Icabode St. John parte 12

Nos capítulos anteriores: Icabode e Leon se uniram a Anthony Ritzo para caçarem Solomon, mas antes que sequer saíssem do esconderijo, o polonês apareceu com seu séquito, revelando que havia consumido a alma de todos os membros do clã de Anthony. Um confronto teve início, e no final, Anthony empalou Solomon. Mas antes que pudesse matá-lo, o séquito do polonês interveio e resgatou o corpo de seu senhor, levando-o para longe. Como Icabode e seus companheiros falharam em deter o inimigo, eles decidiram fugir, pois sua derrota atrairia a fúria dos vampiros do Conselho. 


Quando criança, Icabode fora mordido por um rato dos esgotos de Nova York. Foi uma mordida daquelas que te deixam vários dias doentes. Seu trauma começou aí, e naquela briga de bar ficou mil vezes pior.

Ratos vinham de todas as direções e o mordiam como se ele fosse um grande pedaço de queijo.

Nos dias seguintes após a destruição do Portões do Inferno, Icabode continuou sendo perseguido pelas criaturas. Elas estavam sempre escalando seu corpo, penduradas em suas roupas, vindo das ruas, das paredes, do meio da água.

Eles estavam em todos os lugares. Uma semana depois ele parou de sentir a dor das mordidas, como se seu corpo tivesse acostumado com a sensação. Mas ainda assim os minions dos esgotos estavam sempre ao seu redor.

Um belo dia eles sumiram. Icabode saiu de seu esconderijo, aliviado pela primeira vez e foi até o parapeito de aço. Ele olhou ao redor, cem metros acima do chão. A ilhota estava cercada de água.

As luzes da cidade estavam a quilômetros dali, como se até mesmo os prédio soubessem que era inteligente manter a distância entre eles. Icabode mal se lembrava de como tinham achado aquele esconderijo.

– Você está melhor? – Leon perguntou, se aproximando por trás. – Não acordou gritando hoje.

– Eles sumiram – Icabode gaguejou, olhando a câmara metálica ao redor. – Eu fiquei quanto tempo nesse estado? E onde está Solomon Saks?

– Duas semanas – Leon respondeu, preocupado. – E Saks continua desaparecido.

– Não mais! – Anthony Ritzo subiu as escadas, vestindo uma calça bege e camisa regata, branca. – Eu consegui uma informação sobre o paradeiro do polonês.

– Ele voltou à mansão? – Leon perguntou, surpreso.

– Não, mas eu encontrei um de seus capangas. – Anthony respondeu e jogou dedos decepados no chão. – O polonês fez uma visitinha ao Sombra. Ele é um traficante de informação que mora em um cemitério aqui de Nova York. É pra lá que vamos – ele olhou para Icabode. – Você parece lúcido. Virá conosco?

– Essa é uma pergunta idiota – Icabode respondeu, vestindo a jaqueta que trazia pendurada no ombro.

– Acalme-se, garoto – Anthony mostrou a palma da mão. – Iremos no meio da madrugada, quando a cidade estiver dormindo.

 

Às três da manhã, os três saltaram o muro de pedra como se fosse uma cerca para cachorros. Dentro do cemitério, não se podia ver o chão debaixo da névoa.

As árvores pareciam dedos pelados, numa teia de galhos que cobriam suas cabeças. As lápides eram cobertas de musgo e teias de aranha, como se nenhum zelador passasse ali há anos.

– Quando alguém diz “cemitério”, em minha mente sempre vem o Cemitério Nacional de Arlington, um grande campo verde, cheio de lápides brancas e alinhadas – Leon disse, estalando os dedos, assustado.

– Pensei que vampiros não tivessem medo de cemitério – Icabode comentou, segurando o revólver.

– Não tem nem um mês que você é um de nós e já quer bancar o sabe tudo – Leon deu um soco em seu ombro. – Os vampiros não são as únicas coisas perigosas nas noites de Nova York.

– Silêncio! – Anthony ia à frente, com a escopeta encostada no ombro. – Vocês conseguem ouvir algo?

Leon e Icabode ativaram seus ouvidos aguçados e olharam ao redor.

– Ouço o barulho de correntes – Icabode disse, engolindo seco. – O som vem dali.

– Por que não vai na frente, valentão? – Leon o empurrou de leve.

Os três avançaram, cada um segurando sua arma. E Anthony ergueu a escopeta assim que viram um mausoléu antigo, com uma gárgula em seu topo. Icabode abriu seus ouvidos e escutou batidas abafadas e rítmicas, bem baixinhas vindo do mausoléu.

– Estou ouvindo o coração… é um humano.

– Sombra, saia do seu esconderijo! Se preferir, eu o trago arrastado! – Anthony gritou, cuspindo saliva.

Um gemido veio do mausoléu. Em seguida, correntes sacudiram e caíram no chão. O portão de ferro rangeu enquanto era aberto por mãos de unhas compridas.

Um sujeito negro e corcunda apareceu, mancando. Usava calças de couro e um colete folgado. Em seu peito, havia uma corrente da cruz ansata, um Ankh.

– Qual o seu assunto com Solomon Saks? – Anthony perguntou, mostrando-lhe o cano da escopeta. – O que ele veio fazer aqui?

– Saiba que eu não sou a única pessoa em risco aqui – Sombra respondeu com sotaque estrangeiro, erguendo as mãos. Ele parecia assustado. – Se fizer algo comigo…

– Você está me ameaçando, seu merdinha? – Anthony se aproximou, colando a escopeta no rosto do homem. – Antes que você faça qualquer coisa, eu mando seu cerebelo para o topo daquela gárgula.

– Tudo bem – ele gaguejou. – Não precisamos fazer loucuras aqui. Mas no momento que eu quebrar o sigilo que tenho com o meu cliente, nunca mais confiarão em mim – ele viu a impaciência no olhar de Anthony e começou a falar.

– Ele veio atrás de ingredientes para um ritual de bruxaria. Eu não sei qual ritual, ainda mais porque ele não tinha motivos de revelar uma coisa tão pessoal pra mim, um traficante de informações, não é? – ele sorriu, nervoso. – E os ingredientes serviriam para vários rituais diferentes, então não poderia nem lhe dizer algo específico. Depois ele me pagou e eu agradeci pela confiança – ele olhou para o cano em seu rosto.

– Eu acredito nele – Icabode disse, olhando ao redor.

– Eu também – Anthony disse, e apertou o gatilho.

O Sombra foi arremessado, e seu corpo rolou pelo chão. Ele segurou a barriga aberta e olhou para os três, surpreso.

– Ele disse o que queríamos! – Icabode gritou, se colocando na frente de Anthony. – Por que você fez isso?

– Não quero deixar um rastro de onde estive – Anthony respondeu, encarando-o nos olhos. – Ele entregou a Solomon, não entregou?

– Vocês deveriam ter saído daqui – Sombra disse, fazendo careta de dor. – Eu teria deixado vocês partirem.

– Do que você está falando? – Leon perguntou, se aproximando dele.

– Ei, se afaste daí – Anthony disse, receoso.

Uma luz verde emanou por dentro do moribundo, refletindo por seus olhos, como uma pequena explosão, e no instante seguinte, Sombra estava morto. Os três olharam ao redor, atentos.

– Vamos sair daqui, rápido – Anthony disse, se afastando do mausoléu. E no terceiro passo, ele tropeçou na raiz de uma árvore e caiu, ou pelo menos ele achou que fosse uma raiz.

Dedos começaram a abraçar seu tornozelo, prendendo-o no chão. Uma mão ossuda saiu de outra parte da areia e agarrou a outra perna. Outros dedos surgiram, segurando sua cabeça e braços. Um esqueleto de terno e gravata, cheio de vermes, saiu da terra agarrando o vampiro. 

– Os mortos estão se levantando – Icabode disse, se virando a tempo de ver centenas de mãos se projetando para fora das covas.

A escopeta cuspiu algumas vezes, e Anthony estava em pé novamente.

– Rápido! – gritou ele. – Sigam-me!

Anthony começou a correr, e Icabode e Leon iam em seu encalço pulando sobre os esqueletos derrubados no caminho.

– Ele é um rinoceronte! – Leon disse, vendo Anthony derrubar dezenas de cadáveres, deixando um caminho de zumbis esmagados no chão.

Depois de percorrerem o labirinto de lápides, uma bola de fogo acertou uma cripta logo em frente ao grupo, fazendo-os parar. Uma figura comprida e esguia pousou diante deles.

– SAKS! – Icabode gritou ao ver o polonês.

Em seguida, Rabin surgiu ao seu lado, e Troche, o Judeu de Ferro, do outro. Solomon segurou suas mãos nas costas, sorrindo. Os zumbis fizeram um círculo ao redor do grupo, parados.

– Eles não vão nos atacar? – Solomon perguntou.

– Eles sabem que somos aliados do Sombra – Rabin respondeu.

– Perfeito. Não quero interrupções.

– Parece que você quer levar outra surra – Anthony jogou a escopeta no chão e foi até a árvore ao lado, arrancar um galho grosso.

– Na verdade estou surpreso de vê-los aqui – Solomon disse, observando Anthony tornar aquele galho em uma grande estaca. – Mas acho que precisamos terminar aquela nossa disputa, sim.

– Dessa vez, terminamos isso aqui – Anthony respondeu e marchou ao seu encontro com uma estaca improvisada na mão direita.

Ele avançou sobre Solomon e esticou o braço sem qualquer resistência. Solomon nem sequer saiu do lugar. A estaca entrou em seu peito e saiu em suas costas.

– Isso! – Leon gritou, excitado.

Icabode se manteve em silêncio. Rabin e Troche estavam sérios, olhando para o seu senhor. Nenhum deles fez qualquer tentativa de impedir Anthony. Tinha algo de errado.

– Funcionou? – Troche perguntou, subitamente.

– Claro que sim – Rabin respondeu. – Mestre?

Solomon Saks olhou para baixo, deixando os oponentes perplexos. Em seguida, ele arrancou a estaca do peito e a enfiou no coração de Anthony com tanta força que o empurrou alguns metros para trás.

O polonês tirou seu sobretudo e mostrou seu torso nu, branco e pálido. Havia um buraco sobre seu peito, por onde Icabode e Leon podiam ver através.

O coração de Solomon não estava ali.

Icabode ficou imóvel ao ver que o polonês removera o próprio coração, mas ao ver Anthony empalado e paralisado, saiu do transe e correu em sua direção.

– Rabin, termine isso – Solomon disse, e uma bola de fogo nasceu na mão do feiticeiro.

Rabin a arremessou, e ela virou uma coberta de fogo ao redor do corpo de Anthony. Icabode voou para trás, sentindo um pavor pior do que quando sentira com os ratos. Ver o fogo assim tão perto era como se tocasse o próprio sol infernal.

– Venha, rápido! – Leon o ajudou a se levantar e o puxou dali.

– Matem esses dois vermes – Solomon disse, e os zumbis começaram a avançar novamente.

– Use seu poder, rápido! – Leon disse, e desapareceu do nada.

Icabode se encolheu atrás de uma lápide e também ficou invisível. Os zumbis ao seu redor olhavam de um lado para o outro, procurando-o. Com muito cuidado, ele entrou em um mausoléu com o portão tombado, e sentou no chão de mármore.

A luz da lua cobria seus pés, mas ninguém o via, mesmo se olhasse direto em seus olhos. Diante do portal, cadáveres bamboleavam e mancavam, com pedaços de pele e musgo pendurados em seu corpo.

Icabode abriu os ouvidos e escutou a voz de uma quarta pessoa se juntando ao séquito de Solomon. Ele reconheceu a voz do homem que lhe mandara os ratos, era Gólgota.

