se dissesse: “Olha só como é fácil te desestabilizar.”.

Aust apertou os olhos, percebendo o que estava acontecendo. Dren não costumava ser tão direto assim, provavelmente só estava fazendo isso por causa da presença de seu mestre na sala. O meio-elfo respirou fundo e tentou se concentrar no cristal que Urigella tinha deixado com eles. Foco.

Precisava de foco. 

Ele esticou a mão para pegar o cristal, mas Dren foi mais rápido e puxou a mão para o lado, tirando propositalmente de seu alcance. Uma brincadeira estúpida que Aust não via graça nenhuma.

O rosto dos dois ficou próximo com esse movimento. Aust o encarou por um momento antes de recuar e respirar fundo novamente, se contendo. Ele não queria ter que lidar com gracinhas, não agora. 

Aust também não queria responder a provocação. Não queria dar espaço para o Dren fazer mais do que já tinha feito, então apenas cortou o assunto:

Não tem porque alongarmos isso. Vamos terminar logo o que temos que fazer.” Ele tentou manter a voz firme e indiferente, como se não se importasse com as gracinhas de seu par.

Claro.” Dren esticou na direção do meio-elfo. “Comece você e eu o acompanho. Mostre a todos o poder do ‘legado” dos Bronzescale.”

Aust estendeu a mão para pegar o cristal, mas Dren a girou nos dedos, impedindo que a alcançasse de novo. O olhar de Aust queimou com a raiva que começava a crescer dentro dele provocada por esse joguinho ridículo. O meio-orc observou o semblante de Aust mudando e algumas faíscas começaram a aparecer ao redor dele.

Era fácil demais.

O cristal foi finalmente deixado na mesa e Aust o pegou com dedos trêmulos de uma raiva contida. Ele colocou as mãos ao redor do cristal e fechou os olhos, canalizando a magia. 

A energia azul cintilou, por um instante, linda. Brilhante. Transformadora. Assim que Dren aproximou suas mãos das de Aust, para que pudessem canalizar juntos e fazer a transmutação em dupla, ele percebeu o brilho azul no cristal começando a oscilar, instável.

Você está hesitante…” murmurou Dren, envolvendo as mãos do Aust entre as suas “…como sempre. Talvez eu devesse liderar a condução da magia. É assim que funciona com você, não é? Você precisa que alguém te mostre o que fazer o tempo todo, como se tivesse receio de pensar por si mesmo… ou como se fosse uma sombra.”

Você está errado.” Aust rebateu, irritado. “Eu consigo liderar. Não preciso de ajuda.”

Não é isso que eu vejo.” A magia de Dren envolveu a própria magia de Aust, estabilizando-a. “Um Manto Vermelho precisa de clareza. Foco. Concentração. Digamos que essas não são características que têm se destacado em você. Afinal…”

O meio-orc viu Aust fechar os olhos por um momento, como se estivesse tentando não perder a concentração. O que era verdade, Aust realmente estava tentando calar a tempestade que as palavras e a presença de Dren geravam dentro dele, mas as faíscas que insistiam em despontar ao seu redor denunciavam como verdadeiramente se sentia. 

Dren sabia reconhecer o esforço que o meio-elfo estava tendo para silenciar seus próprios pensamentos e controlar a magia natural que fazia parte dele, mas isso não era o suficiente.

Essa tempestade nunca deveria existir para início de conversa.

Por um breve momento, Aust achou que Dren recuaria. Que ele o deixaria em paz. Talvez, por um breve momento, Dren tenha pensado o mesmo, mas seu olhar cruzou com o de seu mestre e ele acabou se inclinando na direção do ouvido de Aust, retomando o assunto:

 “…você é só um menino querendo impressionar o papai e isso não é o suficiente para te manter aqui.”

Aquelas palavras afetaram Aust mais do que ele gostaria.

Não escuta. Aust, não escuta. Foca no cristal.

Apesar de tentar evitar a todo custo, o cristal acabou respondendo ao que ele sentia, não ao que ele queria. Um pulso de eletricidade mágica saiu das mãos de Aust, como se tentasse instintivamente empurrar para longe uma “ameaça”. 

Isso repeliu as mãos e a magia de Dren que tentavam envolver as suas, mas não só isso, o pulso também afetou o cristal entre suas mãos.

Não, não, não, não…” Aust abriu os olhos e falou baixo para si próprio, tentando a todo custo impedir que o cristal fosse afetado negativamente pela sua magia, mas era tarde.

Logo veio um estalo.

Um estalo pequeno, mas audível, como o primeiro fio de rachadura em um espelho. Frustrado, Aust viu o cristal rachar sob a tensão da sua magia e Urigella, ao longe, observava tudo sem intervir.

Ah, que pena. Você perdeu o controle. De novo murmurou Dren, como se lamentasse, enquanto se ajeitava na cadeira ao lado “Mas não fique triste. Para alguém como você, sempre haverá uma segunda chance. Tenho certeza que seu papai vai garantir isso.”

Deixe o meu pai fora disso!” Cansado e frustrado com tudo aquilo, Aust rosnou, encarando Dren com um olhar que começava a brilhar com eletricidade. Ele não suportava que falassem do seu pai daquela forma.

Ou o que?” Dren perguntou, levantando uma sobrancelha. Ele reprovava abertamente a falta de controle que Aust tinha sobre si mesmo e sobre sua própria magia.

As faíscas ao redor de Aust estavam ficando cada vez mais fortes, mas o meio-elfo parecia não se dar conta disso. Antes que pudesse responder, a sua magia pulsou de novo. A energia da magia elétrica zuniu pelo ar e, de repente:

CRACK.

O cristal partiu com um som audível.

Isso foi o suficiente para trazer Aust de volta para o que estava fazendo e que ele se desse conta do que tinha acontecido. Dren se afastou e Aust sentiu os olhos da sala inteira se voltando para eles, inquisidores. 

