Gangrel – Clãs de Vampiro: A Máscara

De todo o livro básico, acho que os Gangrel são o clã mais fácil de entender para um iniciante. “Nômades mais próximos à vida selvagem e à sua natureza bestial do que à civilização.” Não é muito difícil de errar o tom. Isso não quer dizer que são um clã simples e sem potencial interpretativo. Hoje vamos falar um pouco mais sobre os Exilados.

“Eu quero uma casa no campo…”

Não é raro ver jogadores ignorando a vida mortal dos seus personagens durante a criação mas, especialmente no caso dos Gangrel, isso tira muito o brilho do personagem. É fácil imaginar dez malkavianos diferentes apenas lendo as descrições do clã, mas um gangrel completamente apoiado no sobrenatural é apenas mais um vampiro que mora no mato.

Gangrel abraçam pessoas já com alguma propensão a uma vida afastada da civilização e da sociedade. Fazendeiros, montanhistas, ex-detentos, mendigos, pesquisadores da vida selvagem, cowboys especialistas em runas nórdicas e até pagãos e wiccanos podem ser cogitados como um potencial membro do clã (sim, nem toda bruxa precisa ser Tremere).

Os gangrel também buscam os corajosos e aptos à sobrevivência. Portanto, mesmo que um membro do clã escolha abraçar um acadêmico pesquisador da vida selvagem, por exemplo, só o fará se perceber nele coragem e aptidão necessárias.

Existe também no clã a prática de abraçar como punição. Insultos, invasões e outras formas de ofensa podem levar a este tipo de coisa. Isso pode gerar membros do clã completamente diferentes do esperado, mas estes vampiros terão muita dificuldade de serem aceitos pelo resto do clã.

Chapéu de cowboy? 80% de chance de ser Gangrel.

Besta

Os Gangrel são o clã mais próximo da própria Besta e de sua natureza animalesca. Isso não quer dizer apenas que os membros deste clã são mais propensos a “curtir a onda” do frenesi ou que manifestem mais comportamentos selvagens que seus pares de outros clãs. Há uma discussão mais profunda em jogo: a natureza da Besta (com o perdão do trocadilho).

Podemos dizer que para a maioria dos vampiros a Besta é uma manifestação sobrenatural. Uma espécie de demônio que toma conta do corpo do vampiro de tempos em tempos. É uma força negativa que se coloca entre a mente ainda racional do vampiro e o mundo ao seu redor.

Para um gangrel, a Besta não é exatamente isso. Apesar deles serem tão suscetíveis ao frenesi quanto qualquer outro, os gangrel aceitam e assimilam a natureza da Besta. Para eles, a Besta não deve ser visto como um demônio ou algo desse tipo, mas apenas como mais uma manifestação da natureza.

Entender essa dicotomia é, na minha opinião, a chave para o roleplay de um membro deste clã. Assim como um ser humano não consegue dominar o oceano, um vampiro é incapaz de dominar a Besta. Contudo, é possível aprender a navegar.

“Para mim, a besta é só uma desculpa pra fazer pose de Batman.”

Solidão

Outro paradoxo na construção de um gangrel é a relação entre indivíduo e sociedade. Os Animais insistem em bater na tecla que são solitários, individuais, territorialistas e nômades, mas ao mesmo tempo, são também um dos clãs fundadores da Camarilla e possuem uma estrutura social bem estabelecida (com ritos de passagem para membros mais novos do clã, reuniões, representação na Primigênie e até Justicares).

A verdade é que, até pode ser legal pensar em um gangrel nômade, que vive em sua motocicleta viajando de cidade em cidade, mas esse tipo de personagem, na prática, é injogável. Imagine se, quando o Narrador começa a apresentar os ganchos e conflitos da crônica, o gangrel diz “beleza, pego minha moto e vou embora”.

Assim, ainda que essas informações fiquem legais no background, é importante criar vínculos para seu gangrel. Território, família (mortal ou cainita) e até espiritualidade podem ser opções interessantes para isso. Sua vida nômade pode, inclusive, se manifestar nisso: uma cria perdida, um familiar mortal de outra cidade que aparece de repente, um velho xamã que tinha despertado seu desejo de viajar agora precisa de ajuda, um ex-colega de cela do tempo de prisão, tudo isso são maneiras de trazer para a crônica estes elementos “da estrada” do exilado, seja ela física ou metafórica.

A série Vikings constrói muito bem essa ideia. Apesar dos personagens estarem em constante migração, eles mantém suas raízes.

Animais bestiais errantes ou fazendeiros e pesquisadores da vida selvagem, a gama de opções para este clã é muito mais ampla do que pode parecer inicialmente. Não esqueça também de ver as dicas de roleplay do Raphael Domingues.

Bom jogo a todos!

Nosferatu – Clãs de Vampiro: A Máscara

Um dos clãs mais clássicos e mais subestimados do jogo. Vejo muitos jogadores, iniciantes e veteranos, com dificuldade para superar os estereótipos que envolvem os Nosferatu. Vamos sair dos esgotos e tentar entender tudo o que este clã tem para oferecer.

Clã com Nome de Filme

Provavelmente muitos já conhecem a história, mas o clã recebe o nome em homenagem ao filme alemão de 1922 Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, uma adaptação não-autorizada do Drácula de Bram Stoker. Inclusive as artes oficiais do jogo lembram muito o Conde Orlok.

Dá pra sacar que o defeito do clã foi inspirado diretamente em Orlok. A aparência do vilão, com características de rato, foi desenvolvida para parecer repulsiva (que, misturado a típicos traços judeus, como o nariz aquilino, indicam fortes tendências antissemitas do diretor, mas isso é outra história). Mais tarde, o jogo livrou-se do antissemitismo e extrapolou este conceito para uma aparência completamente monstruosa. Na edição mais atual, o V5, o defeito do clã foi alterado. Ao invés de ter uma aparência monstruosa, os Nosferatu começam com o defeito Repulsivo. Achei interessante, pois duas razões: piora com a idade (como todos os defeitos de clã em V5) e dá mais possibilidades ao jogador.

“Nosferatu quebram a máscara?”, você pergunta. Bom, Thomas Hutter viu isso e levou uns dois dias pra desconfiar que era um vampiro.

Esgotos

Certo, mas o que faz de um nosferatu um Nosferatu? Junto com os Malkavianos, os Nosferatu são os vampiros mais definidos pelo seu defeito. No caso dos Nosferatu, isso se manifesta na maneira como eles precisam evitar, mais do que qualquer outro membro, contato com humanos. Sua própria aparência afasta a convivência com mortais.

É daí que vem a associação dos Horrores com esgotos e outros lugares abandonados. Claro que isso varia muito de membro para membro. Naturalmente, nosferatu que já possuíam alguma propriedade que os permitisse viver longe dos olhos humanos vão tirar proveito disso (o próprio Conde Orlok morava em um castelo). Contudo, nosferatu que moravam em comunidades, ou mesmo em edifícios com muitas pessoas, podem se ver forçados a abandonar suas antigas propriedades e encontrar um local afastado.

Outra maneira interessante de mostrar essa faceta do clã é estender esta repulsividade para o domínio. Um porão mofado, ou em uma casa entupida de tralhas (como naquele reality show Hoarders) podem ser refúgios excelentes para um nosferatu em termos interpretativos.

Contatinhos

Os Nosferatu ocupam o papel de espiões e informantes dentro da sociedade vampírica. Por incrível que pareça, é um clã extremamente social. Mas não como os Toreador que buscam uma espécie de humanidade perdida ou como os Ventrue que buscam dominar a sociedade mortal. O círculo social dos Horrores é composto quase exclusivamente por outros vampiros, afinal, Nosferatu são investigadores, e conversas cara-a-cara são uma parte importante do trabalho. Por isso, não é raro ver nosferatu no Elísio, trocando informações com membros do alto escalão vampírico. Inclusive, nosferatu dão ótimos Xerifes!

A segunda camada da rede de informações Nosferatu, é claro, são os membros do próprio clã. Nosferatu são práticos, então, muitas vezes, acabam construindo uma rede de informações que vai além da própria seita em que se encontram (Camarilla, Sabá ou Anarquistas). Isso não quer dizer que o clã inteiro é uma família feliz, mas que é importante estar aberto para negociações pontuais. Mesmo a ShreckNet, nunca ficou restrita aos Nosferatu da Torre de Marfim.

“Contatos? Sim.”

Humanidade Perdida

Apesar de tudo, lidar com humanos é difícil e, em certa medida, doloroso para os Nosferatu. Ao ser abraçado, um nosferatu é violentamente arrancado da sociedade mortal. Ainda que seja possível utilizar os poderes da Ofuscação para buscar algum tipo de interação com humanos, um nosferatu sempre vai ver a si mesmo como algo a parte.

