Durante décadas, o RPG de mesa foi associado, principalmente, à simulação. Sistemas complexos, tabelas extensas, atributos minuciosos e regras voltadas para reproduzir combate, exploração e gerenciamento de recursos dominaram boa parte da indústria desde o surgimento de Dungeons & Dragons nos anos 1970.
A proposta inicial surgiu como uma variação dos Wargames, e por conta disso, se manteve com fundações rígidas e objetivas.
Da simulação à Narrativa – O Amadurecimento de Ambas as Partes
Conforme o hobby amadureceu, muitos designers começaram a perceber que jogadores não buscavam apenas vencer combates ou acumular equipamentos.
O verdadeiro envolvimento vinha das histórias criadas na mesa, dos conflitos emocionais, dos dilemas morais e das relações entre personagens. Essa mudança gradual ajudou a transformar profundamente o design dos RPGs modernos.
Foi justamente dessa transformação que nasceram os chamados RPGs narrativistas: sistemas que priorizam construção dramática, interpretação e desenvolvimento coletivo da narrativa acima da simulação detalhada de regras.
Em vez de perguntar “o personagem consegue acertar o golpe?”, esses jogos frequentemente perguntam “o que essa escolha significa para a história?”.
Uma Semente de Ideia
Essa mudança não aconteceu de forma repentina. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, comunidades independentes de design — especialmente ligadas ao fórum The Forge — começaram a discutir novas filosofias para jogos de interpretação.
Surgiram, então, debates sobre gamismo, simulação e narrativismo, conceitos que influenciaram diretamente uma geração inteira de autores independentes.
Embora muitas dessas teorias sejam discutidas até hoje, elas ajudaram a consolidar a ideia de que o RPG poderia ser uma ferramenta narrativa tão poderosa quanto literatura clássica, cinema ou séries televisivas.
Os Filhos de Uma Era
O impacto dessa filosofia pode ser visto em sistemas modernos extremamente influentes, como Apocalypse World, lançado em 2010, que originou o movimento “Powered by the Apocalypse” (PbtA).
Diferente dos RPGs tradicionais focados em estatísticas complexas e resolução tática, os jogos PbtA utilizam mecânicas simples voltadas para consequência narrativa e colaboração entre jogadores e mestre. Mesmo falhas fazem a história avançar.
O sucesso dessa abordagem influenciou dezenas de RPGs contemporâneos. Hoje, sistemas como Blades in the Dark, Monsterhearts e Fate Core System colocam emoções, relações e consequências dramáticas no centro da experiência. Em muitos casos, o combate sequer é o elemento principal da campanha.
Os RPGs Indies e Suas Tendências
O crescimento dos RPGs independentes nos últimos anos revela uma mudança importante no perfil do público e também na forma como os jogos de mesa são produzidos.
Durante muito tempo, grandes editoras dominaram o mercado com sistemas extensos, cenários grandiosos e regras voltadas, principalmente, para exploração, combate e progressão mecânica.
Entretanto, a popularização do financiamento coletivo permitiu que pequenos estúdios e autores independentes encontrassem espaço para experimentar propostas mais autorais, intimistas e emocionalmente focadas.
Ideias que saíram do Papel
Plataformas como Kickstarter e Catarse se tornaram fundamentais nesse processo.
Segundo dados do próprio Kickstarter, apenas em 2023 a categoria “Tabletop Games” ultrapassou US$ 220 milhões arrecadados globalmente, mantendo os RPGs entre os segmentos mais fortes da plataforma. Boa parte desse crescimento vem, justamente, de projetos independentes com propostas narrativas diferenciadas, estética marcante e foco em experiências emocionais específicas (kickstarter.com).
Esse movimento também alterou a forma como os sistemas são concebidos. Muitos RPGs indies abandonam a ideia tradicional de “simular mundos” para priorizar temas dramáticos e experiências sensoriais.
Em vez de criar regras para cada detalhe do combate, esses jogos frequentemente desenvolvem mecânicas que reforçam sentimentos, relações interpessoais e consequências narrativas.
Vileborn e Outros Irmãos
É justamente nesse contexto que sistemas como Vileborn RPG ganham destaque. O jogo utiliza elementos clássicos da dark fantasy — monstros, decadência social e horror sobrenatural — mas direciona sua narrativa para conflitos internos e amadurecimento emocional.
Seus protagonistas não são apenas aventureiros enfrentando criaturas sombrias; são jovens tentando entender quem são em um mundo que os considera aberrações.
Essa abordagem dialoga diretamente com tendências modernas do RPG narrativista. Conceitos como coming of age (histórias de amadurecimento), horror emocional e construção coletiva passaram a ocupar espaço central em muitos sistemas contemporâneos.
O foco deixa de ser apenas “o que os personagens conseguem fazer” e passa a explorar “quem esses personagens estão se tornando ao longo da campanha”.
Além disso, muitos RPGs indies modernos demonstram forte influência de outras mídias narrativas, como séries de televisão, videogames e romances contemporâneos.
Jogos como Monsterhearts utilizam metáforas sobrenaturais para discutir adolescência, desejo e exclusão social. Já Blades in the Dark transforma criminalidade e sobrevivência urbana em narrativas cinematográficas sobre trauma, ambição e decadência moral.
A Sociedade Cada vez mais Isolada, Busca Conexões
Outro fator importante é a busca por experiências mais colaborativas. Diferente de modelos tradicionais onde o mestre concentra grande parte da narrativa, muitos RPGs narrativistas distribuem poder criativo entre todos os participantes.
Jogadores ajudam a definir relações, facções, memórias e até detalhes do cenário, tornando cada campanha única e pessoal.
Essa tendência também acompanha mudanças culturais mais amplas. O público moderno frequentemente procura histórias que abordem identidade, vulnerabilidade emocional, pertencimento e conflitos sociais.
Consequentemente, os RPGs independentes passaram a explorar temas antes pouco comuns no hobby, incluindo saúde mental, trauma, exclusão, amadurecimento e relações interpessoais complexas.
Um Prato Cheio para Todos os Gostos
Hoje, o RPG narrativista não substitui os sistemas tradicionais — ele coexistе com eles. Enquanto alguns jogadores ainda preferem campanhas altamente táticas e simulacionistas, outros buscam experiências mais emocionais, rápidas e colaborativas.
Essa diversidade talvez represente a maior evolução do RPG moderno: a compreensão de que não existe apenas uma forma correta de contar histórias em uma mesa de jogo.
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Texto: Leon Santos.
Revisão: Raquel Naiane.
