Movimento RPG
Image default
Historias Manuscritos

Não Tentem Sair parte 01 – Histórias de Fogueira #05

A série Histórias de Fogueira irá trazer alguns contos de terror sobre temas variados. Em “Não Tentem Sair” iremos acompanhar um artista indo ao shopping para fazer compras e continuar seu trabalho. Mas o que isso poderia dar de errado?

Não Tentem Sair

Três meses antes 

Abraço minha mãe, matando a saudade depois de meses sem vê-la. Vamos comemorar o ano novo juntos e com a família, e eu sei… sei que ela vai lamentar quando eu voltar pra Goiânia. A questão é que preciso cursar o terceiro período na faculdade de artes. Ela não é contra minha escolha de carreira; é contra eu sair de Manaus.

Mamãe deu a ideia de eu estudar sobre a família e ficar mais tempo, e eu vou estudar de qualquer forma, já que é esse um dos jeitos que eu quero expressar minha arte. Dando o contexto: eu sou de uma família indígena só que, diferente da minha mãe, não sou ligado à cultura.

Ela tinha cestas pela casa características do povo Baniwa e livros falando principalmente sobre o mito nheengatu, sobre o céu e a água, e a criação do mundo. Eu nunca cheguei perto dessas ligações, às vezes sinto-me estúpido, como se estivesse matando o passado.

Consigo ver o paralelo entre mim e minha família. Acho que tenho um certo pavor da minha própria história.

Agora 

27.02.1984

O meu maldito despertador não para de tocar. Mesmo podendo acordar no horário que eu quiser por conta do feriado de Carnaval, não moro sozinho e tenho trabalhos da faculdade para terminar.

Divido um apartamento e tarefas domésticas com uma menina. Ela é legal, produtiva e com um bom humor irritante, mas gosto dela.

Não quero me levantar e não posso ver minha mãe nesse feriado (que só dura hoje a amanhã), pelo menos não preciso ir ao meu emprego provisório.

Me arrumo: uma camiseta larga, branca, de botão, ajustada dentro de minha calça vermelha com um cinto, e uma jaqueta jeans. Preciso comprar materiais e terminar meu F-100 (87cm x 45cm) do beija flor.

Uma obra de realismo que estou fazendo, mas o óleo está acabando.

Me olho no espelho: magrelo, cabelo para trás cortado em camadas, longo o suficiente pra chegar ao pescoço e, de charme, um cavanhaque bem ralo. Ouço a porta do meu quarto se abrir, e minha amiga, ruiva ondulada – com parte do cabelo longo preso em uma xuxinha felpuda no meio da cabeça -, pele clara e sardas que chegam aos ombros, aparece. Muito bem arrumada pra quem vai ficar em casa, com um conjunto de camiseta tomara que caia e saia roxa.

“Tu não sabe bater na porta não, Savannah?”

“Eu sei, mas você sabe pegar as coisas dos outros com permissão? Essa jaqueta é minha.”

Ela diz isso com um tom de sarcasmo e um sorriso forçado.

Saio e nem respondo.

Ela estuda moda e se veste melhor do que eu; me empresta muitas peças de roupa. O armário dela já é meu. Me mantenho nessa conversa com a mesma cara indiferente: sou uma pessoa que não se expressa muito, apesar de sentir muito.

Ela vai para a sala e começa a assistir a algum programa naquela tevê quadrada com botões do lado que a gente tem. O café já está passado e o chão varrido; não são nem 08 da manhã direito. Savannah está mais malhada do que eu, isso é humilhante.

Sei que quando eu voltar ela vai me fazer limpar o banheiro e fazer comida.

*

Chego no shopping e estou prestes a pagar a tinta a óleo, e o próprio óleo em si, canivete e um rolinho. Só preciso ligar pra minha mãe e comprar mais algumas coisas, qual era o disque de Manaus mesmo…? Me perco nesses pensamentos em um bocejo e nem percebo que o caixa passa um produto que não é meu.

“Desculpa, essa compra é minha, cancela pra ele? Por favor? Obrigado. Desculpa senhor… Senhor…?”

Esse homem chama minha atenção: da minha idade, com postura militar, alto, cabelo preto com fios da frente grisalhos (normal em homens) e olhos cor âmbar. Eu não vou dar o meu nome fácil assim. 

“Ja… João. Sem problemas.”