Inclusive, mesmo poderes da Ofuscação capazes de disfarçar o vampiro, geralmente funcionam fazendo-o ser menos memorável, menos presente. Invisibilidade Social pode ser um tema muito interessante de ser trabalhado em um personagem deste clã e cheio de potencial interpretativo. Até porque a maneira com que cada membro lida com esta perda é única.

Todo o arco da Arya Stark na Casa do Preto e do Branco mostra alguns temas parecidos. Inclusive ela adquire poderes bem semelhantes a vários níveis de Ofuscação.

Personagens sociais repulsivos ou investigadores porradeiros, supere seu preconceito e abrace todas as possibilidades que os Horrores tem a oferecer na sua próxima crônica.

Bom jogo a todos!

Ventrue – Clãs de Vampiro: A Máscara

Fundadores da Camarilla, os Ventrue são um dos clãs fundamentais de Vampiro: A Máscara. Hoje vamos falar um pouco sobre estes recitadores de linhagens ambiciosos e sobre o verdadeiro poder entre os vampiros.

Poder

Ventrues são quase sinônimo de Poder. Assim, com “P” maiúsculo mesmo. Porém, muitas vezes ficamos apegados à imagem do empresário corrupto vestindo um terno italiano no topo de um prédio comercial com fachada de vidro (e que jogue a primeira pedra o narrador que nunca criou um NPC exatamente assim).

Para tentarmos fugir deste estereótipo, precisamos entender como funciona a dinâmica de poder dentro da sociedade vampírica e, por mais que os Ventrue busquem influência política e capital, existe um tipo de recurso muito mais valioso para os vampiros, principalmente para os anciões, e que os Patrícios sabem explorar muito bem: favores.

Para um ser que vive duzentos, trezentos ou mil anos, dinheiro é algo que vai e volta. É bem possível que um ventrue que foi senhor feudal na França do século XII tenha perdido muito prestígio político dentro da sociedade mortal ao longo de 9 séculos. É por isso que, ao favorecer outro cainita durante um momento de crise, um ventrue consolida seu poder com a possibilidade de cobrar o favor mais tarde. Às vezes séculos mais tarde.

Eu poderia ter usado uma imagem de Tywin, Don Corleone ou qualquer outro personagem. Mas, para mim, Littlefinger é o personagem que melhor representa esta faceta dos Ventrue. Ele sai praticamente do nada e conquista sua posição na sociedade através de negociações e troca de favores.

O Jogo das Influências

É negociando favores que os Ventrue se mantém onde estão. Em todos os textos até agora eu ressaltei a importante distinção entre os vampiros e a sociedade mortal. Imagine, por exemplo, um sangue-azul em Berlim. Ele pode ter tido seus bens e propriedades destruídos com o final da Segunda Guerra, suas terras confiscadas com o início do regime socialista e sua influência destroçada com a reunificação da Alemanha. Mesmo que ele tenha se tornado um morador de rua sem nenhum dinheiro, ele provavelmente ainda contará com uma rede de favores e influências sobre membros-chave da sociedade cainita para reafirmar seu status.

Com isso, o clã consegue exercer sua influência sobre uma parte generosa da sociedade mortal. Assim, o empresário lá no alto do prédio que citamos no começo provavelmente conta com uma cria que controla a máfia local, outra na polícia, um carniçal de confiança na câmara de vereadores, outro na câmara dos deputados, outro infiltrado naquela igreja evangélica que é um domínio em disputa com o nosferatu, e assim por diante. Isso nos leva ao próximo ponto.

Nem todo ventrue precisa usar terno e ficar no alto de um prédio olhando para a cidade. Existem muitas formas interessantes de exercer seu poder.

Linhagens

De todos os clãs, os Ventrue são os que mais se importam com a linhagem. Isso porque, além das óbvias conotações nobiliárquicas, também é uma maneira dos membros estarem a par de todas as conexões dentro da vasta rede de influências que o clã construiu ao longo dos séculos. Quando Gazu, cria de Nádia, cria de Olsen, cria de Ruth se apresenta, os mais atentos lembrarão que Nádia construiu sua influência na igreja ortodoxa com a ajuda de Sandiego, que deve um favor a Perez que, por sua vez, ajudou Ruth e outras duas crias a fortalecer seu domínio no Grande Expurgo no começo do século passado. Desta forma, quando alguém precisar cobrar ou pedir um favor por conta de uma disputa com o primigênie Lasombra pelo domínio das docas, terá uma ideia de com quem falar.

Isso também é um motivo extremamente sólido para os Ventrue respeitarem instituições como a Camarilla. Dentro da seita, é função da Harpia manter o registro entre todos os favores pedidos, cobrados e trocados entre os membros. Ainda assim, ventrues anarquistas ou antitribu vão dar um jeito de manter estes registros se não for uma prática comum dentro de seu grupo.

Jovens

A vida para o neófito ventrue é dura. Patrícios costumam abraçar humanos ambiciosos, e esta intricada rede imortal de títulos e favores costuma ser esmagadora para o jovem sangue-azul. Vampiros antigos buscam consolidar seu poder e expandir cada vez mais seu domínio e, por isso, costumam esperar certa obediência de suas crias em troca de alguma autonomia sob sua proteção.

Um neófito ambicioso pode ter que esperar décadas, senão séculos para presenciar a destruição de um ancião do seu clã. E, ainda assim, verá seu território ser disputado e repartido entre muitos outros vampiros que estão acima dele na hierarquia.

Isso gera uma tensão interna muito interessante entre eles, além de um gancho interpretativo muito legal. “Você foi abraçado por ser um jovem ambicioso e cheio de potencial, agora sente aqui e obedeça, cabritinho.” A liberdade, para o ventrue, vem com um preço, muitas vezes alto, pois ele está entre a subserviência e a possível ira de um ancião.

Responda rápido: quantos ventrue tem nesta imagem?

Um clã que é quase sinônimo de poder e que explora lados obscuros da política e da sociedade cainita, o Clã dos Reis tem muito a oferecer para a sua próxima crônica.

Abraço e bom jogo a todos!

Brujah – Clãs de Vampiro: A Máscara

Falar dos Brujah é falar de política. Um clã de filósofos e ativistas marcado pela maldição da fúria tem um potencial imenso para roleplay quando bem jogado. Para isso, precisamos arranhar um pouco o verniz de punks valentões e mergulhar em tudo o que este clã tem a oferecer.

Movimento

Se há uma coisa que pode ser utilizado como base para definir o clã, é o inconformismo. Do jovem ambientalista iconoclasta até o acadêmico idealista citando Sartre, há um desejo de mudança, de deixar para trás o status quo e abraçar o potencial de uma nova era. Das discussões filosóficas nas praças de Atenas até a Revolução Russa e a ascensão do comunismo no mundo durante o século XX, passando pelo paraíso cainita em Cartago e pelos Estados Livres Anarquistas, fazer a roda girar é a potência do clã. Estar parado é morte. Esta sede por mudanças foi o que fez os Brujah, juntamente com outros seis clãs, fundarem a Camarilla. Também foi o que levou-os a abandoná-la depois.

É importante entender que, apesar de sua maldição, os Brujah são, fundamentalmente, um clã de filósofos. Existe dentro do clã a distinção entre Idealistas e Iconoclastas, sendo os primeiros os mais preocupados com a parte ideológica e intelectual e os últimos a massa de manobra composta, principalmente, por vampiros mais jovens e mais impressionáveis. Ainda assim, por mais que um neófito impulsivo possa abraçar uma causa apenas para justificar seus atos de violência, provavelmente ele terá total convicção sobre aquilo que está fazendo.

O que quero dizer é que, ainda que brujahs mais violentos possam abraçar práticas de grupos como FARC, IRA, ETA ou Baader-Meinhof, eles provavelmente o farão fundamentados na ideologia de pensadores ou filósofos do clã – mesmo que corra o risco de ser uma versão diluída e maquiada do seu verdadeiro significado.

“A história da sociedade cainita é a história da luta de classes!”

Política: Humanidade x Cainitas

Embora seja possível traçar paralelos entre movimentos políticos humanos com as causas Brujah, existe uma distinção clara entre a sociedade mortal e a sociedade vampírica. É perfeitamente possível que um brujah anarquista seja extremamente radical contra o domínio dos anciões sobre os neófitos mas não veja problema em escravizar mortais.

Conforme a humanidade de um brujah diminui, esta distinção fica cada vez mais intensa. Cartago, o paraíso cainita fundado pelos Brujah, muitas vezes é descrita por outros matusaléns como um lugar de cultos de sangue e sacrifícios onde os seres humanos viviam aterrorizados.

