Mork Borg e as regras não escritas – Resenha

Qual a primeira coisa que vemos a abrir um livro de RPG? Uma nota introdutória, que costumamos pular. Depois, criação de personagem – quem você será neste mundo – e então as regras para usar esses personagens. Ou vice-versa. Posso ter pulado outra coisa, além da nota introdutória: talvez, na contracapa, hajam imagens bonitas de grandes paisagens fantásticas ou heróis em ação.

Mork Borg

Abro Mork Borg, da Free League Publishing, editado no Brasil pela Hugginn e Muggnin. Nas primeiras páginas encontro um fundo amarelo marca-texto, mesma cor da capa.

Quatro tabelas diferentes disputam espaço, apertadas: “Tesouros Ocultos – d10”, “Armadilhas e Diabruras – d12”, “Clima – d12”, e uma tabela de nomes chamada “Homem? Mulher? Todos almas perdidas” (isso que é inclusão).

Passando olho pela tabela de tesouros, parece que estou vendo uma tabela de armadilhas. Tudo é perigoso, tudo é uma surpresa sacana. Na página seguinte, uma só grande tabela, com fundo da mesma cor. “Espólio de cadáveres – d66 (dois dados de 6 lados)” – pela primeira vez, o livro dá algo parecido com uma instrução. Das coisas que se pode encontrar num inimigo abatido, quase tudo é inútil. Tudo é tétrico. Tudo é cômico. Parece uma sátira de algo que não chegou a ser feito, de uma versão violenta e grotesca de D&D que foi apenas conjecturada antes de inspirar essa caricatura.

Como uma capa da banda Cannibal Corpse. Quem sabe, um outro leitor intua daí outra coisa – a promessa de aventuras perigosas, letais, com cada passo dos protagonistas sendo regido pela aleatoriedade, pela ausência de ordem, de justiça e de tédio.

Silêncio, escuro e colagens

O livro seguirá, enfim, para seu título e 15 páginas de ambientação exposta com poucas palavras em parágrafos sem padrão, salpicados entre imagens sem cor, ou de cores neon, muitas delas colagens – um aspecto inconfundível de fanzine impressa a mimeógrafo, com algo de um tomo macabro descoberto por acaso (quem sabe entre os espólios de um cadáver).

Depois, equipamentos, pouquíssimas regras básicas, mais tabelas, desta vez de caracterização –  concedendo aleatoriamente traumas psicológicos e defeitos físicos – e, finalmente, classes, proposta como regra opcional, com todos seus aspectos rolados nos dados.

Minimalismo

Mork Borg não explica o que é RPG, não explica o que é um Mestre nem como os autores pretendem que seja jogado. É explícito, mesmo sem maiores explicações, que o minimalismo mecânico de Mork Borg propõe sessões de início fácil e resoluções descomplicadas.

Mas é através do laconismo e da estética visual que o jogo comunica sua proposta: um mundo exageradamente pessimista, personagens simples e descartáveis, letalidade extrema, um tom comicamente grotesco. Assim, incita aos jogadores uma certa atitude perante a mesa e ao ato de jogar um RPG com os amigos.

Os personagens são transitórios, a catástrofe é caricata demais para ser dramática. O que é um jogo narrativo, quando as mecânicas de jogo são simplórias e a narrativa é tênue? Só pode restar o evento social do jogo, a mesa em si, formada pelas pessoas que jogam.

Mork Borg vira de ponta-cabeça a expectativa de que personagens são avatares psicológicos dos jogadores dentro de uma ficção criada em conjunto; em vez disso, induz os jogadores a verem seus personagens como peças narrativas que eles movem parcamente.

Como numa partida de xadrez, o foco está menos no que acontece “em cena” e mais nos próprios jogadores enquanto tomadores de decisões – ou testemunhas dos finais horrendos das pecinhas com nomes que controlaram por pouco tempo. Mas quando é que não foi assim?

Idas e vindas

As primeiras edições de Dungeons & Dragons são conhecidas hoje pela letalidade e até “injustiça” de alguns desafios, especialmente nos primeiros níveis.

Por suas mecânicas, o jogo prometia acúmulo de tesouros e de poder dos personagens – através do avanço de níveis – mas personagens iniciantes podiam morrer com um único ataque de um monstro.

