Catedral dos Ímpios – Campanha Ativa

Há uma diferença importante entre um suplemento que simplesmente acrescenta conteúdo a um RPG e um suplemento que consegue ampliar a maneira como enxergamos o próprio cenário.

Catedral dos Ímpios, primeiro suplemento oficial de BREU, da Luz Negra Editora, parece apostar justamente na segunda opção.

Escrito por Gustavo Tertoleone e Diego Bassinello, com ilustrações de Mel Martins, o livro leva os jogadores ao Distrito da Traça, uma região marginalizada da Cidade do Lago Negro onde investigação, crime, política, religião e horror se misturam.

A proposta combina fantasia sombria, weird fantasy, investigação urbana e exploração sandbox, criando um material que transforma um simples distrito em uma campanha inteira.

O ponto de partida é bastante atraente. O Distrito da Traça funciona como uma espécie de prisão sem muros: durante décadas, foi o destino daqueles que a elite da cidade preferia manter longe: criminosos, desafetos políticos, indigentes e outras pessoas consideradas indesejáveis.

Abandonados pelas autoridades e sobrevivendo com poucos recursos, os próprios moradores desenvolveram suas estruturas sociais e políticas.

Um distrito com vida própria

A Traça não é apresentada apenas como um lugar onde os aventureiros chegam para cumprir uma missão. Existe uma organização própria por trás do caos.

O distrito é controlado pelos Trinca-Ferro, uma tríade criminosa que administra o contrabando e tenta manter um equilíbrio delicado entre os moradores, a guarda da Cidade do Lago Negro e os nobres.

Ao mesmo tempo, a região possui suas próprias instituições e até um mecanismo de justiça: o Tribunal Vêmico, também conhecido como Tribunal do Povo.

Um cenário urbano de fantasia sombria pode facilmente cair naquela estrutura conhecida em que existe uma taverna, uma guilda de ladrões, alguns becos perigosos e uma masmorra esperando no final da aventura.

Na contramão do que se imagina

A proposta de Catedral dos Ímpios parece caminhar em outra direção. A cidade não é apenas pano de fundo; ela possui interesses, relações de poder e conflitos próprios.

Isso oferece ao mestre uma quantidade considerável de possibilidades. Os jogadores podem se envolver com criminosos, autoridades, moradores e diferentes grupos da cidade sem necessariamente precisar partir imediatamente para o combate.

O material apresenta seis linhas investigativas diferentes, construídas a partir de acontecimentos que começam a abalar o Distrito da Traça.

Desaparecimentos de crianças, assassinatos misteriosos, roubos incomuns e o aumento das tensões políticas são alguns dos problemas apresentados. Essas investigações podem se cruzar ou permanecer completamente independentes, dependendo das decisões do grupo.

Na prática, isso significa que duas mesas podem jogar Catedral dos Ímpios e terminar com experiências bastante diferentes.

Para mim, esse é um dos pontos que mais chamam atenção na proposta.

Em vez de conduzir os jogadores por uma sequência rígida de cenas, o suplemento oferece um tabuleiro de possibilidades.

O mestre apresenta a situação, os jogadores escolhem onde investigar e a história se desenvolve a partir dessas decisões. É uma estrutura que combina muito bem com a filosofia old school de BREU, que valoriza exploração, escolhas e resolução criativa de problemas.

A masmorra está no centro, mas não é uma masmorra comum

O título entrega uma parte importante da proposta. A Catedral dos Ímpios é uma construção ancestral associada a um culto que dominou o mundo conhecido durante séculos antes de desaparecer.

Suas ruínas permaneceram escondidas, soterradas pela passagem do tempo e pela própria história.

A ideia poderia facilmente resultar em mais uma dungeon de fantasia medieval. Só que o suplemento pretende justamente subverter esse modelo.

A Catedral é apresentada como uma releitura da clássica masmorra ancestral a partir da fantasia estranha, buscando uma atmosfera mais estranha, misteriosa e imprevisível.

Se a fantasia medieval sombria já trabalha com ruínas, cultos esquecidos, criaturas monstruosas e lugares amaldiçoados, a weird fantasy permite deslocar esses elementos para algo menos familiar.