Alguns pareciam sentir pena, alguns empatia, outros pareciam julgar de forma mais crítica a falha cometida. A raiva que o meio-elfo sentia começou a dar lugar ao embaraço ao perceber que ele tinha caído em uma provocação tão… tão óbvia.

Urigella se aproximou com calma. Seus olhos frios como geada analisavam o cristal partido sob a mesa.

Instável.”

Ele disse, crítico, levando os olhos do cristal para Aust, como se observasse um prodígio falho. “Talento bruto não é suficiente, você precisa ser lapidado. Se não tiver controle sobre o que faz, só trará ruína para si mesmo e para os outros ao seu redor.”

Antes que Aust pudesse responder, o aprendiz de Urigella se interpôs entre ele, estranhamente era quase como se fosse um escudo protetor.

Nós sentimos muito, mestre. Era uma transmutação em dupla, então eu errei também. Vamos fazer melhor na próxima vez, não é, Bronzescale?”

E Dren o encarou com seus olhos intensos, mas não havia mais provocação neles, só havia a calma de quem já esperava esse final e só estivesse o testando. Sem dizer mais nada, Dren recuou e assumiu a falha como se o cristal tivesse partido por erro dos dois.

Aust sentiu o rosto arder, principalmente os olhos.

O fato de Dren ter agido como se a culpa fosse dele também era como dizer que o meio-elfo precisasse que o acobertassem sempre e isso era embaraçoso e humilhante.

Ele sentia seu ego e seu orgulho sendo profundamente feridos, mas ele não tinha como responder a altura naquele momento. Aust engoliu tudo o que sentia e apenas murmurou uma resposta quase inaudível, enquanto lutava para conter o impulso de se levantar e ir embora:

Vamos sim.”

O resto da aula seguiu da mesma forma. Aust rachou mais um cristal, depois mais um e assim foi até a aula chegar ao fim. A cada nova tentativa ele se frustrava e se cobrava mais e isso piorava o seu controle da magia na tentativa seguinte. 

Ele sabia que esperavam muito dele pelo seu sobrenome, por ele ser filho de quem era, pela sua herança dracônica… e isso trazia um peso a mais que nem todo mundo entendia. Um peso de que ele não tinha o direito de errar nem de fracassar. E ele estava errando.

Eu consigo fazer isso! Sou melhor do que isso! Eu tenho que ser!”

A sua autocobrança não ajudava, muito pelo contrário. Ficar se pressionando apenas aumentava o peso que sentia de ter que provar que merecia estar ali e isso estava piorando seu desempenho. O turbilhão de sentimentos dentro dele começou a nublar seus pensamentos.

Aust queria falar, queria gritar, queria chorar de raiva e frustração, mas não dava para fazer isso ali, não na frente de todo mundo. Ele não queria provar que estavam certos, mas… e se estivessem? 

Enquanto isso Dren permanecia quieto, sem falar nada, acompanhando as tentativas fracassadas com uma expressão neutra que beirava a indiferença e isso matava o Aust por dentro.

“Isso é tudo por hoje. Aos que fracassaram na tarefa, sugiro que reconsiderem se realmente pertencem a este lugar. Afinal, se a simples transmutação temporária de um objeto foi além das suas capacidades, não sei o que esperam alcançar como magos e nem o que nós deveríamos esperar de vocês.”

O tom de Urigella era frio e levemente desdenhoso. Ele caminhou pelos alunos, mas não olhou diretamente para nenhum deles.

Ele não precisava acusar ninguém, os próprios alunos fariam isso por si mesmos. 

Aust jogou seu caderno de volta na sua bolsa, colocou seu exemplar de A Arte da Transmutação debaixo do seu braço e saiu da sala, se despedindo de forma rápida e deixando Dren e os cristais para trás. Ele nem parecia o mesmo rapaz alegre e esperançoso que tinha entrado naquela sala horas antes.

Aust se sentia derrotado e péssimo consigo mesmo, enquanto caminhava ele apertou as mãos em punho em uma tentativa de lutar contra seus próprios sentimentos., em uma tentativa de conter o que sentia. Ele tremia por dentro e por fora. Na sua cabeça ficavam rodando ecos que eram alimentados pelas suas próprias inseguranças:

Será que eles estavam certos?”

“Será que ele era uma farsa?”

“Será que… ele não merecia estar ali?”


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Transmutação em Dupla parte 02

Texto: M. Braga.
Revisão:
Raquel Naiane.
Arte da Capa: Theo Siviero.


Encontre mais contos clicando em: Histórias.

Transmutação em Dupla parte 01 – Escamas de Bronze #01

Na série “Escamas de Bronze“, iremos acompanhar Aust Bronzescale em inúmeras aventuras e situações cotidianas. Desde a sua infância dourada e destemida, passando pelos seus anos como aprendiz dos Mantos Vermelhos (que o transformaram em um rapaz ansioso e inseguro). E, talvez, quem sabe acompanharemos alguns relances sobre a participação dele na guerra vindoura e como isso modificou a sua relação com a própria magia.

Ele foi criado por mim para jogar a campanha de “Dragonlance – Sombra da Rainha Dragão”, mas vocês verão muita liberdade poética e adaptações em tudo. Meu grupo ama fazer roleplay e nós não ficamos só presos ao que está nos livros, então tem sido uma experiência inspiradora jogar com eles e poder explorar cada detalhe do Aust.

Há uma sociedade de magos e usuários de magia (não sei qual seria a melhor forma de chamar haha) chamada Alta Magia. De forma simplista, há três grupos de magos nela: os Mantos Brancos (bondosos), os Mantos Vermelhos (neutros) e os Mantos Pretos (malignos).

Aust deseja seguir os passos de seu pai e se tornar um Manto Vermelho, mas há um pequeno grande problema: ele não consegue ser neutro. Isso torna toda sua trajetória como aprendiz muito desgastante, porque ele precisa tentar provar a si mesmo e para os outros que não está no lugar errado.

Em “Transmutação em Dupla“, veremos como ele participa de uma aula de transmutação tentando não ceder à pressão que seu sobrenome (e sua linhagem) carrega.

