O conto “Escuta de Vigilância”, escrito por Túlio Carneiro, se passa no universo do Night’s Black Agents, da Editora New Order.
Este conto retrata um dia de RPG de Night’s Black Agents através da transcrição de diálogos e eventos recuperados da Escuta de Vigilância. Mas parece que algo sai do controle. O que poderia dar errado depois do pôr do sol?
Escuta de Vigilância
Episódio 01 – Pneu Furado
(Som de Telefone tocando)
(Sons de trânsito e buzinas ao fundo)
Carla atende o celular tocando, pela tela do carro, ao mesmo tempo que presta atenção ao trânsito. Sons de trânsito e buzinas ao fundo do ambiente a irritam levemente.
Carla: “Oi pessoal, tô quase chegando. Sei que ficamos de jogar nossa primeira sessão de NIGHT’S BLACK AGENTS, o RPG, hoje. Calma.”
A voz adolescente do outro lado parece ansiosa.
Mine: “Ó, mãe é que já passou do pôr do Sol. Você precisa chegar antes que escureça.”
Carla: “Tá bem filha, tô quase lá. Finalmente na rua de casa…”
O som súbito de algo estourando interrompe o diálogo entre mãe e filha.
Mine: “Eita, mãe, que foi isso?”
Carla: “Acho que um pneu furou aqui… Espera. Vou estacionar e olhar.”
Mine: “Pai, mamãe disse que vai atrasar, parece que um pneu furou.”
Uma voz masculina entra pela linha de conexão.
Túlio: “Pneu furado? Ela já está na rua de casa?”
A adolescente responde:
Mine: “Sim, e agora já são 18h10. Antes que você pergunte, o sol se pôs há uns 6 minutos.”
A voz masculina controla alguma ansiedade, Carla percebe a leve preocupação, mas espera que a filha não perceba.
Túlio: “Deixa falar com ela, filha. Carla, tá tudo bem aí?”
Carla: “Quase. Teve um estouro aqui, achei que fosse o pneu. Estou estacionando o carro pra olhar…”
Um leve tom de urgência no viva voz, agora.
Túlio: “Amor, tem mais alguém aí? Não esqueça de olhar o porta luvas.”
Carla suspira, ele não vai se acalmar até ela fazer o que ele pede.
Carla: “Tá bom… Estou vendo aqui o porta luvas… Aí, espera, não!”
Um barulho de porta abrindo e fechando, e em seguida, sons de passos e corrida ecoam no lado do celular da ligação.
Túlio sobe a voz um pouco. Quase dá para ouvir uma fria camada de suor se desenvolvendo na nuca dele.
Túlio: “Carla? Carla? Você tá ai? Ó, já estou indo. Aguenta aí.”
A voz de Mine também se altera um pouco.
Mine: “Pai, tá tudo bem com a mamãe?”
O pai responde.
Túlio: “Sim, filha. O pneu furou, mas ela está aqui, na rua de casa. Vou lá ajudar. Eu vou te deixar na casa do vizinho aqui embaixo, e avisar sua irmã que estamos saindo. Vou só deixar aqui um bilhete.”
Túlio: “Nani, filha, tá estudando, né? Ó, estou saindo pra pegar a mamãe, que furou o pneu. Tô deixando aqui um bilhete.”
A filha mais velha responde, do quarto.
Nani: “Certo, daqui a pouco termino de estudar, vou tomar banho. Beijo e tchau.”
Um barulho rápido de uma caixa e um livro na mesa de vidro da sala.
Mine: “Pronto, pai. Mas que caixa preta é essa aí? E esse bilhete?” Mine está com uma voz algo desconfiada e desconfortável.
Túlio: “São pra Nani, se a gente demorar. Vamos. São 18h13, agora.”
(Som de porta batendo)
Episódio 02 – Papai?
Nani: “Ufa, já tem uns 40 minutos que o pessoal saiu, e já terminei este tópico. Vou parar os estudos por hoje.”
(Batidas na porta)
Nani: “Hum? Já vou. Quem é?”
Túlio: “Sou eu, filha. Abre a porta. Esqueci a chave.”
Nani: “Ah, sim. Já abro.”
(Som de porta abrindo)
Nani: “Pronto. Ué. Por que está aí parado?”
Túlio: “Me convida pra entrar, oras.”
Nani: “Hum? Te convidar? Pera. Agora que vi seu bilhete aqui. Deixa ver.”
(Barulho de papel abrindo)
Nani está lendo o bilhete em voz alta.
“Nani,
Primeiro: NÃO abra a porta pra ninguém.
Segundo: NÃO convide ninguém pra entrar.
ESPECIALMENTE se for PARECIDO COMIGO.
Terceiro: Qualquer coisa liga… QUALQUER COISA.”
Nani: “Eita!”
(Falso) Túlio: “Ei, não me convida pra entrar?”