“Bons tempos.”

Filosofia & Fúria

A parte mais difícil de interpretar um brujah é justamente manter este equilíbrio entre estas duas coisas. Pode parecer contraintuitivo imaginá-las caminhando juntas, mas lembre-se que a determinação e a fé em uma ideia, somadas à indignação perante o status quo da sociedade são motivadores poderosos para despertar motivações inflamadas para seu personagem.

Temos na ficção alguns exemplos bem interessantes para ilustrar esta ideia. Em V de Vingança um anarco-terrorista explode o Old Bailey como parte de sua luta contra um governo fascista, enquanto Clube da Luta (SPOILER) nos mostra a ascensão de um grupo terrorista que se envolve em atos de subversão e violência anticorporativistas e anticapitalistas. Mas um exemplo bem interessante é o capitão James Flint, de Black Sails, um pirata que nutre um ódio ardente e violento contra o Império Britânico. Um dos personagens mais complexos e fascinantes que já vi numa série de TV.

Sério, esse cara é totalmente um Brujah.

Filósofos, pensadores e ativistas, os Brujah são um clã fascinante com um potencial imenso para interpretação. Abrace a fúria dos Reis-filósofos!

Bom jogo a todos!

Toreador – Clãs de Vampiro: A Máscara

Afirmo, sem muito medo de errar, que o clã Toreador é o mais incompreendido entre os clãs da Camarilla. Chega a ser triste vê-los reduzidos a mulheres hipersexualizadas e homens afeminados. Hoje vamos tentar destrinchar um pouco melhor aqueles que são os mais humanos entre todos os vampiros.

Hedonismo

Em praticamente todas as edições, uma das principais características do clã sempre foi sua relação com a arte e a beleza. A essência dos Toreador está tão entrelaçada com a busca pela beleza que eles sofrem fisicamente (e mecanicamente) em sua ausência. É fácil reduzir isso a uma simples obsessão luxuriosa por bens materiais e belas companhias, mas a experiência estética de um toreador pode ser muito mais abrangente do que isso.

Toda subcultura é ligada por uma experiência estética, e ninguém entende isso melhor que os Toreador. Desde as roupas pretas cheias de tachinhas e spikes dos metaleiros até as fantasias elaboradas dos cosplayers, tudo isso pode ser absorvido e transformado pelo olhar de um toreador. Além disso, é natural também projetar sua visão artística em experiências ditas mundanas. Um toreador pode assistir um humano preparar uma xícara de chá – que pode ser tanto uma jovem maiko em uma intrincada cerimônia japonesa quanto um designer acordado de madrugada preparando um chá verde para ficar acordado e cumprir sua deadline – e extrair um profundo significado filosófico e estético dessa experiência. Toreadores com a Humanidade já desgastada podem extrair o mesmo tipo de prazer de uma sessão de tortura ou até mesmo de um homicídio.

Alguns só querem curtir a não-vida mesmo, certo, srta. Anabelle?

Empatia

Os Toreador, sendo o mais social dos clãs, têm potencial para tornarem-se aliados quase naturais de qualquer outro. Isso se reflete na escolha de suas disciplinas – Presença e Auspicius – mas também na própria compreensão estética que define quem está à sua volta. Desde teorizar com o malkaviano sobre como a metanarrativa pós-moderna de Monty Phyton influenciou Deadpool, até montar uma banda punk com o brujah. O importante é que além de pensar em riffs furiosos para as letras contra o poder estabelecido, o toreador também estará pensando em como inflamar os sentimentos do neófito ventrue que está frustrado com a impossibilidade de crescer dentro da rígida hierarquia do clã.

Se os Ventrue são a espinha dorsal da Camarilla, os Toreador são o coração. E isso só é possível por conta dessa versatilidade. Um Toreador consegue transitar entre praticamente todas as situações sociais, passando por reuniões sindicais dos Brujah, reuniões empresariais dos Ventrue, rituais herméticos dos Tremere e o que mais for necessário (contudo, entrar no esgoto para encontrar o primigênie nosferatu talvez esteja um pouco fora dos limites do aceitável para o toreador médio).

Esta capacidade de empatia, somado ao ímpeto de vivenciar novas experiências são o grande fio condutor quando se está interpretando um toreador. Isso nos leva para o próximo ponto.

Sexo e a experiência humana

Escrevi no começo do texto que os Toreador são os mais humanos entre os vampiros. Isso não significa um nível alto em Humanidade, mas sim a busca pela experiência humana. A busca por sensações, emoções e prazer que despertem uma fagulha de vida no coração inerte incitam no toreador uma tendência de envolver-se emocionalmente – e fisicamente – com seres humanos (e até outros vampiros) à sua volta. O nível de Humanidade pode até cair, mas a busca pela sensação e pela experiência só aumenta com o passar dos séculos, transformando-se em desejos de domínio, controle e até violência física e psicológica.

Lestat é o Toreador prototípico, mas, infelizmente, muita gente só entende a superfície disso.

Arte e Transgressão

Para mim, o ponto mais incompreendido do clã é a relação com a arte enquanto força transgressora. Em muitos aspectos, isso depende da idade do vampiro e da relação com a arte na sociedade que ele viveu. É natural que um ancião florentino abraçado no século XIV torça o nariz para um Banksy, mas a grande maioria dos toreadores abraçados recentemente (isto é, do século XIX em diante), tenha consciência do papel dos movimentos artísticos na desconstrução de certos paradigmas sociais.

O ponto é que muitas vezes os Toreador são retratados como caretões que ficam ouvindo Bach e apreciando um Tintoretto pendurado no saguão do seu museu particular, mas provavelmente eles também estavam atrás dos movimentos de vanguarda que chocaram a sociedade a seu tempo, do impressionismo de Monet, passando pela música experimental de John Cage até o ativismo controverso de Ai Weiwei.

Ultrajante! Que tipo de arte degenerada esses impressionistas andam fazendo!?

De aristocratas elegantes até artistas engajados, a paleta de possibilidades dos Toreador é imensa! Esqueça os estereótipos e abrace a diversidade que este clã oferece.

Bom jogo a todos!

Malkavianos – Clãs de Vampiro: A Máscara

Algumas pessoas dizem que os Malkavianos são o clã mais difícil de se interpretar direito. Loucos, voláteis e, esquisitos, interpretar um malkaviano é sair da sua zona de conforto. Mesmo assim escolhi-os para dar início à nossa série sobre os Clãs de Vampiro: A Máscara por um simples motivo. É meu clã favorito.

Loucura

“O sangue amaldiçoado do clã poluiu suas mentes de forma que todos os Malkavianos do mundo são irremediavelmente insanos”. Esta trecho está no início da descrição do clã na saudosa versão Revisada (ou, como alguns chamam, 3ª Edição). Agora feche os olhos e pense num personagem insano da cultura pop. Pensou? Certo, agora pense em um que não é o Coringa.

Na humilde opinião deste que vos escreve, a dita loucura de um malkaviano NÃO é, necessariamente, o que define o personagem. Claro que temos personagens bem legais na ficção que são definidos por alguma condição mental, como Leonard Shelby de Amnésia, mas vamos tentar analisar a mente Malkaviana por um viés diferente desta vez.

Malkavianos não são burros. Eles sabem que são amaldiçoados, e mais do que isso: eles sabem do estigma que o clã sofre. É perfeitamente natural que um malkaviano tenha plena consciência da sua condição, a questão é como isso afeta a visão e as ações dele perante a sociedade vampírica.

Um exemplo bem legal é o filme Don Juan DeMarco (SPOILER). Don Juan é plenamente consciente do ambiente à sua volta. Ele sabe que está num sanatório, mas opta por manter, para si mesmo e para os outros, a ilusão de que é um herói mascarado.

A maldição do sangue é uma vulnerabilidade. Um malkaviano inteligente fará o que puder para escondê-la, e fingir-se de louco – uma loucura diferente da sua maldição verdadeira, digamos assim – é uma maneira singular de manipular as coisas a seu favor.

 Manipular coisas a seu favor, você disse?

Outros Caminhos da Loucura

Outro caminho possível é o malkaviano que procura disfarçar completamente sua loucura ou mesmo negar a natureza da própria maldição, talvez até fingindo ser membro de outro clã. Construir este tipo de personagem requer certa sutileza, buscando tiques e detalhes que façam vir à tona a maldição malkaviana sem entregar o jogo logo de cara.

“Certo”, você diz. “Mas e o Coringa?”