Transmutação em Dupla

A sala era ampla e, naquele momento, ela estava envolta em penumbra por conta das pesadas cortinas que bloqueavam as janelas. Apesar da atmosfera um tanto sombria, havia algo estranhamente aconchegante naquele espaço. 

Bancadas robustas de madeira escura se alinhavam em camadas, dispostas em degraus de níveis diferentes que desciam até o centro da sala, onde se erguia uma plataforma de pedra — um palco circular, ideal para demonstrações arcanas ou para que o professor observasse os alunos de todos os ângulos.

Ao longo das colunas de pedra, três gemas resplandeciam suavemente, formando o símbolo da Torre de Alta Magia de Wayreth. Elas pulsavam com uma energia sutil, como se dessem as boas-vindas aos aprendizes naquela sala, que enchiam o ambiente com suas conversas paralelas e energia animada. 

No canto, longe dos demais, um meio-elfo adolescente parecia entretido demais em uma leitura.

Seus olhos dourados percorriam o livro com curiosidade, escamas de um tom amarelado de bronze com detalhes sutis em verde, que denunciavam vestígios da sua herança dracônica, se espalhavam de forma irregular pela sua mão esquerda e pelo lado direito do seu rosto e da sua bochecha. 

Uma mecha de seu cabelo ondulado caía sobre seu rosto, mas ele não parecia se importar. O jovem trajava uma capa vermelha escarlate, símbolo dos aprendizes do Manto Vermelho, por cima de roupas igualmente vermelhas, mas de tom mais fosco. Ele era Aust Bronzescale.

Os cotovelos de Aust estavam apoiados na bancada à sua frente, o rosto afundado entre as mãos enquanto os olhos deslizavam pelas páginas abertas de A Arte da Transmutação

O livro, repousado no espaço entre seus braços, fora encadernado com fios dourados que refletiam a luz suave que iluminava a sala. Seus pés balançavam de um lado para o outro, seguindo um ritmo interno que só ele era capaz de ouvir, e ajudavam a amenizar a ansiedade que sentia naquele lugar.

O jovem aprendiz estava sentado no canto mais afastado da sala. Ele tentava ignorar a cadeira ao seu lado que permanecia vazia enquanto todas as outras pareciam cheias. 

Aust não era o único que esperava aquela aula com ansiedade, todos ali queriam ver Ilyndra Morr, a Tecelã da Matéria, autora do livro que ele lia. Ela era uma lenda viva e, apesar de magias de transmutação não serem o seu ponto forte, ele estava animado por poder ter a oportunidade de aprender com ela.

Quando a pesada porta da sala se abriu todas as vozes se silenciaram. O jovem ergueu a cabeça cheio de expectativa, mas sua animação deu lugar ao horror quando, em vez da figura elegante de Ilyndra, surgiu o Manto Vermelho do elfo Garrik Urigella

O velho mago Manto Vermelho caminhava com as mãos cruzadas nas costas. Seus olhos, estreitos e escuros, varreram a sala analisando a expressão e reação de cada um dos aprendizes com a sua presença. Aust sentiu um arrepio subir pela espinha, pois não esperava ter que lidar com Urigella, não hoje. O silêncio que tomou conta da sala era denso, só sendo quebrado pelo som dos passos do elfo que descia os degraus em direção ao palco.

A Tecelã da Matéria lamenta por não poder comparecer hoje, infelizmente um imprevisto a impediu de estar aqui com vocês. Entretanto, para que não percam a visita e o tempo de vocês, eu darei essa aula no lugar dela.” A voz do mago era fria e sem emoção, parecia que ele próprio estava fazendo um favor só de estar ali.

Ninguém respondeu, o desapontamento era palpável.

Aust quase não conseguiu disfarçar o próprio descontentamento. Ilyndra era uma figura admirada e poder ouvi-la seria uma experiência única e imperdível, ainda mais por ela ser de outra Torre, bem longe da que eles estavam. 

Urigella, por outro lado, já era da casa, e sua fama de exigente e severo não atraía muita atenção dos alunos para suas lições, mas infelizmente agora não tinham como escapar dele.

O elfo não perdeu tempo antes de começar a dar a parte teórica da aula. Aust suspirou e fechou o livro à sua frente devagar, os dedos permanecendo sobre a capa por um instante a mais antes de colocá-lo de lado. O meio-elfo se abaixou e puxou de sua bolsa um caderno grosso e começou a fazer anotações sobre a aula.

Ele tentava, a todo custo, ignorar o mal-estar que a presença de Urigella lhe causava e como seu estômago se revirava toda vez que ele ouvia os passos do elfo se aproximando da bancada em que estava. 

Urigella caminhava pela sala com suas mãos cruzadas nas costas, os olhos críticos e desdenhosos sob as sobrancelhas arqueadas, olhos esse que se demoraram um pouco mais ao identificar o meio-elfo entre os aprendizes naquela sala, para a angústia de Aust.

A relação entre os dois era… problemática.

Aust sabia que Urigella não queria vê-lo ali. Seu olhar frio. Os comentários sutilmente cruéis. O desprezo não dito, mas sempre presente… Era claro que o mago à sua frente não o considerava apto a se tornar um Manto Vermelho.

O aprendiz tentava não encará-lo diretamente, ele só queria que a aula acabasse logo e ele pudesse correr dali o mais rápido possível. Talvez, se tivesse sorte, se mantivesse quieto e não chamasse a atenção, o Manto Vermelho o deixasse em paz. Talvez.

“Hoje iremos praticar um truque simples de transmutação, algo que eu tenho certeza que a maioria de vocês já sabe fazer” a voz de Urigella cortou a sala, chamando a atenção de todos.

E, justamente por ser simples, vocês não farão sozinhos. Será uma transmutação em dupla. O objetivo é criar um objeto transmutado que tenha a essência de ambos. No nível que vocês estão eu não espero que a transmutação seja permanente, seria cobrar demais, mas ao menos espero que vocês façam com que ela dure alguns segundos.”

A turma ficou inquieta com o anúncio da parte prática e Aust engoliu em seco.