Em outras palavras, a pergunta deixa de ser apenas “o que existe naquela masmorra?” e passa a ser “que coisa estranha é essa e por que ela existe?”.

Para um jogo que valoriza a descoberta acima do combate, essa mudança de perspectiva pode fazer uma diferença enorme.

Um suplemento promissor para BREU

Catedral dos Ímpios ainda não é um livro lançado: o projeto está em financiamento coletivo no Catarse, com lançamento previsto para março de 2027.

O projeto também apresenta metas estendidas que aumentam o conteúdo conforme a arrecadação. Entre elas estão novas magias relacionadas ao culto, itens mágicos, criaturas, expansão do lore do Distrito da Traça e até um mapa impresso da região.

Para quem gosta de RPGs de fantasia sombria, aventuras sandbox e cenários em que a cidade é tão importante quanto a masmorra, Catedral dos Ímpios é um projeto que vale acompanhar.

A ideia de transformar um distrito marginalizado em um cenário cheio de facções, mistérios, crimes, cultos e lugares estranhos tem bastante potencial.


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Shadow of the Weird Wizard – Resenha

Shadow of the Weird Wizard“, publicado no Brasil pela Tria Editora, é um RPG de fantasia que se propõe a unir o bizarro e o heroico. O excêntrico e o encantador. Detalhes que estão dentro de uma proposta narrativa acessível e rica em possibilidades.

Criado por Robert J. Schwalb, o mesmo autor de “Shadow of the Demon Lord“, este novo jogo nasce como uma evolução espiritual daquele título. Trazendo uma versão mais leve e positiva do mesmo motor de regras, mas sem abrir mão de elementos sombrios, esquisitos e maravilhosos.

Uma nova esperança em Terras Estranhas

O ponto de partida de “Shadow of the Weird Wizard” é narrativamente forte e repleto de gancho para aventuras: os personagens vivem em um mundo devastado por um colapso social e político, forçado pela ausência de uma figura enigmática conhecida apenas como o Mago Estranho.

Este magista lendário desapareceu subitamente, deixando para trás uma terra fragmentada, dominada por monstros, criaturas feéricas hostis, mortos-vivos e vestígios de magia antiga e perigosa.

A proposta central do jogo gira em torno da reconstrução.

Milhares de refugiados escaparam da Velha Pátria, buscando um novo começo nas chamadas Terras Novas: um ambiente cheio de mistérios, ruínas, florestas de cogumelos gigantes, estruturas que flutuam no ar e civilizações exóticas.

Nesse mundo, os personagens dos jogadores são heróis em potencial, figuras que se colocam entre o caos e a esperança, defendendo os inocentes, ajudando comunidades e enfrentando as ameaças que espreitam no escuro.

Estética e Tom

Apesar de carregar o mesmo DNA sombrio de “Shadow of the Demon Lord”, o novo jogo opta por uma abordagem mais otimista.

Aqui, o tom dominante é de “fantasia cinzenta”, uma fantasia que reconhece a existência da tragédia, da dor e da ambiguidade moral, mas que se alinha com o heroísmo clássico dos contos de fadas, onde o maravilhoso e o estranho coexistem.

Essa ambientação é profundamente inspirada na tradição da “weird fantasy”, conectando-se diretamente à linhagem de publicações como “Weird Tales” e “Amazing Stories”, além de nomes contemporâneos do gênero como China Miéville e Jeff VanderMeer.

O “estranho”, aqui, não é sinônimo de marginalidade ou transgressão: ele representa a vastidão do desconhecido e do mítico, forças além da lógica humana, que encantam, desafiam e aterrorizam.

Estrutura do Jogo

O livro básico é robusto e cuidadosamente organizado, contendo tudo o que é necessário para começar a jogar. Isso inclui regras completas, diretrizes de criação de personagem, sistemas de magia, combate, resolução de desafios, equipamentos, talentos e um guia introdutório ao cenário.

O papel do Sábio, como é chamado o mestre de jogo, é apresentado de maneira clara e acolhedora, lembrando constantemente que as regras existem para servir a história, e não o contrário.

A mecânica central se baseia em testes com um dado de 20 lados (d20) complementado por dados de 6 lados (d6).