Mestre, eles mataram o Sombra! – Gólgota avisou.

– Malditos! – Solomon disse, furioso.

Acalme-se – Rabin pediu, tranquilo. – Veja o lado bom disso.

– Lado bom? – Troche perguntou, impaciente. – O Sombra finalmente encontrou o endereço de Maxiocán, o único que pode reverter o feitiço de Solomon, e agora o Sombra está morto. Como iremos encontrar esse mexicano? Como iremos matá-lo?

– Se Maxiocán é o único que pode reverter o feitiço de Solomon – Rabin explicou com calma –, e o Sombra é o único que pode encontrá-lo, nossos problemas estão resolvidos. Com o Sombra morto, ninguém encontrará Maxiocán.

– E ninguém saberá onde eu escondi meu coração – Solomon finalizou. – Finalmente me tornei Solomon Saks, o Imortal!

Icabode se lembrou do dia em que atacaram o esconderijo de Leon, ao lado de Saks e Sunday, quando pensava que Solomon iria iniciar uma “Guerra Santa” contra os vampiros. No final da noite ele os traíra, e dissera que todos ouviriam falar em “Solomon Saks, o Imortal”. Sua profecia estava se cumprindo.

Icabode abraçou os próprios joelhos e ficou balançando pra frente e para trás.

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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 09

Nos capítulos anteriores: Após a missão desastrosa de derrotar Solomon Saks, Icabode foi capturado pelos vampiros que governavam a cidade. Sem saber o paradeiro de Sunday e Drake, Icabode revela os planos do mafioso polonês, alertando os vampiros. Eles enviam Icabode com Ivanovitch, o vampiro mais forte do mundo, para matarem Solomon. Ocorre que os dois não sabiam que o mafioso já se transformara em vampiro e que se alimentara de Anatole, uma criatura antiga. Com as defesas baixas, Ivanovitch foi empalado e consumido por Solomon, que era mais forte do que ele esperava.


Icabode assistia a cena, assombrado. Solomon Saks matara Ivanovitch, a Besta do Oriente, e agora possuía um poder terrível. O próximo a ser morto e consumido seria o próprio Icabode, que estava ferido, caído no chão.

Fuja, garoto, fuja! Sunday disse em sua mente.

– Onde você está? – Icabode sussurrou, ainda sem saber como o detetive se comunicava com ele.

De repente, uma figura se materializou em sua frente. Um homem, cobrindo os próprios lábios com o dedo, pedindo silêncio. Ele tinha barba e cabelos sedosos, compridos. Suas roupas eram trapos cheios de sangue.

Icabode o reconheceu imediatamente. Era o vampiro que ele libertara da fundição em Green Point. Ele colocou a mão no ombro de Icabode e olhou para Solomon. O mafioso gargalhava, diante do carro que acabara de dividir ao meio.

Em seguida, ele olhou para onde Icabode estava e seu olhar ficou perdido. Girou sobre os calcanhares, procurando algo.

– Onde ele está? – ficou repetindo. – Onde está aquele maldito? – gritou.

Você está invisível, garoto, Sunday explicou. Não faça barulho.

Furtivamente, Icabode saiu com o vampiro pelo buraco da sala, e os dois foram para o quintal.

– Você sabe voar, não sabe? – o outro sussurrou.

– Ouvi dizer que estava voando por aí, mas não lembro de nada.

– Se pendure em meus ombros – o vampiro disse com desgosto.

Icabode se agarrou às costas dele, e o chão começou a se afastar de seus pés. Os dois sobrevoavam a quadra, indo para longe da mansão.

– Depois que você fugiu da fundição – o vampiro disse -, eu não vi para onde foi. Fiquei te procurando em todos os cantos do Brooklyn. Você estava irracional, faminto. Eu temi que você saísse por aí fazendo besteira, ou que ao amanhecer, o sol te fulminasse.

– E por que você está tão preocupado comigo? 

– Eu te transformei em um cainita – o outro explicou. – É o meu papel garantir que você sobreviva e que não faça nenhuma besteira… pelo menos até ter autonomia. Meu nome é Leon, e o seu?

– Icabode – ele respondeu, olhando para o pescoço de Leon. Debaixo daquela pele, havia sangue. E Icabode estava com muita fome. – Mas como você me achou?

– Eu consigo ouvir coisas a quilômetros de distância. Posso ouvir bolas de algodão caindo no chão, se estiver muito perto. Quando o tiroteio começou, imaginei que tivesse algo a ver com você. Felizmente, eu estava certo. E agora, pra onde quer que te leve?

Montauk, pensou Icabode, mas não podia ir pra casa, sabendo que Sunday e Capitão Sangrento estavam em algum lugar, em perigo. Então ele disse para levá-lo até à casa do detetive. Só depois lembrou que foi Sunday quem entregou o esconderijo de Leon a Solomon Saks.

– Leon – Icabode disse, enquanto atravessavam o rio. – Eu sei que você conhece o detetive Sunday. Ele estava comigo na fundição. Ele me disse que você era seu informante.

– E onde ele está? – Leon virou o rosto, surpreso. – Ele foi me resgatar?… – ele virou o rosto para frente novamente. – Acabo de lembrar que você foi até lá para me matar. Sunday descobriu que eu fui preso, e decidiu me matar antes que eu causasse algum problema maior.

– Na verdade foi Sunday quem o entregou a Saks – Icabode corrigiu, temendo ser solto vários metros acima do chão. Ele viu que o vampiro virou o rosto novamente, sem dizer nada. – Eu pedi pra ele me entregar o endereço de um vampiro. Ele relutou, mas eu o obriguei. Não foi pessoal.

Leon assentiu.

– Ele fez o certo. Eu mereço mesmo morrer. Todos nós merecemos.

– Mas você é tão diferente dos outros – Icabode disse, perplexo. – Como pode pensar dessa forma?

– Isso é questão de tempo… você verá quando a fome começar a tomar controle do seu… – ele se lembrou de algo. – Você está racional agora. Como fez isso? Como se alimentou?

– Um cachorro… – Icabode se lembrou de quando Anthony Ritzo o empalou na calçada. Tinha o corpo de um cachorro ao seu lado. – Eu acho.

– Você deve estar faminto. Depois falamos sobre Sunday. Precisamos alimentá-lo.

– Esquece. Não vou beber sangue.

– Você vai sim – Leon retrucou. – Se você não beber agora, a besta que há dentro de você, irá lutar contra a fome. Ela tomará o controle de seu corpo, e sua mente ficará inconsciente. Você matará a primeira coisa que estiver em sua frente pra se alimentar. Não subestime a sua fome, Icabode. Eu já subestimei, e as coisas não acabaram muito bem.

– Quais opções eu tenho para não condenar a minha alma? – Icabode perguntou, inconformado.

– Tarde demais, meu amigo – Leon disse, resignado. – Por que acha que não me matei ainda? Além de ser vampiro, ser suicida? O meu lugar está garantido no inferno.

– Você acha que todos eles se preocupam com isso? Os outros vampiros?

– Provavelmente sim. Mas chega um momento onde todos aceitam a sua natureza. Ou você abraça a besta para “viver” nesta não-vida, ou você luta contra ela, e acaba sendo destruído e mandado para o inferno.

– Pelo visto você ainda não fez a sua escolha – Icabode disse, tanto para ele quanto para si próprio, percebendo que sua fome aumentava.

– Escolha? – Leon franziu o cenho. – Não existe tal coisa… olhe só, uma construção embargada. Achamos o nosso restaurante.

– Restaurante? – Icabode olhou para o prédio com mais de dez andares, incompleto e antigo.

– Indigentes, meu amigo, indigentes.

– Tudo bem, mas não precisamos matar ninguém.

Os dois pousaram no terraço cheio de musgo, cocô de pombo, garrafas e latas. O rosto de Leon parecia com a imagem de um Jesus católico, mas ao encarar Icabode, suas presas tornaram o sagrado em profano.

Ele tirou sua camisa suja de sangue e fez o sinal para Icabode fazer o mesmo. Ele não queria assustar as presas antes da hora.

– Você tem os mesmos poderes que eu – Leon informou. – Você pode voar, pode ficar invisível e pode ter os sentidos aguçados. Estes últimos não ficam sempre funcionando. Você precisa prestar atenção. Nós entraremos em uma área escura, e você precisa abrir seus olhos malditos.

Icabode olhou ao redor, e piscou várias vezes, tentando ativar o poder. O vento deslizava frio em seu corpo igualmente gélido.

Manhattan era como uma cabeça, e os prédios eram os fios de cabelo. Havia milhares deles ao redor, todos pontilhados com janelas acesas, decorados com propagandas da Coca, com marca de cigarro, atrações da Broadway, marcas de bebida, um zepelim da Kodak voando acima de suas cabeças.

Pela janela de um quarto, Icabode viu um asiático colocar uma camisa vermelha. Na mesa em sua frente havia dois incensos acesos, ladeando a foto de um general de seu país. No canto superior da foto, havia o símbolo comunista.

-Uau! – Icabode piscou, percebendo que o quarto estava muito longe dali, e que vira detalhes tão pequenos que nem um binóculo conseguiria revelar. Ele se virou para Leon. – Estou pronto.

Os dois desceram o primeiro lance de escadas, e descobriram um piso abandonado, sem paredes e cheio de lixo. Eles continuaram descendo até os ouvidos aguçados de Icabode ouvirem os primeiros sons. Era um ronco.

 

George discutira com seus pais extremamente religiosos quando ainda era adolescente. Ele fugiu de sua casa no Tennessee e foi viver no litoral. Depois de quinze anos viajando, decidiu ficar em Nova York, onde ficou por mais duas décadas.

Os últimos cinco anos de sua vida foram os piores. Ficara desempregado, sem teto e sem dinheiro. Dormindo em vários lugares diferentes. Aquele prédio estava sendo seu lar nos últimos meses. Os outros indigentes tinham jogos completos de panela, isqueiro, garrafas de alambiques e cigarros.

Eles se ajudavam sempre que podiam.

Era madrugada e ele dormia profundamente, quando de repente, algo o despertou. Dois homens estavam em pé, encarando-o. Eles não vestiam camisas. Um deles parecia Jesus, e o outro não tinha alguns dedos da mão.

– Não acorde os outros – Jesus dissera. – Eu tenho uma proposta pra você.

– Eu não sou nenhuma bicha – George respondeu calmamente, sem saber se estava falando com um anjo ou com um nóia.

– Nem nós – o jovem respondera com uma careta.

– Deixe-nos beber um pouco de seu sangue, e pagaremos bem – Jesus propusera. – O que acha?

– Isso não é errado? – George perguntou, completamente confuso. Talvez estivesse sonhando.

– Nós poderíamos pegar à força, se quiséssemos – Jesus explicou de maneira ponderada. – Mas nós queremos pagar por isso.

– Nesse caso – George olhou ao redor e viu que estava sozinho. Era um péssimo dia para ficar sozinho no sexto andar. Aquilo não era Jesus, porra nenhuma. Aquilo era um dos demônios que ele ouvia falar nos becos do submundo. – Prometem que não vão me matar… ou me transformar em um de vocês?

– Nós prometemos – o garoto assegurou, incomodado com a pergunta.

– Como querem fazer isso? – George perguntou, ainda deitado.

O que parecia com Jesus ficou de cócoras, e o garoto o imitou. Em seguida, cada um pegou um de seus braços e os levou até suas bocas. Os lábios eram frios e secos. O hálito parecia um sopro invernal.

George esperou mordidas doloridas e profundas, mas tudo o que sentiu foi uma leve picada de mosquito, seguida por uma coceira.

Seu corpo inteiro foi tomado por aquela sensação, e havia uma certa dormência. Ele sentiu o sangue correr pela virilha, e logo seu membro ficou ereto. A sensação era realmente boa. Ele se sentiu fraco e tonto. Piscou lentamente, e de repente, escuridão.