Ele relaxa a postura e me inspeciona de cima a baixo enquanto eu desvio o olhar. Sei que eu posso estar bonito, mas para com isso. Se for para dizer algo de mal gos…

“Você é um artista?”

Não respondo de imediato.

“Se você estiver procurando por um modelo…”

Ele dá um sorriso torto, e a minha cara se fecha involuntariamente. O pior é que ele (assim como eu) daria um ótimo modelo.

“Não desenho pessoas.”

Realmente não desenho pessoas. Pego minhas compras e vou em direção à saída.

Na escada rolante é quando eu escuto alguém gritando o nome “João!” – reconheço a voz. É aquele homem. Ele corre pelos degraus ofegando e disse, ainda tomando fôlego:

“Esqueceu seu cartão…”

E ele me entrega o pedaço de plástico. Eu, que estou olhando-o com uma cara de confusão e desespero ao mesmo tempo, mudo minha expressão para envergonhado pelo ocorrido.

Nem percebo que tínhamos chegado ao fim da escada.

Depois de eu tropeçar e quase cair no chão, pego meu cartão e agradeço ao homem de olhos cor de âmbar.

Eu, como um bom artista procurando o que pintar, percebo que ele comprou coisas para cuidar da casa (ferro de passar, luvas para lavar louças, e por aí vai).

Para minha surpresa, nós dois precisamos pegar outra escada rolante para a saída. Infelizmente, me sinto na obrigação de quebrar o gelo:

“Casa nova? Comprando tantos materiais de vez.”

“Para quem não queria dar informações, você fez uma pergunta bem específica, Jandir.”

Meu cartão tem meu nome… Esboço uma expressão de raiva e vergonha, não por ter mentido meu nome, mas por ele ter descoberto o verdadeiro. O homem, ousado, riu da minha cara.

“Relaxa, não devia ter perguntado a um estranho.”

Nós rimos, mas paramos no momento em que percebemos que a escada rolante não acabava, e estava ficando cada vez mais escuro o ambiente, como se estivéssemos entrando em um túnel.

No desespero, corro na direção oposta, mas, com as escadas descendo e a escuridão aumentando, eu apenas caio e bato meu joelho com tudo no chão.

Grito de dor e sinto a mão do… Qual o nome dele?

Enfim, ele segura meu ombro e tenta me ajudar. Enquanto acalmo minha respiração, noto, no fim daquele breu, luzes chegando mais perto.

A escada nos leva naquela direção, e ao chegar, notamos que lá é exatamente o mesmo shopping em que estávamos, mas a loja de roupas está totalmente vazia.

A escuridão atrás de nós some também.

Nós damos alguns passos, que fazem muito eco, até sairmos da escada rolante. Com a queda, eu cortei meu joelho e ele dói demais, além do pânico que estou sentindo.

O… Esse cara (não sei como) parece muito mais calmo do que eu, mas ainda nervoso. Eu começo a fazer perguntas infinitas que o fazem perder o foco, e após dizer para eu ficar quieto por um segundo, ele deixa as compras no chão e me leva até a primeira porta escrito “saída”.

Mancando, a ansiedade tomou conta de mim quando notamos que a porta dá para o mesmo lugar.

O homem ao meu lado passa a mão no cabelo, nervoso, e nota que eu estou tremendo, se vira pra mim e diz preocupado:

“Hã… você sabe onde fica a farmácia?”

Me apoio nele e vamos até a farmácia, e eu tento fechar o ferimento da minha perna (que a essa altura, havia encharcado minha calça de sangue, por conta do corte profundo, com um tom mais escuro de vermelho), mas sem sucesso.

Você está fazendo errado.”

Reclama.

“Tu sabe fazer?”

Ele aproxima-se de mim e faz um curativo muito bom com gaze e esparadrapo, mantendo o rosto firme, assim como os braços e as mãos.

“Como sabes fazer isso?”

Questiono com minha expressão de desconfiança clássica.

“Treinamento pra bombeiro e escola militar.”

“Quem é… Qual teu nome?”

“Júlio.”

“Obrigado pelo curativo…”

“Não foi nada…”

“E agora? O que fazemos?”

Júlio levanta os olhos, ajeita os cabelos escuros com alguns fios grisalhos e responde:

“Eu não tenho ideia… Talvez andar pelo shopping… Mas isso tudo não é…”

“Não é o que?”

Pergunto após ele fazer um rosto estranho.

“Empolgante?”