Nani: “Pai, cadê seus óculos? Pera, acho que você não é o papi…”
Episódio 03 – Não Convide Ninguém para Entrar
Nani: “Cadê meu telefone? Ah, tá aqui. E você, fica aí fora.”
(Barulho de telefone tocando)
Túlio ao telefone: “Oi, filha. O que foi? Tô meio ocupado com a mamãe.”
Nani: “Pai, tem um cara que parece com você, até a voz, aqui na porta de casa.”
Túlio: “Você viu meu bilhete? Não abrir a porta pra ninguém. NÃO convide ninguém pra entrar. Aí, droga!”
Nani: “Mas ate a voz era igual!”
Carla: “Tá tudo bem com a Nani?”
Túlio: “Vai ficar. Filha, faça o que fizer, NÃO convide ele, nem ninguém pra entrar. Tá vendo a caixa preta, e o livro do NIGHT ‘S BLACK AGENTS, na mesa de vidro? Abra, e leia o verso do bilhete. Te amamos. Preciso ajudar a mamãe agora . Daqui a pouco te (hunf!) ligo (aí, aí ,aí) de volta.”
(Sons de luta, murros e socos) – TELEFONE DESLIGA
Nani: “Opa, vi a caixa preta. Abrindo, mas o que é isso? Crucifixo? Correntinha de prata? E um frasco com água? Tem um rótulo aqui. Água… BENTA?”
“E você aí fora, NADA de entrar! Não te convidei!”
(Sons de bufadas e grunhidos)
Nani: “O verso do bilhete. O que diz aqui?”
Nani relatando:
“Nani, Se você está lendo isso, algo que eu não queria aconteceu.
Segure a Cruz, e não a largue, até voltarmos. A Cruz vai brilhar, não se assuste. Talvez emita um zumbido.
A coisa na porta não sou eu. Nem sua mãe.
Pegue agora a correntinha de prata, e coloque ao redor do pescoço.
Finalmente, pegue a garrafa de água benta e NÃO jogue de vez na coisa. Apenas aspergir algumas gotas, várias vezes. Mantenha a cruz a sua frente.
Repita, até voltarmos. ”
Nani: “Certo, agora, vamos pra cima. Ué, cadê ele? Foi embora?”
Carla: “Oi, filha sou eu. Seu pai já vem. Tá estacionando o carro lá embaixo.”
Nani: “Ah, é? Bom, minha Cruz continua brilhando. Vou até te mostrar. VEJA!”
(Falsa) Carla: “Não! Tira essa coisa da minha frente! AAAAHHH NÃO!”
Nani: “TÁ COM SEDE? TOMA ÁGUA!”
(Sons de Água fervendo ou efervescente)
Nani: “Ufa, agora foi! E acho que foi de vez. Mas tem mais alguém vindo. Pai? Mãe? São vocês?”
Carla: “Oi filha, somos nós. Papai levou uma mordida aqui, apareceu um cachorrão na hora que ele foi me ajudar a trocar o pneu. Dá um pouco dessa água pra lavar aqui.”
Túlio: “Oi, filha. Ah, obrigado.”
Nani: “Bom, vejo que vocês não se incomodam com água benta. Pai, acho que agora sei porque você queria tanto iniciar o RPG de NIGHT ‘S BLACK AGENTS…”
Carla: “Eu eu concordo com a Nani. Aliás, quero saber muito mais dessa estória…”
Túlio: “Bem, lembram que eu tava super afim de uma aventura de NIGHT’S BLACK AGENTS?”
“Era pra agradar a mamãe, que gosta de intriga e espionagem, mas também Mine, que gosta de terror…”
Na sequência, o recrutamento das agentes Nani e Carla continua indo bem.
EPÍLOGO: Veículo da Família Alvo
(Sons de tráfego, buzinas, crianças)
Nani: “Oi Mine, hoje eu que vim te buscar, estreando aqui a carteira de motorista. Bora!”
Mine: “Legal, minha irmã de Uber. Irmãtorista. Irmãuber!”
Nani: “Engraçadinha! Mas como foi a aula?”
Mine: “Ih, Super legal. Hoje. Treinando pra apresentação de ballet. Eita, cuidado com cão!”
(Sons de freada e batida)
Mine: “Aí, tadinho! Acho que a acertamos ele! Vou descer pra olhar.”
Nani: “Calma, Mine. O Sol já se pôs. NÃO abre a porta. Abre o porta luvas. Pega o que tem numa caixa preta.”
Mine: “Hum? Uma… Cruz? E… tá brilhando, e vibrando! Ei, o cachorrão se levantou!”
Nani: “Deixa comigo, Mine. Fica no carro…”
FIM da transcrição dos Áudios de vigilância. Recrutamento de agente Nani parece ter sido concluído com sucesso para Night’s Black Agent.
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Escuta de Vigilância
Texto: Túlio Carneiro.
Revisão: Raquel Naiane.
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