A Queda – Diário de uma Sombra #03

Este conto, dividido em quatro partes, traz algumas páginas do Diário de uma Sombra, escrito por Maitê Santos. Em “A Queda” acompanhamos os relatos da jovem que estava terminando o Ensino Médio, pronta para viver sua vida acadêmica, quando de repente, em uma noite que deveria ser apenas diversão, ela se vê rodeada de criaturas paranormais.

Aparentemente, mesmo após a Ordo Realitas lutar contra o Outro Lado, parte da Membrana cedeu, e sua cidade foi o palco para o caos inicial conhecido como A Queda.

Essa é uma história não oficial sobre o universo de Ordem Paranormal.

Essa é a terceira parte da série “Diário de Uma Sombra”. Para ler a primeira parte, clique aqui.

A Queda

25 de outubro de 2023

Por qual motivo eles iriam se divorciar mesmo? Não consigo me lembrar por mais que eu me esforce… lembro apenas dos gritos abafados e distantes deles, mesmo que estivessem no cômodo ao lado…

Por que adolescentes pensam que são o centro do universo?

Depois de consolar minha mãe por uns instantes, meu pai se aproximou e colocou a mão em meu ombro: “Você sabe que nós queremos apenas o seu bem e o de Astra. Para isso, sacrifícios são necessários e nós trabalhamos duro. Seus amigos são má influência para você e estão tirando o seu foco. Nós apenas…”

“Quer me perguntar o que sei sobre sacrifícios? Então vamos lá…”

Eu estava tão estressada e apenas o interrompi novamente.

Como me arrependo disso.

Fico refazendo todos esses momentos em minha mente, mudando apenas alguns detalhes, isso já teria feito tudo ser diferente, não precisava nem mudar totalmente a cena. Por que eu fiz as coisas desse jeito?

“Decidi estudar medicina apenas pela família e para ter dinheiro. Meu maior sonho era fazer astronomia e isso foi estragado desde cedo. E agora eu tenho de ouvir vocês dois falando de tirar de perto de mim a única pessoa que não me deixa surtar, e para quê?

“Para vocês continuarem deixando-a sozinha enquanto trabalham o dia inteiro? Não quero que ela cresça como eu cresci! E quanto aos meus amigos… eles estão me esperando agora para uma festa, então se me derem licença…”

Eu não tinha mais o que falar. Eles não iriam ouvir. Ou será que iriam?

Me virei enxugando as lágrimas e voltando para o meu quarto, deixando os dois em silêncio. Andei alguns passos e escutei minha mãe cochichar: “O que houve com nossa garotinha?”

Meu coração se apertou. Senti as memórias de infância e as brincadeiras que tínhamos sumindo aos poucos. Mas meu pensamento foi um só:

Agora ela está morta de vez, mamãe.

Terminei de me arrumar e parei em frente à cômoda, encarando a caixinha que continha o anel. Pensei em pegá-lo, mas na casa do Lucca tinha piscina, né? Eu não iria nadar…

As pessoas da nossa sala também iriam, né? Será que iriam me roubar? Não arrisquei.

Dei um beijinho em Astra, peguei minha bolsa transversal e me dirigi até a sala. Meus pais me esperam, sentados na mesa e com uma expressão séria.

“Você não vai à lugar algum. Iremos resolver isso como adultos!”

Meu pai não tinha tanta paciência e ia direto ao assunto, às vezes. Mas quem estava sem paciência era eu. Soltei uma risada forçada e me controlei para não chorar novamente, mesmo sentindo que as lágrimas tentavam buscar espaço na minha armadura.

Lucca havia me ligado e precisava de mim para ajudar com os preparativos. “Vocês poderiam me deixar sair, ao menos uma vez…” Eu disse com a voz já embargada. “Uma única vez não mata ninguém”.

Ah… Como eu estava enganada.

Então, eles me disseram que nós tínhamos de resolver aquilo, de uma vez por todas. Tanto entre eles dois, quanto comigo, e que eu deveria me abrir com eles. Começaram a me questionar: “que papo era esse de não ter o sonho de fazer medicina?”

Eles achavam que era meu objetivo de vida… agora era o momento para dizermos a verdade, e eles iriam se abrir também. Não iríamos sair da mesa enquanto não estivesse tudo certo entre nós. Eu deveria desistir de ir a tal festa, onde só teriam pessoas má influentes…

Era algo bom, certo? Nós iríamos conversar e debatermos o que estava acontecendo para nos corrigir. Mas, eu iria me sacrificar mais uma vez? Tantas e tantas vezes ficando em casa, ajudando, cuidando, limpando…

Negando todos os poucos convites que recebia para sair e ir para algum lugar, e agora, uma última festa antes do fim (e que, de uma maneira irônica, sabendo agora o que aconteceu, seria mesmo a última), nossa despedida do Ensino Médio, e eu deveria desistir de ir?

Respirei fundo.

“Eu vou à festa. Nós podemos conversar amanhã” e me dirigi para a porta. Minha mãe se levantou e parou na minha frente: “Por favor, filha. Você nunca foi de sair e agora, do nada, quer ir a uma festa? Conte para nós o que está acontecendo…”

Seus olhos eram de súplica. Ela não queria me perder, mas eu queria me encontrar. E pensar que até hoje não consegui. “Vocês não entendem…” Respirei fundo de novo e voltei o olhar para o chão.

“Eu tenho 17 anos e nunca nem beijei um menino, e morro de medo disso. Tudo por quê? Eu não saio. Nunca saí. Eu quero ajudar vocês! Ganhar muito dinheiro para não ser preocupação para quando ficarem velhos ou para Astra no futuro!”

“Eu sacrifiquei meu sonho para estudar em uma faculdade da qual eu não sou apaixonada, só para ajudar vocês, e agora, vocês querem se separar, tirar Astra de mim… e ainda querem me afastar dos poucos amigos que tenho porque não atendi às expectativas de vocês…”

Dei um sorriso triste e sequei uma lágrima teimosa que ultrapassou minhas barreiras.

“Eu só queria que as coisas fossem fáceis da maneira que era quando eu era pequena… só queria que vocês vissem que não tem nada demais, e que eu tenho amigos ótimos. Queria…”

“Que vocês tivessem me deixado viver um pouco mais…”

Após isso, encarei minha mãe por alguns instantes, depois levei meu olhar ao meu pai. Ambos continuavam em silêncio. Respirei fundo mais uma vez, peguei minha garrafinha de água em cima da pia e saí sem dizer mais nada. Queria ter ciência que seria a última vez que os veria, talvez teria ficado um pouco mais nesses segundos para gravar em minha memória seus detalhes.

Agora eu queria voltar no tempo, para antes de fingir que estava tudo bem na festa, vendo meus amigos se drogarem enquanto eu deveria ficar sóbria para os proteger e os ajudar, caso necessário. Ainda me diverti tanto naquela noite… Queria voltar para antes disso tudo, talvez quando meus pais brigaram pela primeira vez. Será que já teria alguma forma de ajudá-los ali?

Era minha responsabilidade tentar ajudar?

Eu fico remoendo essa memória em minha mente. Queria poder voltar e… não sei. Se eu tivesse em casa teria morrido. Será? Eles podem estar bem e ter salvo Astra. Essa é minha maior esperança.

Me pergunto: se caso eu tivesse voltado, logo no início de tudo, para tentar ajudar eles. Será que eu teria conseguido com o sr. Veríssimo trazê-los para cá? O meu medo infantil me corrói.

Eu não devo ter mais medo e saber enfrentar as situações de frente! O medo (e a promessa que fiz ao sr. Veríssimo) me impediram de voltar para casa… Todos aqui iriam se encantar com a risada contagiante de Astra, disso não tenho dúvidas… Ela teria 08 anos hoje em dia…

É irônico… a última coisa que disse a eles me aconteceu no fim… agora eu vivo. Sobrevivo… Tenho de viver, dia após dia, treinando e me preparando. Para quê? A próxima missão, claro. A primeira missão que teremos! Não podemos falhar e deveremos voltar vivos… mas o desejo dentro de mim aumenta cada vez mais…

Eu quero ir até minha casa…

28 de outubro de 2023

Fiquei na dúvida se relatava aqui aquela fatídica noite. É difícil ter que reviver… mas acho que vale a pena o resumo, pelo menos para os próximos curiosos que abrirem meu diário não ficarem tão perdidos.