Um malkaviano “estilo Coringa”, se você quiser chamar assim, é o personagem que abraça a própria insanidade. É o malkaviano que teve seu mundo completamente destruído pelo Abraço e agora ele usa a maldição como uma espécie de vingança contra tudo e contra todos. Este tipo de personagem geralmente desceu alguns degraus em seu marcador de humanidade, ou até mesmo abraçou uma trilha. É o tipo de personagem que age como uma força da natureza, desenterrando tudo o que há de podre na sociedade a seu redor e vomitando de volta.

Interpretar este tipo de personagem é sempre um desafio. É muito fácil pender mais pro lado do “Fishmalk” (leia abaixo) do que de um Hannibal. Também é o tipo de personagem que precisa de uma boa conversa com o grupo para se ajustar à crônica antes de começar, pois um comportamento completamente errático e caótico pode facilmente atrapalhar a diversão de todo mundo. Quando bem utilizado, contudo, é certamente uma experiência inesquecível.

Se você conhece esta imagem, sabe do que eu estou falando.

Profecia

Um aspecto por vezes negligenciado é a faceta profética dos Malkavianos. Isto é, inclusive, bem representado pelos poderes disponíveis, como Auspícius ou Demência, ou mesmo a famosa Rede. Mesmo que o malkaviano não assuma a figura de oráculo ou profeta, externalizar essas visões ou rompantes acaba tornando-se parte da identidade do vampiro. Religiosos fiéis, políticos alarmistas, artistas atormentados (sim, nem todos os artistas do mundo são Toreador), cientistas e estudiosos que perseguem algum tipo de verdade são apenas alguns exemplos de como um vampiro poderia canalizar as habilidades proféticas do clã.

Malkavianos costumam ser os mais sábios dentre os vampiros. Eles são os únicos que enxergam a verdade inegável – que o Mundo é que está louco – e recusam-se a simplesmente aceitar que “as coisas são como são”..

Incorporar o estereótipo do malkavian sábio é essencial – é o que dá aquele tempero especial no personagem. Não precisa ser um sábio “certinho”, tipo “mestre no topo da montanha” (embora funcione, pois malkavianos vêm em todas as formas e sabores). A comediante stand-up que vai presa por atacar figuras públicas, o filósofo ácido que invade livrarias e queima os próprios livros para protestar contra o Capitalismo, o mendigo que recusa dinheiro como forma de demonstrar seu ponto de vista podem funcionar dentro do estereótipo de sábio tão bem quanto o menestrel ou a conselheira do Príncipe.

Put down that fish, Malk.

É muito fácil interpretar mal um malkaviano. Aquele estereótipo do louco bobinho, alívio cômico, que fica fazendo piadas e pregando peças pelo simples prazer de atazanar a não-vida dos colegas é conhecido como Fishmalk. É o tipo de personagem que, cedo ou tarde, vai acabar estragando a sessão e a diversão do grupo todo.

A melhor maneira de evitar um fishmalk é levar a loucura a sério, pelo menos um pouco. Pode ser tentador olhar um estereótipo de “louco fofinho” como a Harlequina, fazendo piadinhas sobre vozes na cabeça e tentar emular a maldição do sangue malkaviano baseando-se apenas nisso, mas ao olhar alguns dos transtornos associados à personagem, como Transtorno de Personalidade Dependente, Transtorno Bipolar e Transtorno de Estresse Pós-traumático, a coisa deixa de ser tão engraçada.

Sim, a história da Harlequina está longe de ser bonitinha.

Uma questão importante – transtornos mentais durante a sessão

É bom frisar que algumas pessoas podem não se sentir à vontade retratando transtornos mentais em jogo. Existem pessoas que precisam lidar com esse tipo de coisa na vida real, então um mínimo de sensibilidade e empatia é fundamental quando o grupo estiver construindo os personagens. Nestes casos, as dica dada na primeira parte deste texto tornam-se ainda mais valiosas. Vale a pena reduzir a insanidade “real” do seu personagem a uma mera penalidade mecânica para preservar o bem-estar do resto do grupo.

Bom jogo a todos!

Vampiro: A Máscara 5ª Edição será lançado pela Galápagos Jogos no Brasil

O site oficial da Modiphius Entertainment, administradora do World of Darkness após polêmicas que rodearam o jogo em 2018, anunciou as próximas traduções de Vampiro: A Máscara 5ª Edição. As parcerias preveem lançamentos na França, Alemanha, Espanha, Rússia, Itália e Brasil, aqui pela Galápagos Jogos.

Aguardamos o anúncio pela editora brasileira.

Icabode St. John parte 26 – Capítulo Final

Nos capítulos anteriores: Depois de separarem, Drake, Leon, Caveira e Maxiocán foram atrás do coração, enquanto Icabode tentou encontrar sua tia. Porém, no meio do caminho, todos foram impedidos. O primeiro grupo começou a lutar contra Troche e Gólgota, enquanto Icabode encontrou Salomon. Após um grande embate com muitas perdas, Leon consegue empalar o coração de Salomon e, paralisado, Icabode ateia fogo em seu corpo, matando-o. Ao voltarem para a porta da Umbra, em um sacrifício, Leon e Icabode se despede, e ele volta sozinho ao nosso plano.


Icabode atravessou os campos de neve até o local onde o avião de sucata aguardava. Ele apenas abanou a cabeça negativamente quando o piloto perguntou se os outros viriam.

O voo foi mais tranquilo na volta, chegando em Nova York uma hora antes do amanhecer. Icabode disse tudo o que aconteceu ao piloto, para que ele repassasse a Lancelot. Depois, se enfiou dentro da casa no centro do rancho, e entrou em torpor, esperando o dia acabar.

Assim que a noite velou o céu, um chofer entrou em seu quarto. Ele usava quepe de motorista, uniforme e luvas pretas.

– Mestre Lancelot o aguarda no Brooklyn – disse. – E me pediu para levá-lo.

Icabode sabia do que se tratava. Antes de ir para a Polônia, eles discutiram uma forma de emboscar o príncipe Fermín. O plano seria executado assim que Solomon Saks fosse derrotado.

– Vamos – Icabode abriu o dossel e saiu da cama.

No banco traseiro do carro, ele se lembrou de como Fermín havia tentado traí-lo, oferecendo sua cabeça para que o clã do Rato satisfizesse sua sede de justiça, e se submetesse ao novo príncipe de Nova York. Ele ia me vender, esse maldito traidor.

Fermín traíra a Juíza e a Dama do Véu Negro, e Icabode não poderia esperar algo diferente de deslealdade por parte dele. Mas hoje, príncipe, você pagará por isso.

O carro chegou na cidade e percorreu dezenas de avenidas e poucas pontes até chegar no Brooklyn, na rua escura, com as lâmpadas dos postes desligadas. A mansão de Solomon Saks era cercada por um muro de pedras, coberto de musgo e trepadeiras.

A entrada principal era bloqueada por um imenso portão de lanças metálicas. Em sua frente, havia algumas viaturas policiais, e várias pessoas ao redor. Dentre elas, Lancelot, o primogênito do clã da Sabedoria.

– Você é o mais novo herói de Nova York! – Lancelot disse sorrindo, vindo em sua direção. – Você destruiu Solomon Saks!

Ele aparentava ser apenas um velho de cabelos brancos, frágil e dócil. Mas Icabode não era mais enganado por esse tipo de coisa. Esse mesmo velho estava ali para emboscar o vampiro príncipe de Nova York. Um velho frágil não faria esse tipo de coisa.

– Leon me disse que Caveira foi morto – Icabode respondeu, respeitosamente. – Sei que ele era seu homem de confiança.

Lancelot abanou com a mão, despreocupado.

– Casualidades! O importante é que ele ajudou a destruir aquele megalomaníaco.

Icabode sentiu raiva por Lancelot pensar daquela forma. Ele se perguntou se dali pra frente, todos os seus relacionamentos seriam assim.

Se a cada morte de uma pessoa próxima, ele a consideraria mera casualidade. Não há espaço para amor, empatia ou compaixão nesse tipo de vida.

– Eu os chamei e depois os fiz dormir – Lancelot apontou para os policiais dentro das viaturas. – Quero que Fermín pense que eles estão aqui porque houve uma grande batalha na mansão. Seria muito suspeito se eu narrasse o confronto contra Solomon Saks, e nenhum policial viesse checar. Agora vamos todos entrar! Vamos acabar logo com isso!

Icabode viu todos os vampiros ao redor seguirem Lancelot pelo portão de lanças. Ele foi atrás, caminhando em direção ao centro da propriedade onde a mansão os aguardava.

– Eu irei até Manhattan chamar Fermín até aqui – Lancelot disse para todos ao redor. – Vocês precisam fingir que estão mortos. Espalhem-se no chão. Ele deve pensar que Solomon derrotou o garoto – ele apontou para Icabode – e seus amigos, e que todos vocês – ele olhou para os independentes – estavam aqui para ajudá-los, mas também foram destruídos.