Transmutação em dupla?

O elfo tinha costume dele próprio escolher quem faria par com quem, colocando junto pessoas que ou não se davam bem ou que não trabalhavam bem juntas. Isso era bom para praticar, mas aprendiz nenhum gostava de passar por esses momentos. 

Após demonstrar o que deveria ser feito, o mago passou de bancada em bancada deixando um cristal em cada uma delas enquanto anunciava os pares e explicava como deveriam usar o cristal para fazer a atividade.

Aust rabiscou algumas runas em uma página do seu caderno, ansioso, se perguntando quem seria sua dupla. Quando viu a sombra de Urigella ao seu lado, ele levantou os olhos. O mago depositou o cristal no centro da bancada e lançou um olhar crítico para as runas que o aprendiz tinha rabiscado. 

O meio-elfo apenas deu um meio-sorriso, sem graça, como se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria. Houve uma pausa longa o suficiente para ser desconfortável, como se Urigella ponderasse se criticava o desenho torto das runas ou se decidia quem seria o par do meio-elfo:

 “Bronzescale.” Ele deu uma nova pausa. Aust o encarou com os olhos ligeiramente arregalados, como se esperasse uma bronca, mas ela não veio. Você irá trabalhar com Dren.” Ele decidiu, por fim, como quem decreta uma sentença.

Aust piscou, sem acreditar no que tinha ouvido. Dren. O próprio aprendiz de Urigella. A sombra que sempre parecia observar Aust com um olhar que dizia “você não pertence aqui”.

O meio-elfo não conseguiu evitar a expressão de surpresa, mas não ousou contestar. O olhar atravessado de Urigella indicava que ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Dren? Por que logo o Dren?

Aust se perguntava, tentando não demonstrar sua angústia. Essa escolha pareceu óbvia a todos da sala, menos para ele, que foi pego desprevenido. Urigella colocar o próprio aprendiz para ser seu par era nada mais nada menos do que uma forma de mantê-lo em xeque.

Dren, por sua vez, já sabia exatamente quem Aust era sem nunca precisar de apresentações. Aust, o filho do renomado Manto Vermelho Dimitri Bronzescale, o mauricinho herdeiro que só estava ali por causa do próprio pai, o garoto de olhos brilhantes e magia instável que todos tratavam como se fosse uma pedra preciosa.

Só que Dren não via preciosidade nenhuma ali. Ele via alguém que tentava se vender como algo que não era. Alguém com um talento e potência para magia que vieram do berço, não tendo sido algo que conquistou por mérito próprio. 

Por não ser algo conquistado, a magia era algo que Aust não controlava de forma satisfatória, o tornando perigoso. Gente com a potência mágica de Aust não podia se dar ao luxo de errar… e ele errava. Sempre errava.

E Dren o julgava por isso, como se Aust não tentasse o suficiente.

Dren deu um meio sorriso ao ouvir seu nome sendo anunciado. Aust e ele, trabalhando juntos? Aquilo não era coincidência. Ele se levantou lentamente e se virou na direção que o “mauricinho” estava. Dren era um meio-orc alto, de pele levemente esverdeada e mandíbula firme, com seus dentes inferiores sendo ligeiramente sobressalentes. 

Sua postura era implacável, a sua capa vermelha caía com perfeição pelas suas costas largas. Seus passos eram firmes, sem hesitação nenhuma, e logo ele estava ocupando a cadeira que antes estava vazia ao lado do meio-elfo.

Aust cumprimentou sua dupla e manteve os olhos fixos na bancada, organizando os materiais e tentando ignorar que teria que cooperar com Dren naquela atividade. Só que, por mais que tentasse disfarçar, o leve tremor nas suas mãos denunciava como se sentia ao lado do outro aprendiz. 

Dren o intimidava e o lembrava tudo aquilo que ele ainda não conseguia ser. Dren era contido, equilibrado, estável. Um belo exemplar do que um futuro Manto Vermelho deveria ser, o exato oposto de Aust.

Então, Bronzescale… o que nós vamos criar hoje?” Dren perguntou enquanto pegava o cristal do centro da bancada e o analisava entre suas mãos.

Que tal uma medalha?”

Uma medalha?” Aust inclinou a cabeça de leve, levando os olhos para o cristal. É, parecia uma boa ideia, mas antes que ele concluísse o pensamento, Dren o interrompeu.

Exato!” Dren esticou a mão livre e tocou de leve a capa de Aust, bem próximo ao pescoço do meio-elfo, quase  como se estivesse tentando alcançar um colar invisível. “Uma medalha. Você sempre recebe aplausos quando faz o mínimo, então parece apropriado, afinal, nós já sabemos como isso vai terminar. Talvez devêssemos te declarar logo vencedor e te dar o título de Manto Vermelho só para acabar logo com isso.”

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Transmutação em Dupla parte 01

Texto: M. Braga.
Revisão:
Raquel Naiane.
Arte da Capa: Theo Siviero.


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Raças de custo zero em GURPS – Ecos da Banestorm

Este artigo com a apresentação de raças de fantasia medieval com custo zero para GURPS foi feito originalmente no blog Mares de Araterre. Veja o artigo na íntegra clicando aqui, que ainda inclui as regras para jogar com Orc, Goblin e Kobold. Para outros posts dos Ecos da Banestorm, clique aqui.

Mais uma postagem com raças.

Dessa vez, todas com custo 0.

Para só escolher a raça, sem se preocupar com pontos.