“Empolgante? Quer dar uma de modelo agora? Sorrindo totalmente sozinho?”

Pergunto, temendo sua resposta:

“Temos o shopping inteiro para nós.”

“Acho que isso é só a adrenalina subindo pra tua cabeça.”

Ele me estende a mão, me ajudando a levantar. Mancando, apenas começo a andar e ir até a primeira loja de roupa que aparece à minha frente. Júlio fica gritando, perguntando aonde eu vou.

Ele havia dito que podíamos andar pelo shopping, e é o que faço.

Encontro a porta de saída de emergência e entro: leva ao mesmo lugar. Outra: o mesmo lugar. A escada rolante não faz nada. As outras cinco saídas de emergência que eu tento usar levam todas para o mesmo lugar.

Faço todo esse percurso correndo e, quando eu termino a última porta eu grunho irritado, para, em sequência, gritar de dor.

Eu corri e forcei o joelho machucado no processo. Júlio suspira desapontado, o que me irrita.

Antes, porém, de eu dizer qualquer coisa, despenco no chão em agonia. Júlio dá seu ombro para eu me apoiar e praticamente me carrega até o supermercado do shopping.

Na adrenalina, não percebi a dor e o corte abrindo enquanto corria.

Ele me coloca sob um caixa do mercado, e nós pegamos um pirulito de chupeta ali perto. Sinto-me envergonhado por ser impulsivo e ignorar os gritos de um bombeiro em treinamento.

Ficamos ali parados por um tempo; não sei como é que ele consegue achar isso empolgante.

É assustador estar preso dentro de um shopping e não conseguir sair de jeito nenhum. O tempo parece ficar parado. O sol não se pôs, mas alguma luzes se apagam.

“É certo que eu sempre quis ficar sozinho no shopping. Imagina: o shopping imenso e sombrio… seria divertido fazer o que quiser. Sozinho, sem ninguém para te perseguir ou te pegar fazendo algo errado, ou implicando com você.”

Júlio, apesar de ter esse pensamento estranho, tem um bom ponto. Eu e ele, para esquecermos o horror que está acontecendo aqui, começamos a bater um papo.

Noto hematomas no pescoço dele, pergunto e ele desconversa. Falo sobre a saudade da minha mãe, e ele, de como foge da mãe, sendo bombeiro.

Me dá uma bronca pelo joelho, e sinto algo como um forte laço vindo dele.

Comemos doces, e a ansiedade que Júlio havia tirado de mim, volta forte como um tiro, já que, pelo visto, não estamos sozinhos naquele supermercado.

Algumas luzes estão apagadas, lembra?

No fim do corredor, uma embalagem, de algum produto cai, e eu vejo um par de olhos me encarando em meio à escuridão. Apenas gelo por alguns segundos e, quando a ficha cai, chamo o nome de Júlio, totalmente apavorado para nós corrermos.

A criatura é como um humano, no entanto não é material, é totalmente negra. E ela sai correndo em direção a mim, e não faz barulho algum, apenas sendo ligeira.

Júlio me carrega, tentando fugir pela porta que agora está trancada, então ele se vira, enquanto a criatura quebra o vidro da porta que ele tentava abrir.

Ele vai até o fim daquele mercado comigo em seus braços e despista a coisa entre as prateleiras, como se fossem escudos.

Nessa pressa, nós vemos… Vemos o amontoado de caixas de mercado e corpos de pessoas, dentre eles há uma pessoa viva: Savannah.

Saio dos braços de Júlio, fico em pé e chamo minha amiga em um sussurro. A mesma, com olhos marejados, olha pra mim, mas não move um músculo, de tão apavorada que está.

Chamo-a mais uma vez, e quando ela se levanta para ir até nós, num silêncio ensurdecedor, tentando não chamar a atenção da coisa, escorrega nas caixas que estavam no chão e cai.

Tudo parece gravado em câmera lenta quando vejo aquela coisa agarrar Savannah pelos ombros e tirar algo de dentro dela, largando-a no chão depois. 

Neste instante, Júlio me segura por trás para que o mesmo não aconteça com a gente.

Quando me dou conta, a criatura fugiu como se estivesse saciada. Savannah se levanta e sai andando como se nada tivesse ocorrido.

Agarro seu ombros e pergunto como ela está, mas ela não responde. Fria, sem expressão, vaga sem rumo pelo shopping. Lembro de tê-la ouvido gritar, mas agora ela está com expressão vazia, sem alma.