A ambientação nas famosas masmorras induzia a um jogo onde perigos imprevistos sem relação entre si espreitavam atrás de cada porta. A ficção era minimalista, com pouca preocupação com a coerência ou organicidade do mundo onde ambientes assim poderiam existir.

Old School Renaissance

Apesar disso, a interpretação de personagens e as narrativas emergentes sempre foram o diferencial dos RPGs de mesa. Mork Borg pode ser ser visto como neto da OSR – Old School Renaissance, a “renascença old-school” que refletiu sobre a forma de jogar D&D e tentou voltar à letalidade, simplicidade, às referências pulp e à fantasia sombria das primeiras edições do velho joguinho.

Não só D&D, mas também seus concorrentes se afastaram dos primórdios do RPG e passaram a privilegiar a interpretação de personagens complexos e as narrativas longas em suas mecânicas. Mas, enquanto as transformações do RPG estão bem registradas nos livros, não temos muito registro de como foi mudando a forma com que se joga RPG.

Por exemplo, sabemos que mesas de D&D sempre foram prolíficas em regras caseiras, muitas vezes para facilitar a sobrevivência dos personagens e diminuir sua rotatividade, facilitando os dramas de longa duração que dependem da continuidade dos personagens.

Vampiro: A Máscara, jogo que inicia algumas edições com manifestos por jogos mais psicológicos e narrativos, tem a fama de originar muitas mesas focadas em combate. Não sabemos, no entanto, de todas as formas locais que um certo sistema tomou nas épocas em que foi mais jogado.

Cada mesa, mesmo hoje em dia, é seu próprio território, com seus próprios hábitos e jurisprudência.

A cultura oral RPGista, ou como mudar regras não escritas

A intenção do game designer de orientar a experiência da mesa nem sempre se realiza como imaginou. O velho adágio explica por quê: “faltou combinar com os russos”. Os russos, no caso, são os jogadores (incluindo o mestre), que mesmo seguindo fielmente as regras de um livro básico precisam estabelecer por conta própria todas as regras não escritas de um RPG:

Quando posso falar? Quando eu não narro a ação do meu personagem, o que ele está fazendo? O que meu personagem sabe sobre o mundo? Quando devo agir conforme meu personagem, e quando devo pensar na diversão de todos? O que, afinal, o mestre decide? Ele pode mudar ou improvisar regras, e até que ponto?

Muitos livros de RPG buscam responder essa perguntas (ou propor novas perguntas!) em seus textos. Isso faz parte da história das mudanças no hobby: cada vez mais, se percebe que propor uma forma de jogar faz tanta diferença quanto propor um novo conjunto de regras.

Porém, como eu mencionei no começo do texto, nós, jogadores e mestres, pulamos algumas partes do livro, ou não lembramos de tê-las lido… No fim das contas, nada informa mais como aplicar as regras não escritas do RPG que a cultura oral dos RPGistas.

O costume, as experiências passadas (boas e ruins), os debates e acordos entre amigos; aquilo que se aprendeu com o primeiro mestre; e, hoje, aquilo que se aprende assistindo a streams. Não é à toa que é tão difícil começar a mestrar RPG num grupo onde ninguém nunca jogou.

As regras até podem ser bem compreendidas, mas os meandros do que fazer a cada momento é um tanto misterioso.

Voltando a Mork Borg

Seu laconismo e sua imagética amadora e macabra. Se é inglório (e às vezes inútil) explicar textualmente como se acredita que se deve jogar um jogo, como influir na forma de jogar que vai além das mecânicas?

A resposta de Mork Borg é se comunicar através de uma vibe, de uma linguagem não verbal, pelo não dito. Mork Borg não diz “este jogo é tenebroso, mas também não é tão sério, e jogá-lo pode ser assustador e engraçado ao mesmo tempo”, mas repete esses valores conflitantes de forma plasticamente orgânica durante suas 95 páginas de pouco texto e muitas sensações.

É mais um testemunho do poder difuso da arte de alterar a cultura, quando os argumentos não dão conta. A plástica de Mork Borg transmite um estado de espírito, e portanto uma disposição de jogo que pode traduzir-se nas mesas.  