Raça

vel

    Pontos

Elfo
custo zero
Percepção +1 +1 5
Aptidão mágica 0   0 5
Talento: (Guardião da Floresta) +1 5
  Arco
  Camuflagem
  Sacar rápido (flechas)
  Furtividade
  Sobrevivência (Florestas)
  Rastreamento
ST -1 – 1 -10
aparência atraente +1 4
resistente a doenças +3 +3 3
Pontos de Fadiga Extra +1 +1 3
Senso do dever (natureza) -15
Anão
custo zero
MT -1 – 1 0
Vontade +1 +1 5
Deslocamento -1 – 1 -5
Teimosia -5
Avareza 15 -5
Visão Noturna +3 3
RD (Pele resistente -40%) +1 3
ST de levantamento +1 +1 3
Tolerância ao álcool 1
Halfling
custo zero
MT-1 – 1 0
Rosto Sincero 1
ST-3 – 3 -30
DX+1 +1 20
HT+1 +1 10
Vel -0,5 -10
Desl. -1 – 1 -5
PV +2 4
Gula -5
Amigável -5
Silêncio +2 10
Talento com armas à distância +1 10
  Arco
Besta
Arremesso de armas (qualquer)
Funda
Código de Honra (hospitaleiro) -5
Reconhecimento social (bom Vizinho) 5

Este artigo com a apresentação de raças de fantasia medieval com custo zero para GURPS foi feito originalmente no blog Mares de Araterre. Veja o artigo na íntegra clicando aqui, que ainda inclui as regras para jogar com Orc, Goblin e Kobold a custo zero. Para outros posts dos Ecos da Banestorm, clique aqui.

Modelos Raciais de D&D para GURPS – Ecos da Banestorm

Esta sequência de cinco artigos com modelos raciais baseados em D&D foi feita originalmente no blog X-GURPS, em duas partes. Veja a página de compilação da tag clicando aqui, que incluem os modelos raciais Halfling, Eladrin e Draconato. Para outros posts dos Ecos da Banestorm, clique aqui.

Oi, pessoal.

Resolvi criar uma adaptação das raças básicas de D&D para o GURPS 4ª Edição.

Anão (77 pontos)

“Esculpidos nas fundações rochosas do universo, os anões suportaram uma era de servidão aos gigantes antes de conquistar sua liberdade. Suas poderosas cidades-fortalezas nas montanhas testemunharam o poder de seus impérios ancestrais. Mesmo os que vivem nas cidades humanas estão entre os mais fervorosos defensores, combatendo as trevas que ameaçam engolfar o mundo.”

Trecho do livro do Jogador de D&D

Atributos

IQ+1 [20], HT+2 [20].

Características Secundárias

Von+1 [5], MT-1 [0], Deslocamento-1 [-5].

Vantagens

Resistente (Veneno, HT+3) [5], ST de Levantamento 2 [6], Visão Noturna 4 [4], Expectativa de Vida Ampliada 1 [2].

Perícias

Maça/Machado DX+1 [4], Maça/Machado de Duas Mãos DX+1 [4], Armas de Arremesso (Maça/Machado) +1 [2], Sobrevivência (Cavernas) Per+0 [2], Prospecção IQ+0 [2].

Idiomas

Comum (Fluente) [0], Anão (Fluente) [6].

Elfos (91 pontos)

“Livres e selvagens, os elfos protegem suas florestas utilizando furtividade e disparando flechas mortíferas em meio às árvores. Eles constroem seus lares em plena harmonia com a natureza, com tanta perfeição que os viajantes muitas vezes não percebem que invadiram uma comunidade élfica até ser tarde demais.”

Trecho do Livro do Jogador de D&D

Atributos

DX+1 [20], IQ+1 [20].

Características Secundárias

Deslocamento Básico+1 [5], Percepção+1[5].

Vantagens

Visão Noturna 5 [5], Visão Telescópica 2 [10], Talento (Explorador, Nível 1) [10], Expectativa de Vida Ampliada 1 [2], Aparência (Atraente) [4].

Perícias

Arco (DX+1) [4].

Idiomas

Comum (Fluente) [0], Élfico (Fluente) [6].

Esta sequência de cinco artigos com modelos raciais baseados em D&D foi feita originalmente no blog X-GURPS, em duas partes. Veja a página de compilação da tag clicando aqui, que incluem os modelos raciais Halfling, Eladrin e Draconato. Para outros posts dos Ecos da Banestorm, clique aqui.

Zorus, o Desvairado – Guilda dos Guardiões – NPCS

Zorus, o Desvairado é um personagem criado por Mateus Herpich do canal Ideias Arcanas, para representá-lo na Vila de MRPG em uma participação especial.

Zorus, o Desvairado – Ilustra por m.a.o.j.art

Zorus

Zorus é um mul, o povo descendente tanto de humanos quanto de anões no mundo de Athas. Nesse mundo desértico, Zorus sempre foi um estranho, enxergando e interagindo com espíritos de criaturas belas e assustadoras que habitavam Athas antes do seu estado árido atual. Essa conexão espiritual o preparou para trilhar o caminho de xamã, fazendo aliados no mundo espiritual para reviver o mundo.

Como interpretar

Zorus enxerga espíritos de um passado distante por onde vai, e os animais espirituais que vê e conjura, por mais estranhos que possam parecer em Athas, são animais comuns do nosso mundo, como pavões, golfinhos e cabras.

Mote

O mundo já foi próspero e cheio de vida. Zorus sabe disso porque enxerga os espíritos da criaturas fantásticas que o habitaram. O maravilhamento pelo contato com tais espíritos o faz querer explorar o mundo, redescobrir as coisas perdidas do passado e, quem sabe, trazer de outros planos tais criaturas para habitarem Arthas novamente.

Frase

“Os espíritos farão o mundo renascer!”


Em Breve a Ficha de Zorus


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Atenção as Regras da Casa e Processos de Criação:

Estes personagens foram criados para a campanha Guilda dos Guardiões do Movimento RPG, portanto algumas regras da casa foram adotadas para melhor balancear os personagens, elas podem ser consultadas abaixo:

Os Personagens de Savage Worlds Edição Aventura:

Os personagens foram criados seguindo o método oficial do livro de Savage Worlds Edição Aventura, entretanto, como utilizamos diferentes cenários de Savage Worlds, fizemos algumas mudanças para equilibrar as coisas. Independente do cenário que o personagem foi criado, se ele for humano, adquiriu qualquer Vantagem de nível Novato (ainda precisa atender os requisitos) sem custos. Qualquer outra diferença na criação de personagem que o cenário de origem traga, foi adaptado e ou removido para o balanceamento da campanha.