Bom, cheguei na casa do Lucca ainda com toda aquela confusão na cabeça. Estressada. Com lágrimas presas aos olhos. E geralmente o Lucca perceberia. Ele sempre nota quando estou estranha, ou pelo menos, notava. Mas naquele dia, ele estava tão nervoso com toda situação. Tão ansioso…

Os pais dele haviam viajado e Téfinho o tinha convencido a fazer a festa de despedida do Ensino Médio. A ideia era ir somente o pessoal da nossa sala. Mas a casa do Lucca era o verdadeiro luxo, com piscina, vários quartos, quintal grande… Enfim, um casão. E a fofoca foi se espalhando…

Eu deixei meus problemas de lado e ajudei ele com o que pude para terminar de arrumar a casa e esconder objetos de muito valor, e de repente, foi chegando gente, e mais gente. Pessoas que nunca tínhamos visto. Alunos mais velhos e de uma universidade próxima à nossa escola. Parecia coisa de filme estadunidense adolescente. Algo que eu nunca pensei que veria aqui.

Nunca pensei que participaria, para ser mais exata.

Inicialmente o Lucca surtou um pouco. Mas eu tentei tomar as rédeas da situação e fui controlando quem chegava. Prometi que ficaria sóbria e que ele poderia se divertir, afinal, não teríamos outra chance. No entanto, minha cabeça não estava na festa…

De qualquer jeito, o pessoal chegou e se assentou. Começaram a se espalhar, alguns foram direto pra piscina, outros pros quartos (e ainda bem que não vimos o estado em que as camas ficaram). E cada um achou seu cantinho.

Pensando agora, antes de tudo acontecer foi bem divertido.

Eu tentei me soltar também, todos nós tentamos. Téfinho apareceu, quase dei meu primeiro beijo àquela noite, e no Lucca ainda! E pensar que essa era uma grande preocupação pra mim na época… No final, não fiquei tão sóbria.

Dançamos, curtimos, bebemos, alguns cheiraram um pouco de coisas ilícitas por culpa do Waltin e do Albertin, mas isso vou deixar quieto… Só sei que até ser jogada na piscina fui, rimos depois, e brincamos de lutinha na água. Téfinho deve ter pego uma galera também, e nem imagino os outros meninos.

Até que o caos começou.

Foi tão de repente…

Uma criatura apareceu em um quarto lá em cima. Acho que era, o que chamamos hoje, de Zumbi de Sangue. Houveram pessoas machucadas e sangrando para todos os lados. Nós cinco tentamos nos reunir, pois confiávamos apenas no nosso grupinho.

Então percebemos que as pessoas tinham sumido. Assim, do nada.

Uma névoa tomou conta de tudo, uma energia alucinante.

Até hoje não sei o que aconteceu. A teoria do sr. Veríssimo é que enquanto algumas criaturas vieram para cá, algumas pessoas pararam no Outro Lado. Não acho que elas possam estar vivas, se for esse o caso. Eu acho que elas só correram muito rápido ou se esconderam. Ou morreram naquela mesma noite.

Estava tudo uma bagunça. Ver aquela criatura foi insano.

Acho que ninguém esquece o primeiro bicho paranormal que se vê.

Não tem como esquecer.

Nós saímos correndo da casa e íamos tentar chegar até a minha casa, se não me engano… Já faz tanto tempo… Então o Téfinho foi atacado e perdeu um braço.

Achamos que eram zumbis na época, e ele iria se transformar. Mas hoje em dia, ocasionalmente, se você ver ele por aí, não coma dos salgadinhos que ele estiver segurando… vai por mim. Em outras palavras, ele acabou ficando com um gosto de sangue na boca que não é saciado facilmente…

Nós nos escondemos em um posto de polícia. Quase morremos algumas vezes.

Estávamos cansados e machucados.

No dia seguinte, felizmente, o sr. Veríssimo apareceu e salvou a gente. Descobrimos a Ordo Realitas. Ouvimos sobre a Membrana, criaturas paranormais, e como eles haviam falhado em nos proteger. Aquela era A Queda…

Parando pra pensar agora, como ele poderia saber onde estávamos?

Essa é a terceira parte da série “Diário de uma Sombra”. Para ler a última parte, clique aqui. (em breve)

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A Queda – Diário de uma Sombra #3

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Progresso Proibido – Gênese Zero #48

Após desvendarmos as “Fronteiras Invisíveis do seu Mundo”, explorando como a cultura e a superstição moldam paisagens e comportamentos, é natural que nossa jornada pelo worldbuilding nos leve a um território ainda mais intrigante: o da estagnação.

Assim como tabus e lendas podem demarcar zonas proibidas, o medo do passado, seja ele religioso, mágico ou traumático, tem o poder de congelar o progresso de uma sociedade, transformando o conhecimento em um artefato perigoso, um segredo a ser guardado ou uma relíquia a ser venerada. Este artigo se propõe a mergulhar nas profundezas dessas sociedades que, por razões diversas, recusam-se a avançar tecnologicamente, e como essa recusa molda seu presente e seu futuro.

A coerência na construção dessas civilizações com progresso proibido é crucial para que o mundo pareça vivo e autêntico, evitando que tais elementos pareçam forçados ou arbitrários. Vamos, portanto, explorar estratégias para surpreender e engajar o grupo, mantendo a lógica interna do mundo intacta, mesmo diante de um “progresso proibido” que desafia a razão aparente.

1. O Trauma da Catástrofe Tecnológica

Uma sociedade antiga alcançou grandeza tecnológica, mas uma catástrofe, que suas próprias invenções geraram, acabou destruindo-a. Talvez uma inteligência artificial se rebelou, ou uma arma de energia saiu de controle e reduziu cidades a cinzas. Desde então, o trauma se enraizou na cultura e faz todos enxergarem qualquer avanço como um presságio de destruição.

Poucos artefatos da era dourada sobreviveram; o povo os preserva em santuários e os trata como relíquias perigosas. Até a ideia de “progresso” agora causa horror. Dessa forma, a história se transformou em uma advertência: a ambição humana conduziu à ruína, e a sociedade aceitou a estagnação como a única forma de sobrevivência.

2. A Magia como Substituta e Barreira

Em mundos dominados pela magia, a sociedade tende a sufocar ou condenar o avanço tecnológico. Afinal, por que alguém criaria mecanismos complexos se um feitiço simples resolve a tarefa com mais rapidez e eficácia? Nessas culturas, armas e armaduras encantadas substituem a metalurgia, enquanto poções e rituais de cura suplantam a medicina.

Com o tempo, o povo relega o conhecimento tecnológico a um campo obscuro e o lembra apenas como uma curiosidade. A magia supre todas as necessidades, tornando invenções e estudos científicos redundantes. A sociedade vê a inovação tecnológica como uma fraqueza ou até como um desafio herético à ordem arcana, o que reforça a supremacia da magia sobre qualquer forma alternativa de progresso.

3. O Dogma Religioso Anti-Progresso

Uma religião dominante declara que o avanço tecnológico constitui blasfêmia, pois enxerga tal progresso como uma usurpação do poder divino ou uma ameaça à ordem natural. Textos sagrados anunciam a queda de civilizações que ousaram ultrapassar os limites que os deuses impuseram. Nesses contextos, as autoridades suprimem a inovação e perseguem os inventores como hereges. A fé serve de bússola, e a tradição dita a lei; a sociedade venera o antigo e teme o novo.

Dessa forma, a população permanece em estagnação deliberada, privilegiando a obediência cega em detrimento da curiosidade ou da busca por soluções originais.

4. O Conhecimento Escondido: A Elite Guardiã 

Em algumas sociedades, uma elite governante ou sacerdotal monopoliza o conhecimento tecnológico ou mágico avançado. Essa elite teme que a disseminação desse conhecimento ameace seu poder ou que a população comum não esteja preparada para lidar com suas implicações. Bibliotecas secretas e arquivos proibidos guardam os segredos do passado, e o acesso a eles restringe-se a poucos escolhidos.

A elite mantém a massa na ignorância e pune severamente qualquer tentativa de adquirir esse conhecimento proibido. Assim, o progresso torna-se uma ferramenta de controle, e a estagnação da maioria garante a estabilidade do poder.

5. A Corrupção do Conhecimento: Verdades Distorcidas

Os poucos que tentam resgatar o conhecimento original enfrentam a acusação de loucura ou heresia, pois suas descobertas contradizem as “verdades” estabelecidas. O conhecimento do passado não se perde, mas elites e tradições o corrompem e distorcem ao longo do tempo. As pessoas transformam lendas sobre máquinas voadoras em mitos sobre bestas aladas e interpretam a ciência da medicina como feitiçaria. Camadas de superstição e mal-entendidos obscurecem a verdade, e a população perde a capacidade de discernir o real do imaginário.

