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Armarias Liga das Trevas

Matéria – Esferas de Mago: A Ascensão

“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Antoine Lavoisier, em “Traité Élémentaire de Chimie”

A oficina estava silenciosa, exceto pelo zumbido grave do transformador antigo e pelo cheiro de óleo queimado misturado com metal quente.

O mestre estava encostado à bancada, óculos de proteção na testa, luvas de couro marcadas por queimaduras antigas.

Ele observava o pupilo com paciência, como quem vê um motor prestes a dar partida pela primeira vez.

“Antes de tentar alterar qualquer coisa…” — disse ele, alcançando uma porca minúscula com duas pinças distintas — “você precisa aprender a olhar.”

“Não olhar com os olhos, digo. Os olhos só veem superfície. Quero que aprenda a perceber os padrões. Pois cada objeto tem um mapa interno, uma arquitetura que diz o que ele é, do que é feito, quanto sofreu e quanta vida ainda lhe resta.”

“Quando você entende isso, quando sente o metal e sabe sua composição antes mesmo de tocá-lo, você está ouvindo a linguagem da matéria. Os Filhos do Éter chamam isso de análise espontânea. Os tecnocratas chamariam de espectrometria sem aparelho.”

“Eu chamo de respeito.”

Ele largou a porca, pegou um pedaço de alumínio deformado, resultado de alguma explosão anterior, e o colocou sobre a mesa.

“Agora, quando você começa a tocar, a alterar, está apenas dando pequenos empurrões na realidade. Deixar o alumínio mais puro, tirar as impurezas do aço, remover o cheiro químico da água — nada disso é extraordinário, não do ponto de vista do Éter.”

“Você apenas acelera processos que a ciência mundana já entende. Você não está violando leis, apenas as executando mais rápido. Lembre-se disso: nossa magia não é agressão contra o mundo.”

“É cooperação. É ciência com pressa.”

Ele passou a mão sobre o alumínio amassado e, num instante, a superfície ficou lisa e uniforme, como se tivesse sido prensada em máquina industrial.

Nenhum gesto dramático, nenhuma luz azulada. Apenas um efeito discreto, simples, porém instantâneo. O pupilo arregalou os olhos.

“Isso é útil, eu sei, parece truque de feira. Mas quando você compreende que essas pequenas mudanças são só o começo, começa a entender o peso da responsabilidade.”

Ele respirou fundo e pegou um pedaço de madeira do chão, provavelmente parte de uma antiga caixa de ferramentas.

“A verdadeira arte começa quando você entende que os materiais não são competidores. Madeira, vidro, cerâmica, aço… são apenas estados diferentes da mesma conversa cósmica.”

“Com vontade suficiente, você pode reorganizar a mensagem.”

“Pode transformar madeira em aço, pode fazer areia virar vidro puro de laboratório, pode pegar plástico vagabundo e criar um composto resistente ao calor como cerâmica espacial.”

Quando ele falou isso, o pedaço de madeira começou a escurecer, endurecer, as fibras se realinhando, até o objeto ganhar um brilho leve e frio.

O pupilo tocou, sentiu o peso diferente, o som metálico quando bateu na bancada.

“Não é ilusão.” — disse o mestre, com um meio sorriso — “É engenharia avançada, só que sem o intervalo de anos entre ideia e resultado.”

“É aqui que muitos Filhos do Éter começam a se perder. Acham que o poder está em fazer truques de transmutação. Não está.”

“O verdadeiro poder é construir.”

“Agora, imagine não apenas trocar uma coisa por outra, mas redesenhar completamente o objeto. Pegar sucata e criar um motor funcional. Moldar um bloco de ferro bruto como uma espada perfeitamente balanceada. Construir armadura com materiais impossíveis, sem solda, sem emendas, sem falhas.”

“Isso não é magia no sentido romântico; é manufatura perfeita. Não é transformar. É projetar. É ciência manifestada sem ruído, sem perda de energia, sem protótipo defeituoso.”

Ele estava diferente agora, os olhos brilhando sem precisar de luz, o orgulho transbordando de forma calma e séria.

“Mas tudo isso é apenas o caminho.”

“O destino final, a fronteira que nós, Filhos do Éter, perseguimos desde antes de termos esse nome, é a criação de materiais que a realidade ainda não inventou. Não apenas fazer aço melhor, vidro mais resistente, borracha inteligente. Não. Estou falando de criar matéria que não seja encontrada em nenhuma tabela periódica.”

“Imagine um metal que se regenera quando amassado. Um tecido que repele radiação. Um líquido que memoriza temperatura e reage a comandos. Não é alquimia. Não é feitiçaria. É inovação extrema. E não existe laboratório no mundo que não nos chamaria de loucos por tentar.”

O mestre abaixou a voz.

“Você não pode chegar lá sem curiosidade.”

“Sem risco. Longe do fracasso. Deixando de explodir algumas coisas no caminho. O Éter exige isso.”

“Não somos contadores de histórias sobre magia, somos arquitetos daquilo que pode existir. Quando alterar, quando refazer, quando inventar substâncias novas, lembre-se sempre: não existe matéria morta. Apenas matéria esperando uma ideia.”

A luz vacilou. O transformador chiou. E o pupilo finalmente entendeu que aquela oficina era um templo. A bancada, um altar. E tudo, absolutamente tudo, podia ser reinventado.


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Autor: Álvaro Bevevino.
Revisão: 
Raquel Naiane.

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