Os Personagens de Dungeons and Dragons 5ª Edição:

Os personagens foram criados utilizando os 27 pontos do livro do jogador, seguindo a tabela do livro. Entretanto conforme votação dos patronos liberamos talentos extras nos seguintes níveis: 1 e 5. Os dados de vida foram definidos como: 1º nível = dado inteiro; A partir deste, em níveis pares pega-se metade do dado e níveis ímpares seria metade +1.

 

Cysgod Ysbryd – Guilda dos Guardiões – NPCS

Cysgod Ysbryd é um personagem criado por Ricardo Kruchinski, para representá-lo na Vila de MRPG por conta do patronato, onde todo patrono pode criar um personagem para participar das votações dos eventos aleatórios que acontecem mensalmente na vila.

Cysgod Ysbryd – Ilustra por m.a.o.j.art

Cysgod

Cysgod Ysbryd nasceu numa caravana de elfos que percorria os ermos do mundo. Desde pequeno era mais reservado que o padrão para sua raça.

Logo foi ensinado por seu pai nos ofícios de caça, tanto com arcos como com armadilhas. Também aprendeu o trabalho de marceneiro e a conduzir as carroças da caravana.

Quando jovem, a caravana chegou num pequeno baronato, um primo seu (com o qual treinava costumeiramente) vendeu a caravana como escravos para o barão local.

O Elfo e alguns membros da caravana e um punhado de aliados (entre eles Agoor Darkeyes) conseguiram entrar no pequeno castelo do barão e forçá-lo a devolver seus familiares e amigos.

Como lembrança para que o Barão não oprimisse mais o povo, Cysgod levou consigo o olho de vidro do nobre e um ovo verde de dragão.

Após isso, decidiu se aventurar pelo mundo lutando contra a opressão e defendendo aqueles que não podem se defender.

Como interpretar

Sempre prezará pela liberdade de qualquer indivíduo senciente. Mesmo que a própria pessoa prefira a escravidão. Entretanto, ele lutará por aqueles os quais ele não considerem aptos a fazerem. Possui, também, dificuldade em confiar plenamente em aliados, apenas duas ou três pessoas são consideradas dignas. Por fim, ele é um pouco teimoso, recluso e sempre pega algum troféu de suas caças ou inimigos abatidos.

Mote

Sempre me oporei a qualquer tipo de opressão, mesmo a vinda de eventuais aliados.

Frase

“Todos merecem a liberdade, mesmo que seja para decidirem perdê-la na próxima esquina.”


Em Breve a Ficha de Cysgod Ysbryd


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Atenção as Regras da Casa e Processos de Criação:

Estes personagens foram criados para a campanha Guilda dos Guardiões do Movimento RPG, portanto algumas regras da casa foram adotadas para melhor balancear os personagens, elas podem ser consultadas abaixo:

Os Personagens de Savage Worlds Edição Aventura:

Os personagens foram criados seguindo o método oficial do livro de Savage Worlds Edição Aventura, entretanto, como utilizamos diferentes cenários de Savage Worlds, fizemos algumas mudanças para equilibrar as coisas. Independente do cenário que o personagem foi criado, se ele for humano, adquiriu qualquer Vantagem de nível Novato (ainda precisa atender os requisitos) sem custos. Qualquer outra diferença na criação de personagem que o cenário de origem traga, foi adaptado e ou removido para o balanceamento da campanha.

Os Personagens de Dungeons and Dragons 5ª Edição:

Os personagens foram criados utilizando os 27 pontos do livro do jogador, seguindo a tabela do livro. Entretanto conforme votação dos patronos liberamos talentos extras nos seguintes níveis: 1 e 5. Os dados de vida foram definidos como: 1º nível = dado inteiro; A partir deste, em níveis pares pega-se metade do dado e níveis ímpares seria metade +1.

 

Old Dragon 2 – Guia do Elfo

Elfos: pequenos duendes do folclore germânico que transformaram-se no pináculo da virtude e da nobreza dos mundos de fantasia pós-Tolkien. Lembrando que o objetivo dessa série de artigos não é explorar as raças em termos de regras e mecânicas, mas sim alguns temas legais envolvendo a ficção dos cenários de fantasia.

Nobres e Altivos

Apesar de eu ter falado deles no parágrafo introdutório, esqueça os elfos da mitologia teutônica. Os elfos de D&D (e, por consequência, de Old Dragon) são diretamente inspirados no trabalho de Tolkien. Eu posso apostar que, ao ouvir a palavra “elfo”, a maioria dos leitores vai pensar no Legolas, e não nos ajudantes do Papai Noel.

Lembrando que esse parentesco dos elfos com duendes e gnomos ainda transparece bastante no longa animado O Senhor dos Anéis de 1977.

Na Terra Média, os elfos são o apogeu da perfeição entre os mortais (mortais no sentido de não-divinos, pois os elfos tolkienianos não morrem de velhice). Integram-se harmoniosamente com a natureza, dominam a magia, as artes e o conhecimento.

D&D reflete um pouco essa premissa, ainda que de forma menos exagerada (já que a raça ainda precisa ser jogável). Em edições antigas, o elfo era uma classe que misturava habilidades de guerreiro e de mago, mostrando a natureza mágica e a busca pelo domínio em vários aspectos da vida apresentada por membros deste povo (o que é meio contraditório, já que supostamente os humanos deveriam ser os mais versáteis). Em AD&D, muitos consideravam o elfo uma das melhores raças, já que tinham uma tonelada de bônus e habilidades especiais (bônus em Destreza, resistência a sono, encontrar portas secretas, mover-se em silêncio na floresta, bônus em arcos e espadas) em troca de um mísero -1 em Constituição.

Isso, naturalmente, molda a personalidade dos elfos, que tendem a enxergar-se como guardiões dos outros povos, muitas vezes tornando-se distantes e até arrogantes.