Poucos estudiosos tentam resgatar o conhecimento original, mas a sociedade os vê como loucos ou hereges, já que suas descobertas contradizem as “verdades” estabelecidas. Assim, os governantes usam a ignorância como forma de controle e aplicam a distorção da história como ferramenta para manter o status quo.

6. A Veneração do Antigo: O Culto à Tradição

Uma sociedade estagna quando venera em excesso o passado e a tradição. Seus membros consideram tudo o que é antigo perfeito e imutável, e tratam qualquer inovação como degradação ou afronta aos ancestrais. As comunidades seguem rituais e costumes à risca e vivem exatamente como há séculos. Elas preservam a tecnologia e o conhecimento do passado, mas não os compreendem nem os aplicam de novas maneiras.

Dessa forma, a sociedade enxerga o progresso como ameaça à identidade cultural e usa a estagnação como garantia de continuidade. As pessoas transformam sua cultura em um museu vivo, onde constantemente reencenam o passado e repetem o futuro como cópia do que já existiu.

7. O Medo do Desconhecido: A Aversão à Mudança 

Em alguns casos, um medo intrínseco do desconhecido e da mudança impulsiona a estagnação. A sociedade se torna tão confortável em sua rotina que enxerga qualquer alteração como uma ameaça à sua segurança e estabilidade. As pessoas rejeitam novas ideias e marginalizam os inovadores. A aversão ao risco supera o desejo de progresso, e a comunidade se fecha em si mesma, evitando qualquer contato com o mundo exterior que possa trazer novas influências.

Desse modo, o medo prende a sociedade ao passado, e a estagnação cria a ilusão de segurança.

8. A Escassez de Recursos: O Limite Físico

A escassez de recursos essenciais para o desenvolvimento tecnológico pode forçar uma sociedade à estagnação. A falta de minerais, energia ou mão de obra qualificada impede qualquer avanço significativo. Nesses casos, as comunidades vivem apenas com o que possuem e direcionam a inovação para otimizar o uso dos recursos existentes, em vez de buscar novas tecnologias. A sobrevivência ocupa o lugar de prioridade, e o progresso se torna um luxo inalcançável.

Assim, o ambiente limita a sociedade, e a estagnação surge como consequência inevitável da realidade física.

9. A Intervenção Externa: O Bloqueio do Progresso

Em determinados cenários, uma intervenção externa provoca a estagnação de uma sociedade. Uma civilização mais avançada frequentemente impõe restrições ao desenvolvimento tecnológico para manter o controle, evitar uma ameaça potencial ou preservar uma cultura que considera “primitiva”. Consequentemente, essas potências impedem ativamente o progresso e reprimem sistematicamente qualquer tentativa de inovação.

Dessa maneira, forças externas transformam a sociedade em uma colônia ou experimento, impondo-lhe a estagnação. Elas negam a liberdade de escolha e determinam um futuro que está além do alcance da sociedade intervencionada. Civilizações superiores aplicam restrições com o objetivo de manter a ordem, evitar riscos ou conservar tradições alheias.

Consequentemente, essas potências bloqueiam o progresso e sufocam qualquer inovação antes que ela possa florescer. Por fim, transformam a sociedade em objeto de controle, anulam sua autonomia e traçam seu destino conforme seus próprios interesses externos.

10. O Ciclo de Renascimento e Queda: A Natureza do Progresso

Em mundos mais complexos, é integrada pela estagnação uma dinâmica cíclica de ascensão e queda das civilizações. Além disso, o progresso costuma ser percebido pelas pessoas como uma etapa transitória, a qual é seguida por um período de declínio e esquecimento, antes que um novo renascimento seja vivenciado.

O conhecimento, por sua vez, é perdido e redescoberto pelas comunidades em ciclos sucessivos, sem que um estado de progresso contínuo seja efetivamente alcançado. Por conseguinte, a história é conduzida em espiral, sendo a estagnação considerada uma fase inevitável dentro desse processo. Dessa forma, o próprio universo é refletido pela sociedade, e o progresso acaba sendo interpretado apenas como uma ilusão passageira.

Conclusão

Criar sociedades estagnadas tecnologicamente é uma ferramenta poderosa para adicionar profundidade e complexidade ao seu mundo de RPG. Não se trata apenas de limitar o acesso a certas tecnologias, mas de explorar as razões profundas por trás dessa estagnação: o medo do passado, a influência da religião, a manipulação do conhecimento, ou a simples aversão à mudança. Ao invés de simplesmente dizer que uma sociedade não tem tecnologia avançada, mostre por que ela não a tem, quais são as crenças e os eventos históricos que a levaram a esse ponto. Ao fazer isso, você transforma a estagnação em um elemento narrativo rico, que molda o comportamento social, as crenças e os conflitos, tornando seu mundo mais crível e envolvente. Lembre-se, o “progresso proibido” não é uma falha de design, mas uma oportunidade para explorar as nuances da condição humana e as complexidades da civilização em seu cenário de fantasia.

PARA MAIS CONTEUDO DO MESTRE BROTHER BLUE


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Cantrips em D&D 5e – Dicas de RPG #191

Neste episódio cito alguns dos truques mais conhecidos em Dungeons and Dragons 5ª edição. Tanto aqueles truques de dano e algumas vantagens que possuem, quanto os truques que podem ser utilizados em cenas de role playing e interpretação – inspirado no anime Frieren e a Jornada para o Além.

O Dicas de RPG é um podcast semanal no formato de pílula que todo domingo vai chegar no seu feed. Contudo precisamos da participação de vocês ouvintes para termos conteúdo para gravar. Ou seja, mande suas dúvidas que vamos respondê-las da melhor forma possível.

Portanto pegue um lápis e o verso de uma ficha de personagem e anote as dicas que nossos mestres vão passar.

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E-mail: contato@movimentorpg.com.br – Tem dúvidas sobre alguma coisa relacionado a RPG? Mande suas dúvidas para nosso e-mail.

Cantrips em D&D 5e

Voz: Raquel Naiane.
Edição do Podcast: Senhor A
Arte da Capa: Raul Galli

Músicas: Music by from Pixabay

Ficha As Chaves da Torre Editável

Esta é a ficha de As Chaves da Torre, RPG da editora Caleidoscópio. A versão editável da ficha foi desenvolvida por Diemis Kist baseada na original.

As Chaves da Torre RPG é um jogo narrativista em que os jogadores se unem para contar uma história colaborativa sobre abandono e esquecimento. Eles assumem o papel de personagens apagados da memória e da história do mundo por uma entidade manipuladora cujos intentos são inexplicáveis: a Torre.

Ao se tornarem Esquecidos eles se tornam pessoas irrelevantes, invisíveis para os olhos de quem os esqueceu. Ao mesmo tempo seus olhos se abrem para um Mundo Esquecido, de coisas, pessoas e lugares abandonados antes deles. Um local tão fantástico quanto misterioso, habitado pela magia ancestral de animais falantes e pela corrupção hedionda de Pesadelos – e mais tantas criaturas marcantes.

O livro apresenta tudo que você precisa para jogar: da ambientação, até as regras e também conselhos com dicas para condução do jogo e criação de conteúdo para sua mesa.

O Sistema Mosaico possui regras intuitivas e simples, mas com profundidade para contar histórias densas e cheia de significado. Utilizando dados de seis faces (d6) coloridos os conflitos são resolvidos a partir do resultado de cada cor – que significa uma forma de agir. Além disso, com cartas customizadas os jogadores Protagonistas assumem temporariamente o papel de Narrador e também podem inserir elementos na história – detalhando aquilo já apresentado ou trazendo novas ideias para a aventura.

Ele pode ser jogado de três formas: em grupo com um narrador, em grupo sem um narrador e sozinho. As cartas servem também como a ferramenta Oráculo para construção das cenas durante o jogo.

É um jogo de RPG totalmente brasileiro que assume a estética do Realismo Mágico. Foi o primeiro jogo produzido pelos autores Arthur e Ramon, e viabilizado a partir de um Financiamento Coletivo onde foi arrecadado o suficiente para produzí-lo e iniciar as atividades da Editora Caleidoscópio.