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MÖRK BORG: Um RPG de Fantasia Sombria e Desesperadora

MÖRK BORG é um RPG com uma estética única e uma proposta direta: levar o grupo a experimentar uma fantasia sombria, suja e cheia de desespero.

Criado por Pelle Nilsson (Ockult Örtmästare Games) com design gráfico de Johan Nohr (Stockholm Kartell), o jogo foi lançado originalmente em 2020 e logo chamou atenção pela ousadia visual e temática.

No Brasil, MÖRK BORG foi traduzido e lançado pela editora Huginn & Muninn, mantendo o estilo gráfico e a proposta original.

O Mundo Está Morrendo

Em MÖRK BORG, o cenário é mais uma moldura de horror do que um mundo concreto. Dessa forma, ele se apresenta como uma terra amaldiçoada, prestes a ser consumida por profecias apocalípticas.

Os céus estão manchados, os reis enlouqueceram, os deuses parecem zombar dos mortais, se é que ainda existem. Nada é confiável. O mundo está à beira do fim, e os personagens dos jogadores são, na melhor das hipóteses, sobrevivências teimosas, criminosos ou fanáticos tentando arrastar seus últimos dias.

O livro fornece locais esparsos como a Prisão de Kadurrem e o Mosteiro de Galgenbeck, descritos de forma enigmática e aberta, permitindo que cada mesa interprete e construa seu próprio mundo moribundo.

Esse estilo funciona bem para mestres que gostam de improvisar e jogadores que curtem surpresas estranhas e ameaçadoras.

Simples, Brutal e Letal

O sistema de MÖRK BORG é extremamente simples.

Em outras palavras, as regras cabem em poucas páginas e o foco está em manter o jogo fluido, mortal e imprevisível.

A criação de personagens é rápida, envolvendo poucas rolagens de dados. Em poucos minutos você pode ter um cultista maneta, um mendigo cego ou um carrasco em fuga.

  • Atributos: São apenas quatro: Agilidade, Presença, Força e Tenacidade. Eles variam de -3 a +3.
  • Testes: O mestre define a dificuldade de uma ação, e o jogador rola um d20 + modificador. Se alcançar o número alvo, tem sucesso.
  • Combate: Direto e mortal. O dano é rolado, a armadura reduz o dano, e poucos pontos de vida significam que morrer é comum. Fugir ou se esconder pode ser mais sábio do que lutar.

A aleatoriedade tem papel central: personagens podem nascer quase inúteis ou incrivelmente fortes. E isso é parte do charme do jogo, mas pode frustrar quem gosta de construir personagens com desenvolvimento planejado ou equilíbrio entre fichas.

Visual Único

É impossível falar de MÖRK BORG sem mencionar sua aparência.

O livro é um objeto gráfico tão estranho quanto impactante. As páginas são uma explosão de cores, fontes ilegíveis, colagens e manchas. Em alguns momentos, parece mais um zine punk underground do que um manual tradicional.

Isso pode ser confuso para quem busca uma leitura rápida ou uma consulta prática durante a sessão, mas também faz parte da proposta: o livro quer provocar e deixar claro que este não é um RPG tradicional.

Nesse sentido, a diagramação é parte da experiência. Não se trata apenas de enfeite. Ela comunica o tom caótico, agressivo e desesperado do jogo.

Não há conforto aqui. A leitura é um mergulho visual na mesma loucura que o jogo quer trazer à mesa.

Para aqueles que tem dificuldade com esse tipo de leitura, existe a opção “Bare Bones” que apresenta o texto sem as imagens e a diagramação diferenciada. Essa opção é gratuita em inglês no site da editora estrangeira.

A Morte Como Parte do Jogo

MÖRK BORG é implacável.

Os personagens podem morrer por decisões erradas, combates mal planejados ou até por azar nos dados.

Mas isso é parte do pacto que o jogo faz com o grupo: ele não promete vitória ou justiça. Promete apenas uma descida ladeira abaixo em direção ao fim do mundo.

Para muitos jogadores, isso é um convite para narrativas mais ágeis, onde não há apego a grandes jornadas heroicas, mas sim a pequenas histórias de sobrevivência, falhas, sacrifícios e decadência. A morte não é uma punição, é só o próximo passo.