O Tempo dos Elfos

Uma coisa muito difícil de botar em perspectiva é quanto vive um elfo. É normal interpretarmos os elfos como se fossem humanos, pois essa é a única experiência que podemos ter no mundo real. Contudo, leve em conta que um elfo (segundo os padrões de Old Dragon 2) atinge a maioridade aos 120 anos e é considerado adulto até cerca de 450. Um elfo que decida se aventurar, digamos, lá pelos 200 anos de idade, pode ter sido casado por 50 anos, ter filhos, família, uma carreira inteira em outra profissão, cultivado muitos hobbies, enfim, vivido uma vida inteira antes de partir pelo mundo. Ele pode ter tornado-se aventureiro apenas como uma espécie de “férias” do trabalho.

Colocando isso em perspectiva e usando nosso próprio mundo real como comparação, nosso hipotético elfo jovem adulto teria nascido ainda no Brasil Império. Teria visto a Guerra do Paraguai (aos 42 anos de idade), a Proclamação da República (aos 65) e praticamente todas as guerras modernas dos séculos XIX, XX e XXI!

Essa, inclusive, é a premissa do anime Frieren (que ainda não assisti, digam nos comentários se vale a pena): uma elfa maga que encara sua vida de aventureira como algo efêmero agora começa a ver seus antigos companheiros de batalha morrerem de velhice.

Agora imagine um lorde élfico com milhares de anos de idade. Ele poderia ter vivido o equivalente ao período da Europa medieval inteiro, ter visto grandes civilizaçÕes da antiguidade, como a Grécia Antiga, Império Romano, Cartago, ou mesmo ter encontrado grandes personalidades da história, como Cleópatra, o profeta Maomé e Charles Darwin.

Não sei se o anime é bom, mas adorei a premissa.

Magos e Artesãos

Como os anões, os elfos são muito associados a habilidades de criação de itens de qualidade superior, que muitas vezes confundem os limites dos objetos mundanos e mágicos. Alguns artefatos marcantes forjados por elfos na Terra Média incluem as espadas Glamdring, Ferroada e Orcrist, bem como a cota de Mithril usada por Bilbo e por Frodo.

Criaturas mitológicas ligadas à maestria nas artes aparecem em diversas culturas, e a habilidade em forja e ourivesaria dos elfos é um reflexo dessa longa tradição que chegou até a literatura de fantasia. A busca pela perfeição é também uma maneira de buscar a transcendência do tempo, o que é ainda mais impressionante levando em conta a longevidade assombrosa dos elfos. Uma jóia presente em uma família ou dinastia élfica “há gerações” pode ter milhares ou até dezenas de milhares de anos, possivelmente superando o tempo toda civilização humana do planeta Terra!

“Cale-se, tolo! Essa espada é mais antiga do que reinos inteiros!”

Por Fim

Entender essas características é essencial para compreender o papel que cada raça desempenha em seu mundo de fantasia. Cada raça pode ser um ponto de partida para explorar temas diferentes, tanto em relação à narrativa do cenário quanto em termos de roleplay do personagem.

Old Dragon 2 está disponível em versão física ou digital. O livro básico é gratuito para quem quer começar a jogar, e só com ele já dá pra usufruir de praticamente tudo que o Old Dragon Online traz. E não se esqueça de conferir outros posts de Old Dragon!

Bom jogo a todos!

Raças – Guias para Old Dragon 2

A raça é um dos aspectos mais definidores do personagem. Hoje vamos discutir alguns aspectos importantes dessa característica. O que é uma “raça”? Por que outros jogos estão mudando para outros termos?

O que é uma raça

Por incrível que pareça, essa pergunta não é tão simples de responder. A primeira edição do D&D trazia as quatro raças clássicas que conhecemos, inspiradas na Sociedade do Anel de Senhor dos Anéis: Humanos, Elfo, Anão e Hobbit Halfling.

(Só pra esclarecer, estou falando da primeiríssima edição do D&D de 1974, que algumas pessoas chamam de OD&D. É difícil ser preciso em um jogo que tem cinco “primeiras edições”).

Quando apareceu a segunda edição do D&D (D&D Basic ou D&D Holmes, de 1977), Elfo, Anão e Halfling transformaram-se em classes de personagem. Ou seja: todo elfo era aquela mistura de guerreiro, arqueiro e mago, todo anão era um guerreiro especializado em defesa e todo hobbit era um ladrão que jogava coisas. Esses conceitos aparecem no Old Dragon 2 nas especializações do LB2 que já comentamos aqui.

O AD&D, também de 1977, manteve a ideia de raça e classe serem coisas separadas, e da terceira edição em diante tornou-se o padrão.

Essa edição de D&D é muito curiosa. Tem classe e raça como características separadas, mas não tem Ladrão como classe.

Biologia x Cultura

As raças, tanto de D&D quanto de OD2, possuem uma visão mista do que seriam traços herdados geneticamente e do que seriam traços adquiridos culturalmente. Ou seja: quando eu digo que um anão possui a habilidade Vigoroso, que lhe dá +1 nas JPC, estou falando de um traço biológico. Anões são naturalmente mais resistentes. Ponto final.

Porém, quando eu analiso um traço como Mineradores, que diz que anões “aprendem desde cedo a avaliar passagens e condições de muralhas e portais”, estou falando de um traço herdado através da cultura e da convivência com outros anões. Um anão criado entre Halflings provavelmente não deveria possuir essa habilidade racial.

Isso se torna mais complicado com alguns traços raciais que precisam de certa interpretação, pois não há uma resposta definitiva, como a habilidade Aprendizado dos humanos. Existe algo na biologia do cérebro humano que o torna diferente das outras raças e mais adaptável ao ambiente à sua volta ou são simplesmente incentivados e obrigados a refinar essa habilidade desde cedo?

Esse tipo de discussão pode levar a uma armadilha chamada determinismo biológico. É por isso que vários jogos recentes (incluindo aí o vindouro D&D One) tem abordado maneiras de fugir disso.

“Dá licença, eu quero martelar esse negócio também!”