Clique aqui e baixe a ficha de
As Chaves da Torre

 

Honorato, uma aventura para Vileborn – Ideias para Aventura

Trazendo Honorato do nosso folclore direto para sua mesa de Vileborn, o RPG Nobledark desenvolvido pela Horrible Guild, e trazido ao Brasil pela Capycat Games. O fastplay pode ser encontrado em Catarse.me – Vileborn 

A inspiração

O ciclo dos encantados

Este ciclo sempre foi muito presente e marcante na cultura brasileira, principalmente nas contações e histórias herdadas dos nossos povos originários e religiões de matriz africana. 

A forma dos encantados varia de acordo com a região, mas se marca em todos eles o aspecto da metamorfose, quase sempre, por algum tipo de maldição. No Sul se faz presente o conto do carbúnculo, a lagartixa com cabeça de pedra que se torna uma donzela encantada e guardiã de tesouros. A ligação dessas entidades com tesouros fabulosos, embora recorrentes, não é regra geral. Ainda assim, em Fernando de Noronha, a Alamoa surge nas tempestades, seduzindo com lascívia e riquezas o incauto, para depois revelar sua face assombrosa. 

Ainda no Nordeste, temos a lenda da Princesa Encantada de Jericoacoara, onde há uma fórmula mágica para abrir a passagem para um reino repleto de ouro e riquezas, bem como uma princesa com belíssimo rosto e corpo de serpente gigantesca, e aquele que a desencantar poderá desposá-la e reinar na cidade dourada.

No Sudeste, contudo, as histórias mudam e os encantados são assombros. Cumacangas, lobisomens, mulas sem cabeça. A promessa de riqueza desaparece, restando somente as entidades assombrosas que vagueiam à noite, espalhando medo e pavor. Embora algumas dessas entidades ainda aguardem quem irá desencantá-las.

O ciclo das grandes serpentes

Bastante forte no Norte, faz parte das oralidades dos povos originários. E, embora esteja presente em quase todo o país, à medida que se vai para o sul, o ciclo enfraquece o caráter místico, assumindo o aspecto de causos de pescador que viam cobras colossais nos rios durante suas pescarias. 

Especialmente na região norte, pois pertencente à maior bacia hidrográfica da América Latina, é comum que esse ciclo se mescle ao das entidades dos Rios. E é aqui que entra a estória de Honorato, ou Cobra Norato e sua gêmea Maria Caninana.

A história dos irmãos Honorato e Maria Caninana pertence a todos esses ciclos, e apesar dos detalhes variarem de um lugar para outro, assim como sempre na tradição oral, o cerne da história permanece. 

Alerta de conteúdo sensível: gravidez não consentida.

Aviso dado, a seguir vai um resumo bem enxuto da história, então recomendo buscarem mais a fundo conhecer a história e suas diferentes versões.

Origem

A história começa com uma indígena que se descobre grávida após banhar-se em um rio. A paternidade é atribuída a uma entidade das águas, geralmente a Boiúna, também chamada de cobra grande. Outras versões atribuem ao boto. 

Independente da figura paterna, que é apenas citada sem de fato aparecer na contação, o ponto é que as crianças nascem na forma de cobras. E, portanto, acabam sendo deixadas no rio para se criarem. E aqui as histórias divergem bastante, desde os motivos da mãe tê-los deixado no rio até o nome dos citados rios da história, passando pelo rio Claro, Madeira, Tocantins e até o rio Amazonas dependendo da versão.

Mas fato é que as crianças sobrevivem e crescem. Crescem bem, atingindo um tamanho descomunal ao passar dos anos. Enquanto Honorato cresceu pacífico, sua irmã, no entanto, era “virada no cão”, provocando o terror e caos onde ia. 

Honorato, invariavelmente, acabou a confrontando e, em uma luta titânica, deu fim de forma definitiva à loucura e crueldade de sua irmã.

O desencanto

Honorato possuía também a habilidade de assumir a forma humana. Durante a noite abandonava sua pele escamada na beira do rio e saía garboso a dançar nas festas das cidadezinhas próximas, mas somente durante a noite, tendo sempre que voltar antes do raiar do sol. E aqui há alguns contos que atribuem a Norato aspectos do boto, galanteador festeiro e namorador.

Há aqui outro ponto onde as histórias divergem, é fato comum que como humano ele ia visitar a mãe, mas enquanto em algumas é dito que ele pedia a ela que o desencantasse, noutras é ela quem pede que ele dê um jeito de fazê-lo. Porém, em ambos os casos a mãe, por medo, acaba nunca conseguindo se aproximar do corpo da cobra, pois para desencantá-lo é preciso pingar na boca da enorme cobra que ele deixa para trás 3 gotas de leite humano, e feri-la no alto da cabeça com uma faca virgem.

O fim do ciclo se dá quando, em uma dessas festas, ele faz amizade com um membro do exército, cabo ou soldado dependendo da história, que é corajoso o suficiente para se aproximar da cobra e fazer o desencanto. E ao raiar do dia, sobra a casca seca da serpente, Honorato passa a pertencer então de vez à linhagem dos homens.

Algumas fontes

Para saber mais sobre a lenda de Honorato, leia o livro Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luiz da Câmara Cascudo, e o artigo PAINEL DE LENDAS & MITOS DA AMAZÔNIA – Trabalho premiado (1º lugar) no Concurso “Folclore Amazônico 1993” da Academia Paraense de Letras publicado por FRANZ KREÜTHER PEREIRA.

A aventura

Essa aventura foi feita para ser jogada com o grupo de personagens construídos no jogo rápido de Vileborn RPG, mas quando tivermos o sistema em mãos, certamente poderemos jogar em qualquer nível com alguns ajustes. A aventura é uma One-shot, ou seja, feita pensada para ser jogada em uma única seção de, em média 3 horas de duração (a depender da sorte dos jogadores) e possui um fluxo linear em uma estrutura de 3 cenas.

O início de cada cena possui um texto em itálico que descreve o que está acontecendo e pode ser lido ou parafraseado aos jogadores. De forma que para melhor contexto sobre o mundo de Egas e sobre as regras do jogo é recomendável ler o fastplay antes de jogar esta aventura.

Caso queira assistir, temos uma seção desta aventura gravada, já disponível, no canal Masmorras Galácticas, em formato de áudio-mesa.

A Missão

O grupo de Maculados foi recrutado pela Ordem Crepuscular, e a pedido do Senhor Feudal, parte em sua primeira missão: lidar com a ameaça de uma criatura profana no vilarejo pesqueiro de Brasa.

Cena 1 – A caminho do vilarejo

O grupo se encontra numa canoa guiada por uma figura esguia e silenciosa. O rio, largo e caudaloso, outrora cercado e permeado por uma mata densa, verde e viva, com o advento da escuridão se tornou cinzento e uma névoa opaca sempre parece se erguer e flutuar logo acima da superfície da água, rodopiando com o vento frio. As árvores nas margens perderam a maior parte de suas folhas em sua maioria. Enquanto avançam lentamente pela noite vocês veem vultos disformes se movendo na água do rio, agitando a névoa no limite de sua visão.

Desafio: Minhocões, os vermes do rio

Esses minhocões surgiram quando a escuridão perverteu a essência de grandes peixes do rio, que agora, deformados, apresentam uma fome voraz e aspectos traiçoeiros. 

  • São necessários pelo menos 4 sucessos para superar esta cena. 
  • Especial: explorar a herança macabra nesta cena – o valor do resultado do dado de escuridão para uma complicação reduz em 1 (escuridão fraca: 8+; escuridão média: 6+; escuridão forte 2+).

Complicações

  • Testes de Força: o esforço de confrontar as águas violentas e as criaturas cansa seu corpo e frustra sua vontade. Marque Exaustão.
  • Testes de Precisão: você erra a criatura e atinge um de seus colegas acidentalmente. Um jogador aleatório, sem ser o que realizou o teste, marca Uma Ferida.
  • Teste de Vontade ou Razão: ao tentar buscar o conhecimento ou impor sua vontade contra as criaturas você encara seus olhos vazios como a noite eterna, e o medo da Escuridão toma conta de você. Marque Medo.
  • As criaturas se enfurecem e se chocam contra o barco com ainda mais violência. Uma das pessoas do barco cai na água.

Cena 2 – A chegada no vilarejo

Após escapar dos minhocões com muito custo, o grupo finalmente chega ao vilarejo de Brasa. As pessoas andam apressadas, olhando para baixo, com uma expressão carregada. Medo e desânimo. As costas curvadas e as faces encovadas, talvez de fome. Barcos furados e redes vazias e rasgadas podem ser vistos pendurados em vários pontos.