 

– Ele está bem? – Icabode perguntou, afastando o braço de sua boca com muita relutância. Ele queria continuar bebendo o sangue do mendigo, mas agora estava assustado. – Ele desmaiou?

– Sim, ele está vivo – Leon o acalmou. – Se você prestar atenção, pode ouvir as batidas de seu coração. Mas por hora, a besta não tomará conta de nosso corpo. Podemos procurar mais um indigente.

– Não! – Icabode pediu. – Não podemos simplesmente ir pra casa? Amanhã a gente continua – ele olhava para o homem desmaiado, pálido. O gosto do sangue em sua boca era doce e quente, como um resquício da vida que ele nunca mais teria.

– Por mim, tudo bem – Leon deu de ombros. – Eu também relutei bastante quanto à beber sangue. Mas hoje, decidi que é melhor beber um pouco e não matar ninguém, do que não beber nada, e me tornar uma fera assassina. É melhor você superar essa fase logo.

– Eu irei – Icabode prometeu. – Só não hoje, por favor.

– Claro. Amanhã continuaremos – Leon bateu em seu ombro, com um sorriso. – Antes de partir, precisamos fazer mais uma coisa – ele ergueu o braço do mendigo e lambeu o local da mordida. Os buracos sumiram imediatamente. – Faça isso sempre que se alimentar pra cauterizar a ferida.

Icabode pegou o outro braço e fez o mesmo. No próximo instante não havia marcas de mordidas no mendigo.

– Você disse que iria pagar pelo sangue – Icabode o lembrou, puxando os bolsos vazios da calça.

– Eu menti – Leon respondeu, se aproximando da borda do andar. – Nós dois precisávamos do sangue com urgência, e eu não tenho um tostão furado comigo. Você vai ter que fazer coisas assim a partir de agora. A sobrevivência é uma arte – ele olhou para o céu. –  O apartamento de Sunday é aqui perto. Devemos ir logo. O sol está prestes a nascer.

– Espero que ele esteja lá – Icabode se pendurou novamente no vampiro, e os dois saíram do prédio. – Assim que o encontrarmos, podemos ir atrás do Capitão Sangrento.

– De quem?

– Era o nosso terceiro mosqueteiro – Icabode explicou. – Uns vampiros o capturaram.

– Quem? – Leon perguntou, sobrevoando alguns prédios.

– Uns tais de Fermín, Anthony Ritzo, uma juíza, e Ivanovitch. Este último foi morto por Sacks.

– Sacks matou a Besta do Oriente? – Leon quase gritou. – Se você conhece o Conselho de Nova York, então já está mais envolvido à não-vida do que eu esperava.

Os dois pousaram na sacada do apartamento de Sunday, e adentraram o imóvel, mas o detetive não estava lá. Em seguida, eles isolaram o local contra a luz solar, e apagaram.

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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 05

Nos capítulos anteriores: Icabode, Sunday e Drake se uniram para enfrentar Solomon Saks, o mafioso polonês que capturara um vampiro para transformar a si mesmo em uma criatura da noite. Após invadirem o cativeiro, os três foram abatidos, um por um, até que Icabode à beira da morte alcançou o vampiro acorrentado. Para sua surpresa, descobriu que o preso não era uma pessoa má, e ao invés de matá-lo, Icabode o libertou e em seguida, morreu. 


O mundo era uma água negra, e suas mãos recém despertadas começaram a nadar em direção ao céu tomado por uma língua de fogo que dançava acima do mundo. Mãos e pés estranhos tocaram nele, e assim que chegou à superfície, nadou até uma margem, ao lado de milhares de pessoas que faziam o mesmo.

Todas elas pareciam assustadas e surpresas. Icabode não fazia ideia de onde estava.

Ele engatinhou na terra seca, mas foi impedido de continuar ao ver diversos homens encapuzados, segurando hastes de madeira, com lâminas curvas na ponta. Antes que ele pudesse fazer algo, os encapuzados começaram a enfiar suas foices nos náufragos, penetrando seus corpos e os arrastando dali.

Os gritos de dor e pânico enchiam os ouvidos de Icabode, e não demorou para o seu grito se unir a eles. Uma foice atravessou seu ombro como se fosse um anzol, e o encapuzado começou a arrasta-lo para longe da água. Icabode gritava, olhando para todos os lados. O céu era feito de nuvens de fogo, e eles estavam cercados por montanhas negras.

Antes que ele fosse jogado em uma gaiola lotada de mulheres e homens nus, uma voz gutural bradou ao seu lado:

– Largue o garoto, ceifador! – era uma criatura chifruda, feita de brasas. Cada vez que falava, colunas de fumaça saíam de sua boca. – Não vê que ele é um Orelha Furada? Ele tem dono!

Icabode rapidamente tocou na própria orelha e percebeu que tinha uma espécie de etiqueta costurada. O ceifador sacudiu a foice até que seu corpo caísse no chão, cheio de dor.

A mão da criatura chifruda se fechou sobre a cabeça dele, puxando-o para longe das gaiolas nas carroças, e em seguida, amarrando suas mãos em longas correntes de ferro negro.

Um grupo peregrinava pela terra árida e escura. Criaturas gigantescas e animalescas apareciam de todos os lados. As pessoas gritavam e imploravam por Deus, pois eles já sabiam onde estavam.

– Mas por que eu estou aqui? – Icabode inquiriu ao demônio que o arrastava para longe do grupo. – Meu pai sempre me ensinou que só pecadores vinham para cá! E que o pecado é ir contra sua consciência! Minha consciência está limpa! – Icabode gritou, batendo no próprio peito. – Eu não devia vir pra cá!

A criatura se virou pra ele, deixando um rastro de fumaça para trás. Seus olhos eram bolas de fogo.

– Seu pai te ensinou? Foi seu pai quem vendeu sua alma. Orelhas Furadas são almas que já estão reservada para algum Senhor do Inferno.

Icabode sentiu suas pernas falharem e ficou de joelhos. O demônio agarrou sua cabeça novamente e o forçou a continuar. Ele estava atônito, sem acreditar que seu pai, o reverendo, vendera a alma do próprio filho a um demônio.

– Mas e sobre o livre arbítrio e as minhas próprias escolhas? – ele gaguejou, completamente perturbado. – Não tenho direito e autoridade sobre minha própria alma?

– Até a idade da plena consciência do bem e do mal, todos são de responsabilidade de seus pais ou tutores – o demônio explicou, sentindo um prazer nefasto em ver a dor no olhar de Icabode. – Quando os exércitos leais ao seu Deus iam à guerra, Ele mandava matar os inimigos e os filhos de seus inimigos. Dependendo dos pais, as crianças eram santas ou pecadoras. Parece que o seu pai escolheu o caminho errado, garoto.

Icabode não sabia que as coisas funcionavam daquele jeito.

Tudo parecia muito arbitrário e injusto aos seus olhos. Em algum lugar perto dali, havia um paraíso onde Icabode merecia passar a eternidade, mas graças a seu pai, ele ficaria para sempre no inferno.

Adiante, sobre a trilha, havia um arco de pedra com uma placa com uma frase que cada um entendia em sua própria língua, “BEM VINDO AO INFERNO”.

– Ei, Icabode! – alguém gritou. Era Sunday, preso em uma jaula puxada por uma carroça. – Garoto, você morreu? – seu olhar era de tristeza e cansaço. Ele estava pressionado contra as grades enferrujadas, cercado de pessoas. – Pelo menos você conseguiu matá-lo? Você matou o vampiro?

Icabode lançou um olhar envergonhado para o amigo. O Mal vencera, e os heróis foram mandados ao inferno.

Isso é inaceitável, Icabode pensou. Se existe justiça, as coisas não deviam ser assim. Ele olhava para Sunday, tentando achar alguma saída para aquela situação. Se não houver justiça… talvez eu possa fazê-la por conta própria, refletiu.

Nessa hora, a sombra do arco de entrada do inferno recaiu sobre ele.

– Sunday! Nós não podemos morrer duas vezes, não é? – Icabode gritou.

O detetive olhou para ele, confuso. Icabode não esperou a resposta, e se jogou contra a coluna do arco, e começou a escalá-la. As pedras tinham sulcos e frestas que facilitavam a escalada.

A corrente que o ligava ao demônio era longa, e o chifrudo escolheu não puxá-lo pelo simples fato de que seria mais interessante esperá-lo chegar ao topo do arco. A queda seria mais forte. Mas ao chegar lá em cima, Icabode agiu rapidamente. Ele mesmo pulou para o outro lado, em uma queda livre.

Ele havia mirado em alguma carroça, para cair entre os demônios bovinos que a puxavam. A queda fora dolorida, e quebrou alguns de seus ossos, mas ele atingira o objetivo.

Tomado pela dor, enroscou a corrente no eixo entre os debôvinos (demônios bovinos), e esperou que desse certo. A corrente era longa, mas chegara ao limite no último instante. Ela se retesou, passando por cima do arco e puxando o braço do chifrudo.

O demônio tinha a altura de um poste e pesava no mínimo, uma tonelada.

Sem saber exatamente qual polo iria ceder primeiro, Icabode se manteve inerte, vendo a corrente diante de seus olhos, puxar o eixo da carroça, entortando-o. Se ele cedesse, seu plano falharia miseravelmente. Aguente, aguente! Ele pediu. Se havia alguma força do bem naquele lugar, aquela era a hora de intervir. O garoto começou a chutar as ancas dos debôvinos, forçando-os a continuar em frente.

O demônio chifrudo começou a puxar a corrente, vendo que estava prestes a ser puxado para cima do arco de boas-vindas. Bufando com raiva, ele puxou os braços para baixo, fazendo a carroça reduzir a velocidade. As correntes não podiam ficar mais rígidas do que naquele momento. Em algum lugar, algo iria ceder.

Sunday estava em uma gaiola, tentando enxergar o que Icabode havia feito depois de escalar a coluna. Ele não o via mais. Mas a atenção de todos estava voltada para a corrente que puxava o arco para baixo. As pedras começaram a balançar enquanto o demônio lutava para não ser erguido.

No próximo instante, o arco cedeu, e as pedras milenares vieram abaixo, esmagando tudo que passava naquela hora. A carroça de Sunday foi desmontada, e ele mesmo fora pressionado por barras e ossos dos menos afortunados que estavam naquela jaula.

Um frenesi teve início, e todas as pessoas que estavam em liberdade começaram a correr.

Sunday se arrastou para fora da gaiola, e viu o demônio chifrudo jogar os humanos para todos os lados, avançando em linha reta, rumo à outra ponta da corrente.

– Preciso ajudá-lo – Sunday disse, correndo na mesma direção. Icabode não teria nenhuma chance depois que aquele demônio o alcançasse.

– Corre, corre! – Icabode gritava, chutando o traseiro dos debôvinos com mais força. O chifrudo agora corria em sua direção, e a punição no inferno devia ser visceral. Icabode não pretendia ser pego pela criatura. O problema é que, nesse momento ele havia adentrado os limites reais do inferno. E isso era um puta problema.

– Como eu vou me soltar dessas correntes? – ele se perguntava. Seu corpo erra arrastado pelo chão, entre os animais. Seus braços continuavam presos ao eixo de ferro.

A carroça aumentava de velocidade, enquanto o chifrudo também corria mais rápido. Sunday ficara para trás, consciente que aquela corrida não era pra ele.

Só restava ao detetive esperar que o demônio nunca alcançasse o garoto.