– Mas meus “amigos” morreram na Polônia – Icabode o lembrou. – Ele não vai estranhar em ver apenas o meu corpo no meio dos cadáveres?

– Isso não é problema – Lancelot se virou para alguns de seus seguidores. – Você, você e você. Quero que assumam a forma do Caveira, de Leon e do negro.

Subitamente os três vampiros mudaram drasticamente de aparência e se tornaram os falecidos Drake, Caveira e Leon. Lancelot olhou para Icabode e deu um sorriso rápido e satisfeito. Em seguida, ele foi embora para buscar Fermín.

Icabode ficou olhando para as figuras familiares, triste. Aquilo era apenas uma ilusão. Ele não tinha mais nenhum conhecido por ali.

Vampiros dos clãs do Rato e da Sombra se esconderam, enquanto os do clã da Sabedoria e independentes se espalharam pelo terreno, fingindo de mortos. Icabode apenas deitou no meio do gramado e aguardou. Seus olhos fitavam o céu negro, afundando em seus pensamentos, deixando o som da cidade em alguma parte escondida de seu cérebro.

Ele começou a reparar no barulho de água corrente. A mansão ficava à beira do East River, próxima da Ponte do Brooklyn. Alguns quilômetros dali estava o bar do Anthony Ritzo, estava também a fundição onde ele e Sunday morreram. Por ali estava o galpão onde ele ateara fogo em Anatole, o vampiro que matara seus pais.

Ele mesmo estava a poucos passos de onde Ivanovitch fora morto.

Seus pensamentos flutuavam, analisando as últimas semanas intensas de sua vida. O tempo foi passando até que ouviu o som dos carros parando. Lancelot retornara. Fermín não estava sozinho. Ele trazia seu séquito junto.

O grupo adentrou a mansão, e Icabode tentou não mover os olhos quando percebeu a aproximação. Fermín ficou de cócoras ao seu lado.

– Pobre garoto – o príncipe disse, olhando em seus olhos.

– Vamos matar esse filho da mãe! – Lancelot declarou subitamente. Essa era a palavra-chave, e todos os vampiros se levantaram do chão.

– Emboscada! – Leo gritou, segurando o bastão de beisebol com firmeza. – O que é isso, Lancelot?

Algumas palavras foram trocadas, e o séquito de Fermín se rendeu aos inimigos. O príncipe tentou fazer o mesmo, mas sua rendição foi rejeitada. Ele começou a usar seu poder da palavra para controlar as pessoas ao redor, começando pelos sósias de Drake e Caveira. Icabode decidiu agir, e se jogou em sua direção.

– Caia no chão! – Fermín gritou, e Icabode despencou na grama, obediente.

Lancelot tomou a frente e desafiou o príncipe para um embate individual. Tudo aconteceu rápido. Fermín foi derrotado, e os vampiros começaram a desmembrá-lo ali mesmo. Icabode ficou em pé, observando a cena. Lorena veio ao seu lado e perguntou:

– O que aconteceu durante essa semana? Por que você nos traiu? O que o fez escolher o lado de Lancelot, do clã do Rato e da Sombra?

Icabode contou o que aconteceu nos últimos dias, falando sobre a Polônia e de como Lancelot lhe informara que Fermín havia tentado uma aliança com o clã do Rato.

– Ele me traiu – Icabode disse. – Ele queria me entregar para os inimigos.

– Como braço direito de Fermín – Lorena começou a dizer -, eu posso lhe assegurar sem sombra de dúvida que isso nunca aconteceu. Fermín queria esmagar o clã do Rato. Ele sabia que não havia possibilidade de paz depois de ter traído a primogênita deles.

– E por que… – Icabode se virou para ela, surpreso.

Lorena se limitou a olhar para Lancelot com um sorriso frio. Ela virou e se afastou. Icabode olhava incrédulo para o novo príncipe, o velho e frágil Lancelot. Ele mentiu para mim, compreendeu. Fermín não havia lhe traído. Aquilo havia sido uma mentira para Lancelot convertê-lo ao seu lado. O clã do Rato e da Sombra também.

Icabode puxou a estaca de sua cintura, a mesma que levara para a Polônia. Todos que foram com ele, haviam levado uma estaca para caso encontrassem o coração de Solomon Saks. Icabode ainda carregava a sua. Ele olhou para Lancelot, e suspirou. Fazia muito tempo que não suspirava. As vezes ele até esquecia de respirar.

Icabode deu as costas para o ritual de coroação, com vampiros se ajoelhando e jurando lealdade ao verdadeiro príncipe, e foi em direção ao rio. Nada mais importava. Ele esperava que Lancelot fosse um bom governante, pelo menos melhor que Fermín.

Ele é exatamente igual ao Fermín. Um governo fundado em deslealdade e traições. Não sei se conseguirei adaptar a essa nova vida… e pra falar a verdade, nem quero.

O mundo das trevas não é pra qualquer um. É só para aqueles que conseguem viver às custas da morte. É só para aqueles que conseguem se alimentar do sangue e dor de outras pessoas. E Icabode não queria fazer parte daquilo.

Ele foi até a beira do East River, e olhou para a água escura. De repente, uma luz bruxuleou em suas costas. Um cheiro estranho entrou em suas narinas e ele ouviu o barulho de cascos. Alguém bufou, como se fosse um animal. Era o homem bode.

– Era questão de tempo, filho do reverendo – o demônio disse. – Ninguém vive para sempre. Agora vamos, você é meu, e eu já esperei demais.

– Eu não quero mais viver nesse mundo – Icabode confessou, levitando um palmo acima do rio. Ele flutuou até ficar longe da margem. – Mas que você volte para o inferno sozinho!

Ele estendeu a estaca e a enfiou no peito. A única coisa que sentiu foi dor. Suas mãos forçaram mais ainda, e por fim, ele usou a telecinese para fincar de uma vez a ponta de madeira no próprio coração. O homem bode gritava, frustrado.

Icabode sentiu um pouco de sangue molhar seus lábios, e seu corpo enrijeceu. Ele se tornou duro como uma estátua. No momento seguinte, seus olhos foram tomados pela escuridão da água corrente, e ele afundou, afundou e afundou…


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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 25

Nos capítulas anteriores: Após Maxiocán se juntar ao grupo depois de se lembrar dos tempos nos Balas de Prata, o grupo segue de avião até a Polônia para encontrar o coração de Salomon Saks. Ao chegarem no local, se veem numa situação arriscada: já está amanhecendo e eles vão precisar enfrentar uma nevasca pela neve para chegar ao local até que precisam se separar na aventura.


Maxiocán ia à frente do grupo, de olho na bússola que os conduzia pela trilha de neve entre os pinheiros. Drake Sobogo trazia a mala com as armas e granadas, mais atrás do grupo. Leon aguçara seus ouvidos, em alerta. Seria sua responsabilidade avisar aos outros caso alguém se aproximasse. Caveira segurava seus revólveres, com os canos apontados para cima.

– Esperem! – Leon disse, se virando na direção dos pinheiros. – Estou ouvindo um barulho de árvores quebrando… meu Deus, ele já chegou!

Um vulto negro surgiu da floresta e se agarrou em Drake, levando-o para o outro lado das árvores, desaparecendo completamente do grupo. O Capitão Sangrento nunca mais veria nenhuma daquelas pessoas.

– Olha, olha, o que temos aqui – uma voz surgiu da noite, quando de repente, Gólgota surgiu no meio do caminho. Ele estava invisível até o momento. – Não me diga você é Maxiocán, o lendário caçador de vampiros!

– É ele sim – Rabin confirmou, descendo do céu como se fosse um anjo caído. – E acho que ele veio atrás do coração do chefe. Será que ele é tão poderoso quanto dizem, Gólgota?

– Só há um jeito de saber – o vampiro tirou os olhos de Rabin e se virou para Maxiocán. Em seguida, esses mesmos olhos se arregalaram, e uma veia saltou de sua testa.

O corpo de Maxiocán se tensionou imediatamente, sua pele enrubesceu, os vasos sanguíneos de seus olhos estouraram, transformando as pupilas em duas bolas vermelhas. E em seguida, seu corpo caiu duro como uma estátua para trás, ainda segurando a bússola.

– É tão fácil fritar o cérebro de um humano – Gólgota disse, satisfeito. – Por que não pode ser fácil assim com vampiros?

– Quem disse que não é? – Caveira perguntou, esticando os revólveres e apertando os gatilhos freneticamente.

Gólgota deu um grito de susto e ficou invisível, mas isso não serviu de nada, pois logo em seguida seu corpo voltou a aparecer, enquanto sua cabeça era perfurada várias vezes. Os miolos pularam para fora como pipoca, e em menos de um segundo, ele estava caído sobre a neve, tornando-a vermelha ao redor da cabeça. Os olhos eram como de peixe morto, e sua alma fora enviada direto para o inferno.