Nesta cena o grupo pode tentar coletar informações sobre o que é a criatura que está atacando a vila e causando problemas. Além disso, é uma oportunidade de tentar se recuperar de possíveis danos sofridos na viagem.

Informações:

  • Há muito tempo, um jovem chamado Honorato saiu para pescar. Foi no dia em que a névoa se ergueu no rio, algum tempo após a chegada da escuridão. Ele nunca mais foi visto.
  • Quando a névoa surgiu nas águas, os peixes se tornaram cada vez mais raros e escassos, e uma grande forma de uma serpente tem sido vista na região. Muito maior que os vermes do rio, sua forma serpenteante e negra, como se fosse feita da própria sombra tornada em líquido, se ergue das águas do rio podendo ser avistada à distância por pescadores.
  • Alguns pescadores que viram a cobra grande dizem ter ouvido uma voz como se fosse alguém pedindo ajuda desesperadamente.
  • Algumas pessoas contam a história de um pescador que enfrentou a cobra com um punhal de aço prata. A cobra abriu a boca para o pescador, e ficou parada, como se estivesse esperando algo, enquanto o pescador apavorado fugia.

Cena 3 – Desencantando o Cobra Norato

Após se recuperarem e descobrirem mais sobre a ameaça que aflige a vila, o grupo segue para a última localização onde, segundo os moradores locais, a monstruosidade foi avistada. Porém, à medida que avançam para a margem do rio em direção a um cais abandonado, a neblina começa a se formar. A névoa cinzenta que cobre o chão, inicialmente à altura de seus tornozelos, se torna mais espessa e mais alta à medida que avançam. Ao seu redor o som de água corrente se torna mais presente enquanto avançam e o som do vento assobia por entre os galhos secos das árvores altas ao seu redor, que se erguem da terra como ossos de um cadáver.

Quando, de repente, uma forma se move, negra e escamosa serpenteando e movendo a neblina. A direita, a esquerda. Parece estar em diversos lugares, até que uma forma negra se ergue da névoa. Uma cabeça de serpente grande como um cavalo, em um corpo serpenteante que desaparece na névoa que os cercam.

Eles devem enfrentar Cobra Norato.

Cobra Norato

Tipo: Metamorfo, Sombra.

Força Vontade Influência Razão Precisão Subterfúgio
7 5 4 4 4 6

Acertos: *

             

* São necessários 7 acertos: salve a ficha e marque nas caixas à medida que os jogadores conseguirem os sucessos.

Resistências:

Ser enganado ou ludibriado.

Imobilização.

Intimidação ou ser amedrontado.

Fraquezas:

Aço prata.

Honorato deseja ser libertado da sua maldição.

Complicações:

1-2 Honorato te morde ou te acerta com seu corpo de serpente: marque Uma Ferida.

3-4 A serpente encara você com seus olhos sombrios e faz sua alma estremecer. Marque Medo.

5-6 A cobra gigante te persegue tentando te devorar. Marque Exaustão.

7-8 Honorato atinge você e te joga contra um de seus companheiros. Ambos estão caídos e tem -1 no próximo teste que realizarem.

9-10 A serpente tenta te esmagar, e por pouco consegue. Marque Uma Ferida. Se já teve esta complicação marque uma adicional.

11-12 As sombras do lugar parecem se misturar com o corpo da serpente, perdido, você não sabe de onde virá seu próximo ataque. Marque Insegurança.

Eventos:

Ao sofrer o segundo acerto, Honorato deixa a mandíbula mais aberta, deixando à mostra o céu da boca, ali é uma área vulnerável que conta como fraqueza.

Após sofrer 3 acertos, a névoa escurece e se torna mais densa. Ela envolve Honorato como se o prendesse ou protegesse. Pedras, raízes e árvores parecem surgir do nada e atrapalham a vida dos maculados. Sempre que alguém fizer um teste contra o Honorato, jogue um dado de escuridão (em adicional a quaisquer outros já rolados para o teste) para uma das complicações abaixo:

  • Até 2: escolha uma complicação da lista de complicações acima.
  • 3-6: algo se interpõe entre os maculados e Honorato. Uma pedra, raiz, galho, areia movediça, ou ele pensa ter visto um vulto de outro inimigo. Escolha uma abordagem e aplique uma penalidade de -1 no próximo teste que o personagem fizer para a abordagem escolhida.
  • 7-9: Honorato ruge, mas ao contrário do esperado é um som aflito, um grito de desespero e agonia. O maculado que fez o teste e outro aleatório devem fazer um teste de Razão ou Vontade Dificuldade 5, se falharem marquem Insegurança. Se já tiver isso, marque Medo, se já tiver ambas, marque Uma Ferida.
  • 10-12: a névoa envolve Honorato e parece adentrar em seu corpo. Remova um acerto de Cobra Norato.

Por fim, quando sofre 7 acertos, a forma serpentiforme se dissolve em névoa negra revelando a forma humana ferida de Honorato e encerrando a cena.

Presumindo que tenham tido sucesso, uma vez que o grupo consiga desencantar Honorato, eles podem levá-lo de volta à aldeia, onde poderão descansar antes de retornar para relatar ao Senhor Feudal o resultado da missão.

Um pouco mais de brasilidade

Nosso folclore e cultura são ricos e vastos, indo muito além da tríade Saci – Cuca – Boitatá, e é uma fonte inigualável de inspiração para tornar suas mesas cada vez mais únicas.

Quer tirar sua mesa da rotina? Continue de olho no Movimento RPG, que voltamos em breve com mais dicas e aventuras como essa.


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Master APP – Taverna do Anão Tagarela #179

Igor Detona e Leonardo Dutra falam sobre Master App nessa taverna. Venha saber um pouco mais sobre essa plataforma brasileira para organizar as fichas e anotações das suas mesas de RPG. Entenda algumas de suas inumeras funcionalidades, como elas facilitam o seu jogo e contribuem para a imersão na narrativa.
A Taverna do Anão Tagarela é uma iniciativa do site Movimento RPG, que vai ao ar ao vivo na Twitch toda a segunda-feira e posteriormente é convertida em Podcast. Com isso, pedimos que todos, inclusive vocês ouvintes, participem e nos mandem suas sugestões de temas para que por fim levemos ao ar em forma de debate.

Portanto pegue um lápis e o verso de uma ficha de personagem e anote as dicas que nossos mestres vão passar.


Links:

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– Seja um Padrim do Movimento RPG
– Assine o Picpay e ajude o site


E-mail: contato@movimentorpg.com.br – Tem dúvidas sobre alguma coisa relacionado a RPG? Mande suas dúvidas para nosso e-mail.

Master APP

‎Host: ‎‎Douglas Quadros
‎Participantes:‎ Igor Detona |  Leonardo Dutra
‎Arte da Capa:‎‎ ‎‎Raul Galli.‎

KPop Demon Hunters para Encantos

KPop Demon Hunters (ou Guerreiras do Kpop em português [que eu achei um nome meio sem graça]) é um filme lançado em 20 de junho de 2025, pela Netflix, que conta a história de um grupo de k-pop, as Huntrix, formadas por três garotas, Rumi, Mira e Zoey, que tem como dever proteger os humanos de terem suas almas devoradas por demônios. Como elas fazem isso? Com suas habilidades marciais e, principalmente, música. Música muito boa, para ressaltar ainda mais.

Bem, não vou fingir que você não sabe o que é esse filme, toda a internet parece ter visto e comentado (esta adaptação deve até sair atrasada). Enfim, se você está aqui é porque viu o filme e se interessou em jogar algo parecido num RPG (se não viu ainda, veja, vai ser legal). A proposta aqui é exatamente esta, colocar um guia rápido para jogar Kpop Demon Hunters em Encantos!

Por que Encantos?

Caso você não conheça o jogo ainda, Encantos é um RPG lançado pelo Lampião Game Studio e escrito por Jorge Valpaços, que gira entorno de jovens defendendo seu bairro de forças do mal usando de poderes mágicos e a amizade entre eles. Já sacou onde quero chegar?

Ao assistir o filme é perceptível que a maior fonte de drama não sai exatamente dos demônios, mas sim do segredo que Rumi guarda das melhores amigas Mira e Zoey. E no fim, claro, as coisas se resolvem graças a amizade das três. E agora, entendeu?

O sistema de Encantos prioriza o trabalho e ajuda entre amizades para superar as ameaças que assolam seu bairro. Bem, no caso das Huntrix pode se dizer que é a Coreia inteira. Por isso escolhi Encantos, é para que a amizade entre as personagens tenha um peso maior.