Icabode se ergueu e ficou sobre o eixo, com o corpo inclinado por causa do espaço curto das correntes. Ele não conseguia ficar em pé. Olhando para a frente, viu uma cidade satânica, cheia de fogo, rodas gigantes, estátuas e criaturas aladas sobrevoando o lugar. Com os movimentos limitados, ele apenas observou.

A carroça invadiu a cidade, quebrando cercas, paredes, invadindo praças, atropelando todas as criaturas no caminho, passando por colunas de fogo tão largas quanto a própria cidade. Icabode sentia como se estivesse em um liquidificador cheio de ácido. Nada parava aqueles debôvinos, e todos os obstáculos causavam grandes lacerações no garoto.

Seu corpo fora consumido por fogo, e vários cortes cobriam-no quase por completo. Estava fraco, e prestes a tombar do eixo, direto para o chão. Mas isso seria pior. Ali, ele estava um pouco mais protegido. A jaula da carroça ainda estava cheia de pessoas. E todas elas gritavam para ele tirá-las dali. Elas tinham falsas esperanças, e Icabode sabia disso. Não havia uma forma de salvar ninguém do inferno.

Ele só ganhara tempo, e com o custo de ter o corpo todo moído.

As pessoas gritavam, avisando que o chifrudo estava perto, e que iria alcançá-los logo. Icabode usava de uma força sobre-humana para continuar, mas ele preferia ser derrubado do que simplesmente desistir.

A carroça saiu da cidade e partiu em direção ao paraíso. Um lugar cheio de jardins iluminados, anjos e santos que bebiam e comiam em uma eterna comemoração. Icabode sorriu, esperançoso. Isso durou pouco tempo, pois ele percebeu que havia um imenso abismo entre o inferno e o paraíso.

– Claro – ele se lembrou. – A parábola do rico e de Lázaro.

A história bíblica mostrava dois homens conversando, cada um de um lado do abismo. O rico tentava ir para o paraíso, mas por causa do buraco não havia nenhuma possibilidade. E nesse momento, a carroça rumava para esse abismo.

– Agora sim, já era – Icabode suspirou, pensando que ia para uma espécie de inferno pior do que o próprio inferno.

Os debôvinos se jogaram no buraco negro, e a carroça caiu pesadamente. O chifrudo parou de correr ao ver aquele desfecho. Mas a corrente se esticou e começou a arrastá-lo. O demônio caiu no chão e tentou arrancar livrar seus pulsos para não ser levado pela carroça. No momento em que conseguiu se desvencilhar delas, sentiu o chão sumir debaixo de seu corpo.

Ele também caíra no abismo.

Sunday viu a carroça despencar com Icabode e puxar o demônio consigo. O detetive lera sobre o abismo na bíblia. Esse lugar era mil vezes pior que o inferno. Era no abismo que Deus aprisionara as piores criaturas. Os demônios do apocalipse. O detetive chegara tarde demais, e mesmo assim, não teria chance alguma de salvar o garoto.

Ele mesmo estava duplamente condenado. Atravessara a cidade correndo, seguindo a trilha da carroça, e agora, centenas de ceifadores o perseguiam.

Olhou para trás e viu as inúmeras criaturas com foices, sob as sombras dos demônios alados, todos vindo em sua direção. Ele sabia que seria despedaçado. Mas talvez fosse merecido. Em sua vida, Sunday havia tomado algumas decisões erradas.

Não tinha dúvida que o inferno era o seu lugar. Ele só queria um copo de whisky para degustar antes que fosse alcançado. E eles vinham com muita pressa, ah se vinham. Em poucos segundos, estariam sobre seu corpo.

– Que seja – Sunday ergueu a gola do sobretudo e colocou as mãos nos bolsos. Mas um grito o fez virar novamente.

Alguém chamava seu nome.

Icabode sobrevoava o abismo. O garoto subia rumo ao céu, puxado por uma força invisível. Ele gritava o nome do detetive várias vezes.

– Pegue a corrente! – Icabode gritou, sacudindo a longa corrente que ainda estava presa em suas mãos.

Sunday olhou para os ceifadores, e não esperou mais. Ele disparou em direção ao abismo. Em suas costas, algumas foices começaram a rodopiar, tentando acertá-lo. Mas se os ceifadores não o alcançassem, o abismo iria. Ele saltou em direção ao buraco, erguendo as mãos, consciente de que tudo daria errado.

– Você conseguiu! – Icabode gritou, vendo o detetive pendurado em sua corrente, e ambos subindo para o céu, deixando milhares de demônios para trás.

Os dois atravessaram as nuvens de fogo, e continuaram subindo.

– Não estamos indo para lá! – Sunday gritou, surpreso, ao ver o paraíso ficando para trás.

– Talvez estejamos indo para o céu onde fica o Trono de Deus! – Icabode deduziu, temendo despencar a qualquer momento.

– Você deve estar certo – Sunday gritou. – Cuidado!

Uma criatura alada atravessou uma nuvem de fogo e agarrou a Icabode. O garoto ergueu as mãos e segurou as presas da criatura, afastando-as de seu rosto. Ele abriu a boca e mordeu a face do demônio, sentindo o gosto pútrido e cheio de enxofre, enquanto arrancava um pedaço dele.

– Volte para o inferno, criatura asquerosa! – Icabode gritou soltando as garras que foram direto em sua barriga, penetrando-o. Ele gritou.

Com as mãos livres, rasgou a membrana da asa de morcego do demônio, usando de toda a força que tinha. A criatura começou a cair em parafuso, e sumiu de sua vista. O corpo de Icabode estava irreconhecível. Perfurado, carbonizado e rasgado. Seus olhos estavam praticamente fechados, mas ele olhou para baixo e viu Sunday, ainda pendurado. Ele conseguiu finalmente sorrir.

– Deus nos salvou – tentou dizer.

Mas assim que alcançaram o ponto mais alto do céu, tudo escureceu, e estavam de volta ao mundo dos mortais. E foi aí que ele viu que Deus não o salvara. Em sua frente, alguém olhava com medo para seus caninos.

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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 04

Nos capítulos anteriores: Icabode e o detetive ocultista Sunday foram traídos pelo mafioso polonês Solomon Saks, que ao invés de caçar vampiros, como prometera, capturara um apenas para se transformar em um deles. Em seguida, Sunday apresentou a Icabode, Drake Sobogo, capitão dos Balas de Prata, pelotão especial da 2ª Guerra que caçava criaturas sobrenaturais. Drake era boxeador clandestino e era conhecido como Capitão Sangrento. Ele conhecia o vampiro capturado por Saks, pois Sunday havia lhe pedido certa vez que o protegesse, pois era um informante, mas Drake se recusara a ajudar um vampiro. Agora, Sunday o havia lhe chamado para conversar novamente. 


– Me chame de Capitão Sangrento – Drake Sobogo disse ao ser apresentado a Icabode St. John. – Não quero meu verdadeiro nome sendo usado nesta conversa – ele olhava ao redor, desconfiado.

– Tudo bem, Capitão – Icabode assentiu. – Você já deve saber que nós estamos atrás do mafioso Solomon Saks.

– Eu estou aqui pelo vampiro – ele respondeu, lançando um olhar severo ao detetive Sunday.

– Eu sei, eu sei – Sunday precisava ser cauteloso ao falar com o boxeador de temperamento difícil. – Mas Solomon Saks mantém o vampiro prisioneiro. E suas intenções são nefastas. Ele pretende tornar a si próprio uma criatura da noite.

– Mas quem seria tão idiota para trazer sobre si tamanha condenação? – Drake fez uma careta de absurdo. – Se esse Saks deseja a morte, diga a ele que a levarei pessoalmente. E sem cobrar nada.

– Nós não pretendemos matá-lo, Capitão – Icabode interveio. – Nosso negócio é apenas com o vampiro. Precisamos invadir seu cativeiro e matá-lo. Nenhum homem deve morrer.

– Quem é esse garoto? – Drake olhou para Sunday, irritado. – E por que ele pensa que pode dar ordens a mim?

– Eu não estou dando ordens, capitão – Icabode se explicou.

– Ele é o maior interessado nesta missão – Sunday rapidamente completou. – Seu pai foi morto pelo vampiro Anatole – ele ergueu a mão de Icabode, mostrando seus dedos decepados. – E ele o caçou e o matou com as próprias mãos.

– Ele mereceu, assim como todos os vampiros merecem – Icabode beijou seu crucifixo. – Mas condenar os homens já não cabe a nós. Apenas a Deus.

Drake olhou para a mão de Icabode e para as feridas em seu rosto, e silenciosamente reconheceu que aquilo fora um feito e tanto. O rapaz acabara de receber o seu respeito. O boxeador olhou ao redor, refletindo. Sua intuição o mandava trabalhar com aqueles dois, mas seus olhos circulavam pelo apartamento, sempre em busca de algo suspeito.

A cada balançar das venezianas, o som de buzinas, sirenes e brigas que vinham da rua, ele tencionava seus músculos. Olhou pela cozinha, contando quantos copos usados estavam sobre a mesa.

Se havia algum sinal de que não estavam sozinhos ali.

A sala de estar ficava três degraus mais baixa do que o resto do apartamento. Os sofás de couro com pernas cilíndricas de madeira, sobre o carpete bege… Aquilo tudo era delicado demais para monstros com cheiro de enxofre.

Quadros coloridos, como o de uma moça tomando Coca-Cola, um circo itinerante cruzando um deserto, e outros, decoravam o ambiente. Não, eles não estavam escondendo nenhuma criatura demoníaca ali.

Na mesinha de centro, o cinzeiro portava três charutos velhos, o que não queria dizer nada além de que Sunday fumava pra diabos. O Capitão Sangrento socou a própria mão.

– Qual é o plano?

– Entrar em silêncio, esta madrugada – Sunday explicou. – Encontrar o vampiro e… – ele deslizou o dedo pela garganta.

Icabode jogou duas estacas na mesinha e mostrou o crucifixo, indicando que aquilo era tudo o que ia usar. Drake não fazia questão de levar pistolas. Elas deixavam pistas. Seus punhos eram tudo o que precisava.

Enquanto Icabode explicava a estrutura do prédio, já que ele ficara lá durante uns dias, Sunday preparava sua mala com binóculos, cordas, lock pick, clorofórmio e outros de seus frascos especiais. Assim que a lua sumiu entre colunas de nuvens, o trio deixou o apartamento.

 

No estuário de Newton Creek, sob a ponte Pulaski, o grupo se reuniu para trocar de roupas. Do outro lado do afluente, no Queens, ninguém conseguia vê-los colocando seus casacos e luvas.

Em seguida, o grupo correu até um prédio de quatro andares. Sunday conseguiu abrir a porta dos fundos, silenciosamente. Ali era uma região industrial, e não havia uma alma viva por perto.

O detetive guardou seu equipamento de arrombamento e eles entraram em um cômodo escuro. Icabode tomou a iniciativa, relembrando do caminho para o lugar onde se encontrara com Solomon Saks pela primeira vez.

– Eu esperava que tivesse pelo menos um segurança no prédio – Sunday sussurrou. – Mas está vazio.

– Talvez eles não trouxeram o vampiro pra cá – Icabode respondeu, inconformado.

– Se ele não estiver aqui, nós vamos direto até a casa desse polaco filho da mãe – Drake resmungou, decidido.

Na escuridão eles atravessaram o lugar cheio de caixas. Havia uma porta e uma escada para o andar superior. Icabode abriu a porta e os três adentraram. O lugar tinha um cheiro forte de fumaça e de produtos químicos.

Pelo eco, era um cômodo imenso. Havia um interruptor ao lado da porta, e ao acenderem a luz, viram algo terrível. Aquilo era uma cozinha de heroína, mas essa não era a parte do “terrível”. Dezenas de julacos dormiam em colchonetes, cercados de fuzis e metralhadoras.

Todos acordaram assustados com a luz.