Ferramentas para o Caos

O livro-base traz tabelas aleatórias para praticamente tudo: nomes, monstros, eventos, maldições, locais e até profecias.

Algumas sessões podem ser montadas inteiramente a partir dessas tabelas, o que é excelente para mestres que gostam de improvisar ou que precisam de uma aventura rápida.

As profecias apocalípticas são outro destaque. Já que o jogo propõe que, ao fim de cada sessão, o grupo role para ver se uma nova profecia se realiza — cada uma trazendo mais sinais de que o fim está próximo.

Quando todas forem reveladas, o mundo acaba. Literalmente. A campanha termina.

Estilo de Jogo

MÖRK BORG funciona melhor com grupos que gostam de improvisação, fatalismo e experimentação.

Ele não é indicado para campanhas longas e estruturadas, cheias de construção de mundo e desenvolvimento profundo. Ao contrário, é ideal para sessões únicas (one-shots) ou mini-campanhas com um número definido de sessões.

Seu estilo combina com o que muitos chamam de Old School Renaissance (OSR), um movimento que valoriza o risco, a simplicidade e o improviso acima da simulação detalhada.

A diferença é que, enquanto muitos jogos OSR mantêm uma estética clássica de fantasia medieval, MÖRK BORG mergulha no grotesco, na arte suja e na narrativa pessimista.

Material de Apoio

Desde seu lançamento, MÖRK BORG inspirou uma grande quantidade de conteúdo feito por fãs: aventuras, classes alternativas, novos monstros e até ferramentas online para geração de personagens e mapas.

O jogo tem uma licença aberta chamada Third Party License, incentivando a criação de materiais compatíveis. Como resultado, isso ajudou a formar uma comunidade ativa e criativa em torno do jogo, mesmo com sua proposta restrita.

Para Quem É?

MÖRK BORG não é para todo mundo. Ele não tenta agradar quem gosta de campanhas longas e heroicas, nem quem busca sistemas equilibrados.

Mas é uma excelente escolha para:

  • Jogadores que querem algo diferente, rápido e impactante;
  • Mestres que gostam de improvisar e usar tabelas aleatórias;
  • Grupos que preferem histórias curtas com finais trágicos;
  • Quem se interessa por estética punk, heavy metal e terror simbólico.

Ele pode ser especialmente divertido em sessões de RPG entre campanhas maiores, como uma pausa do estilo tradicional para algo mais experimental e catártico.

Considerações Finais

MÖRK BORG é mais do que um RPG: é uma provocação visual, narrativa e mecânica.

Ele não tenta ser justo, nem bonito.

Ele é brutal, sujo e terminal.

Não é um jogo equilibrado, e nem pretende ser.

Sua força está na coesão entre proposta e execução: tudo nele grita que o mundo vai acabar, e que não há nada que se possa fazer além de encarar esse fim com fúria, ironia e alguma poesia.

Para quem está disposto a jogar fora as convenções e abraçar o caos, MÖRK BORG é uma aventura que vale a pena conhecer.

Mas entre com os olhos abertos: esse mundo não tem salvação.


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Autor: Álvaro Bevevino.
Revisão: Raquel Naiane.

RŌNIN RPG – Resenha

RŌNIN é um RPG independente de fantasia sombria, publicado pela Slightly Reckless Games e trazido ao Brasil pela Tria Editora. O jogo é baseado no sistema MÖRK BORG, com adaptações temáticas e mecânicas voltadas à ambientação de um Japão fictício em colapso.

A proposta combina mecânicas simples com um cenário visualmente marcante e atmosfericamente carregado. A campanha de Financiamento Coletivo foi extremamente bem-sucedida e trouxe esse material incrível para o público brasileiro.

Análise Geral de RŌNIN

O livro possui diagramação inspirada em MÖRK BORG, com estética propositalmente caótica e forte contraste visual.

Textos desalinhados, fontes pesadas, cores fortes e ilustrações impactantes fazem parte do design gráfico. Isso reforça a imersão, tornando o livro uma verdadeira obra de arte. Entretanto, a estrutura pouco convencional pode ser uma dificuldade para jogadores não acostumados com o estilo.