O sistema introduz conceitos simples como “bônus” e “revés”, representados por d6 adicionais que podem ser somados ou subtraídos, tornando as rolagens mais dinâmicas e intuitivas.

A ideia de “dobro e metade”, presente em diversas situações, oferece uma forma rápida de multiplicar ou dividir valores sem necessidade de cálculos complexos.

Criação de Personagens

Um dos pontos fortes do sistema é a criação de personagens, que é feita de forma escalonada e narrativa.

Os personagens começam como humanos comuns (embora outras ancestralidades estejam disponíveis) e progridem por “caminhos”.

O Caminho de Novato define habilidades básicas, o Caminho de Especialista amplia as capacidades e o Caminho de Mestre foca em especializações heroicas.

Cada caminho contribui para contar a trajetória do personagem, conectando mecânica e ficção de maneira integrada.

Essa estrutura valoriza o desenvolvimento gradual, incentivando campanhas de longa duração e recompensando os jogadores por suas decisões narrativas e interpretações.

Magia e Bizarrices

Um dos aspectos mais chamativos de “Shadow of the Weird Wizard” é o seu sistema de magia.

As conjurações são divididas em tradições (como Necromancia, Cronomancia, Artimanha, etc.), e cada tradição carrega sua própria estética e lógica interna.

Os feitiços descritos são criativos, poderosos e muitas vezes bizarros, como “Separar Ossos da Carne”, “Ilusão de Liberdade” e “Sal da Terra”, que podem transformar um inimigo em pó de sal com um único gesto.

Além do poder bruto, a magia também serve como ferramenta narrativa e interativa, permitindo resolver enigmas, manipular o ambiente ou enganar inimigos.

Há uma ênfase constante no equilíbrio entre risco e recompensa, com magos podendo gastar pontos de vida para recarregar feitiços em momentos críticos, o que adiciona um elemento de tensão dramática à mesa.

Desafios Sociais e Exploração

O jogo também oferece regras bem articuladas para desafios sociais e interação com o mundo.

Existem sistemas específicos para transações, persuasões, ameaças, alianças e outras formas de resolver conflitos não violentos. Esses desafios têm impacto real na narrativa, com falhas e sucessos afetando o andamento da missão e a percepção dos NPCs em relação aos personagens.

A exploração é outro aspecto central do jogo.

As “novas terras” são descritas como mutáveis, imprevisíveis e fascinantes, incentivando os jogadores a se perderem em florestas místicas, planícies assombradas ou ilhas flutuantes.

O cenário, como um todo, não é um lugar estático a ser mapeado, mas um espaço de descoberta constante, sempre um passo além do controle dos personagens e do próprio Sábio.

Um jogo sobre Escolhas e Consequências

Embora se vista com o manto da fantasia heroica, o jogo nunca se esquiva da complexidade.

Cada escolha, seja em combate, na interação social ou em decisões morais, pode ter consequências inesperadas.

O sistema valoriza a agência dos jogadores e a responsabilidade narrativa, permitindo que os personagens se tornem lendas… ou paguem caro por seus erros.

O Mago Estranho, ainda que ausente, é uma presença que paira sobre tudo. Sua ausência é o catalisador de toda a campanha.

Ele representa o mistério central, o arquétipo do poder oculto, e deixa para os heróis o desafio de restaurar (ou reinventar) a ordem em um mundo à beira do caos.

Considerações Finais

“Shadow of the Weird Wizard” é, acima de tudo, um convite à imaginação.

Com uma proposta que equilibra humor, estranheza, heroísmo e fantasia sombria, o jogo oferece uma experiência profunda e flexível.

Seja para iniciantes ou veteranos do hobby, ele apresenta uma alternativa instigante aos sistemas tradicionais de RPG.

Sua base mecânica simples, aliada a uma ambientação rica e cheia de oportunidades de interpretação, o torna ideal para grupos que desejam uma campanha com identidade própria, mas com fácil assimilação.

E com um texto bem escrito, ilustrações expressivas e uma diagramação clara, o livro se torna tanto uma ferramenta de jogo quanto uma leitura prazerosa.

Sem dúvida, trata-se de uma das grandes adições recentes ao cenário de RPGs de fantasia.


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Autor: Álvaro Bevevino.
Revisão: Raquel Naiane.

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