Se Savannah não está morta por causa daquela criatura, quem matou os corpos que estão lá?

Totalmente dilacerados como se algo pontudo tivesse beliscado eles. Eu não quero descobrir.

Enquanto sigo minha colega de quarto para fora daquele mercado, e no caminho vejo uma porta de saída entreaberta. Sei que ela não é um looping, pois dela sai uma luz vermelha.

Estou há horas aqui, essa é minha última esperança.

Eu agarro o pulso de Savannah e falo para ela ficar parada ali. Ela nem sequer levanta os olhos pra mim, mas fica lá. A dor do joelho já passou, mas ainda manco. Então abro aquela porta e sigo junto com Júlio.

Há uma luz vermelha e um corredor infinito. Penso em voltar, mas só temos a opção de continuar, já que a porta atrás de nós some quando entramos, deixando apenas um corredor infinito atrás de nós.

Eu não percebo, mas estou totalmente sozinho há horas com um desconhecido em um local desconexo da realidade. Digo isso agora porque, nesse corredor, ouvimos algo fazendo um barulho muito alto e é possível ouvir os passos pesados e rápidos vindo até nós.

Júlio simplesmente é louco o suficiente para, depois de correr pelo corredor de luz vermelha, ir em direção ao ser, que mais parece uma pessoa fantasiada de pássaro.

As penas são um degradê de branco a um azul marinho, e Júlio choca o próprio corpo contra o dele. No entanto, ele parece totalmente indiferente a isso.

Depois, se choca contra a parede e me puxou junto. A parede se abre em uma porta, como um corte de filme. Júlio quebra seu braço no processo, mas parece acostumado. Discuto com ele ao invés de agradecer por conta da adrenalina, e a paciência dele comigo acaba.

“Não venha tirar satisfação comigo por droga de motivo nenhum, é por minha causa que a gente saiu!”

Ele me agarra pela gola da jaqueta e me olha nos olhos; eu fui estúpido.

Ele não esbanja raiva nem coisa do tipo, mas abre um meio sorriso ao ver meu rosto de medo e arrependimento.

Pergunto-me quem gritou com esse menino e quem fez esses hematomas em seu pescoço. Ele também me joga contra a parede, provavelmente por raiva. Eu, porém, não dou a ele esse direito. 

Desculpo-me do mesmo jeito.

Savannah está na exata mesma posição, do mesmo jeito.

Júlio, entretanto, não parece comprar o comportamento dela. Saca um canivete suíço do bolso e aponta para ela, esperando que ela se desespere, pois acha que ela pararia de “atuar”, pensou que ela está fingindo. Ou só age feito um louco, passando a lâmina perto do pescoço dela, testando como se fosse algo divertido. Logicamente, não fico apenas observando essa opressão:

“O que você pensa que está fazendo?”

Eu o confronto colocando-me entre os dois. 

“Isso tudo parece real para você?”

“Como?”

“Isso tudo não tem explicação e é totalmente… Novo.”

“Isso não lhe dá o direito de ameaçar cortar a garganta de alguém!”

Júlio aproxima-se o bastante para que eu perca o equilíbrio e caia.

“Também não lhe dá o direito de vir pra cima de mim me culpando por nada.”

Que palhaçada é essa? Isso que ele fez é culpa dele, mas ele não me perdoa pelo que eu fiz antes. Honestamente, desisto de responder. Consigo ficar sem palavras e não perco o argumento.

Mas o mais importante é: o que faremos agora? Não podemos tentar sair. Não tem saída.

Isso é realmente só um universo que leva as pessoas à morte ou à loucura pouco a pouco? Júlio geme de dor, mas isso me dá uma ideia. Pego Savannah e o bombeiro, mas, dessa vez, conto a ele meu plano.

Vamos ao mesmo supermercado de antes, faço muito barulho chamando a atenção daquele maldito monstro. Quando ele aparece, não chega a nos perseguir, mas no momento em que jogo uma garrafa de vidro de Coca-Cola nele, ele corre em nossa direção.

Júlio, então, se joga contra uma parede de gesso, sendo suficientemente forte para que ela quebre.

Funciona, estamos de volta ao shopping, mas totalmente atordoados. Caímos contra carrinhos de supermercado, e Júlio perde a consciência após bater a cabeça em um dos carrinhos, e está sob uma poça de sangue. Está muito pior do que perece.