Pensando nisso, uma versão mais simples, sem as imagens e a estética está em desenvolvimento, chamada “PURO OSSOS“, tornando a absorção do material muito mais simples. O livro é visualmente coerente com a proposta de cenário sombrio e decadente.

Sistema de jogo

RŌNIN adota a estrutura básica de MÖRK BORG: sistema d20, testes contra CD (geralmente 12) e fichas enxutas. Os atributos são Espírito, Vigor, Rapidez, Resiliência e Honra, este último representando posição moral e reputação, tendo impacto importante conforme os personagens se desenvolvem.

A criação de personagem pode ser feita por compra de pontos ou tabelas aleatórias, favorecendo rapidez e variedade. O combate é rápido, letal e com efeitos permanentes, como mutilações ou sangramentos críticos. A mortalidade elevada exige do grupo aceitação de personagens que podem ser descartáveis e foco narrativo menos centrado em progressão de um único herói, embora essa seja uma possibilidade.

Tabelas e aleatoriedade

O livro traz dezenas de tabelas aleatórias, aplicáveis a nomes, clima, armadilhas, lesões, encontros, itens, eventos e efeitos de santuários. Esse recurso facilita improvisações e permite campanhas inteiras serem construídas com mínimo planejamento.

Narradores podem preparar aventuras rapidamente usando apenas os geradores incluídos. Os efeitos variam entre resultados letais, benéficos, cômicos ou místicos, mantendo o tom caótico do jogo.

A aleatoriedade é central à experiência de jogo e pode gerar histórias únicas e fora do que seu grupo está acostumado.

Elementos mecânicos adicionais

O sistema inclui regras específicas para magias, cada uma com efeitos únicos e consequências para falhas.

  • As regras de Honra influenciam diretamente a forma como o mundo interage com os personagens.
  • A mecânica de lesões debilitantes substitui o tradicional dano progressivo por condições mais graves e narrativas.
  • Itens mágicos e amaldiçoados são comuns e muitas vezes ambíguos em sua utilidade.
  • Não há sistema de níveis. O avanço do personagem é narrativo conforme as missões vão se apresentando.
  • A morte também é um elemento importante no jogo. Um personagem que perde sua vida tem a chance de enfrentar um dos espíritos guardiões no Yomi e retornar, com sua honra renovada.

Cenário: Kage no Shima

O cenário é uma ilha isolada, mergulhada em eclipse permanente e infestada por demônios, mortos-vivos e corrupção espiritual.

Kage no Shima é dividida em regiões distintas e interessantes, como: Palácio Imperial, Mercado Flutuante, Distrito dos RŌNIN, florestas e ruínas. A ambientação mistura a estética feudal japonesa com elementos sobrenaturais, influenciada por yōkai e folclore oriental.

Não há foco em fidelidade histórica, mas sim em coerência temática dentro de uma fantasia decadente que o cenário apresenta. A proposta narrativa gira em torno da sobrevivência, da perda da honra e da resistência frente ao colapso iminente.

Proposta narrativa

O jogo favorece narrativas curtas, com foco em dilemas morais, consequências trágicas e conflitos intensos. O tom é sempre sombrio. O mundo é hostil, os aliados são instáveis e a esperança é mínima.

RŌNIN se destaca mais em sessões fechadas ou arcos de curta duração com atmosfera intensa, onde o sentimento entrópico pode ficar ainda mais claro.

O texto original combina linguagem acessível com termos evocativos. A tradução brasileira é excelente, com bom ritmo e adaptação do tom, mantendo a estrutura desejada pelos autores originais. A mensagem de inclusão é explícita e coerente com a proposta editorial do jogo, fazendo este um trabalho impecável da Tria Editora.


RŌNIN é um RPG com forte identidade visual e proposta clara.

Seu maior mérito está na coerência entre estética, sistema e cenário, entretanto ele não é indicado para grupos que preferem estabilidade ou progressão tradicional.

Para aqueles que buscam uma experiência memorável e para quem busca campanhas viscerais e imprevisíveis, encontram o que estavam esperando na noite eterna de Kage no Shima.


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Autor: Álvaro Bevevino.
Revisão: Raquel Naiane.

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