Encantados do Rio Pardo – Resenha

AlEncantados do Rio Pardo é um jogo interpretativo sobre jovens que se conectam a um espírito animal, chamado mekarô, após um grande risco de vida com objetivo de protegerem a bacia hidrográfica do Rio Pardo, que pega o interior de São Paulo e o sul de Minas Gerais. Tudo isso permeado com muita magia, folclore e, claro, memória de um povo indígena que se foi e aqueles que permaneceram.

O livro é escrito e tem seu design de jogo por Eli dos Santos, psicólogo com mestrado pela FFCLRP sobre uso clínico dos jogos, com a pesquisa em educação ambiental feita pela Edna Costa, bióloga e pós-graduada em Gestão Ambiental, e supervisão de Simone Kandratavicius, diretora e fundadora da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil. É possível encontrar o jogo gratuitamente no site da Associação Cultural e Ecológica Pau Brasil.

Ambientação

O grande motivo para esta resenha ter esta data como publicação é pelo dia de domingo, 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas. O jogo não esconde em nenhum momento o trabalho com os povos originários desta terra que hoje chamamos Brasil, tanto visualmente quanto na sua escrita.

Uma grande surpresa, para pessoas que jogam em sua maioria fantasia, é a territorialidade verdadeira evocada durante a leitura. Ainda que seja sobre encantados, com sua magia e um tanto de mistério, trata de um lugar real, que sofre de problemas reais e onde um povo real viveu e já não vive mais. Refere-se ao povo Mebengokrê, parentes próximos dos Kayapó, que viveram na bacia do Rio Pardo, e protegiam e conviviam com o ambiente. Nisso, o livro nos conta, pelo menos um pouco a cada capítulo, sua história e cosmologia.

É em sua cosmologia que encontramos elementos imaginativos e mecânicos que comporão os próximos capítulos do jogo. A primeira vez que tive contato com o Mito de Origem, presente na página 14 e adiante, foi de uma beleza descobrir aquela história, de aprender também com um livro-jogo-brinquedo (que deixa claro esse aspecto educativo). Tocou em mim, provavelmente, por ter as datações e conversar com minha formação em história; mas certamente tocará qualquer pessoa com o coração aberto para a experiência, o que é um grande ponto forte do livro.

Importância da Terra

Ressaltei a data de início pois este livro nos convida a repensar e imaginar um futuro melhor para nossas terras. Quando puxei a realidade, foi para pensarmos como o que está sendo destruído não é uma terra longínqua e fantasiosa, são lugares que existem, onde vivem pessoas, animais, plantas e demais formas de vida bebendo dessas águas. O que devemos repensar é o quão longe foi o desmatamento e poluição em rios e terras por um dito desenvolvimento, a qual devemos perguntar, para quem ele é?

Tudo isso acompanhado da arte incrível de Carlos Alberto Cordeiro de Sá Filho.

Mecânica

Sobre as mecânicas, não existem grandes complexidades, o que não é algo negativo. Sem dúvidas pode não engajar pessoas mais experientes ou exigentes, porém é necessário também uma “leitura da sala”.

Este jogo se trata de um projeto sobre educação ambiental (e digo de passagem, serve muito para aulas de história e geografia). Imagina-se, portanto, que o jogo é pensado para pessoas que não conhecem tanto de RPG, sendo talvez seu primeiro contato. Particularmente, penso na aplicação numa sala de aula ou evento semelhante, onde sua simplicidade cai como uma luva e cumpre seus objetivos melhor de tal maneira (talvez considere algumas alterações para que uma turma grande consiga jogar).

Ações e Testes

O jogo gira em torno de situações e cenas descritas pelo Mestre de Crônica (MC) e jogadores reagindo com Ações de suas personagens. São 4 os tipos: Sociais, Investigativa, Movimento e Confronto. Cada ação de personagem é um Turno e Rodada a soma de todos os Turnos. A forma mais fácil de compreender é puxando para materialidade: imagine todas as pessoas em roda, MC descreve a situação e passa para a pessoa do lado fazer sua Ação, depois passa para a outra, assim por diante até chegar no MC novamente que finaliza a rodada.

De tal maneira, é possível compreender toda a forma de se jogar a partir da Planilha de Personagem. Nela, além de informações como nome, gênero e etnia, há a distribuição de pontos de Habilidade, dentro de uma lista delas. Assim cada ponto posto numa Habilidade, num valor de 1 a 3, diz quantos dados de 6 lados serão rolados naquela ação. Simples.