Leon se jogou sobre o corpo de Maxiocán, tirou a bússola de sua mão e ficou invisível. Caveira e Rabin estavam sozinhos, um de frente para o outro. O feiticeiro de Solomon olhava para o corpo de Gólgota, incrédulo. Aquilo acontecera muito rápido. Caveira era um pistoleiro muito habilidoso. Pegadas começaram a se formar na neve, quando Leon (ainda invisível) começou a correr com a bússola na mão.

– Você não vai escapar! – Rabin ergueu os dedos para o céu, e uma bola de fogo se formou no centro de sua palma antes de arremessá-la em direção a Leon.

Caveira virou morcego e se jogou em frente ao ataque, sendo atingido em cheio. Seu corpinho flamejante caiu fundo na neve, de onde saiu uma coluna de fumaça. De repente, sua forma humanoide se estendeu no chão, metade carbonizada. Ele tirou a máscara, revelando um rosto de morcego, peludo e chamuscado.

–  Como é o gosto do fracasso? – Rabin perguntou, olhando-o com curiosidade.

– Me diga você – Caveira gaguejou, forçando um sorriso. – Já que o meu camarada invisível acabou de entrar na floresta.

Rabin olhou para trás e percebeu que as pegadas de Leon sumiram entre as árvores. Agora seria impossível encontrá-lo. Ele fechou os punhos, furioso, e ateou fogo no corpo de Caveira antes de voar para dentro da floresta.

Enquanto isso, Drake Sobogo sentia seu corpo bater em cada árvore no caminho, enquanto Troche o empurrava para dentro da floresta. O Judeu de Ferro o abraçara com força, imobilizando seus braços, e ele corria rapidamente, levando Drake para uma direção misteriosa. Foi quando as árvores acabaram que Drake percebeu seu destino.

Havia um penhasco logo à frente, e Troche planejava jogá-lo lá de cima.

Drake dobrou o pescoço para trás e pegou impulso antes de dar uma cabeçada no nariz de Troche. Isso o fez parar. Os dois rolaram pela neve entre a floresta e o penhasco. O Judeu de Ferro se levantou, segurando o nariz moído.

A alça da mala de armas ainda estava presa no ombro de Drake, e ele rapidamente segurou os dois lados da bagagem e a rasgou ao meio, como se fosse um saco de batatas fritas. Vários fuzis, metralhadoras e granadas caíram no chão, aos seus pés. Ele pegou a Thompson com munição de disco frontal e a ergueu.

– Não acredito que você vai trazer arminhas para a nossa batalha final – Troche disse, com o sangue escorrendo de seu nariz e encharcando a barba.

Drake apenas cuspiu para o lado e segurou o gatilho. A metralhadora cuspiu todas as suas balas, acertando o corpo do Judeu de Ferro com uma sequência de choques metálicos. Quando a munição acabou, Drake a jogou no chão, ignorando o disco fumegante derreter a neve. Troche ainda estava em pé, sorrindo para ele.

– Desgraçado – Drake sussurrou, pegando um fuzil para repetir o ataque. Ele atirou várias vezes, vendo Troche se aproximar, como se nada estivesse acontecendo.

– Você não sabe quantos vampiros eu absorvi para chegar onde cheguei – Troche disse, ficando cara a cara com Drake. – Eu sou o maldito Troche, seu filho da puta.

O Judeu de Ferro enfiou as mãos na barriga de Drake e abriu os braços, dividindo o militar em dois. Drake sentiu as tripas escorrendo de sua barriga e caindo em cima dos quadris. As pernas tombaram para um lado e o tronco para o outro. Drake cuspiu sangue, incrédulo. Ele morrera muito fácil. Suas mãos tatearam as armas ao redor, na esperança de reverter aquela situação.

Troche ficou de cócoras ao seu lado, sorrindo. Drake estendeu o braço em sua direção, agonizando. Os dedos apertaram o pescoço do judeu, sem forças. O militar começou a balbuciar algo, tremendo. Troche se abaixou um pouco para ouvir suas últimas palavras. Assim que ele inclinou, os dedos de Drake milagrosamente se mostraram fortes de novo, puxando-o mais para perto.

– O quê? – o sorriso de Troche se perdeu, quando ele sentiu o abraço ao redor de seu pescoço, puxando-o até encostar seu rosto no de Drake. – Por que você não me solta e morre logo?

– Eu não vou te soltar – Drake gaguejou, erguendo o outro braço livre. Com a visão periférica, Troche percebeu que ele sacudia uma espécie de chocalho perto de seu ouvido. – Porque nós vamos para o inferno juntos.

E Drake Sobogo soltou o lacre de uma das granadas.

 

Icabode St. John virou a cabeça, surpreso. Ele via uma imensa fogueira na trilha que seus companheiros seguiam, e uma grande explosão do outro lado da floresta. Aparentemente o seu grupo não conseguira encontrar o coração do polonês.

– Você tem um espírito guerreiro – Solomon disse com as mãos nas costas. – Isso é muito valorizado na máfia.

– Foda-se a máfia – Icabode respondeu, pensando nas suas alternativas. Seus poderes eram de invisibilidade, poder da mente e sentidos aguçados. Como usar isso?

– É exatamente disso que estou falando – Solomon disse, admirado. – Mas e aí, o que pensa em fazer? Se quiser se unir a mim, será muito bem-vindo.

– Eu passo – Icabode deu de ombros. – Eu já me aliei a você uma vez e me dei mal. No meu lugar, o que você faria?

Solomon gargalhou, resignado.

– No seu lugar, eu me mataria sem pensar duas vezes  – confessou.

– É o que vou fazer – Icabode estendeu o braço e fez Solomon sair do chão. Ele ergueu o outro braço e fez quatro tochas levitarem em direção ao vampiro.

Ele manteve o inimigo flutuando sob sua telecinese, enquanto as tochas se aproximavam de seu corpo. Icabode achou que ia vencer facilmente, até que percebeu o olhar de Solomon. O homem mais velho não temia o fogo. Ele olhava com uma curiosidade divertida para as tochas. E no próximo instante, as hastes de madeira pararam de se aproximar.

– O quê? – Icabode tentou forçá-las em direção ao outro, mas nada acontecia. – É você que está fazendo isso?

De repente, as quatro tochas se apagaram, como se mãos invisíveis tivessem se fechado sobre elas. E Solomon Saks começou a descer, até seus pés voltarem a tocar o chão.

– Existe uma regra no mundo vampírico – Solomon Saks estava ereto, com as mãos ainda atrás das costas. – O vampiro mais forte não pode ser subjugado pelo mais fraco. Qualquer poder sobrenatural que tentar usar contra mim, fracassará.

Espantado, Icabode tentou usar novamente seu poder, mas Solomon Saks nem se moveu. Ele se virou e fez as tochas se lançarem contra o inimigo, mas o polonês fazia todas caírem no chão antes de se aproximarem.

– Já chega – Solomon disse. – Já lhe dei todas as chances que precisava. Agora irei matá-lo, garoto.

Icabode não o viu se aproximar. Primeiro sentiu o impacto do soco esmagar seus órgãos internos. O próximo golpe deslocou o maxilar. O chute fez seu joelho quebrar, e sua perna se dobrar para trás. Icabode estava no chão, completamente desmontado. Ele olhou para o trono ao lado, e viu sua tia Katherine ainda inconsciente, amarrada por uma corrente. Eu falhei com você, tia.

Ele viu a sola do sapato de Solomon Saks pisar em seu rosto. Lentamente, o pé do polonês foi se afundando, e os ossos faciais de Icabode foram cedendo. Esse era seu fim.

 

Alguns quilômetros dali, Leon corria pelas árvores, ainda invisível. Quando perdeu Rabin de vista, ele voltou ao normal. E voltou a seguir a bússola.

Não muito longe de onde estava, havia uma cabana solitária no meio de uma clareira. E coincidentemente a bússola apontava para essa direção. Ele não fazia ideia que Caveira fora transformado em pó, ou que Drake explodira a si mesmo, abraçado a Troche, ou que Icabode estava sendo esmagado por Solomon. Leon até mesmo acreditava que Maxiocán podia ser salvo, que ele estava só em transe.

Mas Leon estava enganado. Maxiocán era um vegetal. Um corpo sem consciência alguma. Ele era a última pessoa incólume de seu grupo. E agora Leon entrava na cabana apontada pela bússola. O lugar estava em ruínas, e em seu interior havia apenas uma pessoa.