Estamos mortos, Icabode pensou, e no mesmo instante os poloneses começaram a gritar, pegando suas armas. Drake agarrou a gola de Icabode e o puxou para trás, enquanto Sunday fechava a porta novamente. Os tiros começaram, transformando a porta em lascas que choviam sobre os três.

– Para a escada! – Sunday gritou, e eles começaram a correr.

Conseguiram chegar no andar superior, e Drake Sobogo empurrou uma escrivaninha de ferro, bloqueando a porta. Ele tirou o sobretudo, e por baixo, estava vestindo apenas seu calção de boxe. Ele fechou os punhos e olhou para os dois.

– Vão atrás do vampiro. Eu seguro eles.

Icabode protestou, mas Sunday o segurou pelo braço e o puxou em direção à outra escada. Em suas costas, ouviram a porta ser derrubada, e o rapaz se virou a tempo de ver Troche invadir a sala. Drake o acertara com uma barra de ferro, e o som que ela fez na cabeça de Troche foi metálico, como se os dentes do julaco não fossem a única parte de seu corpo feita de metal.

Outros criminosos adentraram o cômodo, e enquanto Troche e Sobogo lutavam, os outros começaram a atirar na direção de Icabode. Sunday o puxou, e os dois chegaram até o terceiro piso.

– Sunday! – Icabode gritou ao ver que sangue vertia da boca do detetive.

Uma bala o acertara na bochecha e saíra pelo outro lado. Os dois pararam de correr pra ele cuspir fora sua própria língua. Ele olhou para Icabode com os olhos molhados, e ambos souberam que iriam morrer antes de alcançar o vampiro.

– Só tem mais um andar, Sunday – Icabode gritou, invertendo os papéis e puxando o detetive pelo sobretudo. – Vamos pelo menos terminar a missão antes de morrer!

Mas antes que conseguissem chegar na escada seguinte, Troche atravessou a parede, coberto com sangue de Drake Sobogo. O julaco sorriu para eles antes de atacá-los. Sunday empurrou Icabode e se jogou contra o polonês.

Troche agarrou seu pescoço com uma mão e o ergueu. Com a outra, ele perfurou a barriga do detetive, rasgando seus órgãos internos e atravessando até as costas. Seus dedos se projetaram para fora, cheios de tripas frescas.

Sunday olhou para Icabode, e um jorro de sangue grosso escapuliu pela sua boca e pelos buracos nas bochechas. Em seu olhar havia uma mensagem. Em seguida, o detetive segurou os dois braços de Troche, e empurrou a parede atrás de si, forçando os dois a ficarem perto da janela.

Icabode correu e se jogou, empurrando-os com o ombro. Troche e Sunday foram arremessados contra o vidro, e despencaram em uma queda de dez metros. 

Os outros criminosos chegaram no buraco da parede, e Icabode voltou a correr. Antes que subisse a escada, ele foi alvejado por uma rajada, e seu corpo foi perfurado em vários lugares. Em um último esforço, ele chegou até o quarto andar, e fechou a porta atrás de si. Ela era diferente, feita de aço e com trincas resistentes. Eles demorariam para entrar. Mas entrariam.

O cômodo era cheio de crucifixos, todos pregados na parede. Do outro lado, correntes amarradas em vigas de aço, prendiam os braços de um homem prostrado.

O vampiro ergueu a cabeça em sua direção, fraco. Primeiro, ele mostrou as presas, tentando parecer ameaçador. Depois, mudou de expressão ao ver Icabode tirando a estaca do casaco.

– Você veio me matar? – o vampiro perguntou. Sua voz era suave, e seu semblante, dócil.

– E não há nada que você possa fazer! – Icabode bradou, cambaleando.

– Rápido! – o vampiro o apressou, olhando para a porta. – Eles vão abrir a qualquer momento. Trespasse meu coração!

Icabode ergueu a estaca acima de sua cabeça, mas aquela resposta não era exatamente o que estava esperando ouvir.

– Você está querendo me manipular, criatura!

– Não! – o vampiro respondeu, angustiado. – Não importa, só me mate rápido!

– Por quê? – Icabode se ajoelhou diante dele, ficando cara a cara. – Por que você está me pedindo isso?

– Porque eu sou um maldito vampiro! – ele respondeu banhado em lágrimas. – Me transformaram em um deles como punição! Eu irritei um membro da sociedade vampírica, e ele me deu essa não-vida! Mas você precisa me matar antes que Solomon Saks me use para criar seu exército!

– O quê? – Icabode abaixou a mão, incrédulo. – Que exército?

– Ele quer transformar todos os seus capangas em vampiros – declarou. – Você não sabia disso? Ele quer dominar Nova York, e governar sobre os mortais e sobre os próprios vampiros.

– Então eu preciso te matar – Icabode disse, fraco, sentindo a vida deixar seu corpo. – Mas… mas eu não queria.

– Como assim? Eu sou uma criatura da noite, você precisa me matar!

– Você não é mau – Icabode disse, chorando, surpreso. – Eu esperava um monstro, mas… você não é um.

– Claro que eu sou! Você não faz ideia do tanto que luto contra o desejo de sangue e de morte!

– Viu. Um monstro não lutaria – Icabode se arrastou para longe dele. – Você está fraco por causa disso – ele arrancou o crucifixo e o jogou pela janela. – Recupere a sua força antes que eles consigam entrar.

Sob os protestos do vampiro, Icabode arrancou os crucifixos um por um, e os jogou pela janela. No fim, ele estava deitado, e grande parte de seu sangue vertera para fora do corpo. Ele sentia seu corpo dormente, e estava tonto. A porta em suas costas fora derrubada, mas sua consciência apagou.

Seu coração parou de bater e a vida deixou seu corpo para sempre.

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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 03

Nos capítulos anteriores: Após caçar e abater o vampiro Anatole dentro do galpão da máfia polonesa, Icabode foi apresentado ao dono do local, Solomon Saks, o judeu polonês que controlava o Brooklyn. Icabode disse que Anatole matou seus pais, e Solomon lhe propôs uma aliança para iniciarem uma guerra santa contra os vampiros. Icabode apresentara o detetive ocultista Sunday, que poderia ensinar tudo o que precisavam saber acerca das criaturas. Após Solomon chamar seu capanga com dentes de metal, Troche, e mais um pequeno exército, eles foram até o esconderijo do primeiro vampiro que iriam caçar. Mas para a surpresa de Icabode e Sunday, Solomon capturou a criatura e revelou sua verdadeira intenção, que era se tornar um vampiro. 


O Capitão Drake Sobogo corria desesperado pelas ruas do vilarejo francês, tentando fugir dos soldados alemães. Ele olhava ao redor, sem acreditar no que acontecera. Todo o seu pelotão fora morto em poucos segundos, e o capitão fora o único sobrevivente. Seus companheiros não morreram por serem maus atiradores ou por estarem em menor número, ou por terem sido emboscados, nada disso. O grande problema foram os inimigos.

Eles não eram humanos.

Sobogo parou subitamente, quando os alemães começaram a cair do céu à sua frente. Atrás, um grupo deles acabara de chegar. O americano estava cercado. As criaturas em uniformes nazistas tinham orelhas pontudas e sobrancelhas grossas e compridas.

Sobogo deu dois passos para trás e entrou em uma mansão em ruínas, prestes a desabar. Olhou ao redor e não achou nenhuma porta ou janela por onde pudesse escapar. Os elfos nazistas invadiram o imóvel, apontando suas armas para ele. Sobogo se encostou na coluna mestra da casa, cercado. O nazista de sobretudo cinza e medalhas de honra se aproximou, sorrindo.

– Pronto para morrer, amerricana? – ele perguntou com sotaque alemão, puxando o cão da sua Walther PPK. – Eu tenho que resolver isso o quanto antes, pois devo voltar à base imediatamente. Eles servirão foie gras o elfo sorriu, ansioso pelo banquete. – E também, pedirei a herr Oscar para hospedar meus elfos no castelo – ele apontou ao norte. – Estamos cansados de ficar na floresta.

Sobogo cuspiu no chão com desprezo. Os dramas pessoais daquela criatura não o interessavam. Em seguida, o americano olhou ao redor, para cada um deles. Havia cerca de doze elfos.

– Vocês não deveriam estar tão confiantes assim – garantiu. – Veja bem, eu era um boxeador nos Estados Unidos…

– Você vai dar soquinhos em todos nós até a morte? – o líder zombou, abrindo os braços.

– Não – ele admitiu. – Mas essa não é a questão. Eu quero explicar porque vocês vão perder essa – ao ver a curiosidade no olhar do elfo, Sobogo continuou. – Eu era um boxeador invicto até enfrentar meu oponente mais fraco. Ele me venceu porque o subestimei. Eu deixei seu rosto deformado no ringue, e quando fui olhar para uma câmera, para comemorar a vitória, ele me golpeou direto no maxilar. Meu cérebro apagou na hora. A partir desse dia, aprendi uma lição muito importante. Todo homem deve medir seu adversário. Vocês não fizeram isso, e por isso irão morrer.

– Sua história é chata e não me comove – o elfo disse, decepcionado. – O que te leva a pensar que não vai morrer hoje?

– Não foi o que eu disse – Sobogo respondeu, se afastando da coluna. – Eu vou morrer, mas não por suas mãos. Mas todos vocês morrerão pelas minhas – ele girou sobre o tornozelo.

Ao entender o que estava prestes a acontecer, o oficial gritou desesperado para que seus homens atirassem. Mas era tarde demais. O Capitão Sobogo deu o cruzado de direita mais forte de sua vida, quebrando a coluna mestra da ruína. O telhado veio abaixo, e em seguida, as paredes.

Dos sobreviventes, surpreendentemente. Sobogo foi o primeiro a sair dos escombros. Ele estava coberto de poeira e sangue. Um elfo se levantou só para ser alvejado pelo americano. Outro também. Por último, o oficial nazista conseguira se arrastar para fora. Sobogo colocou o pé em seu peito e mirou em sua cabeça. Antes que o elfo pudesse barganhar por sua vida, ele apertou o gatilho. Um buraco brotou acima de sua sobrancelha peluda, e um sangue grosso escorreu até uma das orelhas pontudas.

Sobogo saiu das ruínas, incrédulo.

Não achava que fosse sobreviver àquilo. Aos poucos, várias pessoas surgiram de suas casas, curiosas. Ao o verem caminhando sozinho, e os elfos mortos nos escombros, eles se aproximaram. Sobogo não falava francês, mas qualquer um sabe o que merci beaucoup significa. Elas estavam agradecidas.

O soldado mancava, desnorteado. Ele não fazia ideia de onde poderia encontrar os seus aliados, ou de como fugir dali. Enquanto tentava organizar as ideias, as pessoas começaram a se alvoroçar, assustadas. Elas apontavam para o norte, e quando Sobogo se virou, viu uma coluna de poeira se erguer ao longe. Veículos saíam do castelo dos alemães. Um comboio vinha até o vilarejo.

– Mas que grande merda – Sobogo declarou, sabendo que era seu fim.

Ele podia fugir ou se esconder, mas no terceiro francês torturado, os alemães descobririam o rumo que ele teria tomado. Não importava o quão agradecido aquelas pessoas estavam, ninguém gostava de ser torturado.

Sobogo suspirou, olhando ao redor. Ele viu o medo no rosto daquelas mulheres e crianças. Se perguntou onde estariam os homens do vilarejo. Muitas daquelas pessoas tinham as bochechas molhadas de lágrimas, e Drake Sobogo percebeu que precisava delas, assim como elas precisavam dele.