Dito isso, durante este texto vou considerar que você tenha lido ou conheça Encantos.

Bairro?

Ehrr, bem, parte importante das mecânicas de Encantos é o bairro que você protege, só que, como já dito, as Huntrix protegem praticamente o país inteiro graças ao Honmoon. Então, né, talvez não faça muito sentido falar de bairros. Vamos por partes.

Onde e quando são duas perguntas a serem respondidas na criação de bairro e continuarão a ser respondidas para a adaptação de agora. É simples, estamos na Coreia do Sul nos tempos atuais (talvez alguns anos no futuro). Para substituir os bairros eu proponho uma nova mecânica: Carreira.

Carreira

Uma parte que achei bem legal do filme foi exatamente isso de ser uma disputa entre grupos para saber quem ganha em popularidade e um campeonato ao final. Como um bairro seria muito limitar para um grupo de amplitude nacional (provavelmente internacional), apresento esta opção.

Primeiro, deve-se criar um nome para seu grupo. É comum que os nomes sejam em inglês e você certamente conhece algum grupo ou outro. Se você está na internet considero impossível não conhecer ao menos o BTS. Outro exemplo é Twice, que canta algumas músicas do filme, aliás. Escolha um estiloso e que combine com o tipo de grupo formado. Algo relacionado a caçadoras de demônio, claro, ou com o número de integrantes funciona. Quanto ao número de integrantes, será igual ao número de personagens e não se preocupe de passar de três, o Seventeen tem 13 integrantes (meu bias é o Jun, se alguém tiver curiosidade).
Pense também que seu grupo provavelmente é sucessora das Huntrix na tarefa de proteger os humanos de terem suas almas roubadas por demônios.

Minúcias de Carreira

Depois disso, vem as Minúcias da carreira. Role 1d6 e compare: 1 – Laço Coletivo (como o grupo se conheceu); 2 – Marco (momento super importante na carreira); 3 – Staff (uma pessoa que ajuda o grupo em várias tarefas); 4 – Hit (música de maior sucesso); 5 – Fama (ao ponto de reconhecerem na rua se não estiver com disfarce); 6 – Ships (esse tem que ter).

Durante uma sessão e outra pode se trocar uma minúcia (não significa que deixou de existir, apenas que perdeu a relevância dentro da carreira). Contudo o número de minúcias depende diretamente das aventuras. Lembre-se que o trabalho das personagens é defender o mundo dos demônios através da música, então sua carreira e a proteção estão diretamente ligados. Assim uma carreira começa com apenas uma minúcia e ganha mais uma, até no máximo três, quando o desfecho da aventura for um sucesso e duas quando um crítico; nisso ela perde uma minúcia em toda falha ou problema. Isto serve para representar, mecanicamente, a flutuação de sua fama e fanbase. O mínimo é uma minúcia e elas funcionam como o de costume (usar 1x por sessão para ter boa fortuna).

Personagens

Após a etapa acima, o próximo passo são as personagens. A diferença do jogo original para esta adaptação/cenário é de que suas personagens são jovens adultas e não jovens adolescentes/crianças, o que pode mudar um pouco o tom da aventura. Não que ela fique pesada ou “dark”, mas é possível ter dramas mais elaborados, como a Rumi ser meio demônio, a Mira com problemas familiares e a Zoey com as questões de ser uma imigrante. Caso seja uma sessão única de jogo não impactará tanto, porém são pontos bons de desenvolvimento numa campanha. Pretendo falar de campanha mais para frente.
Para simbolizar este conhecimento a mais que vem com os anos de vida, as personagens podem começar já tendo 1 Evolução ou mais. Máximo 3. (Isto também significa aventuras mais difíceis, você aí que for mestrar, atente-se).

Junto a isso, terá os Papéis dentro do grupo, que cada personagem deve escolher. Não há problema nenhum em repetir, é normal ter várias pessoas executando a mesma função (não vou usar o Seventeen de exemplo de novo, mas poderia).

Os Papéis

Existem 3 Papéis para escolha: Dança, Rap e Visual, explicadas logo abaixo. Eles tem uma dupla função mecânica: funcionam como Minúcias e definem dois dos três pontos de Atributos (ainda precisará rolar 1d6 para saber onde vai o terceiro ponto).

Dança – Tem como especialidade a dança, sendo responsável por guiar o grupo nessa área e elaborar as coreografias. Criação 1 e Emoção 1.
Rap – Talvez um dos mais específicos, pois as músicas costumam ter versos separados para o rap. Assim, pessoas nesse papel tem uma voz poderosa, fala rápida e destruidora. Destruição 1 e Potência 1.
Visual – Em contrapartida ao de cima, este é o papel mais abrangente; pessoas nesse papel são a cara do grupo, seu rostinho bonito, conhecendo muito de moda, maquiagem e afins. Precisão 1 e Razão 1.
Os Papéis não são restritivos em quesito nenhum. Ser Visual não diz que esta é a única bonita no grupo ou que só a Dançarina sabe dançar. Todas no grupo cantam, dançam e tenho certeza que serão adoráveis.

E os Equipamentos?

Durante o filme cada uma das três principais tem suas armas características, que elas invocam magicamente. Como elas também são a forma com a qual elas lidam com demônios pela maior parte do tempo, é necessário ter algo aqui.

Para isso será usada uma regra opcional do jogo (pode ser vista a original aqui junto com várias outras).
Com o gasto da reserva de recursos, você invoca sua arma mágica que dá um bônus nos testes em que ela é cabível por toda a cena; o bônus é igual aos recursos gastos (gastando 2 de recurso ganha +2 nos testes).

Os Encantos

Os Encantos de suas personagens serão exatamente sua arte! O canto e/ou a dança, sendo a principal força das caçadoras contra os demônios. Ou seja, suas reservas de vontade serão gastas em momentos de grande emoção, expressando-os pela música.

E sim, você ainda vai precisar de um objeto seu compartilhado com a personagem, o canalizador de encantos, que conecta o mundo do jogo com o mundo real.

Jogando Campanhas

Caso queira jogar mais do que uma sessão, eu tenho algumas recomendações. Primeiro que a campanha seja sobre o grupo começando a carreira, talvez como sucessoras das próprias Huntrix. Com isso pode aproveitar e mexer com a mecânica de Carreira, fora ter antagonistas e objetivos claros: impedir que Gwi-ma e seus lacaios roubem almas de humanos enquanto tentam revitalizar o Honmoon.

Minha segunda recomendação é tentar pesquisar sobre o folclore coreano, para ter ideias para além do filme. O filme apresenta o lado espiritual de forma bem simplificada e eficiente, não tem nada de errado em seguir com o que foi apresentado no filme. Todavia, saber um pouco a mais nunca é ruim e pode te explicar alguns aspectos do próprio filme; por exemplo eu descobri que o nome Saja Boys vem deles serem Jeoseungsaja, que seria algo como ceifadores/mensageiros da morte (com mensageiros bonitos assim é difícil ignorar a mensagem).

Infelizmente não achei muita coisa em português sobre xamanismo coreano, porém se tiver alguma habilidade com inglês tem o site 메인 – 한국민속대백과사전, com postagens e livros (no plural mesmo) sobre o folclore, lendas e mitologia.

Boa jogatina ^^

Um agradecimento especial ao meu amigo Alex, especialista em kpop, que me ajudou com os papéis.

Meus sentimentos para todas, todos e todes que, infelizmente, tem que esconder suas marcas demoníacas com medo de exclusão e opressão. Um dia encontrarão, se ainda não encontraram, amigues de verdades que te aceitarão.


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Quando o Vilão Vira Aliado – Aprendiz de Mestre

No universo do RPG, somos constantemente desafiados a criar narrativas que cativem e surpreendam. Recentemente, refletimos sobre a importância de aprender com as sessões que não fluem tão bem, transformando falhas em oportunidades de crescimento. Essa capacidade de adaptação e aprendizado é crucial não apenas para o mestre, mas também para o próprio tecido da história que se desenrola à mesa. Afinal, assim como uma sessão pode tomar rumos inesperados, os personagens e suas lealdades também podem se transformar de maneiras que desafiam as expectativas iniciais. É nesse ponto que a arte de narrar mudanças de lado com coerência se torna uma ferramenta poderosa, permitindo que traições, redenções ou alianças inesperadas surjam de forma orgânica, sem parecerem forçadas. Como mestres, somos os arquitetos dessas reviravoltas, e a habilidade de orquestrá-las com maestria pode elevar uma campanha de boa a inesquecível. Este artigo explora as nuances de quando o vilão vira aliado, oferecendo dicas para surpreender e engajar o grupo sem perder a lógica do mundo, seja por cansaço, ritmo arrastado ou conflitos em jogo.