O problema das Raças

O termo “raça” para se referir a populações humanas está caindo em desuso por uma série de motivos. No geral, os parâmetros utilizados para determinar o que seria ou não uma raça são fracos não se sustentam geneticamente ou socialmente. Além disso, teorias racistas e pseudocientíficas ainda se apoiam no uso desse termo. Por isso muitos jogos têm procurado usar termos como Ancestralidade (Pathfinder), Espécie (D&D One), Cultura Heróica (Um Anel), entre outros.

Vários jogos modernos também procuram criar outras mecânicas para definir como seu personagem foi criado, como os Antecedentes de D&D 5e, que seriam a profissão de seu personagem antes dele se tornar aventureiro. Em Old Dragon 2 isso já não importa tanto, pois a profissão não tem nenhum peso mecânico no jogo. Você é incentivado a conversar com seu mestre para resolver algumas situações. (Mestre, meu personagem foi criado numa vila de pescadores, posso saber algo sobre isso?)

Então, o que raios é raça, afinal?

Enfim, fiz todo esse desvio para dizer que, em um mundo de fantasia como o proposto por Old Dragon 2 (seja Valansia, Legião, cenário próprio o uqualquer outro), o termo raça se refere a uma mistura de biologia e cultura. Humanos, elfos, anões e halflings são, fundamentalmente, espécies diferentes, mas cada espécie possui uma cultura fortemente arraigada expressa em determinadas habilidades raciais.

Voltando ao exemplo dos anões do primeiro parágrafo. Um anão nasce com certa constituição física natural. Um anão e um humano expostos às mesmas condições naturais resultariam em um anão ligeiramente mais Vigoroso (Você poderia argumentar que essa resistência é adquirida, pois anões passam a infância em ambientes úmidos, convivendo com fungos e bichos peçonhentos do subsolo também). Era esperado que nosso anão se tornasse um Minerador, pois isso é algo importantíssimo para a sociedade anã. Logo, toda sua educação e criação o tornaram hábil em reconhecer estruturas de pedra. Os preconceitos imbuídos na sociedade anã também fizeram com que nosso herói visse todos os orcs, ogros e goblins como Inimigos.

Se tivesse sido criado entre elfos, é possível que esse mesmo anão mantivesse seu físico Vigoroso, mas ao invés da educação voltada para mineração, ele tivesse desenvolvido a Percepção Natural dos elfos. Talvez também não tivesse desenvolvido seu preconceito por orcs, ogros e goblins, também, mas dificilmente os elfos aceitariam treinar um anão em suas Armas Raciais. Uma negociação com o mestre poderia ajudar a substituir esta habilidade por outra coisa, tudo isso para tornar nosso personagem mais único.

“Garanto que mesmo sem o bônus de +2 o anão ainda vai sentar a porrada nessa galera toda!”

Por Fim

Eu abordei um pouco das polêmicas em torno do termo “raça” em jogos de fantasia. Minha intenção não é dizer aos leitores como jogar, mas é importante entender que este termo traz uma carga histórica da vida real, Eu acredito, pessoalmente, que abordar isso de maneira crítica é essencial, e não me incomodo com o uso do termo. Vou usá-lo nos próximos textos, pois é o termo que aparece no livro básico. Porém, acredito que cada um deve ter liberdade para mudar para outras palavras em seus próprios jogos.

Bom jogo a todos!

Thalanill Triktapicc – O Tolo que Roubou a Alvorada – Old Dragon 2 – NPCS

Thalanill Triktapicc é um personagem criado por Wellington Botelho para a campanha O Tolo que Roubou a Alvorada do Movimento RPG em parceria com a Buró. O sistema utilizado foi Old Dragon 2.

Thalanill Triktapicc

Thalanil foi criado entre os elfos. Foi treinado nas tradições élficas do arco longo e da espada, e cresceu para ser um representante das artes e da superioridade élfica sobre os demais povos. Naturalmente afortunado com uma capacidade física invejável. Foi fácil para ele completar seu treinamento e partir em busca de aventuras pelo mundo.

Como Interpretar Thalanill

Thalanill demonstra a típica arrogância élfica para com as outras raças, mas ela se manifesta de uma forma um pouco diferente. Ele é rabugento e não gosta de socializar. Fica o tempo todo reclamando de seus companheiros e fazendo breves comentários passivo-agressivos.

Mote

O arqueiro quer se provar como guerreiro, pois acredita que o mundo precisa reconhecer a superioridade élfica. Porém, um pouco de fama e dinheiro no caminho não faz mal a ninguém.

Frase

“Interessante. Até que foi bom para um anão.


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Thalanill Triktapicc para Old Dragon 2


Thalis Lunatel – O Tolo que Roubou a Alvorada – Old Dragon 2 – NPCS

Thalis Lunatel é um personagem criado por Davyson da HeroMaker Minis para a campanha O Tolo que Roubou a Alvorada do Movimento RPG em parceria com a Buró. O sistema utilizado foi Old Dragon 2.

Thalis Lunatel

Thalis vem de uma tradicional família de guerreiros de sua pequena vila. Porém, como nasceu com braços fracos e físico debilitado, não estava à altura do legado de sua linhagem.

Sua sorte mudou quando um velho mago apareceu no vilarejo. Cansado de uma vida de aventuras, o mago tomou Thalis como aprendiz e ensinou-lhe suas primeiras magias. Depois de um intenso treinamento, o jovem humano decidiu partir em busca de aventuras e novos conhecimentos.

Como Interpretar Thalis

Thalis é tranquilo e não gosta de problemas. Porém, a descoberta da magia trouxe ao jovem uma certa soberba. Ele acredita que o conhecimento arcano é a coisa mais incrível do mundo, e às vezes acaba se dando mais crédito do que merece por conta disso.

Mote

Buscar conhecimento é o que move os grandes pensadores, e Thalanil vê nas suas aventuras uma oportunidade de crescer e se desenvolver cada vez mais como mago.

Frase

“Uma mente afiada vale mais do que uma espada.”


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Thalis Lunatel para Old Dragon 2


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