Alguns jipes chegaram no vilarejo. O oficial responsável era um homem de olhos com cores diferentes e uma cicatriz que rodeava todo o pescoço. Ele fora avisado sobre um tiroteio que acontecera ali, e decidiu levar a maioria de seus homens até o local. Provavelmente a situação havia sido controlada, já que a guarnição do vilarejo era feita de elfos, e essas criaturas eram duras na queda.

– A cidade está vazia, senhor – um soldado declarou o óbvio.

O alemão mandou que continuassem, intrigado. Se perguntou se os franceses haviam se revoltado e atacado os elfos, e depois fugido. Mas algo ainda mais estranho aconteceu. Do outro lado da cidade, diante de uma fundição velha, cheia de janelas, havia um homem que o oficial odiava por dois motivos, porque ele era americano, e porque era negro. Sobogo caminhava cambaleando, obviamente ferido. Ele segurava um fuzil, não muito ameaçador.

– Onde estão os elfos? – o oficial se perguntou, preocupado. – Onde está o pelotão desse negro? Pra onde foram os franceses?

Os outros soldados gritavam para o americano abaixar a arma, mas Sobogo apenas se recostava no muro baixo da fundição. Ficar em pé doía. Os alemães desceram dos carros e se aproximaram do inimigo solitário. Apenas o oficial olhava ao redor, desconfiado. Seu nariz experiente sentia o cheiro de emboscada.

– Vamos sair logo daqui – ele disse, dando as costas para Sobogo. – Matem o negro e voltem para os carros, rápido!

– Ei, você poderia me fazer um favor? – Sobogo gritou para ele. – Diga a Hitler que ele será o próximo!

Quando o alemão se virou, sem entender aquelas palavras, o topo de sua cabeça se abriu, cuspindo miolos para todo lado.

Várias janelas da fundição explodiram enquanto os sobreviventes do vilarejo atiravam com as armas dos elfos. Os soldados alemães começaram a atirar de volta, mas havia gente em todos os andares, e eles não sabiam exatamente em quem atirar. As refugiadas desarmadas faziam gestos com as mãos para confundi-los.

– Mandem esses chucrutes de volta para o inferno! – Sobogo saltou sobre a mureta e se escondeu no pátio da fundição. Ele ficou de cócoras e começou a atirar também.

Os alemães morreram sem conseguir matar uma pessoa sequer. Os sobreviventes do vilarejo pegaram suas armas e marcharam até o castelo ao norte, e depois, rumo a Berlim. Mais tarde, Sobogo ficara sabendo que aquelas pessoas, em sua maioria, mulheres, velhos e crianças, conseguiram chegar em Frankfurt, matando todos os alemães que ficaram em seu caminho, até que foram finalmente derrotados.

Drake Sobogo foi resgatado pelos seus compatriotas e levado até uma base próxima a Calais, onde o conduziram para um quarto secreto. Lá, seu general reunira soldados que também haviam enfrentado criaturas místicas, e criou o pelotão de missões sobrenaturais, os Balas de Prata, sob o comando do Capitão Drake Sobogo.

O pelotão não durou nem um ano, e Sobogo viu todos os seus companheiros morrerem das piores formas, e pelas criaturas mais diabólicas que brotaram do meio da guerra.

Ele fora enviado de volta para casa, onde teve que ir para o boxe clandestino, já que se tornara um homem violento demais para os torneios tradicionais. Foi nesse submundo de apostas e pessoas má intencionadas que ele conheceu certo sujeito misterioso.

– Fiquei sabendo que você era o capitão dos Balas de Prata – disse o homem, surgindo de um beco escuro, entre colunas de vapor que vinham dos esgotos de Nova York.

– Isso é confidencial – Sobogo respondeu, mostrando o crucifixo com uma mão e fechando a outra. Ele ficara conhecido no submundo como Capitão Sangrento, pois seu soco era tão violento que bastava um golpe para nocautear o adversário e deixar seu rosto completamente coberto de sangue.

– Vamos trocar telefones – o homem pediu, estendendo um cartão pra ele. – Tenho certeza que poderemos ser de grande ajuda um para o outro.

Sobogo pegou o cartão e leu “Detetive Particular de Assuntos Obscuros – Sunday Crow.” Ele olhou para o detetive, surpreso, e guardou o cartão.

Os dois mantiveram contato pelos próximos dias, até que o detetive lhe chamou para o primeiro trabalho. Os dois se encontraram em uma lanchonete à meia noite, e Sunday parecia bem preocupado.

– Preciso que você me ajude a esconder um informante. Os vampiros de Nova York estão atrás dele – Sunday olhou para trás, em direção a um viaduto escuro. Escondido nas sombras, havia um homem. – Antes que pergunte por que eu chamei logo você… é melhor te mostrar pessoalmente. Venha comigo.

Atravessaram o asfalto escorregadio e chegaram até o túnel onde o informante aguardava. A primeira coisa que Sobogo fez foi mostrar o crucifixo, como habitualmente fazia diante de desconhecidos. Isso raramente tinha algum efeito, mas dessa vez foi certeiro. O informante saltou três metros de altura e se prendeu nos tijolos do túnel, de cabeça pra baixo. O capitão arregalou os olhos, surpreso. O informante mostrou seus caninos vampirescos.

– Ele é um deles! – Sobogo gritou, segurando Sunday pela gola e pressionando-o contra a parede. – Você está me pedindo pra proteger um vampiro!

Ele o soltou quando faróis adentraram o túnel. O militar olhou para o vampiro no teto e decidiu agir. Quando o carro se aproximou, ele pulou em seu capô e se impulsionou em direção ao teto. O soco acertou o peito da criatura, jogando-a do outro lado. O motorista do carro acelerou, assustado com toda aquela atividade nas sombras.

– Capitão, pare com isso! – Sunday pediu. – Eu preciso dele vivo!

Sobogo o ignorou e correu em direção ao homem no chão. O vampiro saltou, rodopiando sobre a cabeça do capitão e caindo em suas costas. O boxeador girou, jogando o cotovelo para trás, mas o vampiro se inclinou, desviando do golpe.

Em seguida, deu um chute que lhe acertou os dois tornozelos, e quando Drake Sobogo ficou na horizontal, em pleno ar, o vampiro acertou suas costas com uma força sobrenatural. O militar foi arremessado para fora do túnel, rolando no chão.

– Já chega – o vampiro pediu, mostrando a palma da mão. – Não quero te machucar.

Sobogo cuspiu o sangue no chão e se levantou. Fechou os punhos e voltou para o túnel, em posição de boxeador. O vampiro olhou para Sunday, angustiado.

– Eu não quero machucá-lo, detetive. É melhor você segurá-lo.

Com um passo largo, Sobogo desferiu um de seus melhores golpes. Sua mão acertou em cheio o rosto da criatura. Em seguida, o militar recuou, assombrado. O informante permanecia na mesma posição, olhando para ele com grande desconforto. Isso era diferente de dor. Seu soco não fizera nada.

– Criatura maldita – Sobogo sussurrou.

– Ele é diferente – Sunday garantiu. – Preciso que me ajude a protege-lo.

– Diferente uma ova! – Sobogo esbravejou e lhe deu as costas, sabendo que seria inútil continuar aquela briga. – Eu não farei parte disso. Quando quiser matá-lo, aí sim você me chama.

 

Alguns meses se passaram, e Sobogo estava em seu apartamento, esmurrando um saco de areia. As brigas clandestinas só aumentavam, e ele não perdia uma. E durante seu treino, o telefone de ferro tocou. Ainda encharcado de suor, ele atendeu. Era Sunday. O detetive pediu para se encontrarem novamente. Precisavam falar sobre aquele vampiro.

O boxeador foi até o apartamento do outro, e ao chegar lá, encontrou um jovem vestindo uma boina e um colete. O garoto tinha apenas dois dedos na mão direita, enfaixada.

– Capitão Drake, esse aqui é Icabode St. John, um amigo.

Drake Sobogo olhou para o garoto, e por algum motivo sentiu um arrepio. Mal ele sabia que o próprio Diabo estava ali perto, observando aquele encontro.

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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 02

Nos capítulos anteriores: Icabode perseguia o vampiro Anatole até encontrá-lo fora da cidade. O vampiro tentou fugir voando, mas Icabode se agarrou nele, e ambos sobrevoaram Nova York em uma luta sanguinária. Eles caíram em um carro durante uma perseguição policial. Depois de o vampiro se livrar das viaturas e matar o motorista, o carro em que estavam invadiu um galpão cheio de mafiosos poloneses. No fim, Icabode paralisou Anatole com uma estaca no coração e ateou fogo em seu corpo. 


Apesar dos dedos decepados, cortes profundos e costela quebrada, nada incomodava tanto a Icabode quanto aquele sofá que parecia ser feito de areia movediça coberto de veludo. Do outro lado da sala, um “julaco” (nome que Icabode dera àqueles judeus poloneses), o encarava, entediado.

O médico da máfia cuidara de seus ferimentos e lhe dera uns analgésicos. Depois de uns dias de descanso nos fundos de um açougue, Icabode fora trazido para o escritório do líder dos julacos, Solomon Saks, um velho de barba e cabelos brancos.

Em sua frente havia uma mesa de sinuca com vários pacotes de heroína em cima.

Icabode sabia disso porque ouviu os julacos falando sobre as drogas. Ele não queria se meter no assunto, por isso ficou em silêncio. Tudo o que queria era ouvir o que Saks tinha a dizer e ir embora.

Quando o velho chegou, ele convidou Icabode a se sentar à sua mesa. Solomon Saks tinha uma postura incrivelmente ereta, e seus passos eram firmes e rápidos. Ele não parecia ser o homem de setenta anos que sua barba divulgava. Com um sorriso educado, pediu que Icabode explicasse o que tinha acontecido e por que seus homens diziam que um vampiro tinha matado Mickey, um de seus funcionários mais leais.

Ao lado de Saks, um julaco de mais de dois metros de altura observava a conversa em silêncio. Eles o chamavam de Troche, que significa “mordeu” em polonês. Antes do final daquele diálogo, Icabode entenderia o motivo.

– Semana passada – Icabode começou a explicar -, meu pai foi visitado por um velho amigo, Sunday. Ele disse que estava nos visitando apenas para ver como iam as coisas… mas ninguém sai de Manhattan e vai para Montauk só por isso. Os dois ficaram horas no escritório do meu pai, falando em privado. Depois que Sunday foi embora, eu entrei escondido no escritório e encontrei isso em cima da mesa.

Icabode tirou a página rasgada de uma bíblia do bolso e a estendeu para Saks.

O trecho marcado dizia “E qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam entre eles, que se alimentar de sangue, contra aquela alma porei a minha face, e a extirparei do seu povo.” No rodapé da página tinha um nome circulado várias vezes com caneta: “Anatole”. Icabode continuou a história.

– No outro dia, eu estava chegando do mercado à noite, quando vi uma lamparina acesa no quintal de casa. Meus pais estavam pendurados de cabeça para baixo, amarrados a um carvalho velho. Seus pescoços estavam abertos, e o sangue caía direto em uma tina de vinho. O vampiro estava atrás deles, bebericando de uma caneca de madeira. Quando ele me viu, deu um sorriso e se escondeu nas sombras.

Troche abriu um sorriso, achando a história interessante. Seus dentes eram feitos de aço, pontiagudos. Aquilo era intimidador, e Icabode evitou qualquer contato visual com o julaco.

– Naquela madrugada, enterrei meus pais. Depois, eu peguei uma das cartas que eles trocaram com Sunday e encontrei seu endereço. Entrei no primeiro ônibus para Manhattan e contei o ocorrido a ele. Sunday chorou, assumindo toda a culpa daquilo. Ele explicou que certamente Anatole o seguira até Montauk em sua última visita. Disse que o vampiro era um forasteiro, e que havia lhe procurado antes, querendo saber o paradeiro do reverendo Peter St. John, meu pai, mas Sunday mentiu, alegando que não o conhecia.