Epílogo

Acabou que, no final das contas, Savannah precisou ficar em um hospital psiquiátrico tratando o motivo de seu comportamento.

Fiz questão de pagar, tive que dar meu jeito para conseguir o dinheiro. Eu e Júlio conseguimos nos livrar das perguntas que os médicos que nos assistiram, por conta dos machucados, fizeram.

Se contássemos, nos chamariam de loucos.

Inclusive, aqueles hematomas dele? Júlio estava convivendo com pais que literalmente perseguiam-no, por motivo nenhum.

Não confiavam suficiente no filho adulto deles, o chamavam de ingrato por seguir a carreira de bombeiro e sair de casa. As compras que ele fez eram para os pais.

Eu não consegui deixá-lo ali, então ele morou comigo no apartamento que eu vivia com Savannah.

Depois de alguns anos, eu terminei a faculdade, começado a vender obras de arte, e descobrimos que um parente de Júlio tinha deixado uma herança para ele.

Não tínhamos motivos para continuar em Goiânia.

Meu novo colega de quarto e seu espírito de aventura me convenceram a morar numa mansão que estava caindo aos pedaços, e aos poucos começamos a recuperar ela.

Mantive o quadro do beija-flor, mas foram vendidos, principalmente, os quadros que continham figuras da mitologia do povo Nhengatu.

Uns bons anos após termos nos mudado, notei que toda a confusão com os pais de Júlio quando ele pegou a herança, saiu de casa ou se mudou, além do incidente no shopping, perturbaram a mente dele, mais do que já era.

Então se tornou comum ele se defender de maneira absurdas, assim como foi na vez que ele apontou um canivete suíço para minha colega de quarto.

Às vezes ele tem o hábito de fazer eu ficar encurralado, assim como fez no shopping, ou até me machucar.  Eu sentia pena, apesar de tudo, e ele seguia se desculpando.

Seria difícil convencer ele a ir num psiquiatra. O médico mandaria ele para o mesmo hospital de Savannah se ele contasse do shopping.

Depois, minha mãe acabou falecendo de um problema intestinal quando completei quarenta anos.

Mas o me incomoda mais é o fato de que eu não esqueci o que houve naquele shopping. Não importa quanto tempo passe, eu sempre tenho pesadelos e alucinações.

Viver tem se tornado ruim, eu não posso ir a qualquer especialista. O pior é que toda a vez que chego ao meu santuário, meu ateliê de pintura, para pintar alguma coisa, aquela coisa com rosto de pássaro que mais se assemelha a uma harpia me observa de canto.

Pela fechadura da janela, pelo canto do quarto, ou no canil dos cães que Júlio quer comprar, fica no quintal e eu posso vê-lo pela vidraça.

Se eu não fechar a janela, essa coisa vai me devorar, eu sei que vai.

Ela voa até o vidro e fica batendo nele quando eu decido sair do lugar sem ter pintado nada. Ela me obriga a fazer meu trabalho de janelas fechadas. E eu fico aqui me intoxicando aos poucos com a minha tinta a óleo.

Pelo visto, nunca vou me livrar desse tormento. Eu realmente sinto muito, Júlio, eu não queria te deixar assim, desse jeito, sozinho, sem adeus, assim como minha mãe.

Essa é a primeira parte do conto “Não Tentem Sair”. Para ler a segunda parte, clique aqui. (em breve)

Publicidade Compre Chamado de Cthulhu

Caso compre nas lojas de algum de nossos parceiros aproveite nossos códigos promocionais

RetroPunk – 10% – movimentorpg10
Bardo’s Shop – 20% – movimentorpg20
Jambô – 10% – mrpg10
New Order – 10% – movimentoneworder
101 Games – 10% – MRPG10

Por último, mas não menos importante, se você gosta do que apresentamos no MRPG, não se esqueça de apoiar pelo Pix ou através do Catarse.

Dessa forma, torne-se um Patrono do Movimento RPG e tenha benefícios exclusivos, como participar de mesas especiais em One Shots, de grupos ultrassecretos e da Vila de MRPG!

Ou então, apoie nossa revista digital, a Aetherica, através deste link! Ela também traz contos e novidades para você!


Não Tentem Sair parte 01 – Histórias de Fogueira #5

Texto e Arte da Capa: Minna Cordeiro.
Revisão: Raquel Naiane.


Encontre mais contos clicando em: Histórias.

Postagens Parecidas