A Semente da Dúvida: O Início da Transformação

Para que uma mudança de lado pareça crível, o mestre precisa plantá-la com antecedência e cuidado.

Afinal, um vilão não se transforma em aliado da noite para o dia sem um motivo sólido. É necessário inserir a semente da dúvida de forma sutil, por meio de pequenos gestos, informações conflitantes ou dilemas morais que desafiem as convicções do personagem. Por exemplo, um necromante inicialmente apresentado como uma ameaça implacável pode hesitar ao sacrificar inocentes durante seus rituais. Já um tirano, tido como cruel e impenetrável, pode ser flagrado em um momento de fragilidade, revelando uma motivação mais profunda e complexa do que a simples busca por poder.

Além disso, essa construção gradual oferece aos jogadores a chance de notar nuances e especular sobre possíveis reviravoltas. O próprio personagem, aos poucos, passa a se confrontar com as contradições internas, o que torna a virada mais natural e impactante. Portanto, quando o momento da mudança finalmente chegar, ele parecerá coerente com a jornada trilhada até ali, e não apenas uma surpresa conveniente para a trama.

Motivações Complexas: Além do Bem e do Mal

Vilões unidimensionais costumam ser fáceis de odiar, mas quase impossíveis de redimir. Para torná-los mais interessantes, ofereça motivações que vão além da simples sede por poder ou desejo de destruição. Em vez disso, talvez ele lute por uma causa que, embora nobre em essência, se perca em métodos questionáveis. Alternativamente, ele pode ter sido manipulado por uma força maior, o que transforma sua “vilania” em mera fachada para algo mais profundo.

Por exemplo, considere um antagonista que busca poder apenas para proteger aqueles que ama, mesmo que, para isso, precise oprimir outros. Ao revelar essa motivação, você inevitavelmente transforma a percepção que os jogadores têm sobre ele. Isso não só aprofunda o personagem, mas também convida o grupo a refletir sobre moralidade, justiça e consequências. Portanto, ao criar um vilão com camadas, você abre espaço para possíveis redenções, alianças inesperadas e conflitos emocionais genuínos na sua campanha.

O Ponto de Ruptura: O Gatilho da Mudança

Todo arco de personagem exige um ponto de ruptura  um momento decisivo que impulsiona a mudança. Para um vilão que muda de lado, esse ponto pode surgir por meio de uma traição interna, como ser abandonado por seus aliados, ou ainda pelo colapso de um plano que o obriga a reavaliar suas crenças. Além disso, um ato inesperado de compaixão vindo dos heróis pode funcionar como catalisador.

Por exemplo, imagine um assassino de aluguel que recebe a missão de eliminar uma criança inocente. Ao se recusar, ele não apenas desobedece, mas também se torna o novo alvo da própria guilda. Esse tipo de virada não apenas marca o início de uma transformação, como também precisa carregar um peso emocional significativo. Portanto, certifique-se de que esse momento seja forte o bastante para redefinir a trajetória do personagem e gerar impacto tanto na narrativa quanto nos demais jogadores.

Consequências e Sacrifícios: O Preço da Redenção

A mudança de lado nunca vem sem consequências. O personagem precisa enfrentar as repercussões de suas escolhas anteriores ou da nova aliança que assume. Por isso, é essencial que ele pague um preço, seja por meio da perda de poder, da perseguição por antigos aliados, ou até mesmo por meio de sacrifícios pessoais difíceis.

Por exemplo, um ex-líder de culto que decide trair sua seita pode ser forçado a viver nas sombras, fugindo constantemente daqueles que um dia o veneraram. Além disso, ele talvez precise abandonar tudo o que conhecia, incluindo entes queridos ou crenças profundas. Esses custos reforçam a seriedade da mudança e, consequentemente, validam sua trajetória. Assim, os jogadores percebem que a redenção tem um peso real, o que torna a transição muito mais significativa e impactante dentro da história.

A Prova de Fogo: Conquistando a Confiança

Mesmo após a mudança de lado, o grupo não oferece confiança imediata. O ex-vilão precisa conquistá-la por meio de atitudes concretas e significativas. Para isso, ele pode revelar informações cruciais, arriscar-se ao lado dos heróis durante um confronto intenso ou até mesmo se sacrificar por eles em um momento decisivo.

Por exemplo, um antigo espião que agora apoia o grupo talvez precise usar suas habilidades para desvendar uma conspiração que ameaça a todos. Nesse processo, ele coloca a própria vida em risco, não por obrigação, mas por escolha. Essa fase de provação, portanto, se torna essencial para que os jogadores aceitem a nova aliança de forma natural. Além disso, reforça o impacto emocional e narrativo da transformação do personagem, aprofundando os laços de confiança de maneira orgânica.

A Reação do Grupo: Gerenciando Expectativas

A maneira como os jogadores reagem à mudança de lado é tão relevante quanto a transformação do personagem. Naturalmente, você deve se preparar para ceticismo, desconfiança e até hostilidade por parte do grupo.

Portanto, ofereça espaço para que os jogadores expressem suas preocupações e inseguranças. Deixe que o personagem conquiste sua aceitação gradualmente, por meio de ações e interações significativas. Forçar uma integração instantânea, por outro lado, enfraquece a narrativa. A confiança, nesse contexto, precisa ser merecida.

Por exemplo, se um paladino faz parte do grupo, talvez ele enfrente sérias dificuldades para aceitar um ex-demônio como aliado. Essa tensão deve ser usada a favor da história, criando cenas cheias de dilemas morais, crescimento emocional e aprofundamento dos laços, ou rupturas inesperadas. Com isso, o drama ganha força e a história, mais densidade.

O Passado Assombra: Lidando com as Sombras

O passado de um vilão redimido nunca desaparece por completo. Mesmo após sua mudança, ele continua sendo assombrado por erros cometidos, pelas vítimas que causou dor ou por antigos inimigos que agora buscam vingança. Em vez de ignorar essa bagagem, aproveite-a para enriquecer a história.

Assim, essas sombras podem gerar ganchos valiosos para novas aventuras, além de aprofundar o desenvolvimento do personagem. Imagine um ex-general responsável por campanhas devastadoras em tempos de guerra. Certamente, ele acabará enfrentando sobreviventes que ainda carregam cicatrizes, físicas ou emocionais, de suas ações.

Dessa forma, cada reencontro com o passado se transforma em uma oportunidade narrativa. O personagem pode se redimir um pouco mais, enfrentar dilemas morais inesperados ou até ver seus atos antigos inspirando novas ameaças. O passado, afinal, não precisa ser apenas um fardo: pode se tornar o motor que impulsiona a nova jornada do personagem, e do grupo.

Novas Habilidades, Novos Desafios: Integrando o Personagem

Com a mudança de lado, o personagem não chega de mãos vazias. Ele traz consigo habilidades e conhecimentos únicos, que podem enriquecer significativamente as capacidades do grupo. No entanto, essas vantagens quase sempre vêm acompanhadas de novos desafios, e isso é justamente o que torna a narrativa mais interessante.

Por exemplo, um mago negro que agora luta ao lado dos heróis talvez domine magias poderosas e rituais esquecidos. Contudo, ele também pode enfrentar tentações constantes de usar esses antigos poderes de maneira questionável. E, além disso, o grupo pode não se sentir totalmente confortável com o tipo de magia que ele carrega.

Portanto, a integração desse novo aliado exige mais do que aceitar suas habilidades. É necessário estabelecer limites, explorar conflitos éticos e permitir que os outros jogadores reajam de forma orgânica. Assim, o equilíbrio do grupo se constrói com base no diálogo e na confiança gradual, o que fortalece tanto a mecânica de jogo quanto a profundidade narrativa.

A Coerência do Mundo: Sem Quebrar a Lógica

Interna Todas as mudanças de lado devem ser coerentes com a lógica interna do mundo. Se o mundo é rigidamente dividido entre bem e mal, uma redenção pode ser mais difícil de justificar. Se o mundo é mais cinzento, as transições podem ser mais fluidas. A história do mundo e as crenças de seus habitantes devem ser consideradas ao planejar essas reviravoltas. Uma sociedade teocrática que condena a magia negra pode ter dificuldade em aceitar um ex-praticante, mesmo que ele tenha mudado de lado.