– Como esse vampiro encontrou o amigo de seu pai? – Solomon Saks perguntou.

– Sunday é um detetive muito conhecido no submundo do ocultismo. Provavelmente alguém indicara seu nome a Anatole sem saber que ele e meu pai eram próximos.

– E por que seu pai deveria ser conhecido pelo submundo ocultista? – Solomon perguntou, intrigado.

– Eu também estou atrás dessa resposta – Icabode confessou, olhando para a mesa. Ele ergueu os olhos e voltou à história. – Mas quando Sunday veio nos alertar sobre Anatole em Montauk, certamente o vampiro o seguiu e descobriu nosso esconderijo… Que estranho. Eu nem sabia que estávamos nos escondendo de algo.

– E como você encontrou o vampiro?

– Sunday sabia como encontra-lo. Ele me passou o endereço e eu o alcancei ao norte, fora da cidade. O maldito viera só matar meus pais e já estava voltando para o local de onde viera. Mas eu o ajudei e o mandei direto para o inferno. Durante nossa luta, a gente acabou caindo no carro de Mickey. O resto da história os seus homens já te contaram.

– Meus homens disseram que o vampiro tinha o rosto derretido e o corpo coberto de balas, e mesmo assim ele se levantou e saiu caminhando antes de você finalmente matá-lo.

– Sim. Matar criaturas imortais não é tão fácil quanto parece.

– Mas você o fez – Solomon o lembrou. – E com nenhuma arma em mãos. Imagina com os recursos necessários, as coisas que seria capaz de fazer.

– Sim… – Icabode disse, cauteloso. – Mas eu não sou nenhum assassino. O que fiz, fiz carregado de ódio e tristeza. Algo que nunca tinha sentido antes. Meus pais sempre me ensinaram que o ódio é um pecado mortal, e pretendo nunca mais fazer algo movido por esse sentimento.

– E que tal movido por uma missão santa? Vampiros não são criaturas do mal? Não acha que nossa cidade ficaria mais protegida se acabássemos com elas? O seu pai era um reverendo. O meu era um rabino. Não acha que eles teriam orgulho de nós se fizéssemos algo a respeito? – ele ergueu a página da bíblia e leu: “contra aquela alma porei a minha face, e a extirparei do seu povo.” Isso parece algo bem bíblico pra mim.

Icabode pegou a página e voltou a ler o versículo. Aquilo lhe parecia melhor do que voltar para sua casa vazia em Montauk. Uma “missão santa”, como Saks dissera.

O jovem refletiu um pouco e depois assentiu, concordando. Solomon Saks sorriu, satisfeito.

 

Sunday era um homem de cabelo grisalho, solitário e saudosista. Ele bebia um copo de uísque quando alguém bateu em sua porta. Pela janela, viu Icabode todo enfaixado e ferido. O detetive ficou feliz ao ver que o garoto não tinha morrido. Ao seu lado havia um judeu de grande estatura. Sunday pegou uma pistola e abriu a porta, em alerta.

Em seguida, os três estavam sentados na sala de estar. Troche não disse uma palavra durante a visita. Icabode explicou a proposta de Saks, mas Sunday não se sentiu confortável com aquilo.

Como policial aposentado, ele sabia quem eram aqueles poloneses, e principalmente, sabia quem era Solomon Saks.

– Eu nunca cacei um vampiro na vida – Sunday deixou claro. – Olhe para você. Essa foi sua primeira briga, e veja como ficou. Quase morreu! Se fizermos isso, quem sabe o que vai acontecer? Nós nunca conseguiremos limpar as ruas da cidade dessas criaturas. Você não faz ideia de quantas existem por aí.

– Por isso eu preciso que me diga onde estão. No outro dia,  você comentou que conhecia outros vampiros em Nova York.

– Você não vai querer mexer nesse vespeiro, garoto – Sunday o alertou. – Parabéns, conseguiu matar um deles, mas lembre-se, Anatole era forasteiro. Se você começar uma guerra com um membro da sociedade vampírica daqui, todos eles irão revidar. Acredite.

– Eu não estou sozinho – Icabode olhou de lado para Troche que observava em silêncio. – E pra falar a verdade, não me importaria em começar uma guerra santa.

– Guerra santa? – Sunday repetiu, abaixando a cabeça, decepcionado. – Você não sabe o que está dizendo.

Icabode se levantou, frustrado.

– Se você não vai nos ajudar, eu dou um jeito sozinho. Obrigado – ele se virou e começou a se afastar.

Sunday pensou em seus amigos, Peter e Sandra, e em como ele causara a morte dos dois. O órfão deles estava ali, indo para a morte certa, e tudo isso era sua culpa. Suspirando, ele colocou o copo de uísque na mesinha e disse:

– Espere. Eu sei onde UM deles está. Felizmente é um pobre coitado. Deixe os planos comigo. O papel de Saks será apenas prover as armas e os soldados, entendido?

– Oh – Troche falou pela primeira vez, mostrando os dentes de aço. – Nós entendemos perfeitamente.

Icabode e Sunday passaram o resto da tarde no escritório de Solomon Saks, discutindo sobre seu primeiro plano e explicando as fraquezas dos vampiros. A quantidade de julacos e armas que Saks iria dispor facilitariam bastante a missão. Daria até mesmo para colocá-la em prática naquela noite, e o próprio Saks fazia questão de ir junto.

– Isso é um pequeno exército – Sunday olhava para as anotações sobre a mesa.

– É uma “guerra” santa, camarada. Toda guerra precisa de exércitos – Saks declarou, orgulhoso.

Icabode sabia que o detetive não gostava nem um pouco daquela conversa. Oras, ele próprio não estava gostando daquilo, mas o garoto não conseguia discordar de Saks. Se existisse uma guerra a ser travada em nome da paz, era aquela maldita guerra que eles estavam planejando.

O escritório de Solomon Saks tinha um carpete verde, sofás de veludo, lustres de ouro e cortinas coloniais. A heroína fora substituída por armas em cima da mesa de sinuca, vários julecos adentravam a porta dupla sem parar.

As luzes de um grande painel elétrico do outro lado da rua atravessava a janela com cores mistas sobre o exército de homens barbudos com chapéus negros. Havia dezenas deles. Cada um pegou uma arma que estava em cima da mesa e se preparou para a guerra santa.

Lá fora, havia um Rolls Royce Wraith 1946. Troche abrira a porta para que Solomon, Icabode e Sunday entrassem. O exército de Saks foi espalhado em vários outros carros. E a marcha das valquírias seguiu pelas ruas escuras de Green Point, Brooklyn, em direção a algum lugar em Long Island.

Troche era o motorista, e Saks ia ao seu lado. No banco traseiro, Sunday sussurrava para Icabode, tentando falar mais baixo do que o som do rádio.

– Você sabe que fizemos aliança com um dos criminosos mais poderosos de Nova York, não sabe?

– Há males que vem para o bem, Sunday – ele deu dois tapinhas na coxa do policial.

– Isso é um pacto com o diabo, isso sim – Sunday sussurrou para si.

 

O quarteto ficou em silêncio o percurso inteiro. Eles saíram da cidade e continuaram em uma estrada de terra por um bom tempo, ladeados por densos matagais.

Depois de vários quilômetros sem ver construção alguma, os carros pararam diante um cercado. No centro do terreno havia uma mansão velha e caindo aos pedaços. As janelas foram fechadas com tábuas, e o jardim, tomado por ervas daninhas e joio.

– Diga para todos os carros virarem os faróis para a casa – Solomon Saks disse, saindo do Wraith 46. – Vamos capturar esse filho da mãe.

– Capturar? – Icabode franziu a testa, surpreso.

Os carros ainda estavam manobrando quando Icabode se pôs diante de Solomon. O velho de postura invejável e peito estufado, encarava o garoto, sério. Sua barba e cabelo esvoaçavam com o vento frio que se adensava ao seu redor. Sunday se colocou ao lado do jovem, desafiador.

Todas as luzes estavam apontando para a mansão, e o exército se reuniu diante do portão. Todos de preto, todos com armas, todos com uma missão diferente do que Icabode esperava.

– Obrigado pela ajuda, garoto. Todas as informações que vocês nos passaram sobre os vampiros foram bem úteis – Solomon disse, colocando a mão no ombro de Icabode. – Mas você está dispensado. Eu assumo daqui pra frente.

Quando Sunday fez menção de avançar, Troche lhe mostrou a arma, fazendo os dois saíram de frente. Saks e seu capanga os deixaram sozinhos. Icabode olhou para o detetive, envergonhado por ter causado aquela situação.

Os dois não fizeram nada além de assistir a operação de Saks.

O exército adentrou a mansão, arrebentando as portas da frente e das laterais com chutes e tiros. Lá dentro, mais explosões e clarões dos disparos. Balas costuravam as paredes, e um soldado fora arremessado pela janela. Em seguida, veio o silêncio. Um grupo de julacos saiu pela porta da frente, arrastando um corpo. O vampiro tinha uma estaca no coração, mas aparentemente ainda estava vivo. Eles o jogaram em um dos carros, e o comboio foi embora dali. O Rolls Royce se aproximou dos dois observadores quando Saks colocou a cabeça pra fora.

– Vocês fizeram parte do que está por vir – disse ele, satisfeito. – Depois desta noite, nenhuma outra família será tão grande quanto a nossa. Todos ouvirão falar de Solomon Saks, o Imortal!

O carro se afastou, deixando os dois para trás, sozinhos no meio do nada. Icabode e Sunday se entreolharam.

– “O Imortal”? – Icabode perguntou, confuso.

– Ele pretende se tornar um vampiro – Sunday explicou. – Garoto, essa guerra não será tão santa assim.

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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 01

Anatole estava no bar, pensando em sua próxima refeição quando viu um jovem entrar. Ele sabia que o nome do garoto era Icabode St. John, filho do reverendo Peter e da costureira Sandra. Seus olhares se cruzaram, mas Icabode passou reto, rumo ao balcão. Anatole sabia que ele estava ali por sua causa. E era questão de tempo até eles estarem sentados juntos.

Icabode pediu um copo de água para o balconista e foi até a Jukebox, colocar I’ll Never Smile Again. E então o melodramático Frank Sinatra substituiu as baladinhas que os bêbados estavam ouvindo até então.

Era década de quarenta, e aquele jovem Sinatra prometia.

Ele se virou e caminhou a passos lentos, balbuciando algo e segurando o copo de água. A luz roxa de um neon iluminou seu rosto, e Anatole pôde ver com mais clareza a face do miserável. Icabode puxou uma cadeira e sentou em frente ao africano. Antes que trocassem qualquer palavra, um garçom suado e com cheiro de peixe velho, perguntou o que iam pedir.

– Nada pra mim – Icabode disse. Sua boca estava torta num sorriso apodrecido.

– O mesmo que ele pediu – Anatole respondeu, sem tirar os olhos do jovem em sua frente.

– É noite de sexta – o garçom lembrou. – Daqui a pouco os marinheiros chegarão, e a maioria das mesas já estão ocupadas. Se não forem pedir nada, meu pai vai coloca-los para fora.

– Nesse caso, vou querer uma torta de nata e um café – Icabode respondeu.

– E como vai o café? Com açúcar? Preto?

– Preto como ele – Icabode olhou para o africano em sua frente -, e doce como eu – sorriso podre novamente.

O garçom se virou para Anatole e perguntou o que ele queria.

– Quero que você suma da minha frente – respondeu, girando o dedo na direção do homem.

O garçom se afastou, assustado. Icabode e Anatole voltaram a ficar sozinhos.

– Por que você pediu algo, já que não ficaremos muito tempo aqui?