Os dados são rolados em Testes, onde são somados os resultados e comparados com uma Dificuldade, sendo igual ou maior o teste tem sucesso, menor tem uma falha. Nisso existe uma variedade de tipos de testes, a qual pessoas mais experientes devem conhecer, como testes resistidos, prolongados e afins.

Reserva de Dados e Mekarôs

A maior complexidade vem da Reserva de Dados que cada Encantado possui, a qual pode descontar do montante para acrescentar como dados extras num Teste ou usar as Características Especiais advindas dos mekarôs.

Mekarôs esses que são a parte mais interessante da ficha de qualquer personagem, afinal é o que torna o Encantado encantado. São 6 animais, Carcará, Cateto, Jabuti, Jiboia, Macaco-prego e Onça-parda; cada um apresentando sua forma única de se envolver com a personagem criada e com 3 Características Especiais para escolher, relacionadas com o animal e aquilo que representa.

Educação

Existe uma parte separada na resenha para Educação por, afinal, se tratar de grande foco para o jogo. Em primeiro lugar, é louvável terem feito um jogo educativo que não cai no erro de ser uma aula disfarçada. Um jogo educativo, antes de tudo, deve ser um jogo; ainda que este tenha um conjunto de mecanismos simples, ele ainda é perfeitamente um.

Esta questão foi bem conversada durante as aulas do Role Simpósio, disponíveis todas no youtube.

Em segundo lugar, ressalto que qualquer pessoa tem a possibilidade de aprender já com sua leitura. É de grande apreço o conhecimento que permeia esta fantasia, se baseando em histórias e geografia reais, elucidando sobre questões pertinentes ao ensino dessas áreas, e ainda contando com a ambiental.

Nota-se a responsabilidade que a equipe envolvida neste projeto teve e tem com o livro (ainda promovem eventos envolta dele), presente em cada pedacinho de informação. Ainda que possa parecer chato um jogo feito para aprender, não tem como não se comover pelo menos um pouco ao pensar na nossa relação com a natureza.

Um pequeno relato

Peço licença para falar um pouco de minha vivência, como estagiária na área da educação. Sou da área de história, contudo faço parte de um projeto interdisciplinar com biologia sobre plantas ancestrais. É perceptível o quanto tem que se trabalhar esta questão com a terra, de conexão com a natureza com alunos. Alunos esses que nem sempre convivem com isso, nem sempre possuem plantas em casa para se relacionar. Por isso acredito que este tipo de jogo puxar uma conexão não só com a natureza da qual fazemos parte como os povos que delas cuidam e do qual devemos tirar sérias lições de vida é de grande ajuda para um futuro melhor. Antes de resolver um problema devemos imaginar que é possível resolvê-lo, que é possível um futuro melhor e este jogo chega com tal objetivo.

Em conclusão desta parte, este jogo pode ser uma abertura para pensar numa educação para além do “giz e cuspe” utilizados a exaustão em  salas de aulas. Mesmo que não chegue numa mudança a nível da proposta e demostrada por Célia Xakriabá no seu texto “Amansar o giz” em “Terra: Antologia Afro-indígena”, Encantados do Rio Pardo já propõe uma abordagem interessante e que pode abrir para mais outras.

Conclusão

Encantados do Rio Pardo é um jogo simples, que convida a pensar na magia deixada a gente pelos povos originários. Uma magia que nos deve ajudar a pensar em futuros possíveis e diferentes para nossa atual situação. Pensar em como adiar o fim do mundo (para uma melhor abordagem desse tema dentro do rpg, recomendo este podcast).

Contudo, principalmente nos propõe a pensar no que estamos fazendo com nosso planeta, com nossa terra. Além do dia 19, hoje é dia 22/04, Dia Internacional da Terra. Neste dia te convido a pensar: que desenvolvimento estamos promovendo? Vale a pena o desenvolvimento em detrimento da natureza? Afinal, para quem é este desenvolvimento?

Presenciando tantas queimadas, destruições de habitats, construção de data centers para geração de lixo digital de IA, a tentativa de privatização de rios. Em meio a tudo isso, temos que repensar todos os crimes contra a terra e o planeta são cometidos em prol de um “desenvolvimento”. Pensar como deveríamos lutar contra isso, nem que seja no campo da nossa imaginação.


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