Uma velha com um pano amarrado ao redor da cabeça, olhando para uma foto, triste. Ela ergueu os olhos para Leon e mostrou a foto para ele. A imagem era em preto e branco, e mostrava um garoto sorrindo.

– Esse é o seu filho? – Leon perguntou para a mulher. – Esse é Solomon?

Ela ignorou a pergunta, e ergueu o baú que estava no colo. Leon o recebeu e abriu a tampa. Era um coração humano, o coração de Solomon.

– Não! Não faça isso! – Rabin gritou, vindo pela trilha de neve. Ele voava rapidamente em direção à cabana, vendo através da porta, Leon tirar o coração do baú.

Leon puxara a estaca do casaco e a erguera sobre a cabeça. O feiticeiro estava prestes a invadir a cabana.

Tudo aconteceu muito rápido. Leon abaixou a estaca com toda a força de seu corpo, sentindo o sangue queimar em suas veias, bombeando o bíceps do braço direito. A estaca atravessou o coração e saiu do outro lado de sua mão. Rabin parou no meio do caminho, gritando com os olhos arregalados. Ele se virou e voou para longe, desesperado.

Leon se virou para a mãe de Solomon e percebeu que ela se encostara na parede e abaixara a cabeça. A velha estava morta.

Icabode olhava para Katherine enquanto sua cabeça estava sendo esmagada. Sunday estava em silêncio. O mundo estava em silêncio. E aquilo estava demorando demais. Solomon não terminava o serviço. Depois de alguns segundos, Icabode percebeu que o vampiro estava imóvel. Ele se arrastou e observou, surpreso, o polonês parado como uma estátua, e seu pé erguido como se fosse esmagar algo.

– Deu certo – Icabode concluiu. – Eles encontraram o coração.

Ele foi saltando sobre uma perna até a tocha mais próxima, a trouxe de volta e estendeu-a sob o pé do polonês. As chamas começaram a se espalhar pelo corpo de Solomon Saks aos poucos. Icabode ficou em sua frente, olhando-o nos olhos. Ele ficou feliz ao ver que as pupilas vermelhas de pavor.

– Você está sentindo isso, não está? – ele perguntou, satisfeito.

Solomon se tornou uma coluna de fogo, imóvel. Não demorou muito para Rabin alcançar o topo daquele monte. O feiticeiro olhou para o polonês e depois para Icabode. E seu olhar era de confusão e perda. Rabin olhou para o horizonte e fugiu, e nunca mais foi visto.

Icabode se virou para trás, e não viu mais sua tia. Apenas a mancha de sangue no chão. Ele olhou ao redor, e a encontrou, sumindo no meio da névoa. Ela andava de mãos dadas com alguém. O desconhecido vestia um longo casaco de detetive e um chapéu.

Adeus, meu amigo, Icabode pensou, vendo Sunday levar sua tia para a eternidade.

 

Após uma longa caminhada de volta, ele encontrou com Leon. Não sabiam se havia outros sobreviventes, mas isso não importava mais. Os dois apenas seguiram em silêncio pelo caminho que haviam percorrido mais cedo. Lá estava o monte de cadáveres, com a porta da umbra no seu topo.

Os dois subiram até ela, quando uma figura encapuzada apareceu.

– Vocês foram avisados! – o espectro bradou. – O portal só pode ser aberto por meio de um sacrifício pessoal.

– Não – Icabode rebateu. – Nós dois iremos atravessá-lo. Deve haver uma maneira.

– Você sabe que não há – Leon o censurou, tirando a estaca do casaco. A mesma estaca que usara no coração de Solomon. – E não tem problema. Quando você veio atrás de mim na fundição de Solomon, eu quis que você me matasse. Aquele dia eu pedi para você fazer isso.

– Se você fizer isso, vai acordar no inferno – Icabode o avisou, sentindo uma lágrima de sangue escorrer pelo rosto.

– Eu acho que de todos os vampiros – Leon começou a levitar. – Eu não fui tão ruim assim. Quem sabe exista uma salvação para a minha alma?

Icabode viu o amigo subir a uma distância incrivelmente alta. Lá em cima, Leon apunhalou o próprio coração. Icabode aguçou sua visão sobrenatural e viu o corpo cair na escuridão e acertar o chão, aos pés do monte de cadáveres. Mesmo longe, ele via nitidamente o rosto de Leon, definitivamente morto. Ainda que arrancassem a estaca de seu coração, ele nunca mais se levantaria.

A porta da umbra se abriu, e Icabode a atravessou chorando como se fosse uma criança.

Para ler a parte 26 e FINAL, clique aqui!


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Icabode St. John

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Icabode St. John parte 24

Nos capítulos anteriores: Lancelot se encontra com Icabode e Drago para firmarem aliança, depois disso, Icabode vai até a Estátua da Liberdade para chamar Leon a ajudá-los contra Fermín e seu grupo, sendo inocentado da culpa de tê-lo transformado em vampiro. Icabode, no quarto de Sunday, é orientado pelo mesmo e encontra algumas cartas de seus pais, entendendo como foi condenado a ir para o inferno.


O sol se pôs e os vampiros se encontraram no rancho ao norte de Manhattan. Havia um galpão e uma pista de pouso, e ao redor, um mar de pinheiros. O último carro a chegar era de Drake Sobogo. Ele desceu, seguido por um homem de roupa militar, pele morena e bigode frondoso. Em seu peito estava escrito “BALA DE PRATA: PEPPERS”. Ele trazia um casaco grosso sob o braço.

– Maxiocán? – Icabode perguntou, franzindo as sobrancelhas. Caveira, Lancelot e Leon se olharam, igualmente surpresos.

– Eu sou de uma linhagem de caçadores de criaturas malignas – Maxiocán disse, com Drake ao seu lado. – Quando recusei ajudá-los a matar Solomon Saks, eu tomei uma decisão incoerente. Quando a ficha caiu, peguei o primeiro avião para Nova York naquela mesma noite. Os Balas de Prata eram uma família – ele olhou para Drake. – E pelo visto eu não fui oficialmente dispensado de meus deveres, não é, capitão?

– Quando o vi na minha porta, pensei que você fosse me matar – Drake revelou, sorrindo pela primeira vez em muito tempo.

– Matar o Capitão Sangrento? – Maxiocán se perguntou. – Seria uma boa coisa para colocar no meu currículo.

– Se vocês não querem ser recepcionados por um bom e velho sol nascente, devem partir agora – Lancelot olhou para o relógio de bolso. – A viagem para a Polônia é longa, e vocês precisam encontrar um abrigo antes do dia raiar… e antes que eu esqueça, coloquei algumas ovelhas dentro do avião para vocês se alimentarem.

Os cinco entraram no avião de sucata, com suas bolsas cheias de armas, munições e granadas, e deixaram o território americano alguns minutos depois. O voo foi turbulento do começo ao fim. Em alguns momentos o avião se mexeu tão forte que os vampiros saltaram em seus assentos.

As carcaças das ovelhas deslizavam de um lado para outro, como bichos de pelúcia sem enchimento.

O trem de pouso quicou no chão congelado algumas vezes até o avião derrapar e parar num banco de neve. A rampa traseira se abriu e o grupo desceu no meio da nevasca. Maxiocán se encolheu debaixo do casaco de pele.

Mas que carajo! – gritou ele.

– A cidade está ali! – Icabode gritou, aguçando seus olhos em direção a uma redoma de luz alguns quilômetros de distância. – Gdynia é a cidade que Solomon pousou.

– Cheque a bússola! – Leon sugeriu.

Icabode a puxou de dentro da jaqueta, e Maxiocán se aproximou, estendendo a mão. O vampiro entregou o objeto de volta ao seu dono. Maxiocán a ergueu diante dos olhos e se virou.

– Ela está apontando no sentido contrário – ele gritou. – Solomon Saks não está mais na cidade. O que tem ao norte?

– Apenas neve – Caveira respondeu, gritando. – E depois, o oceano Báltico. Ele deve ter algum refúgio, e não deve ser muito longe da cidade. Criaturas como nós não podem se dar ao luxo de fazer longas viagens sob o céu aberto.

– Nós temos poucas horas até o sol nascer – Drake disse, preocupado. – E se não encontrarmos nada no caminho? Não seria melhor passarmos um dia em Gdynia?

– Eu não darei nenhum dia a mais para aquele maldito – Icabode disse, e começou a caminhar na direção apontada pela bússola.

– Eu não deveria fazer isso – Caveira disse, seguindo Icabode. – Eu sou do clã da Sabedoria. Não seria muito sábio ir nessa direção.