– Como sabe disso?

– Você veio me matar, não foi?

– Era o que eu tinha em mente durante toda a viagem que fiz até aqui – Icabode confessou, girando o dedo no copo, cuja água não dera um gole sequer.

– Você me seguiu desde Long Island? – Anatole estava curioso.

– Manhattan. Primeiro tive que enterrar meus pais.

– Sinto muito por isso.

– Não, não sente. Você os matou – Icabode puxou um maço do bolso e acendeu um cigarro. – Por isso vim atrás de você.

– O reverendo te ensinou a ser uma pessoa santa, garoto – Anatole o lembrou, achando aquilo divertido. – Você nunca seria capaz de ferir alguém. Pelo menos trouxe alguma faca aí? Pois eu não vejo nada na sua cintura.

– É verdade, meu pai tentou me ensinar o caminho do perdão – ele deu um trago forte o suficiente para fazer as bochechas afundarem e o fogo iluminar seus olhos vermelhos. – Mas agora que ele está morto, eu nunca saberei a lição de moral que vem no final.

– Eu não estava esperando por essa, garoto, de verdade – Anatole se inclinou pra frente, fascinado com o jovem que estava prestes a matá-lo. – Você faz jus ao seu próprio nome. Você sabe o que ele significa, não sabe?

– Icabode significa… – ele parou para jogar as cinzas no cinzeiro, e fez questão de encarar o homem nos olhos – “foi-se a glória de Deus”.

O bar onde eles estavam, ficava numa estrada situada à beira do mar. Ali, o som da música competia com as gaivotas, as ondas e com o barulho que os marinheiros faziam enquanto desembarcavam.

– E como você pretende fazer isso? – Anatole perguntou se recostando na cadeira. – Eu não imaginava que você estava me seguindo. Pensei que teria uma noite tranquila… mas, bem – ele abriu os braços, resignado. – Aqui estamos. Você vai querer comer primeiro ou nós vamos lá pra fora e que vença o melhor?

– Lá pra fora? – Icabode perguntou, intrigado. – Você acha que vai sair vivo daqui?

Anatole congelou. Pela primeira vez seu sorriso foi tremido. O bar estava cheio, e a maioria daquelas pessoas portava algum tipo de arma consigo. Se Icabode fizesse algo, ele mesmo estaria morto em poucos segundos. Os olhos do africano desceram mais uma vez em direção à cintura do garoto, esperando ver algum revólver, faca ou estaca. Mas Icabode apenas fechou os dedos ao redor do copo de água que permanecia cheio.

– Depois que eu pedi esse copo – ele olhava para o objeto em suas mãos. – Eu enrolei para chegar aqui por um motivo – seus olhos subiram, e eles quase pegavam fogo. – Eu fui na jukebox, andei devagar…

– O que você fez, garoto? – os olhos de Anatole tremiam. – Deixe de suspense. Diga logo por que não bebeu essa água.

– Porque eu a trouxe pra você! – Icabode jogou no rosto do sujeito a água que benzera no caminho do balcão até ali

Anatole derrubou a cadeira para trás, aos gritos. Ele cobria o rosto com as próprias mãos enquanto uma fumaça negra subia por entre seus dedos. Todos os clientes se viraram assustados, encarando o homem que agonizava no meio do bar. O próprio Icabode ficou surpreso com o que acontecera. O que veio em seguida, foi a coisa mais assombrosa que qualquer uma daquelas pessoas iria ver em toda a sua vida.

– Jesus, Maria e José! – um velho gritou, apontando para as pernas de Anatole. O africano estava flutuando dois palmos acima do chão.

Todos se afastaram, apavorados, menos Icabode. Apesar da bruxaria, o garoto não se permitiu ser intimidado. Ficou em alerta, esperando que aquilo fosse o suficiente para acabar com seu inimigo. Infelizmente, não era. Anatole abaixou as mãos trêmulas, e revelou o rosto comido pela água benta. Agora havia uma caveira com olhos sem pálpebras encarando a Icabode.

–  O QUE VOCÊ FEZ, GAROTO?

Icabode ergueu um crucifixo, tendo medo pela primeira vez. Ele não esperava que as coisas tomassem aquele rumo. Em sua cabeça, o plano parecia ser mais fácil, mas naquela hora, não fazia ideia de como alcançar o desfecho que queria.

O vampiro girou lentamente no ar, olhando ao redor. Todas aquelas pessoas se encolhiam, apavoradas. Ele viu uma janela, lançou um último olhar a Icabode e voou em direção à saída.

– Não fuja, demônio! – Icabode gritou, subindo na cadeira e correndo sobre as mesas. – Não ouse fugir!

O garoto se lançou sobre Anatole um momento antes de os dois atravessarem a janela para fora. Os dedos de Icabode agarravam firmemente o terno surrado do demônio. As pernas abraçaram a cintura do outro. Agora eles estavam cara a cara, no meio da noite. O voo do vampiro ganhava velocidade entre as árvores, e os dois cortavam a bruma, desgovernados.

Anatole tentava mordê-lo enquanto ganhavam altitude.

Mais ao sul, as luzes ofuscantes de Nova York ganhavam espaço, e o vento gelado começava a atrapalhar a respiração de Icabode. Suas mãos e músculos já doíam, e ele sentia que estava prestes a ceder. Eles voavam muito rápido, e estavam a centenas de metros acima do chão.

Icabode estava ficando tonto, e nesse momento, em sua mente veio a imagem do reverendo Peter mordendo uma maçã à beira do lago. O suco da fruta escorria por seu queixo. Sua mãe afastava as folhas outonais para colocar a manta do piquenique. O sol era colorido e os perfumes das flores os deixavam prazenteiros. Em seguida, viu os túmulos de seus pais.

– VOCÊ… – ele disse com muito esforço. – VAI… MO-MORRER!

Soltou o terno do vampiro e ficou pendurado apenas pelas pernas. Ele pegou o crucifixo com uma mão e agarrou a nuca de Anatole com a outra. A criatura tentava mordê-lo enquanto os dois giravam no meio do negrume do céu. Icabode esperou o momento certo. Ele enfiou o crucifixo dentro da boca da criatura no momento em que a mordida se fechava.

Os dois corpos começaram a girar ininterruptamente em uma queda livre.

O vampiro soltava uma coluna de fumaça de sua boca, e Icabode segurava a sua própria mão, olhando para o lugar onde estavam seus dedos.

 

Na avenida Madison, um dos chacais do mundo dos negócios deixava o restaurante de elite juntamente com os seus novos clientes. Aquele pequeno grupo tinha dinheiro suficiente para comprar um país. Eles sorriam e comemoravam a nova parceria, e também a vitória sobre a Alemanha nazista.

O momento foi interrompido quando algo passou por cima de suas cabeças em alta velocidade, batendo nas bandeiras penduradas do prédio. O chacal milionário sentiu algo quente acertar sua testa e começar a escorrer pelo rosto. Enquanto seus parceiros olhavam para cima com espanto, ele tocou o líquido em sua cabeça e viu as pontas de seus dedos sujas de sangue.

 

Os dois sobrevoavam as ruas de Manhattan, prestes a baterem em algo que causaria suas mortes. Mas a queda final de Anatole os jogou no assento traseiro de um conversível em alta velocidade. Sirenes policiais os perseguiam freneticamente.

O motorista do conversível olhou para trás assustado, e puxou sua pistola. Icabode usou o corpo do vampiro como um escudo no último instante, e balas rechearam seus órgãos. Gritando, Anatole se desvencilhou de Icabode e se jogou contra o pescoço do motorista, arrancando um grande pedaço de carne. Em suas costas, três viaturas policiais tentavam pará-los.

– Nós fomos parar logo no meio de uma perseguição – Icabode sussurrou, ainda deitado no banco traseiro do carro.

Anatole ficou em pé, com a caveira toda banhada de vermelho. A polícia aproveitou a exposição e começou a disparar. Icabode se encolheu mais ainda. Quando levou os primeiros tiros, o vampiro se virou para trás e encarou os policiais. Ele perdera qualquer resquício de sua civilidade. O vampiro se tornara completamente bestial. E então ele atacou.

Anatole se jogou do conversível em direção aos policiais. O motorista do meio tentou desviar do corpo que vinha em sua direção e jogou o carro para o lado, se chocando com a outra viatura. Os dois veículos rodaram na pista, para fora do jogo.

Icabode ergueu a cabeça e viu apenas um dos carros vindo em sua cola. Ele olhou para o motorista do conversível e viu que ele segurava o pescoço dilacerado, lutando para não desmaiar. O próprio Icabode sangrava bastante. Perdera três dedos da mão, mas o calor do momento não o deixava sentir dor… ainda.

Tiros o fez olhar novamente para a viatura. Anatole estava no capô do carro, pegando o motorista e o jogando pela janela. A perseguição policial acabara ali, mas isso era o de menos.

Icabode causara muita dor ao vampiro, e agora ele teria que pagar por isso. Anatole saltou da última viatura que ficara desgovernada e caiu na traseira do conversível.

– Quem são vocês? – o motorista gritou, pálido e sujo de sangue.

Icabode rolou para o chão do carro quando Anatole saltou sobre ele. Agora estava encurralado de todos os lados. As garras do vampiro cresceram, e sua caveira vermelha descia lentamente em sua direção. Os caninos vampirescos estavam imensos. Lá no céu, um bimotor arrastava uma faixa da Goodyear.

Icabode estava com a mão ferida, e não poderia se defender do ataque, mas numa última tentativa, empurrou a barriga do vampiro com os pés. As garras de Anatole passavam rente ao seu rosto, abrindo pequenas linhas de sangue em sua pele. Por alguns segundos os dois lutaram ferrenhamente no chão do carro, até que o vampiro segurou as duas mãos do jovem cansado.

Ergueu a cabeça para a mordida final.

O carro atravessou um galpão subitamente. A porta caiu sobre o vampiro, e tudo ficou escuro. Os pneus passaram por cima de vários objetos, fazendo todos saltarem de seus lugares. E uma batida final fez o conversível parar. Icabode não via nada, mas sabia que tinham invadido algum lugar. Pedaços da porta de madeira caíram pra todo lado. Ele sentiu algo em sua mão esquerda. A caveira vermelha voltou, mostrando as presas novamente. Eles fizeram seu último ataque, onde um deles causaria a morte do outro.

Vozes surgiram de todos os lados, e passos apressados cercaram o carro. Apenas Anatole se levantou dali. Todos os homens recuaram com gritos de susto. O motorista estava morto sobre o volante, e um demônio da noite saía lentamente do conversível.

– O que é aquilo? – alguém perguntou.

Quando Anatole olhou para baixo, viu uma lasca de madeira se projetar de seu peito. O vampiro ficou completamente paralisado. Em seguida, Icabode se levantou, todo ferido. Ele acendeu seu cigarro e depois ateou fogo no terno do vampiro.

O jovem se afastou e se encostou no conversível, enquanto Anatole se tornava uma coluna de fogo.

– O que está acontecendo, e quem matou o Mickey? – um dos homens apontou para o motorista morto.

Icabode analisou o galpão onde estava e percebeu que era algum esconderijo ilegal. Os homens ao redor vestiam roupas e chapéus pretos, barbas grandes e costeletas bizarras. Um deles carregava uma metralhadora Thompson com o disco de munição encaixado próximo ao gatilho.

– Não vê que eu acabei de matar um vampiro? – Icabode perguntou, cansado. – Foi ele quem matou seu amigo – ele apontou o dedo para os mafiosos. – Vocês são judeus?

– Judeus poloneses – um deles respondeu. – Você disse… vampiro? – ele se aproximou um pouco, e o fogo de Anatole bruxuleava em seu rosto. Ele parecia muito interessado.

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