O Legado da Mudança: Impacto a Longo Prazo

A mudança de lado de um personagem deve ter um impacto duradouro na narrativa e no mundo. Isso pode levar a novas alianças, a novas ameaças, ou a uma redefinição do que significa ser herói ou vilão. O legado dessa transformação pode ser explorado em futuras campanhas, mostrando como as ações de um único personagem podem reverberar por todo o cenário. A redenção de um vilão pode inspirar outros a questionar suas próprias lealdades, ou pode criar um novo inimigo ainda mais perigoso.

Conclusão

Narrar mudanças de lado com coerência é uma das ferramentas mais potentes à disposição de um mestre de RPG. Não se trata apenas de surpreender os jogadores, mas de enriquecer a narrativa, aprofundar os personagens e desafiar as percepções de bem e mal. Ao semear a dúvida, construir motivações complexas, criar pontos de ruptura impactantes e explorar as consequências e sacrifícios, é possível tecer reviravoltas que não apenas engajam, mas também ressoam com a lógica interna do mundo e com a jornada emocional dos personagens. Lembre-se, o objetivo não é forçar uma virada, mas permitir que ela floresça organicamente, transformando o vilão de ontem no aliado inesperado de amanhã, e vice-versa. A arte reside em fazer com que cada passo dessa jornada seja tão crível quanto emocionante, deixando uma marca indelével na memória de todos à mesa.

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MasterApp – Lançamento de Startup Gaúcha

Preparem seus dados virtuais! A Room Company, uma startup gaúcha pioneira, acaba de entrar para a história do RPG de mesa no Brasil com o lançamento do MasterApp. A plataforma é a primeira do país a oferecer soluções digitais completas para o hobby. E já está fazendo sucesso com mais de 2 mil usuários ativos em apenas quatro meses.

O MasterApp se destaca por sua flexibilidade: ele pode ser usado tanto para sessões de RPG online quanto para aquelas épicas rodadas presenciais com a galera na mesa. Além de fortalecer a comunidade, a iniciativa coloca o Brasil no mapa da inovação para jogos analógicos.

A Room Company, que já se consolidou como uma promessa no ecossistema de startups, vai apresentar as novidades do MasterApp no evento Diversão Offline. Mostrando todo o potencial dessa ferramenta 100% brasileira. O futuro do RPG de mesa digital é promissor, e ele já está sendo escrito aqui no nosso quintal!


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Missão para Brazil’s Struggle, o RPG – Tudo menos D&D #17

A partir desse mês, essa coluna irá propor aventuras para meu RPG autoral, o Brazil’s Struggle, disponível num preço camarada aqui. No caso específico do Brazil’s Struggle, as aventuras são chamadas de “missões”, dada a natureza do tema do jogo. Deve-se notar que o jogo se passa num Brasil distópico (dá o “z” ao invés do “s”) e, ainda que inspiradas por momentos reais, nomes de pessoas, locais e situações parecidas são mera coincidência.

MISSÃO: CERIMÔNIA DE POSSE

Contexto

O governador Teodoro Sucupira Jr. foi reeleito pela terceira vez. Órgãos de transparência da comunidade internacional apontam fraudes que vão de votos de eleitores já falecidos a ameaças e compra de votos. Nada disso estraga a festa da posse que está planejada para a próxima segunda-feira. Os telejornais e portais de notícias mostram fotos alegres do governador com sua esposa, 45 anos mais nova, a supermodelo ucraniana Ekaterina Gurchkin, e seu vice-governador, o senil Coronel Andrada Fontes.

A célula está reunida no seu típico esconderijo (os jogadores podem escolher um local simples, como a casa herdade de algum parente ou prédio abandonado) enquanto recebem ordens da Mesa Central (caso sejam a Mesa Central, a Missão foi escolhida, pois o governador é uma presença política e econômica a qual age ativamente contra o Movimento Revolucionário).

Tal mensagem da Mesa Central pode ser uma mensagem criptografada através da DeepWeb, uma carta de mala postal ou uma gravação em tecnologia retro, a exemplo de fita cassete. O conteúdo esclarece que é necessária a eliminação do governador para afetar o status quo nesse estado do Brazil.

Os revolucionários tem cinco dias até a posse, sabendo que a mesma se dará no Palácio Itatinga, sede do governo estadual. Assim os revolucionários entram na etapa de Pré-Missão, na qual suas atitudes podem englobar:

  • Descobrir a planta do palácio;
  • Conhecer o sistema de CFTV (Circuito Fechado de Televisão, o clássico monitoramento por câmeras, recebido por uma empresa terceirizada em outro prédio, ou ainda numa sala segura local);
  • Planejar formas variadas de eliminar o alvo (envenenamento, tiro, garrote…);
  • Disfarces para se infiltrar na festa da posse;
  • Contatar aliados fora do Movimento Revolucionário;
  • Rotas possíveis de fuga.

Personagens do Narrador

Note que o mestre terá oportunidade de usar personagens do convívio dos personagens jogadores, de rivais de outras células até ajudantes que concordam com a luta revolucionária, mas não querem integrar o Movimento. A seguir vou explicitar alguns personagens para que você narrador possa usar, caso os jogadores não tenham criado indivíduos que sejam relevantes para essa missão:

  • Dona Cleide, uma senhora preta, de cabelos grisalhos, entrando na terceira idade, é uma copeira de longa data do palácio do governo. Querida por todos os funcionários, realiza seus serviços com alegria, cantarolando músicas gospel. Entretanto, ela esconde uma forte amargura e desprezo pelas autoridades por ter tido um filho que foi preso como traficante só por morar em área de comunidade. Ela pode ser um contato para permitir a entrada de revolucionários pela cozinha, bem como explicar sobre as principais entradas e corredores do palácio;
  • Paulo Ventura, homem de meia idade calvo e pardo, na casa dos 40 anos, é o típico pai de família brasileiro, que luta para levar o pão de cada dia. Há alguns anos conseguiu um posto de trabalho estável, com carteira assinada na empresa de segurança que dá apoio à polícia estadual, a qual é responsável pela guarda do palácio do governo. Porém, recentemente, Ventura está taciturno e reativo, pois sua avó faleceu num hospital gerenciado pelo governo de Sucupira Jr. Ventura culpa o governador diretamente pelo ocorrido, e é capaz de fazer vista grossa para conseguir qualquer tipo de vingança;
  • Borges, um jovem de cabelos sebosos e roupa social amarrotada, é um ávido simpatizante da causa revolucionária. Através das redes sociais conheceu as ações do Movimento Revolucionário, e, apesar da pesada propaganda do Leviatã, entendeu os motivos da revolta. Através da área de Tecnologia da Informação do palácio do governo pode ajudar os personagens jogadores acerca da agenda interna do evento de posse.

Hora da Ação

Com os preparativos que foram possíveis fazer nos dias anteriores cabe aos revolucionários colocar os planos em ação na Missão em Si, na qual recomendo:

  • Coloque dificuldades pontuais e imprevistos, a exemplo do governador não estar sozinho no banheiro VIP;
  • Incentive formas criativas de colocar os planos na prática, personagens não jogadores também cometem erros, deixam de conferir credenciais, etc.;
  • Nao deixe o clima do local fácil, enfatize segurança armada, câmeras e outras complicações;
  • O mundo continua girando, mesmo quando os personagens jogadores não estão olhando. Assim personagens se movem entre salas, deixando-as vazias ou de repente juntando algumas pessoas em banheiros ou corredores;
  • Se houverem personagens esperando problemas, faça surgir problemas – não custa muito deixar rolar uns disparos.

Pós Missão

Agora, de volta à casa segura, a célula pode respirar fundo e o narrador pode desenvolver a partir das consequências do que deu certo e o que deu errado na Missão em Si, agora na etapa de Pós Missão:

  • Pessoas se feriram? (Além do Sucupira Jr., é claro) Narre os feridos tendo sido levados a hospitais, com ferimentos graves ou até óbitos;
  • De que forma políticos alinhados com o Leviatã capitalizaram o atentado ao governador reeleito?
  • Personagens jogadores se machucaram? Precisam de ajuda médica?
  • A Mesa Central entra em contato para receber um relatório detalhado?
  • Os personagens jogadores foram comprometidos? Seguranças podem fazer retratos falados ou fornecer dvd’s de gravação dos revolucionários nos corredores do palácio?
  • Distribua Pontos de Revolução de acordo com as ações que os personagens jogadores tomaram no decorrer da Missão em Si.

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