Leon foi atrás. Maxiocán e Drake se encararam antes de fazerem o mesmo. Os cinco marcharam pela nevasca noturna, deixando qualquer vestígio de avião ou cidade para trás. Eles estavam em uma escuridão total, em meio a neve e ventos de cem quilômetros por hora. Maxiocán ia à frente, com os olhos na bússola, mas como ele era o único mortal, seu corpo era o mais afetado pelo clima de trinta graus negativos.

Após duas horas de caminhada, Maxiocán foi o primeiro a cair.

Ao leste, o horizonte começou a revelar os primeiros tons de claridade. Drake Sobogo pegou seu amigo nos braços e continuou caminhando. Icabode mantinha o ritmo, decidido.

Em sua cabeça, vinham os pensamentos de que tomara uma decisão suicida, que deveria ter ouvido a Drake e passado o dia em Gdynia. Os outros morreriam, e culpa era dele.

– Vocês também lembram de quando eram vivos, e a neve refletia a claridade, fazendo a luz solar nos acertar com mais força? – Caveira perguntou, olhando para o leste. – Acho que isso – ele apontou para a neve ao redor – seria uma espécie de “chão de lava” para nós. Engraçado, não?

Leon foi o segundo a cair. Apesar de não sentir frio, o vampiro sentia suas panturrilhas doerem. Para manter o corpo em pé, seu estoque corporal de sangue evaporava aos poucos, deixando-o fraco e faminto. Icabode seria o próximo a tombar, se não fosse sua disposição para achar o esconderijo de Solomon. Caveira se transformou em morcego e pousou sobre o corpo de Maxiocán que era carregado por Drake.

O céu nasceu, e se não fosse pelas nuvens carregadas, os vampiros já estariam mortos na neve. Drake Sobogo começou a sentir as gotas de sangue escorrerem por seus olhos.

Em sua frente, ele viu uma fumaça exalar do corpo de Icabode. Sentiu pena do garoto. Ele se perguntou como seria aquilo, como era morrer queimado. Se seria rápido, ou se eles iriam agonizar até que os corpos não existissem mais.

Icabode passara o braço de Leon sobre os seus ombros e o ajudava a caminhar. Drake ficou assistindo os dois subirem o topo de um monte de neves, e os viu cair no chão. É o fim, pensou o militar. Icabode ficou de joelhos, e olhou para trás, com o rosto sujo do próprio sangue. Mas ele parecia otimista. Drake ficou surpreso, e correu para alcançá-los.

– Achamos, Drake – Icabode apontou para baixo, onde havia uma pequena cabana de madeira no meio da neve.

O céu e as nuvens se abriram nesse exato momento, e a luz solar encheu o vale gélido. Drake soltou Maxiocán no chão, agarrou a Icabode e Leon pelos troncos e os jogou com força. Os dois fizeram um arco no céu e caíram no chão próximo à cabana.

Em seguida, ele fechou as duas mãos ao redor do morcego e saltou vários metros de altura, caindo próximo aos outros. Os quatro vampiros entraram na cabana e fecharam as cortinas. Ali dentro, estariam completamente protegidos do sol.

Alguns minutos depois, Maxiocán entrou, cambaleando.

A cabana só tinha um cômodo, e nenhum móvel. Havia duas portas, a que eles atravessaram, e uma do outro lado. Todos ficaram frustrados, pois obviamente aquilo era apenas uma cabana abandonada, e não o esconderijo de Solomon.

Não demorou muito, e os vampiros morreram. Eles passariam o dia inteiro deitados na mesma posição, como se nunca mais fossem se levantar. Maxiocán também se entregou ao chão, e dormiu.

Assim que o sol se pôs e a ventania voltou a sacolejar a cabana, o grupo acordou. Maxiocán já estava de pé, obviamente, olhando para a bússola.

– Tem algo errado – ele disse. O ponteiro rodopiava sem parar. – É como se tivéssemos chegado no local.

– Espero que não – Leon disse, fraco. – Eu não conseguiria enfrentar Solomon sem me alimentar primeiro. Preciso de sangue.

– Todos precisamos – Caveira disse, com os braços apoiados nos joelhos. Ele passou a mão por baixo da máscara de caveira e secou o sangue do próprio rosto.

– Ei – Drake Sobogo disse após abrir a porta de onde vieram. – Venham – ele olhava hipnotizado para fora. Havia um cervo parado no meio da neve, olhando curioso para a cabana.

Ele tentou correr, mas Icabode o ergueu no ar, impedindo-o.

Os quatro vampiros se curvaram sobre o animal, sugando todo o sangue de seu corpo. E assim que voltaram para a cabana, descobriram que Maxiocán não estava lá dentro sozinho. Havia um homem alto, encapuzado, levitando. Seu rosto estava escondido na escuridão do capuz, e seus dedos eram ossos, sem carne alguma. Ele estava parado diante da porta do lado oposto.

– Quem ousa abrir o portal da Umbra? – a voz era duplicada e fria.

– Sou Maxiocán Allende, e procuro por Solomon Saks.

– O portal sempre está aberto para quem está do lado de fora – o espectro disse. – Porém, para abri-lo por dentro, é preciso que haja um sacrifício pessoal.

– Não importa – Icabode deu um passo para a frente. – Nós precisamos entrar.

O espectro deslizou para o lado e estendeu a mão, e a porta se abriu, mostrando um campo de neve, igual ao que eles estavam. Os vampiros passaram pela porta, um por um.

Maxiocán passou por último, e a porta se fechou em suas costas. Eles olharam para baixo e perceberam que estavam em uma montanha de cadáveres. Não se via mais a cabana, mas apenas uma porta solitária no topo do monte.

– Umbra? – Drake perguntou, confuso.

– Umbra é o limbo – Maxiocán explicou. – Estamos em outra dimensão agora. É como se fosse o nosso mundo, porém mais espectral.

– Como Solomon Saks conseguiu esconder seu coração na Umbra? – Leon perguntou, descendo as pilhas de cadáveres, junto com o grupo.

– Rabin deve ter feito isso – Caveira respondeu. Ele se virou para Maxiocán e explicou. – Solomon Saks tem um feiticeiro judeu. Nada a ver, nada a ver mesmo.

O grupo chegou à base do monte de cadáveres e seguiu por uma trilha de neve, entre uma floresta de pinheiros. A estrada repentinamente se bifurcou entre a principal e uma tangente que ia para o topo de um morro.

– A seta aponta para a estrada em frente – Maxiocán disse.

Nesse momento, um gritou cortou o céu da Umbra. Ele veio do topo do morro. Era uma voz feminina, de dor.

É Katherine! Sunday gritou na mente de Icabode. É sua tia!

– Eu preciso ir por aqui – Icabode apontou para a trilha. – Mas vocês devem ir atrás do coração.

Os outros se olharam, preocupados, mas decidiram não contrariá-lo.

– Tome cuidado, Icabode – Leon apertou o ombro do amigo, e os dois se despediram.

– Pegue isso – Drake pegou uma granada de sua bolsa e a colocou na mão do garoto. – Caso você precise.

Quatro foram para um lado, e Icabode foi para o outro, subir a trilha do morro. Quando a subida se tornou árdua demais, ele decidiu usar sua telecinese para levitar até o topo. Não queria gastar muito os seus poderes, pois poderia precisar deles depois.

Você precisa salvá-la, Icabode, Sunday pediu, aflito. Katherine é o amor da minha vida, e você precisa garantir que ela fique bem… a não ser que você tenha que escolher entre matar o maldito polonês e salvá-la. Destruir aquele demônio é sua prioridade.

Não se preocupe, Sunday, Icabode disse, voando pela ventania gelada. A bússola está apontando para outra direção. Solomon não está por perto. Eu a salvarei e depois me juntarei aos outros.

Assim que surgiu no topo do morro, ele avistou uma clareira, cercada por longas tochas. No centro, havia um trono de metal, e amarrada ao pé do trono, estava Katherine. Ela estava deitada, inconsciente, e havia sangue em sua barriga.

Icabode pousou ao seu lado, e assim que tocou em sua tia, uma voz surgiu em suas costas.

– Parece que a nossa guerra contra os vampiros foi longe demais, não foi?

Icabode se virou e viu um homem de porte altivo, com longos cabelos e barbas, brancos como a neve, esvoaçando sob o vento. Ele vestia um terno preto de três peças.

– Saks – Icabode murmurou. Ele estava sozinho com o polonês.

– Solomon Saks, o Imortal – o homem o corrigiu.

Icabode se lembrava bem de quando ele se chamou assim pela primeira vez. Os dois estavam caçando Leon, unidos em uma suposta guerra contra os vampiros.

Ambos ainda eram mortais naquela época. Agora, os dois eram neófitos, mas Solomon Saks era praticamente um deus, e Icabode… bem, Icabode estava prestes a enfrentar um deus, sozinho.

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